A prisão
Samarone Lima

Aconteceu. A prisão de uma amiga, que eu não via há alguns anos. Ela mergulhou no mundo das drogas, perdeu as raízes mais profundas, os vínculos familiares, o contato com a realidade. Esteve em outros caminhos, que não me cabe discutir, apenas aceitar. O fundo do poço, aos 30 anos.
Fui visitá-la. Durante vários anos trabalhei como repórter, visitei inúmeras delegacias, penitenciárias. Nesses lugares, nunca estava alguém que fazia parte da minha rede de afetos. Num pequeno gesto solidário, levava sempre cigarros nos bolsos. Na prisão, tudo faz falta, e cigarros ajudam a minimizar a angústia.
Neste dia, não levei cigarros, apenas a perplexidade.
Minha amiga está num presídio feminino. Encontrei-a mais magra, abatida, após percorrer labirintos de avisos, cadeados. Os olhos dizem tudo. Tristes e duros. Nos falamos pouco, o suficiente. Ao meu lado, sua irmã, que sofre muito por não acreditar que a situação chegou a este ponto. A cadeia.
Depois, a conversa com um defensor público, um gentil homem das leis, que me adverte sobre o artigo 157, que é um problema duro de resolver. “Sei o que você está sentindo, já tive um irmão preso”, diz o homem, mas desconfio que a gente nunca, em nenhum momento, sabe o que o outro está sentindo. Nem mesmo eu, naquele momento, sabia o que estava sentindo.
Percorro caminhos que conheço de perto. Quantos julgamentos assisti na vida? Quantos flagrantes presenciei? Quantos promotores, advogados, delegados, presidiários, entrevistei? Ser jornalista é conhecer mundos, é penetrar na carne social, é percorrer a humilhação e a agonia das pessoas. Entramos em mundos quase secretos, com seus códigos próprios. Sei o cheiro exato de uma delegacia abarrotada de presos, sei a diferença exata entre um policial civil e um militar, as condutas, as manhas. São mundos distintos.
Neste caso, não se trata de jornalismo. É a vida real, duríssima.
Saí de lá pensando nos caminhos e descaminhos da vida. Para onde vamos, os portos que encontramos.
Falei com a direção do presídio, não posso visitá-la, por não ser parente de primeiro grau. Não há nada a fazer, a não ser buscar um suporte jurídico, esperar que as leis não sejam tão duras. Mais que isso. Que ela resista a esse novo mundo, que não quebre por dentro, para recomeçar. Há muita vida pela frente.
A vida cá fora segue, mas é triste, muito triste, doloroso, ver alguém querido em uma prisão. Não posso sequer imaginar o que ela está sentindo, porque nem mesmo sei o que sinto, e perplexidade é uma palavra abstrata, distante, fria.
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