Crônicas das coisas mínimas e desnecessárias | Por Samarone Lima


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Quatro ingressos

28 de julho de 2008, às 9:03h por Samarone Lima

Estou mais uma vez na estrada, acompanhando as aulas-espetáculo de Ariano Suassuna. A cidade é Garanhuns, faz um frio danado e chove. Já entrei no teatro, falei com a produção, está tudo pronto para começar. Saio para ver o movimento do povo e encontro uma amiga. Ela está com quatro ingressos a mais. Os filhos não foram para o espetáculo, que será com o violeiro Oliveira de Panelas.

Pego os quatro ingressos e saio à procura de convidados. Serão os meus convidados para a aula.

Vou a uma barraca, duas senhoras não podem sair, por causa das vendas. Vejo uma moça, pergunto se ela quer ir, ela diz que sim.

“Não dê a ela não, meu filho, que ela tem problemas mentais”, me diz uma das senhoras.

Achei que era mais um motivo de dar o ingresso.

“Ela pode ter convulsões”, completou.

E daí? – foi o que pensei. De perto, ninguém é normal mesmo…

Dei um ingresso, a moça ficou muito feliz e entrou. Seu nome é Mariana de Sousa da Silva, 37 anos. Chamo moça porque ela parecia uma moça. Ao final do espetáculo, fui ao seu encontro.

“Tudo que ele falou, eu gostei. Já o violeiro, aí eu amei”, disse.

A mãe disse que a moça fica na APAE de manhã, mas não estuda. Disse que ficou “muito preocupada”, com esse negócio de ela assistir um espetáculo, com os problemas que tem.

Outros dois convites foram entregues a seu Evair de Souza, de 43 anos, e Bruno Duarte da Silva, de 16. Evair é o pai, Bruno é o filho. Os dois são pipoqueiros. Deixaram o carrinho com uma mulher. O pai voltou maravilhado.

“É uma cultura que a gente tem, e espero que nunca se acabe”.

Ele perguntou se o espetáculo vai para Pesqueira. Eu estava sem a lista, mas tinha quase certeza de que haveria espetáculo na cidade.

“Se Deus quiser, se ele for a Pesqueira, estarei lá”.

O filho, que está na sexta série (com 16 anos, Bruno!), me disse que depois da aula ficou “gostando mais do Brasil”. Ariano iria gostar de saber disso.

O último ingresso foi entregue a “Bacalhau”, um famoso torcedor do Santa Cruz. Ele desapareceu na paisagem, após a aula. Fica por isso mesmo.

Da aula, guardei uma comparação que Ariano fez com um poeta da arquitetura, Manoel de Lima Flores.

“Cada obra minha é um caco, que vai se juntando aos cacos outros”.

A humildade desse homem é uma oração.

ps. na quarta-feira, dia 30, a aula-espetáculo será na Colônia Penal Feminina do Bompastor. Quase 600 mulheres presas terão direito a duas horas de poesia e beleza. Estarei lá, buscando meus adoráveis anônimos

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Geografias

22 de julho de 2008, às 14:08h por Samarone Lima

Estou aqui numa lan house na Conde da Boa Vista (R$ 1,00 a hora), reparando os email. Há pouco, uma mulher sentou ao meu lado e ligou para o marido, dizendo que foi despedida hoje. Silêncio.

“Vem aqui, pro Beco da Fome, que estou numa lan house”.

Silêncio.

“Beco da Fome, menino. Fica ao lado”.

Por hoje, é o suficiente.

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Instantâneos

21 de julho de 2008, às 15:05h por Samarone Lima

Escutar histórias e escrevê-las é meu passatempo predileto. Sempre que alguém chega com alguma, aguço o ouvido e presto bem atenção. As melhores histórias precisam mesmo de ouvidos atentos.

Pois bem. Faço uns trabalhos para a Secretaria Estadual de Saúde, e adoro encontrar Dona Maria. Há pouco, entreguei uns doces de leite que trouxe do Sertão, ela achou o máximo, e me disse algo que anunciaria uma boa história:

“Nem te conto o que aconteceu comigo semana passada…”

Oba, foi o que pensei comigo. Parei tudo, peguei um café e perguntei o que tinha acontecido.

Dona Maria explicou que teve um enterro, semana passada, da avó do filho de alguém. A mulher, de oitenta e tantos anos, morreu quarta-feira na Paraíba, só que era nascida no Recife. Para enterrar a pessoa, informa Dona Maria, só com o atestado de óbito. O atestado, por sua vez, só com a certidão de nascimento. Meu deus, até para morrer o mundo anda complicado!

Liberaram o corpo, mas a família tinha que mandar a certidão de nascimento por fax. A mulher morreu na quarta, o enterro aconteceria na quinta.

O problema é que a família não encontrava a certidão. Dona Maria estava na comissão do enterro. Se não estava, acabei de nomeá-la.

O negócio foi ficando enrolado, enrolado, Dona Maria cada vez mais aflita, o enterro foi repassado para a sexta-feira.

