Crônicas das coisas mínimas e desnecessárias | Por Samarone Lima

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Série sobre Cuba

21 de janeiro de 2008, às 3:23h por Samarone Lima

Caros leitores,

Por vários motivos, suspendo provisoriamente minha série de depoimentos e impressões sobre Cuba.

Leiam uma reportagem de oito páginas da revista Época, desta semana, sobre Cuba.

Melhor: leiam o contundente blog de Yoani Sanchez, cubana de 32 anos. Ela fala com mais prioridade sobre as coisas que eu iria postar aqui (www.desdecuba.com/generaciony)

Voltarei às minhas crônicas costumeiras sobre outras coisas da vida, enquanto encho cadernos de histórias sobre Cuba, meu próximo livro.

Samarone Lima, agora falando do Rio de Janeiro.

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Relatos cubanos, capitulo 3 – Um taxista louco pelo futebol brasileiro, e que detesta os italianos

18 de janeiro de 2008, às 23:10h por Samarone Lima

Aqui vai uma confissão: tenho uma dificuldade psíquica e existencial com os taxistas, em qualquer parte do mundo. No Recife, sei quando o camarada desvia de cada viela, vejo a malandragem em cada esquina, e sou capaz de matar um taxista com uma simples pergunta:

“Ôxe, e por que tu não vai pela Avenida Norte?”.

Nesta hora, o cara fica sem graça de me enrolar, e vai direto ao lugar que preciso chegar.

Quando estou fora, pergunto sempre ao taxista quanto ele cobra do lugar que estou até tal bairro, ele dá o preço, digo que só tenho a metade, e geralmente é o preço justo. Aí, entro na viagem tranqüilo, sem a tortura de achar que cada esquina estão metendo a mão no meu bolso.

Peguei o táxi no aeroporto com o senhor André, já sabendo que a corrida custaria 20 fulas. Não sei em qual esquina da viagem o sujeito descobriu que eu era do Brasil, o suficiente para que ele abrisse o verbo, elogiando nossos patrícios e esculhambando outras pátrias.

“Mas os italianos não, eles são insuportáveis, arrogantes, criam confusão por tudo. Detesto os italianos”.

Começou a fumar e me ofereceu um cigarro “Criollos”, que aceitei. Quando estou viajando para outro país, geralmente fumo, como uma forma boa de fazer amizades e escutar desabafos. Às vezes, fumar é bom, mas só às vezes.

Dei uma baforada e perguntei ingenuamente se seu André conhecia o Brasil, o suficiente para ele dizer que um cubano comum jamais vai conhecer país algum, até que as coisas mudem. A palavra “Brasil”, foi a porteira aberta para ele começar a falar da seleção canarinha. Falou com rara habilidade de Zico, Sócrates, Cerezo (seleção de 82), Pelé, Tostão e Félix (seleção de 70), e do Ronaldo, sem especificar qual dos dois. Perguntei se ele conhecia o Santa Cruz, meu time de coração em Pernambuco, ele disse que não, mas que tinha uma cidade em Cuba chamada Santa Cruz, e que me pareceu um bom presságio.

Expliquei as glórias e dores do meu clube, que acaba de ser rebaixado para a terceira divisão, ele deu uma baforada forte e me disse algo profundo, um ânimo para o coração:

“Essas grandes desgraças fazem parte dos grandes clubes”.

Dei uma baforada boa também e pensei que estava no lugar certo, na hora certa, e com o taxista certo.

Lembrei do meu amigo Inácio França, mais tricolor que a soma de todas as torcidas, que adoraria estar em Cuba. Lembrei que na minha mochila, estava com três camisas do “Mais Querido”. Por sorte, da mochila rasgada, ninguém as levou.

Cheguei em Vedado para falar com Bárbara, meu único contato em Cuba.

