Crônicas das coisas mínimas e desnecessárias | Por Samarone Lima


Artigos recentes


Comentários Recentes


Aproximações


Destaque


Calendário

março 2008
D S T Q Q S S
« fev   abr »
 1
2345678
9101112131415
16171819202122
23242526272829
3031  

Arquivos


Usuários online


Coisa série, gente séria e outras besteiras

31 de março de 2008, às 11:44h por Samarone Lima

Ando com uma certa dificuldade existencial – escrever sobre coisas sérias. Sei lá, deve ser o envelhecimento precoce. Aliás, a figura do “sério” sempre me pareceu desagradável. Nas campanhas eleitorais, basta eu ver um santinho com a foto de um candidato, com a frase “Seriedade e Competência”, que tenho apenas uma certeza – jamais votarei nele. Quem disse que a competência não pode vir com a alegria?

“Fulano é uma pessoa séria” não acrescenta nada à biografia de ninguém. Cada vez mais, gosto de gente besta, sem muito futuro, sem grandes pretensões. Geralmente, essas pessoas vão mudando o mundo a partir de coisas menores, pequenas.

Meus companheiros de trabalho, atualmente, fazem parte desta espécie em extinção. Aquele tipo de gente que dá bom dia até para as plantas, e se preocupa não somente com os parentes, mas com a humanidade inteira.

Naná é um gordinho de 120 quilos (ele diz que são 110, mas é mentira) que só anda pelo mundo buscando o lado bom das coisas e pessoas. Um sujeito pode ter 25 defeitos, e só uma qualidade. Naná vai louvar, comentar, ressaltar, somente a a qualidade. Todo dia, às 7h, está com sua Kombi defronte à Igreja do Poço da Panela, levando a criançada para a escola. Faz isso sozinho, sem cobrar nada, há mais de cinco anos.

Iramarai, meu companheiro de caminhadas, é marceneiro. Quando tem tempo, faz esculturas, que são belas e raras. Usa madeira velha, que vai encontrando pelo caminho. É um homem que olha para o lixo de outra forma. Onde vêem sujeira e feiúra, ele vê poesia. De vez em quando, sai daqui da sala, vai lá fora, enrola seu fumo “Saci”, comprado em alguma feira do Sertão de Pernammbuco, e fica lá, bestamente, pensando em algo bom.

Ninguém sabe quem é André Santos Feitosa aqui no meu trabalho, mas é só dizer “Boy”, que todos conhecem. Não lembro de ter encontrado o Boy reclamando da vida, salvo em caso de derrotas do nosso Santa Cruz – que têm sido cada vez mais constantes. Basta você contar algum problema para Boy, que ele sai para dar uma volta, junta fios com material encalhado, faz planos mirabolantes, define estratégias silenciosas, e resolve o problema em dois movimentos. Se morasse nos Estados Unidos, estaria na NASA ou na Microsoft. Por sorte, está aqui mesmo, com aquele sorrisinho manso.

Nossa turma adora inventar coisas para quebrar a seriedade. Celebramos outro dia o aniversário de seu João, todo mundo veio cantar parabéns, e até ele desfazer nossa invenção, ganhou muitos abraços e sorrisos.

Um dia, eu estava no intervalo da escola, recebi um recado. Era sobre a morte do meu amigo Iramarai, que tinha sido atropelado. Fui para o banheiro, choraminguei um bocado, lembrei do meu amigão, e fui dar o restante das aulas. Meus alunos notaram logo e perguntaram o que eu tinha. Disfarcei bem.

Na hora do almoço, liguei para Naná, que tinha dado a notícia. Liguei todo triste, querendo saber o horário do enterro etc.

“Que enterro? O cara tá bonzinho”, respondeu Naná, dando boas gargalhadas.

“Nossa, que brincadeira de mau gosto”, comentou a secretária da escola.

Era apenas mais um dos muitos trotes que já recebi dessa turma, e caí de besta.

Vou ficando por aqui. Tentarei encontrar um assunto mais sério para a próxima crônica. Efeito Estufa, Camada de Ozônio, Protocolo de Kyoto, essas coisas.

Sei lá, mas é tudo tão grande. Queria encontrar um dia um homem sério desses, que sabe falar sobre os desastres do planeta, e que levasse crianças de seu bairro para a escola.

