Crônicas das coisas mínimas e desnecessárias

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400 crônicas e nada de mudar o nosso belo quadro social

30 de maio de 2008, às 23:15h por Samarone Lima

Amigos leitores, fui olhar no índice criado pelo Dimas Lins para Estuário, e tomei um susto: com essa de hoje, completo 400 crônicas publicadas na Internet. Resumindo, é muita falta do que fazer.

Pareceu um prelúdio. Na quarta à noite, fui conversar com os alunos de Adriana Dória, na Unicap, sobre um tema que me agrada muito - a crônica. Tentei tocar a minha bola, mas não sei se a turma curtiu muito. Acho que só consegui fazer umas tabelinhas na metade do segundo tempo.A sala estava um gelo, mas era o ar-condicionado. Pra variar, esqueci de levar uns livros para vender, e ainda prometi doar um para sorteio. Autor-bobo.

Descubro tardiamente que minha contribuição para a mudança de nosso belo quadro social é quase nula. Continuo achando que andar de ônibus é mais interessante que ficar esculhambando os engarrafamentos e andar sozinho dentro de um carro, apesar de terem fodido com a Conde da Boa Vista, nossa principal artéria. Continuo achando que podemos usar livros e bibliotecas para lutar contra a criminalidade, mas ninguém acha isso interessante. Sonho com uma cidade cheia de lindas bibliotecas, mas é melhor construir academias, para todo mundo ter onde caminhar.

Continuo colecionando frases e trechos de livros, com a velha promessa de um dia publicar.

“Sê humilde porque foste feito de esterco. Sê nobre porque foste feito de estrelas”. (Provérbio Sérvio)

“Dona Nice, com esse remédio que ele está tomando, ele não pode nem olhar para placa de bebida, nem nome de cerveja ele pode ver” (No bar Princesa Isabel)

“Os verdadeiros poemas são incêndios” (Vicente Huidobro, poeta chileno)

Ando cada vez mais preguiçoso para ir ao cinema, porque todos os cinemas são muito distantes de tudo, e acho caríssimo o ingresso. Registro minha saudade brutal do Cinema São Luís.

Uma frase que tem me ensinado a ser mais humilde é do Pascal Bruckner, no livro “A euforia perpétua”:

“Amo demais a vida para querer apenas ser feliz!”

Tenham todos um bom dia ou boa noite, meus cativos leitores, mas vamos e convenhamos: as novelas da Globo estão cada vez piores.

Melhor dançar um tango argentino.

ps. Aviso a Karina, Walmir “Mangaba”, Roger e outros mais afortunados, como Ivanzinho, que espero todos no Princesa Isabel, na próxima terça-feira, ao crepúsculo. Distraídos venceremos, mas um empate não haverá de ser tão ruim assim.

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Nunca confesse sua preguiça

26 de maio de 2008, às 14:44h por Samarone Lima

Fui inventar de falar da minha preguiça monumental, aproveitando um texto publicado na época do JC On Line e deu errado de novo. Naquela época, acabei arranjando um emprego de professor de literatura para jovens de 16 a 19 anos, um trabalho lindo, que durou um ano e meio. Até hoje, me alegro sabendo da caminhada dessas criaturas que fizeram minha vida mais bonita - espero que a deles também, entre os contos das Mil e Uma Noites, poetas, maravilhas da literatura mundial.

Pois bem. Bastou a crônica sobre a preguiça, para surgir trabalho de tudo que é canto. Uma palestra na Católica sobre o livro Clamor, outra palestra na Católica sobre “jornalismo e cidadania”, e outra palestra na Católica sobre crônicas. Não refuguei nenhuma. Além disso, uma viagem para Arcoverde, e uma entrevista para uma estudante de Jornalismo (da Católica, claro), que mora aqui no Cabo também. Ah, uma viagem para Salvador, para participar do “Projeto Lanterninha”. Para completar, uma reportagem sobre bibliotecas comunitárias, para a revista Continente Multicultural.