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Relatos cubanos, capítulo 2 – A mochila perdida e o primeiro milagre em Havana

18 de janeiro de 2008, às 4:30h por Samarone Lima

Vou logo avisando que sou péssimo com fotos em geral

Um nervoso e preocupado funcionário da Copa Airlines, com cara de camundongo e andar apressadíssimo, anotou meus dados e prometeu encontrar minha mochila.

Sem saber, foi o primeiro dos muitos golpes de sorte que tive em Cuba. Neste caso, quase um milagre. Camundongo avisou à mulher da aduana que iria comigo até o escritório da Copa, registrar o desaparecimento de minha mochila. Devo ter sido o único estrangeiro, este ano, que atravessou aquele mar de policiais, sem que sua bagagem fosse revistada. Quando cheguei à Copa, fui dar umas cutucadas em minha pequena mochila, e percebi que tinha cometido uma grande imprudência – fiz toda a viagem com um baita canivete, amoladíssimo, dentro da minha bolsa. Logo eu, com esta vasta cabeleira e a imensa barba…

“Fique aqui, que o buscarei, logo que aparecer sua bolsa”, prometeu Camundongo.

Esse cara pensa que sou besta, foi o que pensei. Os caras já pegaram tudo e fizeram o racha, isso sim.

Exatos 29 minutos depois, Camundongo chega agitado, dizendo que minha mochila foi encontrada, mas como estava muito pesada, acabou rasgando. Já levaram a metade, foi o que pensei.

Entrei de novo na área de desembarque, e deixei imprudentemente minhas outras duas mochilas do lado de fora, em um carrinho, para a turma da aduana não me perturbar. Foi também uma das muitas loucuras que cometi em Cuba, esse negócio de deixar duas mochilas de bobeira em um carrinho, no saguão do aeroporto, sem ninguém tomando conta.

Pois aconteceu o primeiro milagre. A mochila de fato estava rasgada, mas não faltava um sabonete sequer. Foi mesmo o peso.

“Senhor, confira tudo, mas não foi culpa nossa, a sua mochila estava tão pesada, que não agüentou”, explicou Camundongo, com sua indefectível prancheta. “Está tudo certo, senhor Samarone”.

Nessa hora, lembrei de César Maia, meu amigo recifense, que adora dizer, nas mais diversas situações, mesmo que tenha acabado de passar um furacão pelo Recife:

“Está tudo certo, Samarone, tudo certo”.

Camundongo/Cézar Maia, me levou de novo à Copa e me deu dois imensos sacos de plástico, onde coloquei tudo. Agradeci dando uma caneta Bic para ele. Agora só tinha 199 para dar de agrado ao povo, e depois vi que eles nem têm essa tara toda pela Bic.

Olhei para um lado, para o outro. Tinha acabado de passar por três aeroportos, enfrentado muitas horas de vôo, uma tensão imensa, e estava simplesmente em Havana, num país socialista. Se estivesse viajando com um amigo, daria um abraço, para comemorar, celebrar, festejar. Mas estava só, me restava fazer a troca do dinheiro, para comprar uma cerveja, depois pagar o táxi até Vedado, para encontrar meu contato cubano.

Começou minha luta para entender a economia cubana, que seria explicada somente no segundo dia de viagem: 50 euros se transformaram em 64 “pesos convertibles”, conhecido como CUC, ou popularmente como “fula” (esse negócio do dinheiro, em Cuba, merece um capítulo à parte, tenham paciência, é muita informação.)

Mamei uma “Bucannero”, cerveja fortíssima, sentado no chão do aeroporto, olhando minhas bagagens, que pareciam mais as compras da Cobal.

Procurei um táxi para me levar até meu contato, que depois me levaria ao centro de Havana. Queriam me cobrar 25,00 fula, mas como aprendi com minha mãe a pechinchar até em loja de R$ 1,99, pedi desconto, arenguei, disse que era estudante, que minha bolsa tinha se rasgado, fiz um drama com o cara. Baixaram para 20 mangos.

