Crônicas das coisas mínimas e desnecessárias | Por Samarone Lima

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A marcha proibida e a maconha que tantos fumam

7 de maio de 2008, às 16:28h por Samarone Lima

Foto: Sidclei Sobral/JC Online
Foto: Sidclei Sobral/JC Online

No domingo, eu estava em Fortaleza, e perdi um evento que gostaria de participar – a marcha pela legalização da maconha. Lá não teve a passeata, a exemplo de diversas outras capitais do Brasil, onde vingou mesmo a proibição ridícula do direito de expressão. Pernambuco, com sua tradição libertária, permitiu a passeata. Pelo que sei, ninguém fez confusão ou foi preso por defender o que acha melhor para sua vida. Vários amigos meus devem ter participado.

Deixando de lado meu tom cronista habitual, considero uma histeria policialesca e jurídica esse negócio de proibir uma passeata, e vejo como estamos a léguas de uma democracia de verdade. Como é que o sujeito, em pleno 2008, não pode ir a uma praça, levar um cartaz, e defender algo que julga importante? Vi uma imagem de um rapaz, no Rio de Janeiro, ser preso porque pendurou um cartaz no seu cachorro, pedindo a legalização. Os tiras, claro, ficaram espumando e levaram até o cachorro no camburão.

Creio que a droga deve ser descriminalizada, a exemplo do que acontece em um monte de países, como Suíça, Bélgica, Dinamarca, Espanha, Itália, Canadá, Austrália etc. Na Holanda, onde a turma é meio “liberou geral”, o consumo é liberado e a venda livre para até cinco gramas. Na Austrália, o camarada pode cultivar até dois pés de maconha.

Mas não é porque outros países abrandaram a relação com a marijuana, que tenho esta postura. Penso assim porque vivemos no meio de uma violência brutal, e a repressão à maconha, o ódio policialesco a esta erva, no molde brasileiro, só faz piorar as coisas.

Já fui dono de dois bares da moda no Recife, professor de Universidade particular (e Católica), já morei num monte de lugares do Brasil, viajei uma penca de países, e para os que gostam de uma peneirinha para tapar o sol, vai um aviso – a humanidade fuma muita maconha. É uma pena ver um assunto tão importante, ser tratado com tanta histeria, com pólos opostos, muita fantasia e pouca sobriedade.

Ironias à parte, parece que todo mundo dá um pega, antes de discutir o tema.

Meus amigos em Salvador fumam pacas. Há professores, poetas, sociólogos, cineastas, produtores. Meus amigos em Brasília fumam muito. São professores, jornalistas, assessores, compositores. Meus amigos em São Paulo guardam no congelador, para nunca faltar. São artistas de teatro, dançarinos, escritores. Meus amigos no Recife adoram um baseado. São publicitários, gente de vídeo, de cultura, gente envolvida com cidadania, meio ambiente. Meus amigos no Rio têm a Cannabis Sativa de rodo. São editores, historiadores, professores, enfim. Tenho um monte de amigos que não fumam, mas bebem muito. Os que bebem muito fazem muito mais merda, e estão piores de saúde.

Nunca fui a um albergue, em nenhum país do mundo, que não rolassem maconha após cinco minutos de conversa. Nos bares que tive, no Recife, era comum ver uma mesa inteira sair, sem pagar a conta. O garçom não esquentava.

“Foram ali, dar uma bola”.

Daqui a pouco voltavam. Tinham ido dar um famoso “pega”. Uns, ficavam rindo de tudo, outros calados e distantes.

Só a cegueira mesmo para não ver que a juventude fuma muito, como bebe demais, e que não discutir o assunto é deixar o assunto nas mãos de quem menos entende, que é a polícia. O problema, creio, é que a palavra “maconha” dá medo na sociedade brasileira, e provoca ódio nos tiras. Os pais se pelam de medo de imaginar que o filho pode ter um baseado no bolso, enquanto a repressão adora pegar alguém de bobeira, para distribuir seu ódio formidável (que poderá ser resolvido mediante acertos financeiros ou pancadaria mesmo).