Chegou agora uma “Cartilha da Atenção Primária”, para revisar, e um “Protocolo Operacional”, que vou mudar para “Cartilha de Funcionamento”. Terei que editar um vídeo sobre o Mãe Coruja Pernambucana, com o Daniel.

Ou seja: dá errado a confissão da preguiça em praça pública. Forças conspiratórias se reúnem, na moita, e enchem o camarada de trabalho. Amigo leitor, vai uma sugestão - nunca confesse sua preguiça.

Aqui vai uma confissão da menor importância - pela quarta ou quinta vez na vida, consegui um acerto com meu patrão - aliás, patroa - , e vou poder trabalhar em casa. Isso é o sonho para qualquer pessoa que se candidata ao posto de escritor, que é o meu caso. Esse negócio de trabalhar muitas horas por dia em outra coisa, que esteja fora do mundo da prosa (ou da poesia) tira o sujeito de tempo. Um camarada muito ocupado não tem tempo de reparar nas besteiras, que rendem as crônicas mais razoáveis, nem pode ficar de bobeira em bancos de praças ou botecos, onde surgem os melhores personagens.

Consegui ficar mais comigo em momentos decisivos da minha humanidade: quando pedi demissão da Veja, quando ganhei uma bolsa da Fundação Ford, quando saí da Católica e quando fiz uns trabalhos para o Unicef. Em todos os casos, juntei uma boa grana e fiquei dono do meu tempo. Teve uma época que fiquei escrevendo relatos pornô em casa, enquanto terminava o mestrado. Era trabalho e vagabundagem em doses iguais. Nunca fui tanto para o cinema na minha vida. O problema é que um dia, o dinheiro acaba, e essa vida de fulozô também finda.

Estou no Cabo, nesta tarde de segunda-feira. O telefone tocou e atendi. Era meu irmão, que mora em Minas. Ele teve até um susto quando escutou minha voz, porque dificilmente atendo o telefone, muito menos segunda-feira, à tarde.

Minha fama de farrapeiro continua seguindo em alta. Perdi o aniversário do Ivanzinho no sábado. Ano que vem tem mais. Parabéns, donzelo.

Fico por aqui.

Melhor olhar o Turbante da Naire (www.turbantedanaire.blogspot.com) ou escutar um tango argentino, já que o Gustavo ficou com meu CD do Rufus Wainwright. Em compensação, dei um rapa nos livros dele. Trouxe uma caixa de livros de Brasília. Quem não tem cão, caça as palavras com gato.

Vou ali, preparar meu chimarrão e pensar numa crônica boa. Me aguardem, mas sem pressa.

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Louvação à preguiça

21 de maio de 2008, às 21:57h por Samarone Lima

Pintura: The Cello Player, Amedeo Modigliani

Ah, quanta preguiça hoje, deus do céu. Vontade de não fazer nada, absolutamente nada. Somente olhar a paisagem e ficar à deriva. Sim, ficar à deriva, sem nenhum plano, nenhum desafio, nenhuma dificuldade ou desesperança, nenhuma agenda por cumprir.

Não atender aos telefonemas que, por certo, chegarão. Não ligar o computador, não dar vez ao windows, outlook express, não ter curiosidade alguma pelas coisas do mundo. No máximo, escrever uma longa e saborosa carta para alguém que não vejo há tempos, como o Josmar Josino, meu velho amigo de combates jornalísticos, e de copos, em São Paulo. Não, não, meu velho, a carta fica para amanhã, me perdoe a falta de pressa.

Hoje, somente a preguiça, o desejo intenso de não ser produtivo, de não render para o mundo. Cancelar a ida a qualquer lugar mais distante que um quarteirão, encontros sérios, qualquer discussão importante sobre algum mal que aflige a humanidade, o Brasil, o Recife, o Cabo de Santo Agostinho. Deixar para amanhã a crônica de hoje, já que veio o Corpus Christie. Meus poucos e cativos leitores não me parecem pessoas apressadas. Deixar para amanhã também algum esforço maior do que o gesto ancestral de deitar na rede e escutar aqueles gemidos no armador, que remontam à infância mais remota. Nheeec, nheeec, nheeec…

Sim, o sagrado direito à lassidão, à moleza, à ruminação bovina. Vontade de sossego profundo. Um dia de poucas palavras, poucos encontros, poucos gestos. Uma rede. Daí-me senhor, este direito ao cochilo d’alma, a generosidade da preguiça, o vadiar interior, a falta de objetivos, planos. Apenas seguir, acreditar na força de deixar-me à deriva, como aqueles barcos sem motor, sem leme, sem remos.