O taxista rendeu a primeira das dezenas de histórias, mas conto amanhã.

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A revolução amarga – Capitulo I – 200 canetas Bic, arroz, feijão e dezenas de sabonetes

16 de janeiro de 2008, às 20:53h por Samarone Lima

Em 2005, estava tudo certo para uma longa viagem a Cuba, quando um episódio doméstico mudou o rumo dos acontecimentos. Meu irmão, dono de um bar no Recife, entrou num processo de falência, e tive que assumir o negócio, para evitar o pior, que seriam dezenas de processos de ex-funcionários na Justiça. O dinheiro que seria para a realização de um sonho, foi usado para evitar um pesadelo. Cuba ficou para depois.

Mas tinha uma obsessão quase doentia de conhecer a ilha. Mais que isso: conhecer antes da morte de Fidel Castro. Acreditava que a revolução iria virar suco, sem o comandante.
Os ventos sopraram a favor a partir da metade de 2007, quando arranjei dois trabalhos e comecei a juntar dinheiro. Cada centavo tinha um destino certo, que era a cidade de Havana. No meu imaginário, tomaria muito rum, fumaria deliciosos charutos, conheceria de perto os avanços da saúde e educação de Cuba, o povo, e mandaria muitas postagens em meu blog, na Internet.

Desta vez, surgiu outro imprevisto. Graças à minha vocação para a perda de documentos de todas as espécies, perdi uma pasta com meu passaporte, e vários outros documentos necessários para tentar a segunda via. Foi num domingo, já perto do final do ano, que encontrei aquele negócio verdinho, com o nome “Passaporte”. Súbito, senti o cheiro da ilha.

Passaporte na mão, dinheiro no banco para a passagem, chegou a hora da compra da passagem, e o temido momento de solicitar o visto para entrar em Cuba. Cacete, o primeiro país socialista que vou conhecer! Na lembrança, as sobras do leste europeu, que conheci em 1995, uma soma de desesperos e indefinições, com a chegada súbita do capitalismo barra-pesada.

Um velho revolucionário brasileiro que viveu em Cuba entre 1969 e 1970, me deu o caminho das pedras. Uma agência de turismo em São Paulo, especializada em viagens para Cuba.

Após muitas ligações e email, esbarrei em uma dificuldade de última hora – a quantidade de brasileiros que estava viajando para Cuba, no final do ano, para passar o reveillon. A muito custo, consegui uma passagem para dia 19 de dezembro. Preço: U$ 1.500,00.

Começou então a tormenta existencial de alguém que nunca se definiu como turista, e que vai para um país querendo interagir com o povo: o que levar para Cuba?

Nas minhas viagens pelo mundo, levo sempre uma mochila surrada, comprada na Argentina, com as infelizes cores do Boca Juniors. Viajo sempre com o mínimo possível, nunca vou a museus, detesto city-tour e acho uma agressão esse negócio de fotografar o povo sem pedir licença. Fora isso, caminho mais que uma mula.

Consultei duas amigas, e tudo virou um inferno. Era para levar tudo. Uma delas me disse que faltava até caneta, os “bolígrafos”, e como fico desesperado sem uma caneta por perto, levei na bagagem 10 caixas de canetas Bic.

A primeira parte da viagem, do Recife a São Paulo, foi tranqüila, doce, comovente. Em território nacional, ninguém fica nervoso ao passar pela Polícia Federal, salvo os traficantes. Embarquei no vôo 3501, fiquei no assento 12-D, no terminal 10.

Cheguei a São Paulo um dia antes da viagem para Cuba, para evitar contratempos e nervosismos. Com a ajuda de uma ex-namorada, fui às compras. Feijão, arroz, carne embalada a vácuo, sabonetes, shampoos, tudo o que eu julgava importante. Depois de passar fome na Casa do Estudante da UFPE, seria triste repetir a dose em um país socialista.