Vou dar uns exemplos simples de convivência com gente que consumiu ou consome maconha, em vários contextos:

Um amigo meu de São Paulo dividiu o apartamento comigo. Na época, fazia o Doutorado. Acordava, tomava banho, bebia um café, deitava na rede e dava uns pegas no seu fumo. Sentava à mesa, escrevia durantes várias horas sua tese, depois almoçava ao entardecer, e caminhava para o cinema. Depois, passou uns três anos sem fumar, voltou outro dia.

Um professor de uma das muitas escolas que trabalhei na vida, chegava com aquele cheiro básico de maconha, dava suas aulas numa boa e depois seguia para casa. Ele não bebia, ao contrário de vários outros amigos que tenho, que bebem rios, e brevemente terão problemas graves de saúde.

Na época em que fui dono de bar, minha preocupação era com os clientes que bebiam horrores, não com quem fumava seu baseado. Os bêbados queriam brigar ou saíam tropeçando, em direção ao carro ou moto. A galera que fumava gostava mais de rir ou ficar viajando.

Um ex-aluno meu, morador de um bairro muito pobre do Recife, fumava e saía para dar uma volta na praia de Boa Viagem. Depois sentava na areia, e ficava olhando as estrelas. A Polícia parava e dava um baculejo. Ele nunca foi pego com nada, mas os caras cheiravam suas mãos. Uma vez, tinha cheiro de maconha, o PM apagou seu cigarro nas mãos do rapaz. Meu ex-aluno e grande amigo era negro, claro.

A não ser que seja uma festa muito careta, a possibilidade de você ir a um aniversário de classe média, no Recife, e não rolar um ou vários baseados é quase nula (a não ser que a festa seja na casa dos pais). A turma fuma muito, mas é proibido. Todo mundo consegue comprar em todo canto, mas é proibido.

Não conheço uma pessoa de classe média que esteja no Cotel ou Aníbal Bruno por estar com umas trouxas de maconha. Se for pobre e for pego com umas trouxinhas, virará celebridade do crime nos programas policiais raivosos de Cardinot. Vá ao presidio feminino do Bompastor, e encontrará dezenas, talvez centenas de mulheres com vidas arrombadas porque foram pegas envolvidas com a maconha.

Em Cuba, se o cara for pego fumando, vai para a cadeia, passar oito anos infernais. Não tem jeito, a turma fuma.

Os albergues de Buenos Aires deveriam criar chaminés, para a fumaça subir mais alto. No Uruguai fuma-se muito. Assisti uma partida no Estádio Nacional do Chile, e a torcida fumava verdadeiros charutos, sem que a polícia importunasse.

Na minha época de Casa de Estudante, da UFPE, havia maconha de rodo. Hoje tem gente no Tribunal de Contas, na Justiça Federal, em órgãos os mais diversos. Claro que teve gente que perdeu o rumo.

Os debates envolvendo o assunto são chatíssimos, porque ninguém conversa com calma. Uns querem demonizar a erva, outros querem colocá-la num altar.

Nessas horas, penso mesmo é nos jovens que estão morrendo por causa disso. Os meninos que se envolvem no tráfico, e são pegos na moita pela polícia. Para esses, não tem debate nenhum, nem passeata – é pau e cana.

Somente nos três primeiros meses do ano, na região metropolitana de Salvador, morreram assassinadas mais de 560 pessoas, grande parte jovens. Não tenham dúvida: muitas foram fuziladas por conta do tráfico.

Em Pernambuco, 1.587 pessoas foram assassinadas, de 1º de janeiro até hoje. A maconha, infelizmente, está por trás de muitas dessas mortes.

No Jornal do Commercio desta terça-feira, 6 de maio, um exemplo do horror:

“Por não quitar uma dívida de R$ 20,00 com traficantes do bairro da Várzea, Zona Oeste do Recife, Cleiton Alves dos Santos, 21 anos, foi executado a tiros na tarde do último sábado”.

