Nélson Xavier e a paixão da menina
Samarone Lima
Quis o destino e o projeto Lanterninha, de Salvador, que eu passasse um dia inteiro com o ator Nélson Xavier, para discutir com jovens das escolas públicas o filme “Narradores de Javé”. O filme é imperdível, e está disponível em locadoras.
Conheci-o no café da manhã da pousada. Me apresentei, disse que estaríamos juntos nos debates. Ele, um homem muito sério, foi gentil e silencioso. Ficou assim durante parte da manhã, até que visitamos a Igreja do Bonfim, onde estava sendo celebrada uma missa. Ele comentou sobre a força do lugar, foi reconhecido por populares e fomos para o debate. Perguntei quantos filmes ele tinha participado, ele disse que não lembrava.
Minha missão era difícil. Comentar sobre o filme, para um auditório lotado, após a fala do ator. Para minha surpresa, aquele homem aparentemente duro, que se recusara poucos minutos antes a dar um autógrafo, encheu o auditório de esperanças. Falou da importância de acreditar nos sonhos, de lutar por eles, de buscar o que gosta, de fazer sempre o melhor. Lá pelas tantas, admitiu que é uma pessoa desagradável, de tão franca.
Depois, falei umas coisinhas, os alunos fizeram várias perguntas ao ator, que respondeu pausadamente. Em todos os movimentos, na voz, ele transmite a impressão de ter deixado de lutar contra o tempo. Chegou ao seu ponto de equilíbrio.
No almoço, em um mercado bem popular, o reconhecimento pelos populares. Ao lado dele e de duas amigas, vi a estranha obsessão das pessoas pelo autógrafo de alguém famoso. “As pessoas pedem isso e depois, nunca mais olham para o papel”, comentou o ator, já bem mais relaxado. Não o irrita o pedido do autógrafo, mas a forma como as pessoas o abordam.
Aproveitei para matar uma curiosidade - se ele tinha conhecido o ator e dramaturgo Oduvaldo Viana Filho, o “Vianinha”, que adoro. Sim, foram amigos e discordaram em muitas coisas. “Ele sofria muito com as coisas que estavam acontecedo. Eram demais para ele. Algumas pessoas têm esta peste com o Brasil”, contou. Não é por acaso que o dramaturgo morreu aos 34 anos, vítima de câncer.
À tarde, um novo debate, em outra escola. Desta vez, falou não mais que cinco minutos. Reforçou nos jovens a importância deles para o Brasil. “Nossas contradições não foram resolvidas até agora”, lembrou, reforçando seu mantra de seguir em busca dos sonhos até o fim. Nas muitas respostas, falou sobre sua carreira e a marca de sua geração, que foi a de lutar em todos os níveis, para que o país fosse melhor, mais justo. “Eu mesmo, cheguei a pensar em pegar em armas para lutar contra a ditadura. Eu queria lutar”. Sua luta foi canalizada para outros caminhos.
“Todos nascemos com um papel. Eu tentei, no meu caminho, melhorar um pouco este mundo. Não sei se consegui. Estou fazendo o que posso. Tentei ser fiel ao Brasil, porque amo o Brasil”.
Então, aconteceu algo. Uma menina de no máximo 15 anos pediu a palavra e começou a falar de seu amor pelo teatro, de como tinha se desenvolvido como pessoa, de como ficava feliz, quando estava no palco, e como isso tinha mudado sua vida. Lembrou das pessoas que ficam nas coxias, torcendo para que tudo desse certo. Falava com uma paixão tão grande, com tanta alegria, que foi contagiando todos que estavam no auditório.
“Cada filme que estou assistindo, cada peça, guardo junto de mim. A arte, a música, tudo vale a pena. Tenho orgulho de ser uma aluna de escola pública. Dou valor a cada coisa que aprendi e vou aprender”, disse a menina.
Com os olhor molhados, Nélson disse o mais simples:
“Você vai vencer. Tenho certeza disso. Siga em frente e seja sempre fiel a você”.
Como estava anoitecendo, alguns alunos começaram a sair. Com humildade, o ator pedia:
“Ei, não vá agora não. Fique só mais um pouquinho. Essas chances são raríssimas”.
Terminada a atividade, só havia tempo para o jantar e o aeroporto. À saída do Colégio Luís Viana, ele comentou:
“Só por essa menina, já valeu a viagem”.
No aeroporto, ele fez o check-in, e fez questão de voltar até o carro, para um abraço caloroso. Era outro homem.
O Nelson Xavier, com seus 50 anos de cinema, não lembrava do primeiro e do último filme que tinha participado. Mas cada palavra, cada gesto, tinha um sentido, que era de honrar a vida. Em nenhum momento, havia qualquer orgulho por trabalhar na maior emissora de TV do Brasil. “É uma boa empresa e dá até plano de saúde”, foi o máximo que disse.
Fiquei pensando na menina, que se emocionou tanto ao falar de sua paixão, o teatro.
Agradeci muito ao pessoal do Projeto Lanterninha por ter me trazido a Salvador. Aqui, conheci de perto um homem bom.
O Brasil anda precisando de gente assim. Nada muito heróico. Nada de jogadores de futebol, artistas famosos, capas de revista. Tenho a impressão que nossa cota de celebridades por habitante é a maior do mundo. Precisamos de mais gente como Nélson Xavier, que saiu do Rio de Janeiro, passou 33 horas em Salvador, e disse que por causa de uma menina, tinha valido a pena.
E todo mundo sabe que tudo vale a pena se…
Ao pessoal do Laterninha e a Ana Eliza, minha fiel leitora baiana.
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16 de junho de 2008, às 2:45h
Beleza, Sama. É um super ator, como muitos. No Festival de cinema do Recife este ano, foi homenageado. Subiu ao palco com a mulher, Via Negromonte, e a filha. Não fez muito arrodeio, disse até que achava o prêmio imerecido, porque não tinha feito tanta coisa assim. Mostrou em poucas palavras que é um grande caráter. Como poucos.
16 de junho de 2008, às 13:17h
É muito bom conhcer pessoas assim nos acasos da vida…
Só pra constar, suas crônicas continuam ótimas Sama… Cheias de verdade e simplicidade.
Um beijo e boa semana..
17 de junho de 2008, às 21:25h
Coisa boa, benza Deus, muito bom de se saber…
18 de junho de 2008, às 11:16h
a vida as veses no coloca diante de personagens só para nos lembrar o quanto é importante estar vivo. eita vida doida da gota!!!
18 de junho de 2008, às 11:36h
Que viadagem é essa Sama!
18 de junho de 2008, às 17:11h
Oi Samarone! Tentei escrever pra Reginaldo (da biblioteca comunitária que tu escreveu um post em abril) pra doar uns tantos livros. Mas o email tá errado. Tu tem outro contato dele, email ou fone? Agradecida
18 de junho de 2008, às 22:50h
Viva! Viva! Viva o Teatro!!!
Evoé Baco!!!!
19 de junho de 2008, às 12:13h
Velho Sama, preciso falar com você!
Estás pelo velho bairro do Recife???
19 de junho de 2008, às 17:01h
Sama, meu grande amor, preciso do seu endereço para mandar-lhe novas cartas. Manda mailzinho pra mim. Antes disso, seguem beijos carinhosos. Muitos. Sempre
26 de junho de 2008, às 17:11h
Sama,
Recentemente fiz um curso em Sao Paulo com a diretora deste filme. Ela é também uma grande figura. Se quiseres o contato?
Abraços.