Gentilezas e desaforos
Samarone Lima
Esse negócio de não levar desaforo pra casa, ainda vai arruinar a humanidade. Isso tem me ocorrido no Rio de Janeiro, onde estou passando uma temporada. Do nada, há uma discussão, besteiras podem render respostas mal-educadas, e nunca vi tanta gente que trabalha atendendo, seja em boteco, farmácia, supermercado, exalar irritação.
Hoje mesmo, fui pagar um picolé da Maguary Kibom, dei vinte reais, a caixa me olhou como se eu estivesse pagando em peso cubano, moeda nacional, perguntou com uma cara de desdém se eu não tinha trocado, e tive a sensação de que era o que ela precisava, para ganhar a manhã: fazer uma cara irritada para alguém.
A mulher que estava guardando seus pães, numa sacola que levou de casa, ficou irritada com a moça do caixa, disse que era obrigação da padaria ter troco, então o pateta aqui ficou impressionado. Duas mulheres, numa bucólica manhã de domingo, irritadas por causa de uma besteira, que é um troco, de um singelo picolé.
Como minha única obrigação do domingo era mesmo comprar o picolé, o jornal, depois escrever meu livrinho sobre Cuba e encontrar uns amigos num boteco em Laranjeiras, fiquei olhando e cofiando a barba. Minha única preocupação era que o troco não demorasse tanto, porque o picolé iria descongelar, e as duas poderiam acabar numa delegacia, após a troca de sopapos.
Como gosto de remar contra a maré, estou fazendo o seguinte - tenho sido a criatura mais gentil desta cidade. Vou pagar algo no supermercado, dou uma boa tarde no capricho, pergunto se a pessoa está tudo bem, vejo o nome dela no crachá, e a chamo pelo nome. O resultado é simples - de tão acostumadas que estão com essas durezas da vida, de tratar mal e serem maltratadas, as criaturas deixam a casca cair, e ficam mais humanas de novo.
Ontem, no supermercado, uma mulher furou a fila sem perceber, foi perguntar algo e aproveitou para pedir uma mortadelazinha, e foi o suficiente para que a mulher da frente começasse a rosnar feio. Daqui a pouco, a vendedora entrou na história, então, já eram três pessoas irritadas, por causa de um mal entendido simples, que ser resolveria com a bucólica frase “querida, você não viu a fila?” . Peguei meu carrinho e fui para o setor de vinhos, procurar algo bom e barato, coisa que nunca acontece, no caso dos vinhos. Quando voltei, Rosnante ainda estava falando algo, e pensei - essa mulher acaba de ganhar o dia.
Como meu amigo Gustavo adora coisas como “exercícios de estética”, estou fazendo este exercício estético diário. Vou sempre com a máxima gentileza, do primeiro ao último contato. Estou mesmo é exagerando, pra ver no que dá. A mulher que faz o meu mate batido com leite, aqui perto, na Voluntários da Pátria, era de uma dureza só, com a cara mais fechada que Seu Vital, quando está invocado. Outro dia, pedi para ela fazer outro mate, porque o que ela tinha feito estava delicioso. A mulher abriu um sorriso que já nem lembrava que tinha. Quando chego lá, prepara meu mate no capricho, abre um sorriso, e me pergunta se ficou bom. É a Sônia, mora em Bangu.
De vez em quando, chegou em casa com meu desaforozinho na algibeira. Alguém precisava desbafar as durezas da vida, me escolheu para não dar uma informação ou responder secamente uma pergunta simples, sobre um lugar para comprar um garrafão de água.
O engraçado é que um poeta famoso do Rio de Janeiro se chamava justamente Gentileza. Tem várias coisas dele escritas nas ruas, e até ímã de geladeira com as frases dele, são vendidos em livrarias.
Falta só as pessoas botarem o Gentileza delas pra fora.
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