Crônicas das coisas mínimas e desnecessárias | Por Samarone Lima

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Dois vagabundos na estrada (epílogo a contra-gosto)

14 de março de 2008, às 10:52h por Samarone Lima

O carro deslizou suave até Piranhas Nova, onde estava acontecendo a feira semanal. Feira no interior é aquela maravilha. Roupas, sapatos, sandálias de couro, caldo de cana, lamparinas, fora as comidas todas, uma fartura de cores, sabores, fruto de mãos que cuidaram da terra, plantaram, olharam o céu, à espera das chuvas.

Maraí consegue comprar seu fumo, damos uma reparada em tudo, até que chegamos à barraca do caldo de cana. Não digo nada, o dono do negócio, seu Manuel, pergunta se somos do exterior, digo que soy cubano, e Maraí, já sabendo como funciona nossa lógica do brincar com a vida, entra no jogo.

Seu Manuel fica louco de alegria, me estende a mão.

“E como está Fidel?”

“Mal, muy mal, enfermo”.

Maraí faz a tradução.

“Ele disse que Fidel está muito doente”.

O negócio começa a ficar sério quando ele chama sua esposa, Vânia, e o filho, Paulo.

“Ele é cubano. Disse que Fidel está morrendo”.

Olha para mi e completa:

“Eu sempre quis conhecer um cubano”.

Marai faz a tradução. Falo sobre a vida difícil no meu país, acho o Brasil imenso, Beberico o caldo de cana, que está delicioso. Resolvemos tirar uma foto. Seu Manuel está todo orgulhoso, junta a família. Marai fica demorando para tirar a foto, fica fazendo o foco, quase digo para ele deixar de frescura, mas Seu Manuel iria perceber que não sou cubano coisa nenhuma, fico calado.

Saímos dali para Canindé, única cidade da região que tem Banco do Brasil e Bradesco. Damos alguns passos, e vem um sujeito numa motoca, com uma mulher na garupa.

“Vocês são hippies?”

Explicamos que estamos mais para vagabundos que para hippies, e pelo que sei, hippie sempre vende uns badulaquezinhos. O sujeito desce da moto, se chama Carlos, é professor de química, a mulher se chama Carmem. Achou a gente interessante, resolveu conversar. Perguntou o que a gente achava da transposição, e como a maior parte do povo nordestino, não temos opinião formada. Sabemos apenas que há muitos interesses por trás. Carlos diz que era assim também, até apoiava a transposição, mas depois que conheceu uns promotores ligados ao meio-ambiente, mudou radicalmente, e agora faz campanha contra.

“Vi uma apresentação de um promotor, com todos os dados, mapas. Essa obra vai beneficiar justamente os mais ricos, os que têm terras”.

Conversamos um pouco, Marai, que gosta que só do Lula, questionou se um presidente nordestino iria fazer uma mazela com a região, Carlos disse que governantes fazem besteiras e só depois percebem, depois pediu para tirar uma foto com a gente. Decidimos que já bastava do assunto transposição, resolvemos botar o pé na estrada de verdade.

É uma caminhada e tanto, num sol de queimar o couro. Quando percebemos que o caminho é muito mais longo, passa um caminhão, pegamos carona, vamos na boléia, com o vento no focinho, aquela sensação de liberdade completa. Não temos horários, direção exata, o mapa fica geralmente na bolsa, não temos bússola, apenas vamos, ao deus-dará. Se dependesse da gente, o turismo mundial seria uma grande festa, de erros e tentativas, descobertas e espantos, não essa chatice de guias, museus, lugares marcados, mas isso é coisa para outro dia.

Foi uma sorte, a carona. Canindé fica a muitos quilômetros de Piranha, e é uma longa subida, levaríamos horas nesta pisada. Sem perceber, estamos na hidroelétrica de Xingo.

Tiramos dinheiro em Canindé, depois voltamos a Piranhas Nova. Vamos atravessando a rua, um cara me olha e diz:

“Eita, é Moisés, e vai abrir o Mar Vermelho”.

Vamos caminhando para Piranhas, que julgo ser a velha, é outra longa caminhada, mas é uma descida. Pocot, pocot, vamos os dois em silêncio, até que Piranhas aparece, de longe, e já percebemos que a cidade é um pequeno deslumbramento, uma mistura de Olinda com certas ruas do Poço da Panela. Maraí está tão exausto, que me encarrego das fotos, plec, plec, plec.

