No Rio, com os passarinhos
Samarone Lima
Estou no Rio de Janeiro, escrevendo um livro sobre o cotidiano do povo cubano. A rotina é a mesma, desde que cheguei. Um caderno grande, canetas, e meus blocos de anotações da viagem. Todos os dias, durante algumas horas, escrevo em um boteco aqui perto, até cansar a mão. Há tempos não escrevo tanto, quase numa vertigem. As histórias que vivi durante um mês em Cuba, estão fresquinhas em minha memória, em meu coração. Estou numa espécie de retiro. Só faço escrever, revisar, passar para o computador. Já tenho 12 capítulos prontos.
Então aconteceu uma surpresa que chega a ser uma inundação. Meses atrás, uma ex-aluna e agora amiga, Andreza Maurício, me mandou um email dizendo que estava reunindo uns atores para adaptar o meu livro “Zé” (1998), para vídeo. Era apenas uma idéia, a de fazer algo criativo, para depois tentar algum apoio, essas coisas. Eu nem tinha idéia de como as coisas estavam caminhando.
Como estou hospedado na casa dela, em Botafogo, comecei a conhecer o projeto nos detalhes, o andamento do roteiro, primeiras filmagens. Ontem, foi acertado um encontro com todo o elenco, em um boteco aqui perto.
Aos poucos, começaram a chegar os atores. Andreza (vai interpretar a Madalena Prata) e Joana Aquino (diretora) foram comigo. Depois, Camila Moreira (Socorro, ou Grauninha), uma moça tão tímida que só pode ser mesmo uma grande atriz. Luís Otávio (Bala Doce), Saulo (Bahia), Calixto Neves (Quincas). Aos poucos, o elenco foi formando uma enorme mesa, todos felizes por conhecer o autor do livro que andam lendo e relendo, para montar personagens, ensaiar, enfim.
Finalmente, o Bruno Ferrari (Zé), Mariana Ribeiro (Fernanda), Adeildo Duarte (um coveiro, participação especial), e Ricardo Barrão (Fleury). Conversávamos em pequenos grupos, em meio à empolgação geral. Nunca vi tanta gente feliz por estar num trabalho ainda sem patrocínio, fazendo locações na base da raça, estudando sobre os personagens, fazendo grupo de estudo. Tudo isso fruto da vontade de levar uma idéia adiante, de transformá-la em algo concreto, em frutos.
Foi uma noite imensamente linda. Lá pelas tantas, chegou uma fotocópia do “Zé”, encadernada. Era o livro da Camila Moreira, que interpretará a Grauninha. Alguém brincou comigo, dizendo que eu era um dos poucos autores que assinava dedicatórias para um livro xerocado. Pois eu fico é feliz, porque livro no Brasil é muito caro, e o “Zé” esgotou faz tempo.
Longas conversas, explicações sobre como escrevi o livro, os personagens. Cada um tirava suas dúvidas, em meio às inevitáveis cervejas e petiscos, que ninguém é de ferro.
Lembrei que “Zé” foi lançado em 1998, teve imensos problemas de distribuição, e a sorte foi que consegui os últimos 40 exemplares. Em 2004, num aniversário da Andreza, dei um livro de presente, embrulhado delicadamente em um jornal, coisa que eu nem lembrava.
Quatro anos depois, estamos em um boteco do Rio, em meio a uma conspiração de jovens atores, para fazer uma adaptação para vídeo. Em outubro, querem botar “Zé” no palco.
Pelo brilho nos olhos de todos, sei que coisas lindas estão a caminho. Há, nessa turma,uma mistura de bondade e garra, um apego íntimo com cada personagem, como se fosse o papel mais importante da vida, o que cria uma força oculta na alma, uma energia vibrante e sutil. Sei poucas coisas da vida, mas tenho sempre uma intuição aguçada, para saber quando algo muito bonito está nascendo.
A Andreza diz que não tenho noção das coisas. Sei que sou um eterno distraído, que demoro a perceber o que acontece ao meu redor, mas às vezes vejo a beleza pulando de galho em galho, feito passarinho.
Diria que ontem, num boteco do Rio, eu estava acompanhado de uma legião de passarinhos.
Para Andreza, que pegou o “Zé” pelas mãos.
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