Na estrada
Samarone Lima
Já estou em Salvador, para participar do projeto Lanterninha, uma bela iniciativa envolvendo alunos da escola pública.
A cada viagem, descubro que sou feito de estradas. Me recomponho, me reorganizo, me refaço mesmo é andando pelo mundo. Sou apaixonado pelo processo todo. Chegar à rodoviária, embarcar, ver a cadeira, quem vai ao meu lado. Desta vez, viajei ao lado de um jovem inglês, que não falava português e usava fones de ouvido.
Viajo bem menos de avião, acho as aeromoças muito chatinhas e as cadeiras mais apertadas, além de ser muito longe do chão, o lugar da viagem. Não fosse a criminosa destruição de nossa malha de trens, viveria entre uma estação e outra, com o focinho do lado de fora, sentindo os cheiros do mundo. Chamava-se “Sonho Azul” o trem que fazia a linha Crato-Fortaleza, a viagem mais linda do globo terrestre. Já fiz grandes e inesquecíveis viagens a pé, com meu amigo Iramarai.
Não sei quantos mil quilômetros percorri, cidades que conheci, e nem importa, porque não quero ser do Guiness. Lembro que uma época, em São Paulo, eu chegava ao terminal do Tietê, e escolhia uma cidade, aleatoriamente. Viajava, passava o sábado e domingo, e voltava na segunda. Lembro de viagens maravilhosas por chapadas, com meu amigo de sempre, o Gustavo.
Há pouco tempo, descobri que esta vocação está no sangue, no meu mais remoto. Meu avô fazia o mesmo, era um andarilho por natureza. Morreu no Rio de Janeiro, aos 51 anos, de forma misteriosa.
Meu pai todo ano saía de Imperatriz, no Maranhão, rumo ao nosso torrão natal, o Crato. A viagem no raçudo Fusca era minha alegria anual. Não importava muito chegar, o que eu queria mesmo era ir. Agradeço muito a ele por ter me iniciado nesta aventura de descobrir o Brasil, em suas entranhas.
Outro dia, um amigo falou sobre coisas da felicidade, e como as pessoas querem obcecadamente o final feliz, deixando o caminho de lado, que é onde tudo acontece, inclusive a felicidade.
Com as viagens, aprendo a ir, aberto para as surpresas, impasses, os incômodos. Sei que seria muitíssimo mais triste, se não pudesse ter viajado desde a infância. Viajar me salva.
Fernando Pessoa sugere que nossas dores, sofrimentos, tristezas, sejam tratadas como “incômodos de viagem”.
Eu concordo sempre com os poetas, mas não sugiro nada. Só viajo, olho, vivo e escrevo. É minha oração em movimento.
Salvador, domingo de uma chuvinha besta.
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