Ao próximo prefeito
Samarone Lima
Biblioteca numa rua de Tóquio. Penso numa dessas no Córrego do Jenipapo
(Foto de Carlos Vaz Marquez, pescado no blog www.sintaaez.blogspot.com)
Ontem tive a primeira reunião de base para discutir propostas e planejamentos para a próxima campanha à Prefeitura da Cidade do Recife. Não sei como isso funciona em outras cidades, mas aqui o povo é meio avexado.
Na quarta-feira, no bar de Seu Vital, teremos outra reunião, para detalhar o planejamento, para depois conversar com nosso candidato, o Luciano. Diga-se de passagem: o povo aqui adora reunião.
O tema surgiu no meio do aniversário do meu comparsa de caminhadas, Iramarai, e a discussão pegou fogo. Súbito, todos começamos a sonhar com uma cidade melhor, mais humana, menos violenta, mais bonita.
Eu quero muitas coisas do próximo prefeito, mas lutarei, com as forças possíveis, para que ele se preocupe com bibliotecas, leitores e livros. Quase ninguém fala, há formas mais inteligentes de se vencer a violência.
Que a cidade ganhe de presente lindas bibliotecas, nos bairros mais pobres. Não falo dessas bibliotecas da escola, que funcionam dependendo do temperamento da responsável, muitas vezes com bons livros, mas sem leitores. Falo de bibliotecas lindas, bonitas, amplas, bem iluminadas. Bibliotecas com cadeiras confortáveis, silenciosas. Um lugar que dê vontade de ir, ficar, nem que seja para se envolver com o silêncio, a quietude, a paz.
Um mar de livros. Todos aqueles autores que ajudam a mudar conceitos, a percorrer labirintos, a descobrir mundos.
Penso não num Parque Dona Lindu, que é a grande obra do fim da atual gestão, que vai custar uns 40 milhões, sei lá, um negócio que vai custar milhões, mas não tem uma biblioteca dentro.
Imagino bibliotecas lindas no Coque, na Favela do Detran, Chão de Estrelas, Linha do Tiro, Alto do Pascoal. Lugares que abriguem nossos jovens, para que tenham um refúgio, milhares de amigos em páginas cheias de letras, para desvendar outros caminhos.
Do próximo prefeito, espero uma gestão que gaste menos com o Carnaval, que traga menos artistas consagrados, e que cuide mais de prateleiras, estantes, que contrate pessoas que amem os livros, para tomar conta, orientar, ler, compartilhar belezas.
Na metade do seu mandato, gostaria de escutar um jovem falando com outro:
“Nos encontramos lá na Biblioteca do Coque, no setor de literatura brasileira”.
Ou:
“Tás sabendo que hoje tem uma palestra sobre poesia no Alto do Pascoal?”
Ah, como queria uma nova geração de leitores, de apaixonados por livros. Como sonho em passar a roleta do ônibus e esbarrar com várias pessoas lendo poesias, crônicas, romances.
Quando penso nesses jovens, lembro dos meus alunos, todos na faixa dos 17 aos 19 anos, que descobriram Fernando Pessoa, Clarice Lispector, que se encantaram com o Renato Carneiro Campos. Posso ver Suco, Gabriela, Ana Cecília, Danúbia, Herivelton, Windoson, Manuela, tantos outros, que descobriram este mundo encantado, e nunca mais conseguiram sair dele. Ah, como sinto que eles estão protegidos, com o Fernando Pessoa na algibeira, com a Clarice a encantar os sonhos dentro da bolsa…
Nunca consegui fazer com que minhas propostas entrem nos programas de governo. São sempre fora de moda, não contribuem muito, não dão votos. Minhas preocupações são outras.
Modestamente, lutarei para que livros e bibliotecas façam parte do programa de governo do próximo prefeito do Recife. Sonho com uma geração de novos leitores, de apaixonados por histórias, que trocarão, sem perceber, as armas pelas páginas.
Sonho com uma cidade repleta de poetas, cronistas, romancistas, ou pessoas mais sensíveis às belezas do mundo. Nossos jornais poderão noticiar um recital com 300 poetas, ao invés de mais 32 homicídios no feriadão.
Começo a juntar meu pequeno e brancaleônico exército para mais uma batalha.
Invoco o meu querido Leminski para animar meus camaradas:
“Distraídos venceremos”.
Para meus ex-maravilhosos alunos da Oficina da Palavra
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