Atravessamos a cidade, chegamos às margens do Velho Chico, onde funciona uma verdadeira praia. Pegamos uma sombrinha, depois mergulhamos os pés na água, eles fazem chhhhhhh, porque estavam em brasa. Mergulhamos, nadamos, parecemos dois meninos.

Ali, depois de uma conversa fiada, descobrimos que a caminhada tinha chegado ao fim. Estamos exaustos, mas felizes. Terminamos nossa quinta expedição. Descobrimos que a vagabundagem vale a pena. Nadei vários metros no meu clássico craw, depois encontramos a pousada da Vanda, uma pequena jóia, meio abandonada à beira do São Francisco.

Vanda está desgostosa, pensa em vender ou arrendar a pousada, se eu tivesse dinheiro, comprava na hora. O último gerente vivia cheio das garapas, afastava os turistas. As plantas estão secas, há um cachorro sonolento, e duas mulheres na rede. Uma delas é esposa de Júnior, o novo gerente, que ganha R$ 200,00 por mês, mas não paga aluguel, luz, água. O rapaz é diligente, atencioso, providencia pratos, libera a cozinha, mas infelizmente torce pelo Flamengo. Tem uma filha de três meses, que está mamando. Marai faz duas suculentas saladas, que comemos num pátio belíssimo, vendo o rio por ali. Ah, meus amigos, feliz de um povo que tem um rio São Francisco cruzando seu território, abençoando pessoas, animais, plantações, embelezando os olhos, enchendo a vista de abundância, no mormaço da tarde…

Cochilamos. À noite, demos uma volta por Piranhas. Meu deus, que cidade linda, tragicamente abalada pelo som dos forrós, que têm como refrão “e tome! Tome! tome!”, ou pérolas como “beber, cair, levantar”. Paramos num boteco, o Seu Vital de Piranhas, bebemos o café mais aguado do globo terrestre. Conversamos longamente com Besouro e dois amigos. Paulo é o dono da venda, diz que até 64, a cidade era uma maravilha, mas o golpe arrasou tudo, porque tiraram os trens.

“Aqui, filmaram Bye Bye Brasil e Baile Perfumado”.

Ganhamos aulas de história, começando da época de Lampião e seus camaradas.

Seguimos caminhando, esbarramos no mirante, e no meu clássico medo de altura. Resolvemos encarar. São 300 degraus, mas estou decidido a não olhar para trás nem para os lados. Lá em cima, está escrito: “Homenagem do povo do século XIX ao povo do século XX”.

Sentamos nas cadeiras do restaurante, ficamos vendo a lua minguante refletir sua luminosidade no rio, que se torna um imenso contorno prateado.

“Lindo, lindo, lindo”, fica repetindo Marai.

Na volta para a pousada, combinamos de assistir “Bye Bye, Brasil”, e “O Baile Perfumado”.

Teria mais uma postagem sobre os infortúnios do retorno, mas penso que meus 33 leitores estão cansados de tanta caminhada. Aguardemos.

Para Carol Bolinho, caminhante

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Dois vagabundos na estrada, volume 2 (de um total de 3)

11 de março de 2008, às 9:10h por Samarone Lima


Travessia do glorioso rio Moxotó, separando duas nações

Sim, como eu vinha dizendo, chegamos sem muitos problemas ao rio Moxotó, que é bem franzino, nem parece um rio que separa estados. Novo descanso, água. Foram nove quilômetros, e não estamos com essa bola toda. Pegamos fôlego, voltamos a andar, até que descobrimos um povoado com casas organizadas, uma igreja. É uma tribo que vive ali, informam. Resolvemos ver de perto e beber água.

No caminho, uma subida íngreme, num calor dos diabos, esbarramos com um senhor de uns 60 anos, negro, que tenta se levantar. Está mais bêbado que todos os meus amigos, no domingo de Carnaval. Resolvemos ajudar, levantamos o homem, ele solta um bafo que quase nos derruba. Está suado, creio que bebeu uns dois litros de Pitu.