Então começou o primeiro dos muitos nervosismos da viagem. A moça da agência de viagem sugeriu que eu ficasse hospedado por três dias no “Vedado Hotel”, só para constar na imigração cubana. Expliquei que iria ficar na casa de amigos cubanos, mas isso é proibido. Se os caras forem pegos com um estrangeiro em casa, estão fodidos.

Para ficar no Hotel Vedado, eu teria que depositar R$ 390,00. Achei uma cifra astronômica. Meu pão-durismo falou mais forte. Perguntei se tinha algum problema chegar em Cuba sem um hotel definido.

“Se tiver algum problema, você dá um endereço de um hotel”.

Foi o barato que saiu caro. Economizei uma grana, mas comecei a viver uma angústia interminável, que só passou quando atravessei a imigração cubana. E se me pegam no flagra? E se eu disse o nome do hotel e verificarem que não tem nenhuma reserva no meu nome?

O vôo 758, da Copa Airlines, saiu de São Paulo dia 19 de dezembro, às 8h53, mas à meia noite, eu já estava na fila do check-in, para não passar sufoco. . Peguei a cadeira 16A, que fica na janela, e é péssimo para mim, que tenho pernas de girafa. É sempre melhor o corredor, porque posso me esticar e levantar na hora que quero. Além disso, é mais fácil pedir algo extra às aeromoças, que estão cada dia mais chatas.

Minha mochila do Boca Juniors estava parecendo uma compra de supermercado para o mês. Peso exato: 22 quilos. Era a mochila dos mantimentos. Outra, menor, passou sem chamar a atenção, com seus 10 quilinhos. Nas costas, minha velha bolsa com livros, cadernos e uma câmera fotográfica, sempre inútil em todas as viagens. Eu olho, escuto e anoto. Dificilmente me lembro de tirar fotos.

Atravessei a averiguação da Polícia Federal e rezei a todos os meus santos, pedindo proteção.

Primeira parte da viagem – São Paulo/Panamá. Estive na Cidade do Panamá em 1995, e não vi graça nenhuma, a não ser uns ônibus antigos, como motores envenenados, conduzidos por motoristas suicidas em uma velocidade apavorante. Durou duas horas e meia, e descemos, para a troca de aeronave.

Fui ver os Duty Free, aquela besteirada toda, e conheci logo um negão cubano, com o uniforme típico da seleção cubana. O cara era um cinquentão pançudo, sedentário, sorridente, e viajava com dois comparsas, que tinham cara de mafiosos. Lá pelas tantas, puxamos um papo, fiquei sabendo que ele é treinador de atletismo em Cuba e no Brasil, algo como arremesso de dados, coisas do tipo. Bonachão, comprou logo uma máquina digital por U$ 190,00 e disse que estava barata. Era o salário de oito meses de Mana, uma enfermeira que eu conheceria no dia seguinte, em um apartamento no centro de havana.

Perguntei ao Pança se era de bom tom levar uma caixa de Marlboro, para dar de presente aos cubanos, ele disse que sim, e o besta aqui comprou uma caixa por U$ 14,00 uma grana que me manteria em Havana por uma semana. A caixa de Marlboro não fez sucesso nenhum, claro.

Do ponto de vista cultural, era como se eu estivesse indo para a Escócia, com um litro de Natu Nobilis, ou levando uma caixa de incenso para os amigos da Índia.

Como é que o sujeito vai para a terra do tabaco e leva uma caixa de Marlboro?

Então, peguei o vôo 438, da Cidade do Panamá para Havana, gate 25, assento 9D. No jogo do bicho, daria carneiro (o vôo), carneiro de novo (o gate) e burro (o assento).

Cheguei em Havana em alguma hora incerta do dia 19 de dezembro de 2007. Pensei em beijar o solo da nossa pátria amiga, mas me pareceu meio brega. Além disso, estava nervoso pacas. E se o lance do hotel não colasse?

Nunca duas palavras formaram um casal tão perfeito: Vedado + Hotel..

