Crônicas das coisas mínimas e desnecessárias | Por Samarone Lima

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24 de abril de 2008, às 9:13h por Dimas Lins

Espaço para crônicas das coisas mínimas e desnecessárias. É o lugar de encontro do mar com o rio, uma das regiões mais férteis do planeta. Salgado e doce se misturam, como o suor e a saliva. É a desembocadura de um rio, que pode ser muito bem o Capibaribe, que atravessa o Recife, cidade onde vive o autor dos textos.

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Mudanças no Estuário

23 de abril de 2008, às 9:56h por Samarone Lima

Lembro que abri o blog Estuário após uma caminhada com Iramarai, depois de sair do JC On Line.

De lá pra cá, escrevi centenas de textos, sempre no mundo das crônicas. Viagens, coisas do Recife, da vida, enfim.

Agora, vou dando um passinho a mais. Com a ajuda de meu amigo Dimas Lins, recebo de presente a página www.estuario.com.br

Amanhã, o novo espaço entra no ar, substituindo o blog.

Nos encontraremos por lá.

Samarone Lima

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Acasos, circunstâncias e cartas

17 de abril de 2008, às 12:05h por Samarone Lima

Esses acasos e circunstâncias são grandes presentes da vida, e acolho como um abraço de um velho amigo, que não vejo há tempos.

Por esses dias, arrumando as muitas caixas de livros e fotografias, esbarrei em um lote imenso de papeis amarelados. Parei a arrumação, o objetivo de deixar as estantes no ponto, e fui revê-las. Foi um mergulho em mim mesmo, que durou o restante da tarde, entrou pela noite, e os livros ficaram na desordem de sempre.

Descobri que até 2002, recebi cartas com rara frequência, e sempre respondi. Como saí de casa em 1987, e desde esta época escrevia para amigos e família, tive na minha vida uns 15 anos de correspondências, com pessoas as mais diversas. São memórias pungentes, que chegavam em diversos tipos de envelopes, cores. Tê-las por perto é quase um segundo diário.

Por onde andará o velho e impagável Guilherme Salgado Rocha, meu companheiro de redação no jornal “O São Paulo”, da Cúria Metropolitana de São Paulo? É um sujeito grande como um urso, feroz em suas paixões, capaz de falar duas horas initerruptas sobre o Botafogo, sua grande paixão, com lágrimas nos olhos. Olhei algumas de suas cartas, divertidíssimas, longas. Certa vez, eu estava na França, ele me mandou uma enorme carta. Metade falava do desempenho do Botafogo no Campeonato Brasileiro de 1995.

Ao final da carta, ele mando a pergunta fatal:

“Você tem dado vexame aí, meu?”

Não lembro se dei vexame, creio que sim, Luzilá é quem pode responder melhor, porque foi a santa amiga que me acolheu, ali no quinziéme.

Ah, a carta é uma preciosidade que ainda teimo em manter. Alguns poucos amigos ainda sustentam esta paixão, devorada pela febre dos email, Orkut, enfim.

Mexo os papéis, encontro uma carta de Betânia Santana, minha adorável amiga dos bons tempos do Diário de Pernambuco, entre 1992 e 1994. Quando me mandei para Sampa, ela mandou algumas cartas que estava quietinhas, adormecidas.

Vejo uma de 29 de junho de 1994. É uma preciosidade. Está escrita a máquina mesmo, de datilografia, no papel timbrado do Diário, onde escrevíamos as matérias. É a famosa “lauda” jornalística, com 20 linhas contadas. Meu Deus, quantas matérias escrevi, utilizando aquelas folhas amarronzadas! Na época, a Luiza, filha da Andréia, fez um ano. Uma frase me chamou atenção: “O inesquecível não precisa ser muito longo”.

Ao final da carta, um PS:

“Carta feita ás vésperas do Dia dos Namorados, durante plantão no Diário, ouvindo Altemar Dutra, no gravador de Zé Maria, que manda um grande abraço”.

Então, lembro imediatamente do velho e bom Zé Maria Garcia, com sua eterna cabeça branca, os dedos amarelados de cigarro, que me apresentou ao mundo boêmio da Cristal, o ponto de encontro dos malandros do Diário e do Jornal do Commercio.

No amontoado das cartas, há coisas engraçadas. Enconteri uma carta que escrevi para Marquinhos e Stella, duas adoráveis criaturas, que moravam na Holanda. Separei duas longar reportagens publicadas no Jornal do Brasil, em fevereiro de 1999. Numa delas, o tradutor Pedro Sussekind falava da nova tradução do Hans Staden, o relato do soldado alemão que percorreu a costa brasileira, entre 1548 e 1555. “O Brasil de Staden foi inspiração para o movimento modernista e até hoje não recebe a devida atenção nos curriculos escolares”, diz o texto.

Ontem mesmo, arrependido por não ter mandado a carta, fui à agência do Cabo e postei a carta, com um bilhetinho. Foi mal, amigos, desculpem o atraso de quase dez anos para mandar a cartinha. Ando meio lento ultimamente.

