Crônicas das coisas mínimas e desnecessárias

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Onde estão os poetas?

27 de março de 2008, às 18:37h por Samarone Lima

Não sei o que há, mas tenho sentido falta dos poetas na cidade. Mais que poetas, falta poesia no Recife. Fala-se muito de violência, e me falta um olhar menos traumático, menos guerreiro. Todos querem saber das notícias do sangue. Não é por acaso que o íconoe midiático seja uma figura tosca poeticamente, chamada Cardinot, tão feliz com a prisão dos jovens com seus baseados.

Lembro que há alguns anos, vindo de São Paulo para um Carnaval, peguei um ônibus e esbarrei em um poema do Carlos Pena Filho, o “Soneto do Desmantelo Azul”. Perdi umas duas paradas, mas copiei o poema todo, e é o único que sei decorado.

“Então, pintei de azul os meus sapatos/Por não poder de azul pintar as ruas”

É só o começo.

Ando cada vez mais desinformado, e não sei onde andam os recitais do Recife. Sei que o queridíssimo Miró circula pelos mercados, com sua última pérola, “Onde andará a Norma?”- , mas faz tempo que não esbarro em seus gestos alucinados, recitando poemas que falam das paradas de ônibus, e de uma mulher que ficou toda molhada quando o homem da água mineral passou carregando um garrafão de 20 litros.

O nome do poema? H2love.

Sinto falta dos poemas nos muros das escolas.

Raramente vejo alguém dentro de um ônibus, lendo um Manuel Bandeira, um Mário Quintana, um T.S.Eliot.

Ando sentindo falta de sarau, de encontros de amigos não somente para falar sobre os caminhos e descaminhos da vida, as glórias e desastres do futebol, avanços e recuos da economia. Os jornais só falam de mortes e desvios.

Ah, nada como uma boa conversa sobre os descaminhos de Walt Whitman (”Pois o culto verdadeiro também não precisa de palavras nem de se ajoelhar”), as glórias e desastres de uma Silvia Plath, aquela mansidão perpétua do Mário Quintana.

Neste Recife cheio de injustiças, e nesta noitinha sem eira bem beira, já a caminho de casa, me ocorre uma pequena folha de relva para completar estas poucas palavras:

“A justiça não é aquela feita por legisladores e leis, ela está na alma”.

Dêem notícias, poetas. Quero um encontro desmarcado com a próxima alegria.

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