Olhar todas as coisas com olhos lassos. Invejar somente a tartaruga que não crio e o caramujo que passou outro dia. Ser esta tartaruga. Sentir harmonia com a lentidão de alguns animais. Ser hoje de pequenos gestos, sem intenção nenhuma, a não ser respirar e sentir paz.

Amanhã farei as coisas da vida, cumprirei as obrigações. Terminar de organizar o curriculum para um projeto, que certamente não mandarei. Reler os manuscritos sobre a viagem de Cuba, que não lerei. Organizar os livros do meu pequeno ateliê. Encontrar amigos que não vejo há tempos, como João Denys, Marcus Galindo, Valzinho. Ir ao Mercado da Madalena, da Boa Vista, da Encruzilhada.

Mas hoje não. Hoje me consola esta vontade de silêncio e recolhimento. Louvo o sossego, a preguiça, a falta de ideais estéticos, de ambição profissional. Hoje, não lerei jornais, não ligarei a TV. Não quero saber como anda a novela da menina que morreu, não quero ver a polícia subindo os morros do Rio, matando gente em escala industrial, todos em trocas de tiros, todos tornados bandidos. Terremotos, furacões, congestionamentos, Obama… Ah, saiam para lá.

Hoje, cuidarei dos meus olhos, dos meus ouvidos. Escutarei novamente os noturnos de Chopin, já que me escapou o Bem Harper em Brrasília. Olharei mais as pinturas de Amedeo Modigliani, minha nova descoberta, da coleção “Gênios da Pintura”. Está escrito sobre ele - “A dor como destino, e a vida como prêmio. A pintura como poesia e o humano como amor”. Por hoje, Isso me basta.

Com um pouco de sorte, haverá de chover. Me darei de presente um olhar mais contemplativo. Falarei menos. Não darei conselho a ninguém. Não discutirei política, economia, religião, futebol. Escutarei e concordarei com todos os partidos, todas as moedas, os juros, o excesso de carros, de mau-gosto, os credos todos. Farei um esforço para não achar que querem acabar para sempre com o meu Santa Cruz tão lindo.

Uma tartaruga. Sim, minha pressa hoje é a de uma tartaruga ou um caramujo. Meu ideal de beleza hoje é um animal que não crio, mas sei que existe.

A vida segue. E quero que siga assim, mais devagar, serena. Um piano que existe na casa de Luzilá, e que ela tocou uma vez, e não esqueci. Era uma melodia calma e doce, perfeita para hoje, este dia sem grandes intenções. Um adágio, creio. Ficarei com meu Dom Quixote, perambulando. Depois, singrarei para o velho Porchia, ou para o Roberto Juarroz. Quem sabe o velho Guelman.

Por fim, dormirei. Por favor, não me acordem, nem mandem recados. Chamem o vizinho.

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O jardineiro

16 de maio de 2008, às 9:46h por Samarone Lima

Estou no primeiro andar, o restaurante de luxo do hotel de luxo onde me hospedaram. Tomo o café da manhã e gosto de ficar junto da janela, olhando pelo vidro transparente, o movimento da vida lá fora. Às 8h21, há milhares de carros circulando pelas largas avenidas de Brasília. Como em todas as grandes cidades, os carros vão se tornando um fenômeno devastador, enormes gafanhotos que devoram tudo. São milhares, que se acumulam, se atrapalham, doem na vista. Acho engraçado esse negócio do aquecimento global. Para mim, o mundo vai se acabar mesmo é por excesso de carro, de consumo desenfreado, falta de sensibilidade e paciência com os outros.