Tenho um bom lote de cartas do Gustavo, meu dileto amigo. Por elas, dá para ver a sustentação perpétua da verdadeira amizade. Quando ele estava ruim das pernas, minhas poucas linhas ajudavam em algo. Muitas vezes, recebi um “força, irmão”, que ajudou muito, sempre utilizando a “Carta Social”, que custa 1 centavo (R$ 0,01).

Leio, em janeiro de 2001, um informe importante:

“Acabo de comprar a trinta contos esta Olivetti semi nova, com ela tentarei pelo menos ser mais claro, já que aquela minha letra miúda fazia-te mais cego”.

Um trecho certamente me deu alguma esperança a mais, naquele 2001 tão cheio de coisas boas e ruins:

“Tenho pensado bastante no que temos feito para modificar este mundo. Novamente me vem a mesma resposta: existirmos do jeito que existimos. Pacíficos, amorosos, abismos”.

Há uma carta da Camila Vinhas, amiga e vizinha em São Paulo. A carta foi entregue pessoalmente, sem os serviços dos Correios. Nunca mais reencontrei Camila, e espero que ela tenha mergulhado de vez no mundo da dança, deixando o jornalismo para segundo plano. Precisamos mais de artistas que de jornalistas.

Ah, termino por aqui. Comecei a tomar notas, reler coisas, e fui vendo filmes de minha vida. Poderia escrever muitos textos sobre este tesouro que tenho comigo comigo. Melhor mesmo ir lendo aos poucos, me deliciando, relembrando.

Cartas, para mim, representam um pequeno pedaço da humanidade que deixa a pressa de lado, busca um papel, uma caneta, uma máquina de datilografia, e escreve. É como uma meditação para um amigo, para alguém que se quer bem. Uma pequena oração.

Nada mais amoroso do que chegar em casa, e ver uma cartinha por debaixo da porta.

Lembra um bom abraço. Um abraço de rodoviária, às vésperas da chegada de uma pessoa que vem de muito longe, ou na hora fatal do embarque.

Nessa hora, nossos braços ficam imensos e acolhedores.

Para Betânia Santana, com saudades.

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A mãe da estrelinha

16 de abril de 2008, às 13:32h por Samarone Lima

Acompanho à distância este massacre midiático por conta de menina que morreu. Não tenho muito o que dizer. É um crime terrível, uma dor que não posso sequer imaginar, a da mãe.
Me chegou por email um texto delicadamente belo, de Fábio Lucas. Não o conheço, mas ele autorizou a publicação neste blog. Compartilho com meus leitores.
Por hoje, fiquemos com a ternura da mãe da menina que morreu.
A ternura, creio, ainda salva a humanidade.
Abraços,
Samarone
***
A Mãe da estrelinha
Fábio Lucas

“As tragédias familiares raramente provocam comoções coletivas. A comoção depende de quanto se propaga a onda trágica original, mas nem mesmo a mídia sabe como e por que um caso merece maior atenção que outro. A emotividade do público que vê a notícia repetida diariamente não é diferente da emoção sentida pelas famílias atingidas – o que varia é o grau com que o choque provocado pela mudança abrupta de realidade se dá.

Para os espectadores de uma barbaridade dissecada pela sociedade do espetáculo, trata-se de um abalo a distância – o que não diminui o caráter do abalo, embora eleve a noção comum de espetáculo, e portanto de algo que logo será consumido pela voracidade do olhar coletivo.

Seja qual for a escala social em que é transmitida a dor aguda da perda, e em que se atravessa o calvário do luto, sempre é surpreendente descobrir a força das pessoas mais próximas, quando o natural seria a rendição à fraqueza e ao esgotamento. Pois a perturbação que chega ao imaginário dos outros não é sequer comparável à ruína existencial dos que choram aquela perda dentro de si.

Ana Carolina Oliveira, mãe da menininha Isabella, em poucos dias de exposição na vitrine da emoção ampliada, conseguiu conquistar milhões de brasileiros pela serenidade diante da própria ruína. Como se a solidariedade gigantesca que recebeu – somente pela internet, centenas de milhares de mensagens – fosse robustecida ao seu encontro, proporcionando a formação de uma fantástica corrente de sentimento compartilhado.

Na energia impressionante de um sorriso que por todos os motivos não deveria estar ali, a voz macia de palavras de conforto para quem chorava com ela sem duvidar que a reconfortada devesse ser ela, e não o contrário, a lágrima da mãe fluía por olhos alheios, e o grito desesperado irrompia por outras gargantas.

A mãe de Isabella foi protagonista de gestos de lucidez absurda na condução do caos que sucedeu a tragédia, no meio da cacofonia vigente se ela estava ausente. Em nenhum momento apontou culpados, apesar de pedir justiça. O clamor popular que chegou às raias de incitar o linchamento dos suspeitos esbarrou em sua figura exemplarmente contida.