Chegamos à aldeia Jeri-Pankó, de descendentes dos Pankararu, com Pituta à tiracolo, o que facilitou nossa vida. Aliás, não poderia haver melhor nome para aquele homem: Pitu-ta. As quatro primeiras letras mostravam que ele não estava mesmo para brincadeira.

Bebemos água, e os meninos nos cercam, puxando assunto. Bilico, o mais danado, faz logo amizade, diz que vai ter um ritual indígena à noite, e que poderemos participar. Depois chegam, por ordem de entrada, Dantinhas, Emanuel e Teté. Perguntamos onde tem café, eles dizem que é lá em cima, no bar do Manu, vamos com eles.


Manu está cortando os cabelos de Tio Zé, usando aquelas maquininhas elétricas, nos recebe com simpatia. O corte custa R$ 2,50 e Marai diz que vai raspar a cabeça. Acho uma idéia triste, mas nem discuto, ele tem essas manias. Manu diz que não tem café, mas avisa a Bilico para avisar à mulher para fazer um café para a gente. Sentamos, exaustos. O sol está tinindo. Depois chegam Dimara, Ailton, Micaela, Cleomar, Marcelo e Rosildo, fora o Raí, Idemir e Quesimar. Criança adora gente estranha.

Ficamos conversando, Marai descobriu que seu irmão é indígena, porque o Tio Zé é “ingualzinho a ele”. Ele sempre diz assim, “ingual”, porque diz que a palavra vem de “íngua”. Acontece um monólogo, onde Marai conta a vida do seu irmão, e todos acompanham atentamente. É uma história triste pra chuchu. Daqui a pouco, chega uma garrafa térmica cheia de café, novinho em folha.

Pedimos uma cajuína, não tinha no bar, Bilico pegou o dinheiro e foi comprar. Saiu na velocidade do vento, e pouco depois, estava com uma cajuína de dois litros. Repartimos com a criançada. Marai dormiu um pouco, e apareceu o mesmo Bilico uma corda de madeira, para acordá-lo.


Lá pelas tantas, todo mundo vai pra casa, ficamos ali, esperando o sol maneirar para a última parte da jornada. Tiramos fotos, peço para os meninos escreverem algo no meu diário. Wilardy desenhou uma casa e uma criança, e botou a data. Adenildo (11 anos), desenhou um jogo de dominó. Ailton Amilton dos Santos, de dez anos, desenho uma casa e uma árvore. Distribuí caneta para seis meninos. Fiquei apenas com uma, o suficiente. Às vezes, a gente tem coisas demais, e nem sabe. Manu aparece, pergunta se queremos comer um feijãozinho. Explicamos que estamos em jejum, ele insiste, mas acaba se convencendo que era mesmo verdade. Ele diz que vai ter o ritual à noite, varando a madrugada, chegando à metade do domingo. Se quiser, poderemos participar e até dançar. Adoro rituais indígenas, mas achamos melhor seguir.

Nos despedimos de todos, atravessamos a aldeia, que é arrumada e não tem problemas de abastecimento d´água. A cara dos meninos é boa, os dentes branquinhos, tem uma escola na comunidade. Como vieram oferecer feijão, a fome deve estar fora do cardápio.

Chegamos a Pariconha às 15h30. Pelos nossos cálculos, caminhamos 23 quilômetros. Queremos ir para Delmiro Gouveia, mas é distante. Os motoboy informam que todos os carros já saíram. Se a gente der sorte de aparecer um carro…

Sentamos, aguardamos. Passa um gordinho com um baita cigarro de palha na boca, parecendo mais um charuto. Usa dois relógios, um em cada braço. Marai pergunta a hora. Ele olha o braço esquerdo.

“Três e trinta”.

“E no braço esquerdo?”

“Três e trinta e um”.

A diferença nos impressiona, o gordinho aproveita a deixa e comenta:

“Cortaram a minha aposentadoria, vocês acreditam. É muita safadeza”.

Ficamos indignados. Como é que se corta a aposentadoria de um camarada de uns 40 anos, gordinho, só porque usa dois relógios, um em cada pulso? Olhamos a igrejinha, achamos esse nome da cidade muito esquisito mesmo, Pariconha. Vinte minutos depois, estaciona uma D-20. Nos avisam de longe que vai para Delmiro. Custa R$ 2,00 por cabeça.


