Louvação à preguiça
Samarone Lima
Pintura: The Cello Player, Amedeo Modigliani

Ah, quanta preguiça hoje, deus do céu. Vontade de não fazer nada, absolutamente nada. Somente olhar a paisagem e ficar à deriva. Sim, ficar à deriva, sem nenhum plano, nenhum desafio, nenhuma dificuldade ou desesperança, nenhuma agenda por cumprir.
Não atender aos telefonemas que, por certo, chegarão. Não ligar o computador, não dar vez ao windows, outlook express, não ter curiosidade alguma pelas coisas do mundo. No máximo, escrever uma longa e saborosa carta para alguém que não vejo há tempos, como o Josmar Josino, meu velho amigo de combates jornalísticos, e de copos, em São Paulo. Não, não, meu velho, a carta fica para amanhã, me perdoe a falta de pressa.
Hoje, somente a preguiça, o desejo intenso de não ser produtivo, de não render para o mundo. Cancelar a ida a qualquer lugar mais distante que um quarteirão, encontros sérios, qualquer discussão importante sobre algum mal que aflige a humanidade, o Brasil, o Recife, o Cabo de Santo Agostinho. Deixar para amanhã a crônica de hoje, já que veio o Corpus Christie. Meus poucos e cativos leitores não me parecem pessoas apressadas. Deixar para amanhã também algum esforço maior do que o gesto ancestral de deitar na rede e escutar aqueles gemidos no armador, que remontam à infância mais remota. Nheeec, nheeec, nheeec…
Sim, o sagrado direito à lassidão, à moleza, à ruminação bovina. Vontade de sossego profundo. Um dia de poucas palavras, poucos encontros, poucos gestos. Uma rede. Daí-me senhor, este direito ao cochilo d’alma, a generosidade da preguiça, o vadiar interior, a falta de objetivos, planos. Apenas seguir, acreditar na força de deixar-me à deriva, como aqueles barcos sem motor, sem leme, sem remos.
Olhar todas as coisas com olhos lassos. Invejar somente a tartaruga que não crio e o caramujo que passou outro dia. Ser esta tartaruga. Sentir harmonia com a lentidão de alguns animais. Ser hoje de pequenos gestos, sem intenção nenhuma, a não ser respirar e sentir paz.
Amanhã farei as coisas da vida, cumprirei as obrigações. Terminar de organizar o curriculum para um projeto, que certamente não mandarei. Reler os manuscritos sobre a viagem de Cuba, que não lerei. Organizar os livros do meu pequeno ateliê. Encontrar amigos que não vejo há tempos, como João Denys, Marcus Galindo, Valzinho. Ir ao Mercado da Madalena, da Boa Vista, da Encruzilhada.
Mas hoje não. Hoje me consola esta vontade de silêncio e recolhimento. Louvo o sossego, a preguiça, a falta de ideais estéticos, de ambição profissional. Hoje, não lerei jornais, não ligarei a TV. Não quero saber como anda a novela da menina que morreu, não quero ver a polícia subindo os morros do Rio, matando gente em escala industrial, todos em trocas de tiros, todos tornados bandidos. Terremotos, furacões, congestionamentos, Obama… Ah, saiam para lá.
Hoje, cuidarei dos meus olhos, dos meus ouvidos. Escutarei novamente os noturnos de Chopin, já que me escapou o Bem Harper em Brrasília. Olharei mais as pinturas de Amedeo Modigliani, minha nova descoberta, da coleção “Gênios da Pintura”. Está escrito sobre ele - “A dor como destino, e a vida como prêmio. A pintura como poesia e o humano como amor”. Por hoje, Isso me basta.
Com um pouco de sorte, haverá de chover. Me darei de presente um olhar mais contemplativo. Falarei menos. Não darei conselho a ninguém. Não discutirei política, economia, religião, futebol. Escutarei e concordarei com todos os partidos, todas as moedas, os juros, o excesso de carros, de mau-gosto, os credos todos. Farei um esforço para não achar que querem acabar para sempre com o meu Santa Cruz tão lindo.
Uma tartaruga. Sim, minha pressa hoje é a de uma tartaruga ou um caramujo. Meu ideal de beleza hoje é um animal que não crio, mas sei que existe.
A vida segue. E quero que siga assim, mais devagar, serena. Um piano que existe na casa de Luzilá, e que ela tocou uma vez, e não esqueci. Era uma melodia calma e doce, perfeita para hoje, este dia sem grandes intenções. Um adágio, creio. Ficarei com meu Dom Quixote, perambulando. Depois, singrarei para o velho Porchia, ou para o Roberto Juarroz. Quem sabe o velho Guelman.
Por fim, dormirei. Por favor, não me acordem, nem mandem recados. Chamem o vizinho.
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