Os sérios levam seriamente os próprios filhos para a escola, e discutem seriamente as coisas. Nunca se lembram de comemorar um aniversário fora da data. Jamais dão um trote por telefone. Nunca se lembram de levar um lanche para compartilhar com os amigos do trabalho. Não ligam para jardins, flores, estão sempre apressados.

Prefiro os meus bestões mesmo.

Postado em Crônicas | 8 Comentários »

Onde estão os poetas?

27 de março de 2008, às 18:37h por Samarone Lima

Não sei o que há, mas tenho sentido falta dos poetas na cidade. Mais que poetas, falta poesia no Recife. Fala-se muito de violência, e me falta um olhar menos traumático, menos guerreiro. Todos querem saber das notícias do sangue. Não é por acaso que o íconoe midiático seja uma figura tosca poeticamente, chamada Cardinot, tão feliz com a prisão dos jovens com seus baseados.

Lembro que há alguns anos, vindo de São Paulo para um Carnaval, peguei um ônibus e esbarrei em um poema do Carlos Pena Filho, o “Soneto do Desmantelo Azul”. Perdi umas duas paradas, mas copiei o poema todo, e é o único que sei decorado.

“Então, pintei de azul os meus sapatos/Por não poder de azul pintar as ruas”

É só o começo.

Ando cada vez mais desinformado, e não sei onde andam os recitais do Recife. Sei que o queridíssimo Miró circula pelos mercados, com sua última pérola, “Onde andará a Norma?”- , mas faz tempo que não esbarro em seus gestos alucinados, recitando poemas que falam das paradas de ônibus, e de uma mulher que ficou toda molhada quando o homem da água mineral passou carregando um garrafão de 20 litros.

O nome do poema? H2love.

Sinto falta dos poemas nos muros das escolas.

Raramente vejo alguém dentro de um ônibus, lendo um Manuel Bandeira, um Mário Quintana, um T.S.Eliot.

Ando sentindo falta de sarau, de encontros de amigos não somente para falar sobre os caminhos e descaminhos da vida, as glórias e desastres do futebol, avanços e recuos da economia. Os jornais só falam de mortes e desvios.

Ah, nada como uma boa conversa sobre os descaminhos de Walt Whitman (“Pois o culto verdadeiro também não precisa de palavras nem de se ajoelhar”), as glórias e desastres de uma Silvia Plath, aquela mansidão perpétua do Mário Quintana.

Neste Recife cheio de injustiças, e nesta noitinha sem eira bem beira, já a caminho de casa, me ocorre uma pequena folha de relva para completar estas poucas palavras:

“A justiça não é aquela feita por legisladores e leis, ela está na alma”.

Dêem notícias, poetas. Quero um encontro desmarcado com a próxima alegria.

Postado em Crônicas | 15 Comentários »

As ciladas da Internet: www.hi5.com

26 de março de 2008, às 12:22h por Samarone Lima

Escrevo para pedir desculpas a muitas pessoas que acabaram, como eu, cadastradas involuntariamente no site de relacionamentos www.hi5.com

Recebi um email de um professor de literatura, um mestre e grande amigo, julguei que era algo simples, uma rede de contatos dele, e acabei me cadastrando nesta rede. Fiz a besteira de mandar uma foto.

Quando fui ver, é um site de relacionamentos. Tentei, durante várias horas, retirar meu nome, minha foto, não consegui.

Pior: pessoas começaram a receber email com meu endereço, com meu convite para que elas também participassem. Muitos amigos caíram nessa.

Uso a Internet para ver a mídia alternativa do mundo, os blogs bacanas, postar minhas coisas e mandar mensagens pessoais para os amigos. Detesto Orkut, e apesar de ter um blog de crônicas, algumas bem pessoais, meu temperamento é mais para o sossego, para encontros com poucos, do que para multidões.

Dois amigos estão tentando tirar meu nome desta droga de Hi5. Se alguém receber o convite, aviso logo – só entre se achar bacana esse negócio de site de relacionamentos.

Maldito Hi5. Até o nome é brega. Se eu encontrar um advogado bacana, vou processar esses caras, que botam você para dentro, e não deixam sair. Por precaução, não vou acessar de jeito nenhum.

Ano que vem, vou tirar um ano sabático: um ano sem Internet.