Em suas aparições, cada vez mais solicitadas, Ana Carolina Oliveira foi responsável pelo impacto de uma ternura de fonte improvável sobre olhos estupefatos e embrutecidos. Sem saber, sem desejar, derramava esperança sobre o mundo que não teria como retribuir aquilo que seria antes mais justo o mundo lhe dar. E o mundo pareceu mais digno por aquele deslocado merecimento.

A placidez estarrecedora, a extraordinária dedicação ao presente – como se não fosse um fardo permanecer, quase milagroso sorrir depois, como se o pior não estivesse sempre por vir – faz de pessoas como essa mãe, e tantas outras mães, pais, irmãos, esposos e esposas subitamente amputados em seu ser, verdadeiros segredos indevassáveis sobre a misteriosa graça de viver.

Graça que não se abate sequer diante do fato raso da morte, da mais odiosa e precoce subtração da vida. Para os coleguinhas de colégio, Isabella virou uma estrelinha. Para todos que se comoveram com a sua tragédia, que a luz da mãe da estrelinha não esmoreça, e possa seguir, apesar de tudo, na trilha de novos caminhos”.

*Jornalista e mestre em filosofia.
fabiolucas@uol.com.br

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Capito?

11 de abril de 2008, às 5:54h por Samarone Lima

Sigo meu périplo em Salvador. Estamos bem longe de casa (eu e meu compadre Gustavo), quando ele resolve pegar um táxi, idéia que me deixa deveras preocupado, em cidades que desconheço a geografia e manhas.

Um camarada de cara boa nos recebe. Lá pelas tantas, Gustavo pergunta se ele, o taxista, sabe de uma casa para 15 pessoas, para passar uma semana em Salvador, nos idos de maio.

A simples pergunta tira nosso piloto do eixo. Ele pega o celular, liga para alguem, esquecendo completamente de que está no caótico trânsito da capital. O cara do outro lado antende, nosso amigo dá um berro:

“Liga pra mim, que estou sem crédito!”

Segundos depois, liga alguém. É seu amigo Paolo, dono de uma pousada em Salvador. Sinais vermelhos, velhinhas atravessando as ruas, faixas de pedestre são esquecidos. Antes que alguém morra, o telefone é passado para Gustavo, que acerta inicialmente algo por R$ 30,00. Adolfo, o taxista, diz que a pousada é maravilhosa, dá para ver a Baia de Todos os Santos, essas coisas.

Daqui a pouco, o telefone de Adolfo toca. Estou com dupla sorte. Gustavo vai pagar o táxi, e o taxista é o personagem do dia.

“Capito!”, diz, falando bem alto.

Silêncio.

“Va bene. Espeto tu lá no aeroporto”.

Silêncio.

“Capito! Ma tu número es confidencial, capito?”

Silêncio.

“Capito. Mañana espeto tu lá no aeroporto, a las três de la tarde”.

Depois de mais uns três capito, barbeiragens de todo tipo. Adolfo desliga o telefone.

“Esse italiano está é bêbado. É a terceira vez que me liga”.

“E tu aprendesse a falar italiano fluente onde?”, pergunto.

“Por ai, levando a turistada. Aqui em Salvador, o que não falta é italiano. Também pudera. Tem sol, comida é farta, mulher bonita, todo dia tem festa…”

Faço a pergunta básica de qualquer aproximação entre homens do planeta.

“O amigo torce por qual time?”

“Pelo Bahêa, claro”, responde, estufando peito.

O time dele enfrenta os mesmos problemas existenciais que o meu. Uma série de gestões desastradas, que levaram os respectivos times ao fundo do poço. A diferença é que aqui, o presidente é o mesmo, há muitos anos.

“E aqueles desgraçados que estavam na diretoria, já saíram?”

“É difícil, mas aquele Paulo Maracajá um dia morre. O ACM não morreu? Um dia ele morre, e o time volta a ser da torcida.”

Súbito, uma mulher faz uma puta barbeirada.

“Parece que é sergipana!”, esbraveja nosso taxista.

Ele olha para os lados e pergunta se algum de nós é sergipano.

“Sou de Aracaju, amigo, mas não tem problema. Lá, quando alguém faz uma merda no trânsito, dizemos que a pessoa fez uma baianada”.

Nós damos umas boas gargalhadas.

“Não fumei nada hoje”, diz Gustavo, se referindo ao seu inconfundível cachimbo.

O taxista pega o mote e emenda, de primeira.

“Olhe, tenho um fininho aqui, um fininho de presídio, mas dá para o gasto”.

Puxa um baseado de algum lugar secreto.

“Faz parte do pacote?”, pergunto.

“Não, não”, responde agoniado, temendo perder metade do baseado com aquelas duas figuras esquisitas.

“Ainda bem que vocês me lembraram. Vou fumar esse daqui a pouco, antes de pegar um cliente chato pra caralho”.

Estamos chegando ao nosso destino.

“O cara é muito chato, e para suportar aquele chatice, só fumando um baseado”.

Descemos, Gustavo paga a conta e vamos caminhando, para tomar uma cerveja na Ondina, ou Pituba, ou Rio Vermelho.

A vida segue.

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