Fico olhando tudo com minha vesguice da alma. O clima do restaurante é ameno, graças ao ar-condicionado central. Nem calor, nem frio. O fundo musical é de blues, algo suave, com uma voz macia, de uma norte-americana que não lembro o nome, talvez Norah Jones. Do outro lado da rua, lá fora, centenas de operários levantam mais um prédio, dos muitos que sobem rumo ao céu de Brasília.

Então olho para baixo. Vejo um senhor, de uns quarenta e poucos anos, fazendo uma poda no jardim do hotel. Ele usa uma tesoura grande, vai pegando as pequenas árvores, com folhas espetadas e desarrumadas como meus cabelos, e vai dando uma forma arredondada, harmônica. Ele harmoniza a natureza. Vai fazendo isso com paciência, diligência, cuidado. Ali, só tem ele e aquele trabalho. Não sei se ele gosta do que faz, sei que faz bem, com eficiência e paciência, com movimentos sóbrios e atentos.

Olho para a mesa ao lado. Tem um negão alto (ôps, afro-descendente), de paletó, comendo um baita prato e conversando com uma loira de norte a sul do corpo. Acho que até as unhas dela são loiras. Eles falam em inglês, não tenho muita paciência com o inglês. Nas mesas correlatas (gostei dessa), mais gente de paletó, comendo tudo que a culinária matinal brasileira oferece, exceto o famoso cuscuz. O menor PIB, disparado, é o meu. Aproveito para ir guardando garrafinhas de água com gás na minha bolsa, porque no frigobar do quarto, cada uma custa R$ 4,50.

Volto ao jardineiro. Ele já fez a poda em quatro árvores, segue firme: plec, plec, plec. Vai dando forma ao que estava desarrumado. Não olha para os lados, não fuma, é bem capaz de não beber. Fico olhando, até que dá a hora de ir para o seminário que estou participando. Um italiano falou sobre as benesses dos banhos termais, mostrou fotos. Um chinês dissertou em mandarim sobre a importância da acupuntura. Um mexicano, o mais simpático, mostrou as iniciativas de saúde alternativa no seu país.

Volto para o almoço. Almoço tarde, para evitar as mesas cheias. São 14h15, a coisa mais simples que tem é penne com molho de espinafre, fora o peixe com alcaparras, e as saladas e os temperos, azeites, essas coisas. As sobremesas arrasam qualquer regime, mas não sou muito de sobremesas.

Boto o prato no mesmo canto, procuro meu jardineiro. Ele está dez metros à frente, com outro instrumento. Escava o chão com diligência, precisão, e coloca algo. Está plantando alguma beleza no mundo. Olho as podas da manhã. Ele deixou perfeitas e arredondadas, 16 árvores tamanho médio, em crescimento, somente na parte da manhã. Segue do mesmo jeito, concentrado, cumprindo sua missão.

Vou pegar mais salada, e quando volto, ele não está. Fico buscando o jardineiro fiel, ele deve ter ido tomar um café, foi fumar um cigarro, beber água. Como devagar, pego sobremesa, porque não é todo dia que topo com essas coisas, olho para o povo das mesas ao lado, muito terno, muita gravata, a música agora é bossa nova. Como é meu último almoço, acho que vai ser a despedida do meu amigo das plantas.

Pego mais uma água mineral, boto na bolsa, e quando vou saindo, vejo meu cumpadre. Está agora com um ciscador, arrumando algo que capinou minutos antes. Espero ele dar uma olhada, para dizer “até logo, camarada”, mas ele é um homem muito concentrado, e além de tudo, está longe. Essas pequenas criaturas, na surdina, quietas, silenciosas, me interessam muito. Ainda escreverei um pequeno tratado das grandes criaturas.

Vou terminando minha estadia de três dias num hotel de luxo, em Brasília. Ao meio-dia, encerra a minha diária, e terei que procurar outra paisagem. Aqui, não dá para o meu bico (R$ 224,00 a diária). O recepcionista me disse há pouco que terei que sair ao meio dia mesmo, porque o hotel vai ser ocupado por uma delegação do PT.

Sinal dos tempos.