Uma vida por vinte reais. E a turma se recusa a discutir o assunto.

Postado em Crônicas | 21 Comentários »

21 Comentários

  1. Ivanzinho Disse:

    Se não for isso, só pode ser isso mesmo.

    Temos um problema, Sama.

    E é preciso sobriedade pra resolver, mesmo que de cima.

  2. Raphael Disse:

    Falou o que eu gostaria de conseguir falar. Fantástico texto.

  3. Roberto EFrem Filho Disse:

    Sama, ótimo, ótimo trabalho. É isso, companheiro, sem dúvida. Insistir num modelo de criminalização do mundo (da maconha, do aborto etc) é insistir numa cultura de violência que serve a uma classe e não à maioria.

    abraços!

  4. Fabiana Disse:

    tá passando da hora! tá passando da hora! tá passando da hora!!

  5. Andre Disse:

    Olá Sama,

    Gosto muito dos seus textos e visito seu blog regularmente. Me perdoe, mas acho que dessa vez tenho que ser contra sua opinião.

    O que aconteceu com a proibição dos protestos é algo muito simples e previsto em lei: apologia a um crime! Poderia não ser, mas a maconha ainda é proibida no país, portanto defender publicamente algo que é proibido caracteriza-se como crime.

    Não tenho opinião formada a respeito da legalização da erva, não sei se a legalização diminuiria a violência. Ainda acho que existem pessoas que não entraram nesse mundo com medo da pancadaria da policia. Se fosse liberado, a “concorrência” seria maior e consequentemente a disputa pelos bons pontos de venda poderia ser ainda mais sangrenta, além de que as cobranças das dividas certamente não seriam através de escritórios de cobrança especializados.

    Fico imaginando locais turisticos de Recife sendo invadidos por vendedores ambulantes de maconha. Temos que ter consciência de que o espaço público é de todos e fumaça incomoda muita gente.

    Outro detalhe é a consequência de quem fuma isso, muitos(obviamente não todos) o fazem para criar coragem de praticar crimes.

    Estamos a muito tempo em guerra contra o fumo, pois todos nós sabemos o quanto o cigarro faz mal a saude. Não acredito que seja hora de incentivarmos outro hábito insalubre para substituir o cigarro convencional.

    Grande abraço amigo.

    André

  6. Yvette Teixeira Disse:

    Não consegui me conter, copiei o texto e mandei para um monte de gente que conheço, uns fumam, outros bebem, outros as duas coisas. São professores, médicos, jornalistas, músicos, estudantes….nesta leva meus filhos,sobrinhos, irmãos, todos os 4 ex-maridos….
    Aproveitando a deixa, terminei de ler ontem Os Detetives Selvagens de tanto voce falar tive que comprar e tô besta….besta…besta
    Xêro

  7. Dito Disse:

    sai daí maconheiro.

  8. Yvette Teixeira Disse:

    Minha irmã, que mora em Barcelona, respondeu o e-mail que enviei com o teu texto:

    “Bom, muito bom…aqui na Espanha, vc pode fumar em casa mas não em público, mas já vi neguinho fumando no metro! Fez o baze na minha frente, mas é raro, esse tava doidão messs, fumar em casa pode.Pode plantar acho que dois pés também. Vender é crime.”
    bjs.

  9. neco Disse:

    reflexão pra lá de sóbria.

    e devidamente linkada no blog filipeta da massa – modesto fórum sobre o tema.

    leiam também a nota dessa ong internacional sobre a proibição das marchas

    http://www.livreacesso.net/tiki-read_article.php?articleId=407

  10. Graça Disse:

    Ôxi,e esse povo todo fuma maconha é?
    Gente isso faz mal…!!!!
    Apesar de não concordar inteiramente com você,gostei muito da crônica.Parabéns pela maneira como você tão bem um assunto tão polêmico.
    Grande abraço!!!!

