Crônicas das coisas mínimas e desnecessárias

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O jardineiro

16 de maio de 2008, às 9:46h por Samarone Lima

Estou no primeiro andar, o restaurante de luxo do hotel de luxo onde me hospedaram. Tomo o café da manhã e gosto de ficar junto da janela, olhando pelo vidro transparente, o movimento da vida lá fora. Às 8h21, há milhares de carros circulando pelas largas avenidas de Brasília. Como em todas as grandes cidades, os carros vão se tornando um fenômeno devastador, enormes gafanhotos que devoram tudo. São milhares, que se acumulam, se atrapalham, doem na vista. Acho engraçado esse negócio do aquecimento global. Para mim, o mundo vai se acabar mesmo é por excesso de carro, de consumo desenfreado, falta de sensibilidade e paciência com os outros.

Fico olhando tudo com minha vesguice da alma. O clima do restaurante é ameno, graças ao ar-condicionado central. Nem calor, nem frio. O fundo musical é de blues, algo suave, com uma voz macia, de uma norte-americana que não lembro o nome, talvez Norah Jones. Do outro lado da rua, lá fora, centenas de operários levantam mais um prédio, dos muitos que sobem rumo ao céu de Brasília.

Então olho para baixo. Vejo um senhor, de uns quarenta e poucos anos, fazendo uma poda no jardim do hotel. Ele usa uma tesoura grande, vai pegando as pequenas árvores, com folhas espetadas e desarrumadas como meus cabelos, e vai dando uma forma arredondada, harmônica. Ele harmoniza a natureza. Vai fazendo isso com paciência, diligência, cuidado. Ali, só tem ele e aquele trabalho. Não sei se ele gosta do que faz, sei que faz bem, com eficiência e paciência, com movimentos sóbrios e atentos.

Olho para a mesa ao lado. Tem um negão alto (ôps, afro-descendente), de paletó, comendo um baita prato e conversando com uma loira de norte a sul do corpo. Acho que até as unhas dela são loiras. Eles falam em inglês, não tenho muita paciência com o inglês. Nas mesas correlatas (gostei dessa), mais gente de paletó, comendo tudo que a culinária matinal brasileira oferece, exceto o famoso cuscuz. O menor PIB, disparado, é o meu. Aproveito para ir guardando garrafinhas de água com gás na minha bolsa, porque no frigobar do quarto, cada uma custa R$ 4,50.

Volto ao jardineiro. Ele já fez a poda em quatro árvores, segue firme: plec, plec, plec. Vai dando forma ao que estava desarrumado. Não olha para os lados, não fuma, é bem capaz de não beber. Fico olhando, até que dá a hora de ir para o seminário que estou participando. Um italiano falou sobre as benesses dos banhos termais, mostrou fotos. Um chinês dissertou em mandarim sobre a importância da acupuntura. Um mexicano, o mais simpático, mostrou as iniciativas de saúde alternativa no seu país.

Volto para o almoço. Almoço tarde, para evitar as mesas cheias. São 14h15, a coisa mais simples que tem é penne com molho de espinafre, fora o peixe com alcaparras, e as saladas e os temperos, azeites, essas coisas. As sobremesas arrasam qualquer regime, mas não sou muito de sobremesas.

Boto o prato no mesmo canto, procuro meu jardineiro. Ele está dez metros à frente, com outro instrumento. Escava o chão com diligência, precisão, e coloca algo. Está plantando alguma beleza no mundo. Olho as podas da manhã. Ele deixou perfeitas e arredondadas, 16 árvores tamanho médio, em crescimento, somente na parte da manhã. Segue do mesmo jeito, concentrado, cumprindo sua missão.

Vou pegar mais salada, e quando volto, ele não está. Fico buscando o jardineiro fiel, ele deve ter ido tomar um café, foi fumar um cigarro, beber água. Como devagar, pego sobremesa, porque não é todo dia que topo com essas coisas, olho para o povo das mesas ao lado, muito terno, muita gravata, a música agora é bossa nova. Como é meu último almoço, acho que vai ser a despedida do meu amigo das plantas.

Pego mais uma água mineral, boto na bolsa, e quando vou saindo, vejo meu cumpadre. Está agora com um ciscador, arrumando algo que capinou minutos antes. Espero ele dar uma olhada, para dizer “até logo, camarada”, mas ele é um homem muito concentrado, e além de tudo, está longe. Essas pequenas criaturas, na surdina, quietas, silenciosas, me interessam muito. Ainda escreverei um pequeno tratado das grandes criaturas.

Vou terminando minha estadia de três dias num hotel de luxo, em Brasília. Ao meio-dia, encerra a minha diária, e terei que procurar outra paisagem. Aqui, não dá para o meu bico (R$ 224,00 a diária). O recepcionista me disse há pouco que terei que sair ao meio dia mesmo, porque o hotel vai ser ocupado por uma delegação do PT.

Sinal dos tempos.

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