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Anotações inúteis de um viajante crônico

13 de maio de 2008, às 12:18h por Samarone Lima

Hoje, especialmente, o cronista escreve diretamente de Brasilia-DF.

A turma agora vive me convidando para as coisas, e não vou ficar reclamando. Estou em Brasília-DF, para um simpósio internacional. Recebi passagem e hospedagem até sexta-feira. Saravá. Vai mais uma crônica de viagem, porque sou um viajante crônico, perdão pelo trocadilho infame, mas como o nobre Marsicano (e seu imperdível livro “Crônicas Marsicanas”), o sujeito pode perder até a vida, menos um trocadilho.

Pois bem. Começo a viagem me irritando com a Gol. Estou na fila, com a mochila, o computador, e uma bolsinha menor, o rapaz da empresa vem todo zeloso, diz que não preciso pegar a fila normal, porque tenho pouco peso. Me indica uma filinha minúscula, com dois raquíticos rapazes. Entrego os documentos, peso as bolsas, e o gordinho que atende fica irritado comigo, porque estou com “três volumes”. Explico com paciência que foi o colega dele quem me tirou da fila normal, mas ele fica obtuso, com aquela cara de mal amado.

Fico por ali, vou tomar um cafezinho com pão de queijo: 5 mangos. Levei um Polenguinho, botei no pão de queijo, estava me deliciando, quando escutei uma voz ao lado:

“És filósofo, músico ou professor?”

“Professor”, respondi.

A mulher estava meio chapada, ao lado da filha entediada. Se levantou, começou a falar do filho que era muito lento, e por isso estava ainda na sexta série, com 18 anos (bota lentidão nisso), disse que a filha estava com leucemia, e que tinha acabado de lançar (a mãe), um livro. Me deu um de presente. Se intitula “A preguiça e o menino lento” (acompanha CD), que deve ser a história do filho. Está num envelope, que vem acompanhado de um boneco horrível, sentado numa privada. Foi editado pela Livro Rápido, do Tarcisio.

“Já tomei todas”, diz, e concordo pelo bafo.

Vou me organizando, para ir embora, ela diz que a filha está “um porre”, e antes de entrar no elevador, diz simpaticamente:

“Tomara que o piloto erre o caminho e a gente caia no mar!”

A mulher se chama Fátima. Por sorte não estava no meu vôo.

No embarque, a primeira baixa. A maquininha que faz “piiii” detectou meu super-canivete “007″, comprado na feira do Cabo. Foi devidamente confiscado pelas autoridades. Na volta, compro outro. Custa R$ 5,00 e é uma belezoca, me acompanhou em toda a viagem para Cuba.

No meu vôo, a certeza de sempre: que o avião não vai conseguir decolar, e se conseguir, vai se espatifar no chão, quando pousar. A única hora que não tenho medo é quando ele está lá em cima, e tudo parece tranquilo.

A aeromoça de voz anasalada (elas fazem um curso para anasalar a voz?) informa que as máscaras de oxigênio vão cair. Estou junto à porta de emergência, o lugar mais espaçoso e mais fácil de sair, em caso de alguma capotagem ou colisão. Tempo de vôo: 2h19. Daqui a pouco, informa tudo de novo, em inglês. Olho para tudo que é canto, não vejo um gringo. Pelas conversas, o avião está coalhado mesmo é de assessor parlamentar.

A Gol segue seu programa de emagrecimento dos passageiros. O café da manã foi um singelíssimo pacote de amendoim com uns cinco pedacinhos assados. Peso: 15 gramas. Veio também uma barra de cereal supimpa. Peso: 25 gramas (zero de gorduras trans). Peso total do café da manhã: 40 gramas. A eromoça disse que não tinha café porque “a Gol não serve bebida quente”. Mas é muita besteira mesmo. No final do ano, o dono da empresa vai arrotar que teve um lucro de não sei quantos bilhões. Também, com a turma passando fome a bordo! 

Tomei dois copos de água mineral. No segundo, vi que não estava agradando. Nada de fone de ouvido, cobertor, jornal, aquelas gracinhas de tempos remotos. Não posso reclamar, pagaram minha passagem, certo?