  11. geraldo chagas Disse:

    “”"Eu gostaria de saber ,o que tem na cabeça destes juizes que proibiram a Marcha da Maconha; será que são todos iguais a um que conheço?uma marionette nas mãos da policia…

  12. Bernardo Disse:

    Ao meu ver, um dos principais problemas são os “demônios e altares” em que colocam a cannabis na maior parte das discussões. Eu acompanhei alguns dos “debates” no site da marcha, e a maior parte dos comentários contra era na linha “maconheiro é sub-raça e tem que estar 7 palmos abaixo do chão”. Do outro lado, nós temos usuários nas nuvens, querendo “babilonizar o mundo” sem restrições.

    É preciso sobriedade pra discutir o tema que, embora seja um barato, custa muito caro para muita gente.

    Escrevi sobre o tema no meu blog: http://bernamutley.blogspot.com/2008/05/recife-marcha-da-maconha-e-vela-que-no.html

  13. Manu Disse:

    Fora que a legalização vai gerar imposto e o governo vai ter mais um meio para sugar e roubar.
    Quem tem tempo pra fazer passeata deve fazer mesmo.
    Eu não posso fazer isso pq corro o risco de perder meu emprego.

  14. Alexandre Goulart Paiva Disse:

    Devemos estar constantemente nos mobilizando, convidando o máximo de pessoas a participar, conheço muitas pessoas que ainda não estão enganjadas em nenhum movimento pró-discriminalização.
    Gostaria de estar participando e ajudando a divulgar os eventos.
    Atualmente moro em Natal RN.
    Sou de Volta Redonda – RJ.
    Arrumemos então toda forma de nos organizarmos para que possamos valer nossos direitos.

    Atenciosamente
    alepaiva030468@yahoo.com.br

  15. Alexandre Goulart Paiva Disse:

    Gostaria de saber quais os progetos que visam a
    discriminalização da
    > maconha no Brasil.
    > De forma a reduzir a violencia no pais, toda
    a discrinação que existe
    > contra as pessoas que fazem uso próprio e ou plantio em casa.
    Rompendo com a obrigatoriedade
    > imposta pelos EUA (leia-se “alguns ditos maçõns livres”, junto a orgãos
    internacionais conduzidos por americanos
    > prepotentes como “Harry Anslinger ” . Se for
    necessário seria muito bom
    > que conhecessem o
    >
    >
    Documentario_Revista_Superinteressante_MACONHA_grass_XViD_by_(SplinteR_SBFriends)
    >
    > para que fossem observados e conhecidos os
    reais motivos da origem de toda
    > essa paranóia que ronda o tema até hoje.
    Inclusive nosso grau de dominação
    > por parte dos EUA.
    >
    > Pode ser adquirido pelo ” emule ” .
    >
    > Atenciosamente
    > Alexandre Goulart Paiva

  16. Alexandre Goulart Paiva Disse:

    Proibir marcha fere a liberdade de expressão

    A ARTIGO 19 condena veementemente as decisões judiciais que proibiram a realização de marchas pela legalização da maconha em diversas cidades brasileiras. As passeatas estavam previstas para o dia 4 de maio de 2008 em dez capitais, mas foram proibidas por liminares em nove cidades. A ARTIGO 19 também vê com grande preocupação a detenção de pelo menos 20 manifestantes em quatro capitais. As decisões judiciais proibindo as marchas e a detenção de manifestantes são atentados gravíssimos à liberdade de expressão, garantida pela Constituição Federal brasileira e por diversos tratados internacionais de direitos humanos.

    A Marcha da Maconha é um movimento mundial pela legalização da maconha, que contou com demonstrações em mais de 20 países. No Brasil, decisões judiciais proibiram as marchas com o argumento de que elas teriam a intenção de difundir o uso de drogas – o que, segundo as decisões, caracterizaria “apologia e instigação à prática de crime”. Em pelo menos quatro cidades, a polícia prendeu ou dispersou manifestantes.