Então veio a alfândega, e comecei a repetir como um mantra: “Vedado Hotel, Vedado Hotel, Vedado Hotel”.

Uma senhora muito séria me recebeu, olhou a foto do passaporte, viu que eu era eu mesmo, então fez a pergunta fatal:

“O senhor vai fica hospedado em que lugar?”

“Vedado Hotel”, respondi, com uma raça incrível, cheio de certeza e força.

Ela mandou eu olhar para alguma lugar incerto, sem óculos, olhei, e julgo que tiraram uma foto minha.
Então aconteceu o milagre – eu estava em Cuba.

Era pegar a mochila cheia de mantimentos, a bolsa com minhas coisas, e correr para o abraço.

Fui esperar as bagagens. O mochilão, cheio de mantimentos, desapareceu. Eu e um casal fomos ao setor de reclamações, desamparados, certos de que a vaca tinha ido para o brejo.

Na verdade, foi a primeira das minhas muitas sortes em Cuba.

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Notas para um possível livro nada revolucionário sobre Cuba

15 de janeiro de 2008, às 22:11h por Samarone Lima

Há muitos anos viajando pelo mundo, sonhava em conhecer Cuba. Mais que isso, conhecer Cuba enquanto Fidel Castro estivesse vivo. Acreditava que a morte do líder máximo do país poderia resultar em uma espécie de perestroika cubana, dissolvendo o socialismo que se mantém às duras penas. Um mês perambulando pelo país, conversas com todo tipo de gente, e revi a posição.

Em dezembro de 2007, Cuba chegou à minha vida como uma antiga amante, que tinha desencontrado em uma dessas esquinas descascadas. A viagem, que parecia distante, cheia de exigências de embaixada, o passaporte perdido, foi resolvida com alguns telefonemas e email, para pessoas que tinham passado pela ilha, e sabiam o caminho das pedras. Súbito, em uma caixa velha, o passaporte verdinho do Brasil reapareceu.

Viajei com uma mochila extra, cheia de mantimentos, porque os relatos eram duríssimos sobre produtos de higiene, comida etc. No primeiro dia, descobri que exagerara em algumas coisas, e deixara outras, importantíssimas, de lado. Não fiz nenhuma leitura prévia sobre a realidade do povo cubano. Não busquei livros, informações na Internet, revistas de esquerda, livros de turismo, coisas do tipo. Embarquei apenas com um número de telefone de uma amiga de um velho revolucionário brasileiro, que tinha feito seu curso de guerrilha, naqueles atribulados anos 60. Viajei a Cuba com três intenções: conhecer, escutar, escrever.

Fiquei hospedado inicialmente na casa de um casal homossexual, um pequeno apartamento no centro de Havana. Foi apenas o começo de um intenso e irreversível encontro com o povo cubano.

Vivi em diferentes bairros. Convivi com trabalhadores das mais diversas áreas. Conheci vagabundos, maltrapilhos, prostitutas, médicos, estudantes. Ocupei o primeiro andar pagando 20 dólares por dia. Poucos dias depois, estava na casa de uma mulher generosa, que na primeira vez que me viu, consultou os orixás, para saber se deveria me dar abrigo. Uma mulher que vive com extrema dificuldade, e que nunca me cobrou um dólar pelos muitos dias que fiquei com ela, pelas muitas dádivas que me ofereceu.

Caminhei dezenas, centenas de quilômetros pelas avenidas e vielas de Havana, nos horários os mais diversos, enfrentando os avisos de “é muito perigoso”, “ali só tem bandido”, pela simples aventura de ver o povo. Com minha sandália de couro, comprada no interior de Pernambuco, e uma sacola às costas com um caderno, livro e, de vez em quando uma máquina fotográfica, esquadrinhei, cheirei, arrisquei, me joguei no cotidiano dos cubanos.