O passageiro ao lado leu o jornal, uma revista. Fiquei com meu Dom Quixote e “Muito longe de casa - memórias de um menino-soldado”, de Ishmael Beah. No final da viagem, ganhei a Época e o Diário de Pernambuco de presente. Do passageiro ao lado, claro.

Vamos chegando a Brasília e vejo uma cena memorável - uma avenida imensa, que dá umas cinco da Agamenom Magalhães, do Recife, parecendo uma Anaconda do Planalto Central, entupida de carros. Amigos, parece que todos os carros do globo terrestre estão aqui. Me deu um cansaço só de olhar.

Aterrisamos. Disseram que teria “traslado por conta do evento”, e eu detesto esta palavra, “traslado”. Não sei o que é, mas implico com algumas palavras. Essa mesma acho horrível. No saguão, nada de gente com meu nome na plaquinha, que seria o máximo. Meia hora depois, já numa conversa boa com meu ex-aluno Eduardo (que veio no mesmo vôo da fome), encontro um camarada de paletó, gravata, muito sério.

“O senhor Tamaroni?”

Corrijo só a primeira letra. Entramos numa Van, e meia hora depois, estou no hotel.

Amigos leitores, informo que o hotel é supimpa. Ganhei o 1903, incompatível com meu medo de altura. Por precaução, nem olhei o preço das diárias. Para entrar no apartamento, você usa uma tarjeta magnética. Os recepcionistas são excessivamente educados, o que estraga um pouco o atendimento, mas é a norma da casa. Quando a turma é educada em excesso, perde a naturalidade, fica um negócio frio, até bom-dia sai sem gosto.

Cheguei sozinho ao apartamento, meti a tarjeta, a porta não respondeu. Futuquei, cutuquei, fucei a porta, nada. Pobre é foda mesmo, foi o que pensei, nem entrar num quarto de hotel bom, o cara sabe. Tinha um telefone no corredor, acionei a recepção. Veio um rapaz voando com “uma nova chave”, que na verdade é uma tarjeta. Mostrei para ele como estava fazendo, e num passe de mágica, eu mesmo abri a porta. Ê, Pedro Bó…

O quarto é um espetáculo à parte. Tem três ambientes, tudo muito confortável, carpete, cortina limpa, central de ar-condicionado etc.  Tem três abajur (não sei o plural de abajur) só numa sala de leitura, Internet, frigobar. Tem uma TV me esperando ali com 60 canais. É hoje!

Olhei logo os preços: estou proibido de beber cerveja em lata e vinho (R$ 4,50 a latinha e R$ 9,50 a taça de vinho).

O banheiro é daqueles que a água sai forte e quente, e o cara mesmo é quem ajusta. Como dizem que se a gente gastar muita água o planeta vai derretendo e os pinguins morrem, meu banho de agora há pouco arrasou, por baixo, com a vida de uns três ou quatro pinguins. Perdão, manos, mas os meus banhos lá no Cabo são no chuveiro do quintal, com água corrente. Estou com crédito. Além disso, já plantei várias árvores e vivo matando os caramujos assassinos do jardim da minha tia.

Dez minutos de quarto novo, e um sujeito toca a campainha: pergunta se quero repor algo do frigobar. Tá com a gota!

Tem sauna e “fitness” no décimo segundo andar.

Mais dez minutos. Vem uma moça arrumar o quarto. Explico que sou desarrumado, mas ela não precisa pressa.

Olhei agorinha o preço do café da manhã completo: R$ 23,50. Corri para ver o material de convite do seminário. Alívo geral. Está escrito que tenho direito ao hotel e café da manhã. Ufa!

Da janela (ao longe), acabo de ver várias barraquinhas. A recepcionista disse que é uma feirinha de artesanato e comida mais popular.

Não sei que diabo é isso. Todo lugar que eu viajo, encontro logo uma versão popular do mercado de Casa Amarela. 

Aqui tudo é de primeira, mas o gmail, que é bom, não pega.

Vou dar umas voltas. Quem sabe não aparece uma boa história.

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