Pegamos o carro. Na frente, o motorista e uma mulher. Atrás, eu e Maraí. Vai entardecendo, esticamos as pernas, olhamos a paisagem. Uff, com é bom viajar sem rumo, descobrindo esse Brasil das brenhas.

São 17h05, quando chegamos ao centro de Delmiro. Batemos em duas pousadas, nos olham de cima abaixo, dizem que não têm vaga. Andamos mais 40 minutos, até chegarmos à Pousada das Pedras, que tem vaga. Tomamos banho, trocamos de roupa, e vem de novo aquela exaustão ancestral. Levantamos somente para comprar verduras, uma sardinha. Maraí faz uma salada deliciosa, usando a mesinha do hotel. Conseguimos dois pratos, saboreamos folhas as mais diversas, tomate, cenoura. Fim do jejum.

Iríamos sair para conhecer Delmiro, à noite, mas fomos vencidos. Dormimos sem muriçocas. Vi na TV uma reportagem sobre alimentação. Dizia que o brasileiro desperdiça 39 milhões de quilos de alimentos, um terço do que se produz em todo o território, isso é uma tristeza. Caro leitor, se não for comer tudo, bote um prato menor. Tenho horror a quem deixa comida no prato.

Às 7h55 do dia seguinte, após um bom café no hotel, fomos para o centro, buscar um carro até Piranhas. Passamos pela Lourenço Tecidos, que tem uma marca forte:

“Lourenço Tecidos – diz o que tem, porque tem o que diz”.


São 8h25, e a D-20 sai de Delmiro, rumo a Piranhas. Somos cinco pessoas de cada lado do banco de madeira. A passagem custa R$ 5,00 per capita. No centro do carro, estão as bagagens.

Dez minutos depois, a D-20 para, tem uma multidão querendo entrar. O velho que toma conta do veículo desce, manda botar todas as bolsas no telhado do carro, providencia um banco extra, e daqui a pouco, somos 19 criaturas, espremidas, cada uma com sua história, rumo a Piranhas. O carro voa. Qualquer acidente, não vai sobrar um vivo.

Mas começam os diálogos, as conversas, e a gente na hora esquece a velocidade.

Amanhã, boto o resto da viagem e encerro mais uma trilogia da vagabundagem.

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Dois vagabundos na estrada (Volume I)

7 de março de 2008, às 8:19h por Samarone Lima

Lá vamos, eu e Iramarai, para mais uma jornada a pé. Queremos simplesmente andar. Sair da correnteza, da cidade grande, dos carros. Longas jornadas, com os pés no chão, nossas mochilas, pouca coisa, nossos cantis, nossos olhos.

É nossa quinta expedição. Relembramos isso no meio da viagem, enquanto ele descansava em cima de uma Quixabeira, que se tornou a árvore-símbolo da viagem. Fomos informados de seus poderes medicinais, então arrancamos lascas e colocamos em nossos cantis. Durante toda a viagem, bebemos água com gosto de barro, e nos sentimos estranhamente forte, como se fosse nossa kriptonita.


Como sempre, escolhemos na base da intuição. Terminamos nossas atividades pela Secretaria Estadual de Saúde, quatro dias de muito trabalho no sertão, e voltamos com o motorista Belém. Num determinado ponto, resolvemos ficar. Belém toda vez fica desesperado. Diz que vai estar com o celular ligado, para o caso de acontecer alguma coisa, se a gente precisar. Pergunta mil vezes o que vamos fazer, a pé, naquele meio de mundo, tão longe do Recife. Vamos andar. Simplesmente andar. Vamos ao vento, ao sabor do destino, colhendo o que chega, compartilhando o que podemos, contando e escutando histórias, vendo o povo.

Levo um pequeno bloco no bolso, onde anoto religiosamente os horários de partida e chegada, nome dos lugares, vilarejos e pessoas que conhecemos. Saímos de Tacaratu, perto de Jatobá, à 16h24 da sexta-feira. O primeiro objetivo é chegar a Caraibeiras, mas nunca sabemos se vamos conseguir. Precisamos de um mapa que tenha indicações de estradas, veredas, sempre dizemos isso, e toda viagem usamos meu surrado mapa, que vai caindo aos pedaços, a cada viagem que faço.