Postado em Crônicas | 11 Comentários »

Ao próximo prefeito

24 de março de 2008, às 12:09h por Samarone Lima

Biblioteca numa rua de Tóquio. Penso numa dessas no Córrego do Jenipapo
(Foto de Carlos Vaz Marquez, pescado no blog www.sintaaez.blogspot.com)

Ontem tive a primeira reunião de base para discutir propostas e planejamentos para a próxima campanha à Prefeitura da Cidade do Recife. Não sei como isso funciona em outras cidades, mas aqui o povo é meio avexado.

Na quarta-feira, no bar de Seu Vital, teremos outra reunião, para detalhar o planejamento, para depois conversar com nosso candidato, o Luciano. Diga-se de passagem: o povo aqui adora reunião.

O tema surgiu no meio do aniversário do meu comparsa de caminhadas, Iramarai, e a discussão pegou fogo. Súbito, todos começamos a sonhar com uma cidade melhor, mais humana, menos violenta, mais bonita.

Eu quero muitas coisas do próximo prefeito, mas lutarei, com as forças possíveis, para que ele se preocupe com bibliotecas, leitores e livros. Quase ninguém fala, há formas mais inteligentes de se vencer a violência.

Que a cidade ganhe de presente lindas bibliotecas, nos bairros mais pobres. Não falo dessas bibliotecas da escola, que funcionam dependendo do temperamento da responsável, muitas vezes com bons livros, mas sem leitores. Falo de bibliotecas lindas, bonitas, amplas, bem iluminadas. Bibliotecas com cadeiras confortáveis, silenciosas. Um lugar que dê vontade de ir, ficar, nem que seja para se envolver com o silêncio, a quietude, a paz.

Um mar de livros. Todos aqueles autores que ajudam a mudar conceitos, a percorrer labirintos, a descobrir mundos.

Penso não num Parque Dona Lindu, que é a grande obra do fim da atual gestão, que vai custar uns 40 milhões, sei lá, um negócio que vai custar milhões, mas não tem uma biblioteca dentro.

Imagino bibliotecas lindas no Coque, na Favela do Detran, Chão de Estrelas, Linha do Tiro, Alto do Pascoal. Lugares que abriguem nossos jovens, para que tenham um refúgio, milhares de amigos em páginas cheias de letras, para desvendar outros caminhos.

Do próximo prefeito, espero uma gestão que gaste menos com o Carnaval, que traga menos artistas consagrados, e que cuide mais de prateleiras, estantes, que contrate pessoas que amem os livros, para tomar conta, orientar, ler, compartilhar belezas.

Na metade do seu mandato, gostaria de escutar um jovem falando com outro:

“Nos encontramos lá na Biblioteca do Coque, no setor de literatura brasileira”.

Ou:

“Tás sabendo que hoje tem uma palestra sobre poesia no Alto do Pascoal?”

Ah, como queria uma nova geração de leitores, de apaixonados por livros. Como sonho em passar a roleta do ônibus e esbarrar com várias pessoas lendo poesias, crônicas, romances.

Quando penso nesses jovens, lembro dos meus alunos, todos na faixa dos 17 aos 19 anos, que descobriram Fernando Pessoa, Clarice Lispector, que se encantaram com o Renato Carneiro Campos. Posso ver Suco, Gabriela, Ana Cecília, Danúbia, Herivelton, Windoson, Manuela, tantos outros, que descobriram este mundo encantado, e nunca mais conseguiram sair dele. Ah, como sinto que eles estão protegidos, com o Fernando Pessoa na algibeira, com a Clarice a encantar os sonhos dentro da bolsa…

Nunca consegui fazer com que minhas propostas entrem nos programas de governo. São sempre fora de moda, não contribuem muito, não dão votos. Minhas preocupações são outras.

Modestamente, lutarei para que livros e bibliotecas façam parte do programa de governo do próximo prefeito do Recife. Sonho com uma geração de novos leitores, de apaixonados por histórias, que trocarão, sem perceber, as armas pelas páginas.

Sonho com uma cidade repleta de poetas, cronistas, romancistas, ou pessoas mais sensíveis às belezas do mundo. Nossos jornais poderão noticiar um recital com 300 poetas, ao invés de mais 32 homicídios no feriadão.

Começo a juntar meu pequeno e brancaleônico exército para mais uma batalha.