    As decisões proibindo as marchas estão baseadas no artigo 287 do Código Penal brasileiro, que define como crime o ato de “fazer, publicamente, apologia de fato criminoso ou de autor de crime”, e no artigo 33, parágrafo 2º. da Lei 11.343, que prevê o crime de “induzir, instigar ou auxiliar alguém ao uso indevido de droga”.

    No Rio de Janeiro, uma das cidades onde a marcha foi proibida, um manifestante foi detido por apologia ao crime e desobediência a ordem judicial. O motivo: comparecer ao local da passeata acompanhado de uma cadela que levava um cartaz pedindo a legalização da cannabis. Segundo relatos da imprensa, o manifestante foi solto após prestar depoimento na delegacia.

    No dia 21 de abril, a polícia do Rio de Janeiro já havia detido outras cinco pessoas que distribuíam panfletos divulgando a Marcha da Maconha. “Os panfletos simplesmente informavam sobre a marcha, não incentivavam o uso de drogas; mas fomos presos e autuados por apologia ao crime”, disse à ARTIGO 19 o sociólogo Renato Cinco, um dos organizadores da manifestação. Ele e seus quatro colegas tiveram que assinar um termo se comprometendo a prestar depoimento no Juizado Especial Criminal, que trata de crimes de menor potencial ofensivo.

    Em João Pessoa, manifestantes organizaram uma Marcha pela Democracia depois que a Marcha da Maconha foi proibida pela Justiça estadual. Mas a polícia dispersou manifestantes com gás lacrimogêneo e balas de borracha e feriu diversas pessoas com golpes de cassetete, segundo os organizadores do evento. Nove pessoas foram presas. “Os policiais nos colocaram na prisão, tivemos que tirar a roupa e ficar só de cueca. Algumas pessoas ficaram durante cinco horas atrás das grades. Um policial nos ameaçou”, afirmou Fábio Sena, um dos organizadores da marcha na cidade, à ARTIGO 19.

    Em Salvador oito jovens foram presos, alguns deles por exibir material favorável à legalização da maconha, afirmou a imprensa local. Em Curitiba, segundo os organizadores da marcha na cidade, 90 pessoas foram abordadas e seis detidas.

    A ARTIGO 19 considera a proibição das passeatas, a prisão de manifestantes e o uso de violência para dispersar demonstrações pacíficas atentados gravíssimos à liberdade de expressão e de reunião – direitos garantidos pela Constituição Federal brasileira e por diversos tratados internacionais de direitos humanos.

    As passeatas não tinham a intenção de difundir ou incentivar o uso de drogas, mas sim propor uma alteração da legislação nacional. Os participantes não pretendiam distribuir produtos de circulação ilegal ou angariar usuários e comerciantes de drogas; eles queriam simplesmente expressar um ponto de vista. A liberdade de expressão é um direito humano fundamental que protege a livre circulação de opiniões e idéias em uma
    sociedade. Ela inclui, portanto, a liberdade de todas as pessoas se manifestarem livremente sobre temas polêmicos, incluindo aqueles considerados imorais ou ilegítimos por alguns setores da sociedade.

    O argumento de que debater a legalização da maconha é em si uma conduta criminosa – por caracterizar apologia ou instigação ao crime – é completamente inadequado. Existe uma diferença fundamental entre emitir uma opinião e fazer apologia ou incitação à prática de um crime. A penalização de determinadas condutas em uma sociedade exige um debate público constante. Só uma discussão ampla sobre essas condutas, com a participação efetiva de diferentes grupos com as mais variadas visões e opiniões, pode legitimar a criminalização ou descriminalização de certos atos.

    Além disso, o conceito de “apologia ao crime”, usado para deter alguns manifestantes e proibir as passeatas, é demasiadamente vago para justificar uma restrição à liberdade de expressão. A liberdade de expressão só pode estar sujeita a restrições quando um discurso gerar um perigo real, concreto e iminente da ocorrência de um crime.

