Crônicas das coisas mínimas e desnecessárias

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Meu encontro com Rubem Braga

25 de janeiro de 2008, às 9:44h por Samarone Lima

Há coisa de dois dias, num boteco do Rio de Janeiro, encontrei o Rubem Braga. Eu estava sentado, debruçado em meus papéis, tomando uma cerveja densa, quando levantei a cabeça, e esbarrei nele, que estava em uma mesa afastada.

O Rubem era aquele ainda moço, com aquela cara tímida e um pouco erma, de quando ele foi para a II Guerra, cobrir a luta dos pracinhas brasileiros na Itália. Parecia distante e melancólico, mas não era tristeza. Talvez fosse o dia, que não o desceu bem. Usava aquele bigode ainda talhado da juventude, e senti um frio na espinha, por saber que ele estava ali, bem perto. O velho Rubem, o velho Braga, que sempre me encantou por sua simplicidade, especialmente quando não tinha assunto algum, especialmente quando falava de passarinhos e banalidades.

Pensei em me levantar e cumprimentá-lo, mas a timidez não me permitiu. Olhei-o algumas vezes, na esperança de um olhar convidativo, mas nada. Ele fumava absorvendo o cigarro com prazer, e tomava algumas notas.

Voltei a escrever, mas já não sabia o assunto, bebi outra cerveja, e não percebi quando ele foi embora, em silêncio. O Rubem é daqueles homens que sequer fazem barulho, para levantar da cadeira.

À noite, em uma livraria, vi a biografia que acabou de sair, com sua foto na capa. Diz o autor que ele morreu há algum tempo, mas não acreditei. O Rubem está por ai, nesses passarinhos que buscam uma migalha de pão, no vendedor de girassóis que encontrei numa feira do Rio, sábado passado. O Rubem está na saudade, na carta que escreveu para o Vinicius, saudando a chegada de algum verão que passou, e que volta sempre. O velho Braga está na alegria da Angélica, que veio fazer a faxina aqui onde estou, e falou com os olhos brilhando da sua escola, a Beija Flor. O Rubem está em algum boteco de Belford Roxo, onde viveu e morreu meu avô, há tantos anos.

Aqui vai uma confissão aos meus leitores: Há dois dias, encontrei o Rubem Braga, num pequeno boteco do Rio de Janeiro. Eu estava sentado, debruçado em meus papéis, tomando uma cerveja densa, quando levantei a cabeça, e esbarrei nele, que estava em uma mesa afastada.

O resto, vocês já sabem.

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