Invoco o meu querido Leminski para animar meus camaradas:

“Distraídos venceremos”.

Para meus ex-maravilhosos alunos da Oficina da Palavra

Postado em Crônicas | 12 Comentários »

Louvação de março: A Paixão de Eli

18 de março de 2008, às 11:16h por Samarone Lima

Com fotos de Antonio Braga, do Escola Aberta

Depois de tantas viagens, nada como Hermilo Borba Filho para encontrar um bom mote para escrever.

“Começo o ano tomando várias providências. Uma delas é louvar, todo mês, aqui nesta coluna, amigo ou conhecido que mereça ser louvado. Nada de esperar sua morte, louvá-lo mesmo em vida; nada de necrológio, mas de reconhecimento público de seu valor; nada de louvor somente porque o cujo morreu mas elogio de corpo presente, corpo vivo e bolinando, que elogio faz bem à alma e à saúde quando quem recebe o elogio merece”.
(Diário de Pernambuco, 3 de janeiro de 1974)

Sim, mas quem eu louvaria, em março de 2008?

Fiquei catando aqui, e como já falo muito de meus amigos, das pessoas que quero bem, acho que louvaria algumas pessoas do Recife, que se espalham por aí, e ajudam a cidade a ficar mais bonita. Vou a uma paixão antiga – os anônimos.

Começaria por esses anônimos abnegados que fazem a Paixão de Cristo dos subúrbios, escolas, igrejinha simples. Hoje, recebi convites para ver a Paixão, em Nova Jerusalém, mas não senti uma nesga de vontade de sair para aquela superprodução, ver o Cristo, Maria e outros personagens, olhando para a cara dos atores globais.

Prefiro louvar o diretor Eli Jonas Machado, de 55 anos, que encontrei um mês atrás, quando se preparava para fazer a primeira leitura da Paixão com um elenco de uma escola pública, a Escola de 1º e 2º Grau Mascarenhas de Morais, ali em Olinda, junto ao 7º R.O.

Lamentei as muitas viagens que tive que fazer, pois iria escrever uma matéria sobre ele, para a Continente Multicultural. Eram 14h45, um sol de matar, e ele, um homem animado, camisa simples, calça jeans, uma criatura desprovida de bunda, recebia os alunos, de todas as idades, em um amplo auditório da escola. “Nem almoçar hoje almocei”, foi a primeira frase que disse, e eu tinha certeza que era verdade.

Eli, um abnegado, iria conversar com os alunos, ver quem poderia aproveitar de outras montagens, “quem dá, quem não dá”, como dizia. “Dificilmente a gente corta alguém, só por indisciplina”.

Ano passado, ele envolveu 184 alunos. Este ano, espera botar 250 jovens nesse mundo de paixões. Quem sabe, desperte outras paixões. Ao final, pretende realizar quatro apresentações, em 12 escolas. Hoje mesmo, deve ter Paixão de Eli em algumas escolas.

“Pedro, vem cá!”, grita ele, e Pedro, humilde, se aproxima. É um rapaz magro, tímido, não sei como ele vai se virar com o Pedro. Mas sei que esses tímidos são um perigo. É cada ator danado.

“Ano passado, gastei R$ 13.500,00”, diz. “Este ano, terei que me virar em mil”. Consegue patrocínios, paga as contas, mas a realização mesmo é quando vê os meninos atuando, interpretando, desenvolvendo potencialidades.

Eli, o meu louvado deste março à beira da Paixão de Cristo, resolveu colocar um Jesus negro.

“Ele começou fazendo um fariseu, dizendo – não batam nele, eu carrego a cruz!”

Caramba, isso é que é uma frase forte.

Converso rapidamente com o ex-fariseu, futuro Jesus. Rodrigo Paiva, um rapaz de bom sorriso, obviamente negro. Não terei muito tempo para conversar, é apenas um contato inicial, anoto seu telefone, diz que é a quarta vez que participa da encenação, está feliz com o novo desafio. Sou informado por Eli, que o menino já fez parte de gangues, era virado na escola, hoje trabalha ensinando teatro nas escolas.

