Hoje, especialmente, o cronista escreve diretamente de Brasilia-DF.
A turma agora vive me convidando para as coisas, e não vou ficar reclamando. Estou em Brasília-DF, para um simpósio internacional. Recebi passagem e hospedagem até sexta-feira. Saravá. Vai mais uma crônica de viagem, porque sou um viajante crônico, perdão pelo trocadilho infame, mas como o nobre Marsicano (e seu imperdível livro “Crônicas Marsicanas”), o sujeito pode perder até a vida, menos um trocadilho.
Pois bem. Começo a viagem me irritando com a Gol. Estou na fila, com a mochila, o computador, e uma bolsinha menor, o rapaz da empresa vem todo zeloso, diz que não preciso pegar a fila normal, porque tenho pouco peso. Me indica uma filinha minúscula, com dois raquíticos rapazes. Entrego os documentos, peso as bolsas, e o gordinho que atende fica irritado comigo, porque estou com “três volumes”. Explico com paciência que foi o colega dele quem me tirou da fila normal, mas ele fica obtuso, com aquela cara de mal amado.
Fico por ali, vou tomar um cafezinho com pão de queijo: 5 mangos. Levei um Polenguinho, botei no pão de queijo, estava me deliciando, quando escutei uma voz ao lado:
“És filósofo, músico ou professor?”
“Professor”, respondi.
A mulher estava meio chapada, ao lado da filha entediada. Se levantou, começou a falar do filho que era muito lento, e por isso estava ainda na sexta série, com 18 anos (bota lentidão nisso), disse que a filha estava com leucemia, e que tinha acabado de lançar (a mãe), um livro. Me deu um de presente. Se intitula “A preguiça e o menino lento” (acompanha CD), que deve ser a história do filho. Está num envelope, que vem acompanhado de um boneco horrível, sentado numa privada. Foi editado pela Livro Rápido, do Tarcisio.
“Já tomei todas”, diz, e concordo pelo bafo.
Vou me organizando, para ir embora, ela diz que a filha está “um porre”, e antes de entrar no elevador, diz simpaticamente:
“Tomara que o piloto erre o caminho e a gente caia no mar!”
A mulher se chama Fátima. Por sorte não estava no meu vôo.
No embarque, a primeira baixa. A maquininha que faz “piiii” detectou meu super-canivete “007″, comprado na feira do Cabo. Foi devidamente confiscado pelas autoridades. Na volta, compro outro. Custa R$ 5,00 e é uma belezoca, me acompanhou em toda a viagem para Cuba.
No meu vôo, a certeza de sempre: que o avião não vai conseguir decolar, e se conseguir, vai se espatifar no chão, quando pousar. A única hora que não tenho medo é quando ele está lá em cima, e tudo parece tranquilo.
A aeromoça de voz anasalada (elas fazem um curso para anasalar a voz?) informa que as máscaras de oxigênio vão cair. Estou junto à porta de emergência, o lugar mais espaçoso e mais fácil de sair, em caso de alguma capotagem ou colisão. Tempo de vôo: 2h19. Daqui a pouco, informa tudo de novo, em inglês. Olho para tudo que é canto, não vejo um gringo. Pelas conversas, o avião está coalhado mesmo é de assessor parlamentar.
A Gol segue seu programa de emagrecimento dos passageiros. O café da manã foi um singelíssimo pacote de amendoim com uns cinco pedacinhos assados. Peso: 15 gramas. Veio também uma barra de cereal supimpa. Peso: 25 gramas (zero de gorduras trans). Peso total do café da manhã: 40 gramas. A eromoça disse que não tinha café porque “a Gol não serve bebida quente”. Mas é muita besteira mesmo. No final do ano, o dono da empresa vai arrotar que teve um lucro de não sei quantos bilhões. Também, com a turma passando fome a bordo!
Tomei dois copos de água mineral. No segundo, vi que não estava agradando. Nada de fone de ouvido, cobertor, jornal, aquelas gracinhas de tempos remotos. Não posso reclamar, pagaram minha passagem, certo?
