Anotações inúteis sobre gente besta
Samarone Lima
Aqui vai uma confissão: adoro gente besta. Mas tem que ser besta mesmo, não vale ser “metido a besta”, porque disso o mundo está cheio. Tem que ser besta mesmo, de verdade.
Tenho dois amigos maravilhosamente bestas, e sem eles, a vida ficaria muito difícil. Um deles é o Gustavo de Castro, que mora em Taguatinga, o outro é o Iramarai, que mora em Casa Amarela. É uma parada difícil, saber qual o mais besta dos dois. Gustavo é capaz de passar longas horas conversando sobre nada, e é uma prosa boa, que pode terminar numa gargalhada. A última postagem do seu blog (www.razaopoesia.zip.net) fala da gargalhada. Como é bom gente que gargalha! De vez em quando, a gargalhada parece dissolver os nós e nódulos.
O Iramarai é um caso perdido. Meu companheiro de trabalho e andanças é capaz de atravessar cinco cidades, no sertão de Pernambuco e de Alagoas, com uma folha de uma árvore qualquer no bolso, até descobrir o nome. Adora rir de nada, falar besteiras monumentais, de preferência fumando seu cigarrinho de palha. Procurou em três feiras um da marca Saci, mas deu com os burros n´água. Se algum distinto leitor souber onde comprar fumos Saci, favor informar a este cronista.
Gente besta de verdade, mas besta mesmo, gosta muito de brincar com as coisas da vida. São lesos, mas as crianças adoram. Posso ver agorinha a cena, do Gustavo descendo a avenida Angélica, no elegante bairro de Higienópolis, em São Paulo, se equilibrando em um carrinho de supermercado, que surrupiamos numa jornada magistral. Iramarai, sempre que vai beber algo, fica com a mão tremendo, fingindo ser aqueles bêbados em fase terminal.
Ah, os bestas… Como são importantes para minha humanidade. Besta tem uma identificação absoluta com passarinhos, plantas, crianças, cachorros. Podem olhar que os cachorros adoram gente besta. Pelo que sei, Gustavo e Iramarai nunca foram mordidos.
Gente besta dorme em qualquer lugar. Chão de rodoviária, rede pendurada em igreja ou capela. Ri fora de hora, adora ficar elogiando a comida a cada garfada, quando a comida está boa. Gente besta não está nem aí para ganhar um debate. Vai mesmo é aprendendo com os silêncios.
Posso dizer que sou um sujeito de sorte. Convivi longamente com o Gustavo, quando eu me iniciava na besteirança. Me especializei com ele, na convivência repleta de viagens e conversas fiadas. Agora, trabalho e viajo com o Iramarai, que tem doutorado e PHD.
Tenho plano de uma conferência planetária dos bestas. Já tenho três inscritos: eu, Gustavo e Iramarai. Vamos passar uma semana conversando bobagens as mais diversas, rindo do nada, fazendo mungangas para as crianças, fazendo chip chip para os vira-latas.
Como aprendi duas piadas supimpa com frei Aluizio Fragoso, contarei-as.
Uma é sobre um louro que muda de opção sexual, outra é sobre um fanho, que faz dois pedidos ao gênio da lâmpada. Besteiraremos ainda mais a vida, de norte a sul.
ps. Estava terminando esta crônica inútil quando chegou por aqui, do nada, a Flávia Suassuna, que é da mesma turma. Besta de verdade chega do nada, conversa umas bobagenzinhas, esquece o objetivo da visita, e vai embora, bestamente.
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