Crônicas das coisas mínimas e desnecessárias | Por Samarone Lima

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Diálogos recifenses – parte 27

9 de maio de 2008, às 14:24h por Samarone Lima

Como sempre, a barraca do Nelson, no Recife Antigo, vira meu laboratório de criação. Basta sentar, pedir uma cerveja e esperar.

Estou tomando uma Nova Schin gelada, é tardinha, já resolvi coisas pra chuchu, estou mais cansado que estivador, paguei contas, enfrentei a fila dos Correios, resolvi pendências, deixei outras para amanhã, enfim. Penso em algo sem futuro, quando senta uma velhinha ao meu lado, com uma panela de plástico.

“Se tiver charque, você bota um charquezinho maciço”.

A moça que atende, uma morena com traços indígenos, belíssima, comenta:

“Charque no feijão é a primeira coisa que acaba logo”.

“Um feijão sem charque é tão ruim…” – comenta a velhinha.

“Agora, o feijão verde é uma delícia, mesmo sem charque”, comento, porque em bar fuleiro, botequim fuleiro, nas barracas, a conversa não tem dono. É uma interação perpétua. Todo mundo dá pitaco em tudo.

“Queres farinha?”

A velhinha diz que sim, e começa a comer arroz, feijao, charque e muita farinha. Daqui a pouco, chega alguém, pede uma dose de aguardente e comenta:

“Hoje tem seresta”

Fala do Festival Nacional da Seresta, que reúne a velha e a antiga guarda.

“Seresta não, Jovem Guarda”, responde a velhinha, com a boca cheia.

“É, mas fora a Wanderléia, tem o Aguinaldo Timóteo”, insiste o novato.

Silêncio. Pausa para que o cronista tome notas e uma golada.

“Roberto Carlos…” – insiste Novato.

“Roberto Carlos tá fora. Aqui ele não vem”, responde a velhinha, irritada.

“Era para ele vir pra cá, e cantar logo no começo”, diz Novato, que considero logo um chato de primeira.

“Só se for”, diz Velhinha.

Novato bebe sua lapada e vai embora. A dona da barraca, Andréia, comenta:

“É cada um que aparece aqui, não é, Dona Lourdes?”

“É”

Silêncio geral. Passa alguém conversando alto, falando de intrigas. A velhinha comenta:

“Tudo desse povo é com o caralho na boca”.

Andréia segue a conversa.

“O último que se apresentou ontem foi Reginaldo Rossi”.

“O cara fez uma cachorrada tão grande no palco, que dá é ódio”, completa a velha, mastigando seu ossinho de galinha.

“Reginaldo Rossi?”

“É. Agora… hoje tem um cantor que eu adoro, que é o Roberto Silva. Esse eu quero ver”.

Limpa o restinho do recipiente, e completa.

“É um dos maiores cantores do Brasil”.

Depois se corrige:

“O maior”.

Depois que a velhinha saiu, Andréia me contou a história de sua vida, a separação, e o romance com um dos donos barraca, que estava fora.

“Eu me separei e nunca pensei que fosse casar de novo. Já estou há sete anos com ele”, disse.

Andréia diz que os desconhecidos pensam que ela é prostituta, mas não é. Ela não fica chateada, entende o povo.

Hoje à tardinha ela ficou de me contar a história completa. Outro dia, dei um exemplar de Estuário ao marido dela, que adora ler. Andréia disse que está lendo também.

Aos poucos, vou formando minha turminha ali no Recife Antigo.

Vamos que vamos, devagar e sempre.

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