Cronista ambulante num Congresso de Saúde da Família
Samarone Lima
Não é fácil esta minha vida de cronista ambulante. Estou no meio de um Congresso Brasileiro de Medicina da Família, no Centro de Convenções, em Fortaleza. Vim por ossos do ofício, mas a vida da turma da saúde não é fácil: a inscrição custou mais de R$ 400,00. Mesmo assim, tem gente saindo pelo ladrão. A saúde do povo pode não estar essas coisas, mas tem muita gente querendo mostrar seus trabalhos.
Faço meu trabalho, fico por ali, mas não tenho a obrigação de assistir palestras, conferências, mesas-redondas ou ver os banners com coisas as mais diferentes, vindas de todo canto do país. Ontem, visitei longamente o stand que vende produtos para relaxamento. Uma cadeira que treme toda, e a gente quer dormir, um negócio que dá massagem nas costas, enquanto você escreve, fora uma bolinha que o cara faz massagem nele mesmo. Me inscrevi para ganhar um negócio num sorteio, mas de sorteio sou uma tragédia. Uma vez ganhei uma cafeteira e esqueci de ir buscar.
A qualidade geral dos trabalhos, na minha modesta opinião, é fraquíssima, e fiquei mais à vontade para confessar isso aos meus leitores após longas conversas com médicos, psicólogos e assistentes sociais que viajaram comigo. Todos estão meio enfadados como eu. Fui dar uma olhada há pouco nos banners, e o que mais tem é “avaliação”.
“Avaliação da capacidade funcional do idoso”;
“Avaliação do diabetes atendidos em PSF”;
“Avaliação da atenção ao diabético Mellittus tipo 2″;
“Avaliação cognitiva de idosos hipertensos utilizando o mini-exame do estado mental”.
Há também centenas de relatos de caso, abordando questões clássicas, como “anemia gestacional”, “análise de medicação”, enfim. Concorrem com os relatos de caso os “casos clínicos”, que, na minha modesta opinião, é uma coisa diferente da outra. Quem for da área, me ajude.
Há pouco achei um bom caso:
“Caso clínico: delirium no idoso desencadeado pelo uso do Captopril”;
Aos poucos idosos que lêem estas minhas crônicas, vai um aviso: cuidado com o consumo excessivo do Captopril!
Perdi a mesa-redonda com o frei Leonardo Boff, que falaria sobre a saúde da terra e a saúde dos homens. Me disseram que ele anda muito pessimista, alardeando que o mundo está se acabando, não sei se é verdade. Como não sou de ferro, encontrei-o à entrada do Centro de Convenções e tirei uma foto, junto com a turma que veio comigo. O frei pode estar pessimista, mas está novinho em folha. Uma bela barba branca e um sorrisão amigo. Fui perguntar se ele se lembrava que o entrevistei em 1993, para o Diário de Pernambuco, mas a sua assessora me deu um sonoro fora, dizendo que ele estava atrasado.
A turma circula muito, e há stands muito simpáticos, como o da “Os-ACSC”, “Semina”, bem como da “SBMFC”. Há pouco, fui conversar com o pessoal do “Médico Sem Fronteiras”. Breve, fundarei o movimento “Cronistas Sem Fronteiras”.
Quem pretende trabalhar na saúde (falo da turma jovem que insiste em ler meu blog), é bom ir se acostumando com as siglas. “Impacto da APS/SF/MFC nos sistemas de saúde: relato de experiências”.
Painel sensacional: “LER/DORT”.
Na sala 04, perdi um painel enigmático: “AVC e AIT”.
Participar de congressos é um aprendizado ímpar, e espero aproveitar até amanhã, para adquirir novos conhecimentos. Já estou craque em Hanseníase, Tuberculose, mas não vi nada de trombose, o que me preocupou deveras. Já sei como abordar as pessoas com transtornos psicóticos e com problemas menores, como diarréia. Ninguém falou da tosse braba, nem do pigarro, ou dos prejuízos psicológicos das crianças impedidas de mijar na cama. Necas de pitipiriba sobre a questão do calo, da falta que faz o feijão da mãe na boa saúde, e nem uma palavrinha sobre os perigos do excesso de dominó.
Perdi uma mesa redonda maravilhosa, ontem, intitulada “Estratégias de enfrentamento à Dengue pela APS/ESF”, mostrando as experiências de Niterói, Fortaleza, Cuba e… Rio de Janeiro!
Aprendi a trabalhar com grupos e vi um painel fantástico, há pouco, sobre o rastreamento de neoplasias na ESF/APS.
Fui informado por um informante confiável que uma uma pesquisa mostrou dados novos sobre a depressão entre os idosos: 57% dos depressivos são casados, 28% solteiros, e 10% são viúvos. Ou seja, o cara idoso, que continua insistindo no casamento, está ficando mais baixo-astral que o cara viúvo.
Numa mesa de boteco do Recife, poderei discorrer longamente sobre os transtornos mentais na infância. Nem me perguntem sobre a influência de um programa de puericultura na questão da amamentação, que serei simplesmente catedrático. Sei agora como responder dúvidas clínicas as mais diversas.
Engraçado como isso tem ocorrido com freqüência em minha vida. De repente, estou num lugar que não é o meu, do qual entendo muito pouco. Fico como um observador anônimo, como um pássaro fora do ninho, reparando os movimentos, as idéias, o vai e vem da humanidade.
Neste encontro, senti falta mesmo foi da cara e da voz dos agentes comunitários de saúde. Encontei alguns, mas são a minoria. Acho que eles são uma verdadeira base para qualquer trabalho bonito em saúde, uma raça que acompanha famílias, joga esperanças, luta diariamente pela vida. Lembrei muito do povo todo de Ouricuri, Santa Cruz, Ipubi, e outros tantos, que conheci ao longo dos últimos meses. Gente com uma cara curtida pelo sol, com calos e cansaços, mas muito cheia de vida e esperança. Conheci uma mulher que caminhava 20 quilômetros por dia, para cuidar do seu povo, debaixo daquele sol do Sertão.
Vai ter a premiação aos melhores trabalhos daqui a pouco. Para mim, esta agente do Sertão que caminha no sol, dia a dia, deveria ser a premiada.
Ps. Amanhã postarei uma coletânea das melhores frases e argumentos do Congresso. Estou recolhendo os banners que a turma escanteou por aqui, para uma análise detalhada.
Saúde.
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4 de maio de 2008, às 13:08h
Eita sama…participar desses congressos, só se for em sua companhia. Afinal, se aprende muito mais com seus questionamentos do que com essas experiencias inumanas…pq nelas só os números importam. Um abraço afetuoso.
4 de maio de 2008, às 20:26h
Sama, teve alguma coisa de fisioterapia na ESF?
4 de maio de 2008, às 21:40h
Parabéns pra você nesta data querida… não tive chance de cumprimentá-lo ontem. Beijo bem grande, meu Poeta querido.
5 de maio de 2008, às 9:47h
Parabéns, um pouco atrasado, né?
Fique com Benedetti:
Os velhos foram novos
porém a vida foi
se descascando no espelho
e serão velhos os jovens
porém não o divulguemos
que até as paredes têm ouvidos.
Mario Benedetti
6 de maio de 2008, às 16:39h
Samarone,
Tenho boas lembranças do bons papos no Rio no inicio do ano.
Vejo que continua ecletico em sua atividades.
Descobri o seu blog.
Saudações tricolores.
Abraços.
Sandro(Pai do Bruno ” O Zé “)