Carta a um leitor desconhecido
Samarone Lima

Caro Ivan,
Tudo que sei é teu nome: Ivan.
Nas poucas vezes que tenho ido ao Poço da Panela, minha pátria espiritual, sou abordado pelo Marcus, que deve ser teu tio. Ele tem uma barriga de cerveja, continua jogando um dominó irregular, e é daqueles que descobriu a venda de Seu Vital para se desfazer dos contratempos da vida.
Nas duas últimas vezes, ele me abordou com um ar mais sério. Disse que você é meu leitor há muito tempo, que acompanha tudo, que se identifica com o que escrevo, e que você está com câncer. Queria que eu entrasse em contato com você, porque o faria bem. Anotei seu email num pedaço de jornal velho e coloquei no caderno. Depois disso, tive muitas viagens, fui processado, minha tia andou hospitalizada, já recebeu alta, uma amiga foi presa. A vida às vezes se chama vendaval. Os vendavais passam.
Que posso dizer, amigo? Tudo o que tenho é a informação de que és jovem, e estás com câncer.
Tenho pouco a dizer, amigo, e menos ainda para te dar. Outro dia, soube meus escritos fizeram algum bem para uma grande amiga, que também teve câncer. Muitas vezes ela riu com minhas besteiras infinitas, se emocionou com alguma história mais humana, deve ter sentido aquele tédio com os textos que não levam a nada, que são a maioria. Ela abriu um blog, fez o tratamento, andou com seu turbante, depois passou pelo vendaval. Está mais viva do que nunca, e breve vai receber mais um neto.
Sei pouco de você, camarada. Espero que esteja lutando pela vida. Não, não lute “contra” o câncer, lute pela vida. Use suas armas, você deve saber suas fontes de beleza e força. Desejo que você esteja acompanhado por pessoas que te amam, como o seu tio barrigudo que vai sempre a Seu Vital. Que você possa encarar isso como um vendaval.
Não, amigo, não vou ficar dando aquelas sugestões ridículas para quem está doente. As livrarias estão abarrotadas de fórmulas secretas, dicas para vencer tudo, superar todos os males. Se eu puder ajudá-lo em algo, se meus escritos te fizerem algum bem, saiba que estarei cumprindo meu ofício, minha sina, o que acho que tenho para fazer neste mudo. Saiba que também estarei me salvando.
Nos salvemos, Ivan, nos salvemos.
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