Crônicas das coisas mínimas e desnecessárias

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Anônimos adoráveis

24 de abril de 2008, às 18:03h por Samarone Lima

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São anônimas as criaturas mais adoráveis do Recife. Cada vez que saio da minha bolha do trabalho, do ciclo de amizades, do meu bairro, me desligo da monótona e repetitiva mídia, cada vez que penetro em outras realidades, encontro estas figuras admiráveis, que resistem como varas de bambu.

Inauguro meu novo espaço na Internet falando de Reginaldo Marques Pereira, de 24 anos, destinado a ser um dono de fiteiro em alguma rua do Recife, e Cleonice da Siva, de 42, presidente do Clube de Idosos Unidos Venceremos. Os dois são os coordenadores da Biblioteca Comunitária Tabaiares, uma pequena, modesta e quente casinha, encravada como um símbolo de resistência na comunidade, que tem pouco mais de 3.700 pessoas.

Cleonice é uma mulher baixa, de olhos que brilham e um sorriso franco, quando fala da biblioteca. Ela, que não terminou sequer a 4ª série, perdeu um filho assassinado, há 15 anos, pelo envolvimento com drogas. Achou que tinha que faze alguma coisa. Para isso, usou um refrão que é um pequeno poema:

“Sonhar é de graça”.

Chamou Ricardo para ser o comparsa na idéia de uma biblioteca. Achava que os jovens tinham que se ocupar com algo, e os livros eram o melhor caminho. Ricardo, um jovem magro que fala pelos cotovelos, achava que não tinha sentido nenhum trabalhar com o pai, que tinha um fiteiro.

Conversar com os dois é ver a esperança abrindo os braços. Eles vão aos poucos, todos os dias, conseguindo botar mais beleza na história da comunidade. Conseguiram uma parceria com a Faculdade de Administração de Pernamcubo (Fecap), e um professor resolveu pagar o aluguel, de R$ 150,00. Ricardo de vê em quando resolvia tentar algo na Prefeitura. Seguia a pé mesmo, porque não tinha dinheiro para a passagem.

“Eu pegava no pé. Fazia ofício, ficava na porta, dizia que a gente estava sem livros, perguntava por capacitação, enchia a paciência deles”, conta. Depois, foi em busca de ajuda do Governo do Estado. Recebeu a visita de uma comitiva, para avaliar a biblioteca, e a primeira pergunta que fizeram, foi sobre a rampa da biblioteca.

“Ôx, minha filha, você acha que está vivendo onde?”-, respondeu Ricardo.

Pouco depois, conseguiram uma rede de 25 pessoas. Cada uma colabora com R$ 5,00 ou R$ 10,00 (depende do mês), que serve para pagar dois estagiários, que fazem trabalhos educativos com as crianças da comunidade e acompanham o movimento dos livros. Cada estagiário ganha R$ 150,00 por mês.

Em outubro de 2005, a biblioteca foi inaugurada. No ano seguinte, os dois resolveram fazer a “Semana do Conto”, e mais de 300 crianças participaram. Em 2007, a semana ganhou um dia a mais, tamanha era a participação da criançada. Em 2008, foram 15 dias de contação de histórias. “A gente praticamente morou aqui na biblioteca”, lembra a modesta Cleonice, que acompanha com uma pitada de orgulho tudo o que Reginaldo conta.

Recentemente, eles conseguiram mobilizar a comunidade, e com as sobras de um projeto da Prefeitura, compraram uma casa maior, ampla, ventilada, onde pretendem construir uma biblioteca grande, confortável, com espaço para as aulas de capoeira do Seu Djalma, ou o “Mestre Onça”, que é um dos muitos parceiros da Biblioteca. Por enquanto, Mestre Onça dá aulas na rua mesmo.

Osso duro – Reginaldo e Cleonice se consideram “osso duro de roer”. “A gente é bom de briga”, diz Cleonice, que lamenta a morte do filho, mas prefere pensar no hoje, no que pode ser feito para que a tragédia recifense seja menor. “Quero um espaço grande para eles virem aqui, fazer cursos, se ocuparem”. Ela, que sobrevive fazendo faxinas e congelamentos, cuida de 110 idosos da comunidade.

Basta um passeio pela comunidade com os dois para sentir a importância que ganharam, nesta luta por livros. Todos cumprimentam, falam. Reginaldo conta que trabalhava com o pai, mas aquele negócio de vender coisas na rua, não era bem o seu projeto de vida. “Tinha um vazio, que eu não conseguia preencher. O que faço agora, preenche”.

Ele, que não tinha o hábito da leitura, está correndo atrás do tempo perdido. Conseguiu uma vaga como estagiário da Gerência de Bibliotecas, da PCR, e estuda na Faculdade de Administração de Pernambuco (Fecap). Atualmente, está lendo a biografia de Josué de Castro.

O acervo tem 1.300 livros, e 200 leitores estão cadastrados. A Biblioteca funciona todos os dias, e agora tenta novas parcerias. Quem quiser sair de sua bolha e ajudar, pode mandar um email para o reginaldompereira@yahoo.com.br.

Mas por favor, não escrevam dizendo que tem livro para doar, porque eles não têm dinheiro para transporte. Melhor marcar um encontro e conhecer a biblioteca.

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24 de abril de 2008, às 9:13h por Dimas Lins

Espaço para crônicas das coisas mínimas e desnecessárias. É o lugar de encontro do mar com o rio, uma das regiões mais férteis do planeta. Salgado e doce se misturam, como o suor e a saliva. É a desembocadura de um rio, que pode ser muito bem o Capibaribe, que atravessa o Recife, cidade onde vive o autor dos textos.

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