    A ARTIGO 19 condena veementemente as decisões do Poder Judiciário de diversos estados brasileiros de proibir a marcha pela legalização da maconha, assim como a atitude da polícia de prender manifestantes que exerciam pacificamente o direito de expressar uma opinião. A ARTIGO 19 pede aos tribunais brasileiros que revejam essas decisões restritivas, e pede aos governos estaduais que garantam as condições necessárias para que todos possam expressar suas opiniões e idéias livremente, sem interferências, inclusive por meio de manifestações pacíficas, mesmo que elas tratem de temas considerados polêmicos.

    http://www.livreacesso.net/tiki-read_article.php?articleId=407

  17. Alexandre Goulart Paiva Disse:

    Proibir marcha fere a liberdade de expressão

    A ARTIGO 19 condena veementemente as decisões judiciais que proibiram a realização de marchas pela legalização da maconha em diversas cidades brasileiras. As passeatas estavam previstas para o dia 4 de maio de 2008 em dez capitais, mas foram proibidas por liminares em nove cidades. A ARTIGO 19 também vê com grande preocupação a detenção de pelo menos 20 manifestantes em quatro capitais. As decisões judiciais proibindo as marchas e a detenção de manifestantes são atentados gravíssimos à liberdade de expressão, garantida pela Constituição Federal brasileira e por diversos tratados internacionais de direitos humanos.

    A Marcha da Maconha é um movimento mundial pela legalização da maconha, que contou com demonstrações em mais de 20 países. No Brasil, decisões judiciais proibiram as marchas com o argumento de que elas teriam a intenção de difundir o uso de drogas – o que, segundo as decisões, caracterizaria “apologia e instigação à prática de crime”. Em pelo menos quatro cidades, a polícia prendeu ou dispersou manifestantes.

    As decisões proibindo as marchas estão baseadas no artigo 287 do Código Penal brasileiro, que define como crime o ato de “fazer, publicamente, apologia de fato criminoso ou de autor de crime”, e no artigo 33, parágrafo 2º. da Lei 11.343, que prevê o crime de “induzir, instigar ou auxiliar alguém ao uso indevido de droga”.

    No Rio de Janeiro, uma das cidades onde a marcha foi proibida, um manifestante foi detido por apologia ao crime e desobediência a ordem judicial. O motivo: comparecer ao local da passeata acompanhado de uma cadela que levava um cartaz pedindo a legalização da cannabis. Segundo relatos da imprensa, o manifestante foi solto após prestar depoimento na delegacia.

    No dia 21 de abril, a polícia do Rio de Janeiro já havia detido outras cinco pessoas que distribuíam panfletos divulgando a Marcha da Maconha. “Os panfletos simplesmente informavam sobre a marcha, não incentivavam o uso de drogas; mas fomos presos e autuados por apologia ao crime”, disse à ARTIGO 19 o sociólogo Renato Cinco, um dos organizadores da manifestação. Ele e seus quatro colegas tiveram que assinar um termo se comprometendo a prestar depoimento no Juizado Especial Criminal, que trata de crimes de menor potencial ofensivo.

    Em João Pessoa, manifestantes organizaram uma Marcha pela Democracia depois que a Marcha da Maconha foi proibida pela Justiça estadual. Mas a polícia dispersou manifestantes com gás lacrimogêneo e balas de borracha e feriu diversas pessoas com golpes de cassetete, segundo os organizadores do evento. Nove pessoas foram presas. “Os policiais nos colocaram na prisão, tivemos que tirar a roupa e ficar só de cueca. Algumas pessoas ficaram durante cinco horas atrás das grades. Um policial nos ameaçou”, afirmou Fábio Sena, um dos organizadores da marcha na cidade, à ARTIGO 19.

