Crônicas das coisas mínimas e desnecessárias | Por Samarone Lima

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Anotações sem rumo

29 de abril de 2008, às 19:25h por Samarone Lima

Diante da falta absoluta de assunto neste meu blog novo, fui fazer uma expedição sem ritmo aos meus rumores. Quem sabe sirva para algo.Hoje estava conversando com uma nova amiga, e de repente estava explicando que me sentia recifense, mas que na verdade tinha nascido no Crato, Ceará, e que tinha migrado para cá em 1987, quando tinha 18 anos. Fui falando, falando, e de repente vi que cada um vai fazendo sua biografia de um jeito, dando prioridade a algumas circunstâncias e deixando de fora coisas dilacerantes, porque no fundo, a tentativa é somente uma: juntas as partes para explicar o todo imperfeito.

O fato é que cheguei por aqui em 1987, e o deslumbramento foi total. Alguns fatos marcantes mudariam muito minha visão de mundo, a visão de um filho de classe média em Fortaleza, onde vivia minha família. Primeiro, trabalhei numa empresa na Estrada do Encanamento, em Casa Amarela, e aprendi a carregar vidro nas costas. Depois, fui morar na Casa do Estudante Universitário (CEU). De 1988 a 1992, vivi no apartamento 302.

Neste período, dois moradores se suicidaram. A barra não era fácil, e a gente só vivia às turras com a reitoria. Parece que hoje há mais sensibilidade para a turma descobrir que gente pobre, do interior, tem direito a um lugar para viver. Nessa época eu era pobre mesmo. Pobre é o cara que depende fisiologicamente do Restaurante Universitário. Pobre é o cara que não tem dinheiro para comprar livros, e ataca a Livro 7.

Como tive que provar que era pobre para conseguir uma vaga, inventei uma história cabeluda, de que minha mãe tinha me deixado com minha avó, que eu nem conhecia minha mãe, enfim. Acalmemos, amigos, porque minha mãe não lê meu blog, e o computador da minha irmã está quebrado. Para todos os efeitos, fui criado pela minha avó, dona Zeneuda.

Na CEU, aprendi a estudar e ler. Vivia enfurnado na Biblioteca Central, e até trabalhei lá alguns meses, na época da grande fome. Por causa de três disciplinas, não terminei o curso de licenciatura em Educação Artística na UFPE, mas tive uma compensação e tanto. Aprendi a ler peças de teatro.

Tenho coisas estranhíssimas, que são surtos psicóticos por um tema, com duração indeterminada. Em 1990, creio, comecei a ler peças de teatro, e fiquei tam tam. Li Ésquilo, Sófocles, Eurípedes, Oduvaldo Viana Filho, o adorável Vianinha, Ibsen, esse povo todo. Depois parei. Não sei o motivo exato. Deve ter sido por fadiga do material humano.

Uma época, eu só bebia Campari, outra, só Rum, mas era quando eu já tinha escapado dos quatro anos como portador de uma irreparável liseira. Teve um período também que fumei um cigarro chamado Belmonte, mas percebi que morreria antes dos 40, cortei o barato. O troço era forte pacas, e meus pulmões não são essa coisa toda.

De 1987 a 1994, praticamente não brinquei Carnaval, e fui pouquíssimas vezes ao Arruda. Eu era meio retardado mesmo. Morei em São Paulo de 1994 a 2000 e não sabia cantar o hino de Ceroulas. Me perdoem, todo mundo tem seus problemas.

Depois, fiquei obsessivo com viagens e comecei a conhecer o mundo. Cheguei a 15 países, mas acho pouquíssimo. Meu sonho é trabalhar para guias de turismo, apesar de detestar guias de turismo.

Teve um dia que cheguei a Budapeste, na Hungria, e pensava ir até a Romênia, mas fui salvo por um romeno vegetariano esquisitíssimo, dono de um albergue, que me alertou para não ir, porque a neve estava cobrindo pessoas de um metro de altura – crianças e anões. Não fui, mas fiz um bife assado na cozinha do albergue, e o cara quase teve um ataque de pânico. Recebi pragas por trinta gerações, porque é feio comer carne de animal, mas ele nunca reclamou com as piranhas.