Iniciamos nosso jejum, que vai durar 24 horas, e será concluído no dia seguinte, com uma farta e deliciosa salada de verduras, no quarto de um hotel, em outra cidade.


São duas horas e meia de jornada, amparados por uma luminosa lua cheia. Acertamos em cheio no horário, porque o clima está ameno, não pegamos o sol no lombo, como em viagens anteriores. Aos poucos, a cada caminhada, vamos descobrindo as manhas. Não exagerar com o corpo, ter alguns cuidados. Nos identificamos muito com os vagabundos, mas às vezes, somos mais desleixados que eles.

Chegamos em Caraibeiras exaustos, porque tomamos o café da manhã em Ouricuri, e rodamos 619 quilômetros, até seguirmos a pé. Buscamos algum lugar para dormir. Maraí queria o de sempre: encontrar uma árvore boa, limpar o chão, fazer um foguinho e dormir. Sim, mas trabalhamos a semana inteira, estamos exaustos, é o primeiro dia da caminhada, e não temos sequer um colchonete, apenas um lençol para os dois. Além disso, acabamos de caminhar nove quilômetros. Vence, por empate técnico, a proposta de dormirmos em uma pousadinha simples, para recuperar as energias. No sábado, teremos muito chão pela frente.

Procuramos um lugar. Somos informados por um gordinho simpático que Dona Lourdes tem lugar para dormir, fica ao lado da igreja, pegando à esquerda. Encontramos a igreja, pegamos à esquerda, mas dona Lourdes não está. Sua funcionária, Dina, informa que a diária custa R$ 7,00 e dá direito a café da manhã. O quarto é limpo, miúdo, tem três camas e um ventilador. Ao lado, um banheiro decente, com água corrente, porque quando falta na cidade, dona Lourdes manda encher uma cisterna. Paga R$60,00 ao caminhão-pipa.

O silêncio é formidável, e o calor começa a nos assombrar. Dina, uma negra simpática e jovem, diz que seu irmão vai chegar mais tarde da escola, e vai dormir na rede, que está pendurada no pátio. O cachorro, simpaticíssimo e velho, se chama “Amiguinho”, e fazemos amizade rápido.


O banho nos renova, mas estamos quebrados. Descobrimos que a semana foi mais cansativa que pensávamos, ou já não temos mais o mesmo pique de outras caminhadas. Contra nós, pesa o efeito do “Fator Gildázio”. Ficamos hospedados a semana inteira no mesmo quarto com Gildázio, com seu ronco capaz de acordar uma cidade inteira. Foram alguns dias dormindo mal e trabalhando muito. Meu amigo deita, cai exausto e dorme. Vou para a mesa, anotar minhas coisas, ler. Dina providenciou uma garrafa de café, que vou consumindo devagar.

As muriçocas não demoram a atacar. Pouco depois, Marai levanta. O ventilador não segura o calor, nem as muriçocas. Saímos para uma caminhada na cidade, mas não avançamos muito. Meu amigo sente uma fisgada em sua famosa “verruga plantada”. Descobrimos que estamos ao lado na funerária São Francisco, que tem o “Plano São Francisco”, e atende 24 horas. O responsável é Chico, mas não estamos precisando de seus serviços, pelo menos por enquanto.

Sentamos no banco da praça, ele faz dois cigarros de palha, e fumamos, muito quietos. Ah, esses instantes fundamentais de nossas viagens, quando estamos exaustos e algo de júbilo nos envolve. Estamos longe de tudo, sem internet, celular, e não sabemos para onde vamos, nem o que fazer. Olhamos o céu, ele fala de umas constelações, mas sou cego de nascença. Ele vê desenhos no céu, só vejo estrelas mesmo. São as burrices de cada um. Às vezes, acho que ele inventa constelação. Vou criar as minhas também. Aquela ali é a Elegíaca, veja ali a Polinésia, ao lado da Arcaica. Sim, sim, vou reagir.

Damos as primeiras tragadas, e passa o gordinho informante. Pergunta se encontramos Dona Lourdes, respondemos que sim, agradecemos, ele segue.