O passageiro ao lado leu o jornal, uma revista. Fiquei com meu Dom Quixote e “Muito longe de casa - memórias de um menino-soldado”, de Ishmael Beah. No final da viagem, ganhei a Época e o Diário de Pernambuco de presente. Do passageiro ao lado, claro.
Vamos chegando a Brasília e vejo uma cena memorável - uma avenida imensa, que dá umas cinco da Agamenom Magalhães, do Recife, parecendo uma Anaconda do Planalto Central, entupida de carros. Amigos, parece que todos os carros do globo terrestre estão aqui. Me deu um cansaço só de olhar.
Aterrisamos. Disseram que teria “traslado por conta do evento”, e eu detesto esta palavra, “traslado”. Não sei o que é, mas implico com algumas palavras. Essa mesma acho horrível. No saguão, nada de gente com meu nome na plaquinha, que seria o máximo. Meia hora depois, já numa conversa boa com meu ex-aluno Eduardo (que veio no mesmo vôo da fome), encontro um camarada de paletó, gravata, muito sério.
“O senhor Tamaroni?”
Corrijo só a primeira letra. Entramos numa Van, e meia hora depois, estou no hotel.
Amigos leitores, informo que o hotel é supimpa. Ganhei o 1903, incompatível com meu medo de altura. Por precaução, nem olhei o preço das diárias. Para entrar no apartamento, você usa uma tarjeta magnética. Os recepcionistas são excessivamente educados, o que estraga um pouco o atendimento, mas é a norma da casa. Quando a turma é educada em excesso, perde a naturalidade, fica um negócio frio, até bom-dia sai sem gosto.
Cheguei sozinho ao apartamento, meti a tarjeta, a porta não respondeu. Futuquei, cutuquei, fucei a porta, nada. Pobre é foda mesmo, foi o que pensei, nem entrar num quarto de hotel bom, o cara sabe. Tinha um telefone no corredor, acionei a recepção. Veio um rapaz voando com “uma nova chave”, que na verdade é uma tarjeta. Mostrei para ele como estava fazendo, e num passe de mágica, eu mesmo abri a porta. Ê, Pedro Bó…
O quarto é um espetáculo à parte. Tem três ambientes, tudo muito confortável, carpete, cortina limpa, central de ar-condicionado etc. Tem três abajur (não sei o plural de abajur) só numa sala de leitura, Internet, frigobar. Tem uma TV me esperando ali com 60 canais. É hoje!
Olhei logo os preços: estou proibido de beber cerveja em lata e vinho (R$ 4,50 a latinha e R$ 9,50 a taça de vinho).
O banheiro é daqueles que a água sai forte e quente, e o cara mesmo é quem ajusta. Como dizem que se a gente gastar muita água o planeta vai derretendo e os pinguins morrem, meu banho de agora há pouco arrasou, por baixo, com a vida de uns três ou quatro pinguins. Perdão, manos, mas os meus banhos lá no Cabo são no chuveiro do quintal, com água corrente. Estou com crédito. Além disso, já plantei várias árvores e vivo matando os caramujos assassinos do jardim da minha tia.
Dez minutos de quarto novo, e um sujeito toca a campainha: pergunta se quero repor algo do frigobar. Tá com a gota!
Tem sauna e “fitness” no décimo segundo andar.
Mais dez minutos. Vem uma moça arrumar o quarto. Explico que sou desarrumado, mas ela não precisa pressa.
Olhei agorinha o preço do café da manhã completo: R$ 23,50. Corri para ver o material de convite do seminário. Alívo geral. Está escrito que tenho direito ao hotel e café da manhã. Ufa!
Da janela (ao longe), acabo de ver várias barraquinhas. A recepcionista disse que é uma feirinha de artesanato e comida mais popular.
Não sei que diabo é isso. Todo lugar que eu viajo, encontro logo uma versão popular do mercado de Casa Amarela.
Aqui tudo é de primeira, mas o gmail, que é bom, não pega.
Vou dar umas voltas. Quem sabe não aparece uma boa história.