Na adolescência, achei que seria maratonista, e corria todas as manhãs com o Neto, meu amigo de Fortaleza até hoje. Corríamos feito loucos, e encontramos um coroa que era treinador, mais louco ainda. Essa febre durou uns dois anos. Todo dia de manhã, eu estava pronto para ir às Olimpíadas com o Neto, que seguiu a carreira, mas só corre meia maratona. Nunca ganhei nada, em esporte algum, a não ser a melhor arrancada no revezamento 4 x 100, no estilo crown, mas nosso último atleta fracassou de forma canhestra, e saímos da primeira posição para a última numa fração de segundos. Esqueci o nome daquele infeliz. Ah, ganhei uma medalha pelo primeito katar, no Karatê, mas foi um negócio esquisito, porque baixou um santo em mim. Não passei da faixa laranja. Kiá!

O medo de altura me acompanha há décadas. Não suporto esta invenção absurda, chamada Roda Gigante. Merece cadeia o autor dos elevadores panorâmicos, que me levam ao desespero. Jogo pragas aos responsáveis por edifícios com mais de quatro andares. Tenho também medo de aranha caranguejeira e cobra venenosa. Nisso eu sou normal, creio, porque até o mais ninja dos homens se pela com uma aranhazona cheia de pelos.

Hoje passei defronte à sede da antiga Livro 7, e agora funciona uma Assembléia de Deus. Quase soltei um puta que o pariu, mas é feio a gente falar palavrão em via pública.

Meu grande projeto agora é criar uma biblioteca comunitária no Poço da Panela e plantar um pé de flamboyant na casa da minha tia, no Cabo.

E pela primeira vez, em 21 anos, passarei o meu aniversário com minha família, em Fortaleza, para onde viajarei logo mais.

Não sei de onde surgiu isso, mas apareceu uma frase para a crônica sem rumo de hoje:

Não adianta ornamentar as saudades com flores velhas.

E la nave va.

Postado em Crônicas | 12 Comentários »

12 Comentários

  1. Tato Disse:

    Tá. Queria ter tido a idéia de escrever isso. :P

    Perfeito, velho!

  2. tell Disse:

    é um biografia, digamos, interessante…

  3. Fabiana Disse:

    muitos feitos, você tem! o melhor de todos é dividi-los com a gente! ri muito dos esquisitos e esquisitices da sua vida! feliz aniversário e sucesso sempre!

  4. Telma Disse:

    Eita ! Viajei junto com estes escritos.
    Feliz aniversário!

  5. carolina Disse:

    nossa senhora. passei um tempo sem entrar aqui… e que surpresa boa, como o site tá lindo, lindo. que imagem maravilhosa.

  6. Luisa Disse:

    Passei por aqui e gostei do que fui lendo…
    Espero voltar!

  7. Els Amorim Disse:

    Sama, passei por aqui para ver seu novo blog, tá lindo viu!! Um abraço.

  8. André Tricolor Virtual Disse:

    Caramba “Sama” e se vc disse que diante da falta absoluta de assunto neste meu blog novo, vc consegue escrever essa ‘micro biografia’ espetacular, então seria verdade que seus relatos mais inspirados devem expressar a vontade de viver nas pessoas!

    Um abraço meu amigo e FELICIDADES !!!!!

  9. Claudia Disse:

    Samarone,

    Felicidades!!!
    Feliz Aniversário!!!

    Abracos,
    Claudia

  10. Arabela Disse:

    Ficou lindo o espaço. Combinando com os textos. Parabéns. beijos.

  11. Bianca Disse:

    Um regalo!!Parabéns pra tu!!!

    “Poema da Pimenta Verde”

    Quando tudo está regularmente certo
    E a jabuticabeira já deu jabuticaba
    Preta, preta,
    doce por dentro
    dura do lado que se mostra
    Venho lhe falar

    Não se preocupe com o amanhã
    Se lhe amarem,
    se lhe beijarem o pescoço,
    até que seu sentimento se expanda
    e que você tenha um surto de prazer durante o dia
    e uma palpitação de desejo quando for de noite,
    ainda assim, haverá o amanhã.

    Se deixarem de lhe amar
    enfiando-lhe pimenta verde nos seus olhos puros
    e que você tenha o ímpeto de besta a atacar seu par,
    Preocupe-se em colocar apenas um passo à frente do outro

    Igual à jabuticabeira
    Irá a sua vida
    Preta, doce, dura,
    Mas como a pimenta verde,
    Lhe vingará.

    (CECÍLIA FIGUEIREDO)

  12. Zezinho Pindaíba Disse:

    kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk

    Muito engraçado, adorei a parte que você fala do seu medo de altura e de e de aranha.heheheheheheh

    Seu blog é muito gostoso de se ler, dá vontade de ficar lendo mais e mais…

    Vlw abraçosss

Conversinhas

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