Conheci o populacho, a gente comum, que o turismo olha de longe, em ônibus de luxo, com ar-condicionado e segurança, numa mistura de indiferença e soberba. Escutei inúmeras vezes o verbo “luchar”, para explicar uma surreal e penosa batalha pela sobrevivência, a luta pela comida, em primeiro lugar, a maior de todas, uma obsessão diária de milhões de cubanos.

Conversei muito, e escutei sempre mais. Nunca tomei notas do que me diziam os cubanos. Jamais usei gravador. Guardava na memória, e muito mais no coração, tudo o que me diziam as pessoas, em tom de conversa, desabafo, revolta ou desespero. Muitas vezes, palavras que poderiam custar a prisão, se chegassem aos ouvidos de alguém do estado cubano. Guardava e depois anotava tudo em meus cadernos.

Em nenhum momento agendei entrevistas. Não fui em busca das famosas “fontes” do jornalismo clássico. Apenas conheci, conversei, anotei. Estive em festas, paradas de ônibus, utilizei várias vezes o caótico sistema de transporte do país, fui para exposições de arte, tomei dezenas de “guarapo frio”, que é o caldo de cana, comi quase diariamente um “pan com minuta”, um sanduíche com um pedaço de peixe.
Sempre que pude, vi os programas de TV, e até decorei o final de cada reportagem, com os dizeres “sistema informativo de la televisión cubana”. Quase todos os dias, comprava a edição do jornal “Granma”, que é um dos únicos, e o oficial, do Partido Comunista, vendido principalmente pelos velhos. Muitos vendedores de jornal renderam longas conversas.

Sempre me apresentei como professor de literatura, meu último ofício, no Recife, antes de viajar. Dei meu tênis para uma mulher que tinha um filho preso, e passei apuros, com a sandália de couro, na frente fria que durou quatro dias. Escapei de uma tentativa de assalto, liderada por um garoto de uns 14 anos, acompanhado de outros cinco ou seis amigos, após uma partida de beisebol. Assisti três jogos de beisebol no estádio Latinoamericano, para entender um pouco a paixão dos cubanos por esse esporte, e a única coisa que entendi foi que vale um ponto quando o cara acerta em cheio a pelota. Almocei em casas, botecos, “paladares”, restaurantes universitários, viajei usando o nome de um uruguaio, jantei numa faculdade usando o nome de um amigo brasileiro, fui expulso de um alojamento de estudantes de Medicina, dividi a cama com uma gordinha carioca, meio depressiva, que mova no interior do país. Participei de uma sessão forte de Candomblé, recebi informações e orientações sobre minha vida, e aos poucos fui enchendo meus cadernos.

O que mais me impressionou, no entanto, foi o silêncio dos cubanos sobre a revolução e Fidel Castro, a possível morte. Com exceção da TV e do Granma, que citam Fidel diariamente, a população comum não está nem aí. “Amigo, com a gente passando fome, tendo que lutar todo dia para ter o que comer, quem vai estar preocupado com Fidel e a revolução?”, disse uma mulher que já foi do estado cubano, e que “daria a vida por Fidel”, quando era jovem. Com quase 60 anos, ela agora lamenta não ter percebido antes para onde caminhava a revolução.

A grande revolução do cubano, agora, é ter o que comer, vestir, sobreviver. Não importa se Fidel morra agora ou daqui a alguns meses. Raul Castro, seu irmão, já assumiu o poder, a revolução continua, queiram ou não queiram. Não haverá um colapso ou uma Perestroika, como aconteceu na Rússia, chegando ao leste europeu. A transição já foi feita. A morte de Fidel vai ser mais um fato histórico que político. De certa forma, Fidel e a revolução agonizam. Ele certamente morrerá primeiro.

Foi a viagem mais triste e intensa de minha vida.

Os textos que publicarei na sequência serão dolorosos, para os que sonhavam tanto com a revolução, mas o testemunho fiel da minha escuta, do meu olhar e do meu coração.

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