Crônicas das coisas mínimas e desnecessárias | Por Samarone Lima


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Viagens intermináveis e a cegueira do cronista

6 de junho de 2008, às 12:12h por Samarone Lima

De Curitiba, Paraná.

Meus poucos mas fiéis leitores me desculpem a falta de crônicas. Estou com problemas crônicos de tempo e lugar pare escrever. Descubro que em pouco mais de 40 dias, estive em Salvador, Fortaleza, Brasilia e Arcoverde, com paradas de recolhimento no Cabo de Santo Agostinho e Recife. Desde ontem, estou em Curitiba. Domingo, devo ir para São Paulo. Ossos do ofício.

Tenho anotado assuntos para dezenas de crônicas, mas estou o tempo todo fazendo e desfazendo malas, entrando em Ducatos ou nos vôos chatíssimos da Gol, com aquela barra de cereal e amendoins infames. Não posso mudar, porque as passagens chegam para mim já compradas, mas se você for uma pessoa decente, mude de companhia, não vá de Gol contra. Nos últimos dias, estou sem tempo, e muitas vezes sem computador. Não dá para ficar postando coisas em lan-house, porque na pressa de economizar, acabo escrevendo besteira, e uma vez foi uma confusão danada, ao falar apressadamente de uma boate gay na Bahia.

Viajei ao lado de um fortão, com um relógio que valia meu salário de 2008. Lia “Gerente-Minuto mantém a forma”. Na cadeira da frente, um sujeito careca lia numa revista “Estabeleça suas metas e cumpra fielmente”. Todas as aeromoças falavam fanhosa e arrastadamente.

Vamos a Curitiba.

Fizeram um inferno, dizendo que aqui estava dando três, quatro graus, fiquei impressionado, separei todas as minhas galochas, gorros, mantas, coberturas, bolsas de água quente, meu kit-chimarrão e um litro de cana. Chegamos ontem, depois de um périplo Recife-Brasília-Porto Alegre-Curitiba. No trajeto, recebi três barras de cereal e quatro sacos de amendoim, de 15 gramas. No aeroporto, a decepção. Fazia um frio besta, patético, que perdia feio para Garanhuns. Que vergonha, Curitiba!

Fui compensado pela cidade. Amigos, o primeiro mundo existe no Brasil também. A cidade é bonita, bem cuidade, cheia de jardins e flores. O povo anda arrumadíssimo, mas Iramarai lembrou que com a roupa de frio, todo mundo fica elegante. Concordei.

Andamos ontem à noite, encontramos o “Bar do Alemão”, numa parte histórica, com “arquitetura eclética”, segundo Iramarai, e fomos abordado por um camarada com uma sacola. Queria dinheiro para comprar um litro de cachaça.

“Não vou ficar mentindo, com essa história de dinheiro para comprar pão, que estou com fome. Eu quero é beber umas pingas mesmo, porque vai esfriar de noite, e gosto de beber”, disse, ganhando nosso aplauso pela sinceridade. Abocanhou três mangos e abordou mais duas mesas. Nas duas, levantou os R$ 4,50 para uma cachaça que não lembro o nome.

Até amanhã, estarei no mundo da Saúde, um Seminário Nacional de Experiências Bem Sucedidas de Redução da Mortalidade Infantil. Depois, pernas pra que te quero. Já perguntei a três curitibanos se eles sabem se tem jogo do Curitiba, Atlético Paranaense ou Paraná, mas cada povo tem suas estranhices – nenhum soube me informar nada futebolístico, o que revela mesmo a diferença cultural e psicológica entre os recifenses e curitibanos. Como homem de estádios, tentarei ver a bola rolar no Couto Pereira ou em algum outro lugar, nem que seja um campo de várzea. Como o Marcelo Ramos, ex-Santa Cruz, está no Atlético, irei dar um abraço em nosso artilheiro e dizer que o Santa ainda existe, apesar da insistência do atual presidente, Edson, de acabar com o clube até dezembro.

Iramarai tirou muitas fotos lindas de Curitiba, mas continuo sem saber postar. No domingo, ele quer ir a São Paulo, ver seus irmãos: Iramaratéia, Iramaranir, Iramarajó, Iramaracanã, Iramaraiara, Iramaracujá, e por ai vai. O pai dele poderia ter batizado uma filha de Iemanjá, que tinha tudo a ver. Veremos as condições meteorológicas e existenciais.

Estou na Secretaria de Saúde de Curitiba, que é uma coisa perfeita e organizada. Não tem nada fora do lugar, a não ser eu, perturbando o povo. Deixaram eu pegar uma boquinha no computador, mas vou ter que sair. Tentarei postar uma foto simbólica das muitas viagens, mas não sei se conseguirei. Sou um Mobral da informática.

Em tempo: aqui, estamos debaixo do Cruzeiro do Sul. Pelo menos é o que garante Iramarai, que é astrônomo. Ontem à noite, ele me mostrou. Como sempre, ele viu imagens e formas, desenhos e sentimentos, eu só vi o céu imenso e as estrelas.

Ou seja, cada um com sua cegueira.

Postado em Crônicas | 5 Comentários »

5 Comentários

  1. Zezinho Pindaíba Disse:

    Adorei seu site, estou colocando-o como meus favoritos.Quando leio seus textos até parece que você está falando pessoalmente comigo, além de ser bastante engraçado.

    PArabéns e você ganhou mais um leitor assíduo.

  2. Gilmara Disse:

    Oi Sama,

    Adorei o teu blog.
    Visita lá o meu!

    Abraço,
    Gilmara.

  3. Yvette Teixeira Disse:

    Cara…que desassossego, hein! Mas viajar sempre é muuuito bom, mesmo de GOL, né? grande beijo!

  4. J. Disse:

    Porém jamais poderá contar Catuama no currículo de locais desbravados.

  5. Daniele Disse:

    Um ótimo site de turismo que descobri foi o da RBH Praias http://www.rbhpraias.com.br
    Eles tem ótimos preços, bom atendimento, e é super fácil!! Não deixem de acessar!!

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