    Em Salvador oito jovens foram presos, alguns deles por exibir material favorável à legalização da maconha, afirmou a imprensa local. Em Curitiba, segundo os organizadores da marcha na cidade, 90 pessoas foram abordadas e seis detidas.

    A ARTIGO 19 considera a proibição das passeatas, a prisão de manifestantes e o uso de violência para dispersar demonstrações pacíficas atentados gravíssimos à liberdade de expressão e de reunião – direitos garantidos pela Constituição Federal brasileira e por diversos tratados internacionais de direitos humanos.

    As passeatas não tinham a intenção de difundir ou incentivar o uso de drogas, mas sim propor uma alteração da legislação nacional. Os participantes não pretendiam distribuir produtos de circulação ilegal ou angariar usuários e comerciantes de drogas; eles queriam simplesmente expressar um ponto de vista. A liberdade de expressão é um direito humano fundamental que protege a livre circulação de opiniões e idéias em uma
    sociedade. Ela inclui, portanto, a liberdade de todas as pessoas se manifestarem livremente sobre temas polêmicos, incluindo aqueles considerados imorais ou ilegítimos por alguns setores da sociedade.

    O argumento de que debater a legalização da maconha é em si uma conduta criminosa – por caracterizar apologia ou instigação ao crime – é completamente inadequado. Existe uma diferença fundamental entre emitir uma opinião e fazer apologia ou incitação à prática de um crime. A penalização de determinadas condutas em uma sociedade exige um debate público constante. Só uma discussão ampla sobre essas condutas, com a participação efetiva de diferentes grupos com as mais variadas visões e opiniões, pode legitimar a criminalização ou descriminalização de certos atos.

    Além disso, o conceito de “apologia ao crime”, usado para deter alguns manifestantes e proibir as passeatas, é demasiadamente vago para justificar uma restrição à liberdade de expressão. A liberdade de expressão só pode estar sujeita a restrições quando um discurso gerar um perigo real, concreto e iminente da ocorrência de um crime.

    A ARTIGO 19 condena veementemente as decisões do Poder Judiciário de diversos estados brasileiros de proibir a marcha pela legalização da maconha, assim como a atitude da polícia de prender manifestantes que exerciam pacificamente o direito de expressar uma opinião. A ARTIGO 19 pede aos tribunais brasileiros que revejam essas decisões restritivas, e pede aos governos estaduais que garantam as condições necessárias para que todos possam expressar suas opiniões e idéias livremente, sem interferências, inclusive por meio de manifestações pacíficas, mesmo que elas tratem de temas considerados polêmicos.

    http://www.livreacesso.net/tiki-read_article.php?articleId=407

  18. Alexandre Goulart Paiva Disse:

    Leiam alguns sobre o reinicio de um movimento pról- discriminalização da Maconha.

    http://www.livreacesso.net/tiki-read_article.php?articleId=407

  19. Papoula Disse:

    Salve simpatia.
    Sama.
    O lance todo não é nem a questão de fazer mal ou não. Cada qual no seu cada qual.
    O foda é ter que sustentar traficante. Isso é que é foda. Quantos morrem pra gente poder acender um baurete? Quantos vão morrer ainda? Não é melhor cada um ter seu pezinho em casa? Pra não depender de ninguém nem sustentar vagabundo, que usa isso como arma?

  20. Daniel Castelo Branco Disse:

    Muito bom Sama!

    “Se proibem uma marcha alegando apologia ao consumo então por que não proibem a propaganda da pena de morte alegando apologia ao homicídio?”,

    http://br.youtube.com/watch?v=TjmjQMItRMg

    Vídeo da Marcha da Maconha 2008 em Recife

    Vou te dar a cópia que você pediu Sama !
    Abração

  21. Hugo Ferreira Disse:

    “Maconha faz mal?”nao existe relatos confirmado que canabiss faz mal a saúde.
    “Maconha queima neuronios?” MITO…
    revista SUPER INTERESSANTE ediçao 179-agosto de 2002.

Conversinhas

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