Para quem não sabe, são oito fases de trabalho duro, até a estréia. Primeiro, o contato com as escolas, para divulgar o projeto. Depois, explicação para os candidatos sobre o que é “o espetáculo em si”. O que aconteceu nos últimos dias de Cristo na terra. Para quem não sabe, foram uns dias bem atormentados, ele sofreu muito. Terceira parte: leitura e interpretação dos textos. Neste momento do processo, os alunos terão que saber que foi Judas, Madalena, aquele povo todo. Na quarta parte, terão que ler uma parte do Novo Testamento. Vem então a quinta e preocupante etapa, que é a escolha dos papéis.

“Ano passado, faltando 15 dias para começar, o Cristo desistiu. Como ele era ex-viciado, não ficava bem tirá-lo do trabalho”, explicou Eli, mas não entendi bem. Do nada, surgiram três possíveis Cristos. Um tinha sido o Demônio, outro, Caifás, e outro não lembro, porque foi um dia em que estive péssimo no meu trabalho de campo, e estava certo de que voltaria, para acompanhar todas as etapas.

Na sexta etapa, a compra do material, para a confecção da cidade cenográfica. Penúltima fase: gravação do CD com as vozes, os diálogos da encenação. Por último, os ensaios, sempre às 17h, para não atrapalhar a vida na sala de aula.

“Nos ensaios e na encenação, os atores não devem puxar pelo “x”, como na TV”, explica Eli. Quero saber como eles fazem em Nova Jerusalém, com aquele povo todo vindo do Rio.

Eli, que louvo neste mês de março, foi aluno de escola pública. Deixou de estudar em 1970, para trabalhar. “Capinei mato, fui de serviços gerais, servente, eu era semi-analfabeto”, diz, enquanto ajusta a calça jeans folgada, e acompanha a chegada de mais futuros fariseus, soldados romanos, um eventual Pilatos, candidatas à Maria, fora o Judas, que não localizei na sala. “Voltei a estudar em 2.000, por insistência de minha esposa”.

Fez o supletivo do 1º e 2º grau. Duas semanas depois, fez o vestibular para Matemática. A história prometia ir longe, mas eis que chega Ivanildo Diniz dos Santos, o carpinteiro da encenação toda. É o homem disposto, que vai fazer o milagre de transformar madeiras, cola e tinta, na Jerusalém do subúrbio. Escuto uma beira de diálogo.

“Você tem que cortar a madeira direitinho”, diz Eli.

“Ah, isso vai dar trabalho”.

Anoto o telefone do carpinteiro, de Eli, de Jesus. Pela primeira vez na vida, tenho o celular de Jesus, penso em pedir ajuda ao meu Santa Cruz, que estão querendo acabar, mas ainda é cedo, certos pedidos importantes, só com intimidade. O homem tem que ser crucificado primeiro, para subir ao céu, e depois me atender.

Vamos a um matagal na escola, ao lado da quadra sem rede, onde o futebol corre solto, com o sol ainda fumegando. Os meninos vão chegar em casa com a camisa da escola pingando, mas o que importa é o gol de fora da área, de preferência um sem-pulo na gaveta.

Eli e o carpinteiro entram no matagal, tiram medidas, e sinto que estou em outro mundo. Aqui, a paixão é outra. É a paixão pelo teatro, pelo trabalho em escolas, com jovens. Nem deveria se chamar “ A Paixão de Cristo”, mas “A Paixão de Eli”.

Voltamos, ele me diz que tudo ali vai ser limpo, ali será a cerimônia da condenação, ali vai ser a crucificação. Ele vê o cenário pronto, e eu só consigo ver, por enquanto, mato e dificuldades.

Por conta das viagens para o Sertão, não pude acompanhar o processo todo da encenação. Uma pena. Olhei agora no meu caderninho, teve encenação na escola ontem, com repeteco hoje e amanhã.

Acabei de falar com ele pelo telefone. Ontem, na estréia, houve um imprevisto. Estava tudo pronto, Jesus (Rodrigo Paiva), aquele rapaz negro, estava na boca da cena, quando teve um ataque de epilepsia. A encenação só não naufragou, porque Eli, macaco velho de encenações, já tinha deixado um ator pronto. Era o Reinaldo, que estava todo maquiado. Iria interpretar o demônio. Desfez a maquiagem, vestiu a roupa de Cristo, e deu tudo certo. Que o Bento XVI não saiba dessa.

Hoje, o Cristo negro retorna. É ver para crer.

Eli seja louvado.

Postado em Crônicas | 5 Comentários »

« Artigos anteriores