Voltamos para Dona Lourdes. Maraí vai tentar dormir. Pergunto a Dina se posso assistir a minisérie “Queridos amigos”, ela diz que sim, pego uma cadeira de balanço, fico reparando os últimos instantes do Big Brother. Ela e o marido sabem o nome de todos os personagens, as tramóias, quem vai sair, quem vai ficar, enfim.

Maraí chega. Acordou, com as muriçocas. Ficamos os quatro na sala, e começa o seriado.

“O que é que a gente faz com as muriçocas?”, pergunta Marai.

“É só não ligar para elas”, responde ela, sem desgrudar da TV.

Termina o episódio do dia, voltamos para o quarto. Ele deita, volto para a mesa, vou ler e escrever até cansar. Daqui a pouco, chega o irmão de Dina, que não sei o nome. É um sujeito calado, com gestos precisos e econômicos. Toma um banho, janta, volta, deita na rede e dorme. Lá pelas tantas, solta uns bons peidos, e segue firme.

Já é madrugada, quando resolvo dormir. Olho as estrelas, estão lá: Elegíaca, Polinésia, Arcaica. Sim, minhas constelações. Maraí se mexe de um lado para o outro. Não consegue dormir direito.

Nosso plano era acordar às cinco horas do sábado, para às seis estar na estrada.

A muito custo, saímos de Caraibeiras às 7h55. Vamos olhando as empresas da cidade, e um modelo próprio de divulgação.

“Sorveteria Sabores. Organização: Negão”.

“Funilaria Futura. Organização: Chico”.

“Auto escola Regismar. Organização: Chico”.

“Trevo Madeiras”.

Essa empresa não botou a organização.

À saída, descobrimos que estamos na “Cidade das redes”. Há pequenas e médias fábricas em toda a cidade. A rede mais em conta, custa R$ 12,00. O som dos teares industriais se espalham por várias ruas. Paramos defronte à casa de dona Carminha, que usa um tear manual, para fazer o “cadi”, uma parte que sustenta a rede. É um trabalho complicado, o troço exige uma mão de obra danada. Ela ganha R$ 0,40 por peça. Tiramos foto dela, os três filhos são bonitos como o quê.

A população de Caraibeiras: 4.328 almas.

Caminhamos por uma estrada de terra, com pouquíssimos carros. Alguns quilômetros depois, paramos numa sombra, porque o calo de Maraí está fazendo estragos. Ficamos debaixo de uma quixabeira, bebemos água, nos recuperamos. O sol está rasgando tudo.

Faltam nove quilômetros para chegarmos ao rio Moxotó, que separa Pernambuco de Alagoas.

Daqui a pouco, passa um vaqueiro, num jumento. Conversamos um pouco. Não sei de onde saiu esse assunto, mas ele disse que o jumento é como o papagaio, “vive até caducar”.

Se o distinto leitor não sabe, vai uma informação essencial, que nem o Google deve ter. Um jumento chega a viver 32 anos, e trabalhando duro, que não conheço jumento que viva no bem bom.


Maraí fuma um cachimbo, equilibrado num tronco de quixabeira. O vaqueiro diz que a casca da quixabeira é boa para o estômagos, rim e pancadas. Botamos pedaços em nossos cantis. Maraí resolve tirar os tênis e usar as havaianas. Voltamos à estrada. Resolvemos seguir num galope firme, até o rio Moxotó. Descansaremos em outra pátria: Alagoas.

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Para quem ainda lê a Veja

4 de março de 2008, às 12:04h por Samarone Lima

Durante longos oito meses, em 1999, trabalhei na redação da revista Veja. Vi de perto como funciona uma máquina poderosa, capaz de devastar reputações, arruinar vidas, caluniar, mudar informações, na prática do pior jornalismo.

Saí para fazer o mestrado, e desde esta época, nunca mais comprei um exemplar. Olho quando vou a um dentista, para saber como anda a linguagem, e sinto repulsa.

Um grande jornalista teve o peito de desvendar os bastidores dessa máquina, que se orgulha de vender um milhão de exemplares por semana.

Deixo minhas crônicas de lado até amanhã, e convido meus leitores para embarcar nesta série de reportagens do Luis Nassif, desvendando uma das grandes fraudes do jornalismo brasileiro.

http://luis.nassif.googlepages.com

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