“Foi um côco de roda danado”, disse Maria.

Por uma sorte do destino, o negócio foi resolvido na tardinha da sexta-feira. Só que já era 17h30, e os coveiros já estavam indo embora. Dona Maria foi conversar com a administração do cemitério, jogou argumentos diversos.

“Eu fiquei tão angustiada, que nem pensei”.

O enterro aconteceu somente ao anoitecer, dois dias depois do óbito.

Uma coisa chamava a atenção – a alegria com que ela contava a história. Um enterro tinha se tornado uma grande aventura. Dona Maria comeu os docinhos que eu trouxe, ficou fazendo aqueles “hummm”, que a gente costuma fazer, quando gosta muito de alguma comida, e fica fazendo coisas de crianças. Terminei de tomar meu café e voltei para trabalhar, após boas gargalhadas. Achei ótimo escutar uma história, no início da tarde.

Em Triunfo, semana passada, um sargento aposentado da PM me explicou o motivo de a cidade ter tantos doidos. Sua teoria envolvia o frio e o excesso (ou a falta) de sexo. Foi uma ótima conversa, ao sabor de uma cerveja.

Depois escrevo sobre isso.

Sugestão de leitura: “Caos Calmo”, de Sandro Veronesi.

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Assim começou a guerra (lembranças)

19 de julho de 2008, às 13:16h por Samarone Lima

Escrevi esta crônica quando começou a guerra dos Estados Unidos contra o povo iraquiano, já nem lembro a data.

Não sei o motivo, mas hoje resolvi publicá-la. Talvez seja porque ando muito sobre as guerras naquela região, o impressionante “A Conquista da Civilização”, do Robert Fisk.

***

Era uma noitinha bucólica, com os pais trazendo filhos das escolas em bicicletas e cães vagando à procura de algo. Na mercearia de seu Vital, as vendas de sempre – pão, big-big, geladinho, vassoura, pedaço de charque, queijo, os primeiros pedidos de cerveja ou os “quartinhos” alvissareiros. Encontrei os amigos para um cafezinho, e começamos a conversar nossas besteiras de sempre, quando alguém lembrou que em duas horas, no máximo, iria começar a guerra de Bush contra o Iraque, era preciso buscar uma TV.

 

Ficamos a imaginar como seria uma cidade sendo bombardeada. Trouxemos isso para nossa realidade. Aviões norte-americanos soltando bombas poderosas em cima da Igreja de Nossa Senhora da Saúde, destruindo casarões, vilas, a venda de seu Vital, nosso campinho de futebol. Pensamos nos amigos e crianças que morreriam e deu até uma tristeza, mesmo que momentânea, imaginar essas criaturas – que são quase nossos filhos também, de tanta ternura nos abraços, de tantos sorrisos – mortas inocentemente.

 

Começou a chover e nossa filosofia do anoitecer foi interrompida por uma explosão que veio dos céus. Corremos todos para dentro da mercearia de Vital e súbito, a escuridão chegou ao Poço da Panela. Houve um curto-circuito e a fiação elétrica começou a estourar, fazendo um barulho enorme. Enormes clarões manchavam a noite, e ficamos parecendo uns patetas desarmados na trincheira de Vital, tentando encontrar uma saída. Dona Beata, que estava na rua, estremeceu. Marcos Careca saiu à procura de fios no chão, para vender mais tarde.

 

Muitas horas depois, descobrimos que uma árvore tinha encostado nos fios, provocando aquela onda de estouros, que se alastrou pelo quarteirão inteiro. Seu Vital disse, com os olhos arregalados, nunca ter visto aquilo em 33 anos no Poço. Ficamos na escuridão completa, e para relaxar, sentamos e pedimos um “Detergente” (bebida produzida por vital, com cachaça, mel e limão). Acendemos velas e fomos relembrar tudo, exagerando um pouco a cada minuto.

 

Acho que foi neste momento, enquanto estávamos rindo à luz de velas e tomando uma aguardente com cajá, que começou o bombardeio ao Iraque. Alguém lembrou novamente, e nossa impotência permitiu pouca coisa, além de um brinde à paz e votos de que os norte-americanos entrassem pelo cano. A guerra nos encontrou com a pouca mas suficiente luz das velas.

 

Horas depois, quando a Celpe começou a reparar o estrago, ficamos na calçada tomando um vinho e ralhando com preço de nossas contas de eletricidade. Renata providenciou um colchão para Lucas e peguei minha cadeira de balanço. Grão de Bico começou a recitar seus belos poemas.

 

Era era uma noite de lua cheia, e ali no Poço, a paz estava em cada olhar, cada gesto, no sono inocente de Luquinha, em nosso impotente desejo de que as bombas sobre o Iraque fossem apenas um sonho ruim, que a guerra tão desejada pelos norte-americanos, por algum milagre, não passasse de um curto-circuito, uma falta de luz. Foi pouco, mas foi tudo o que desejamos.  

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O traficante (de livros) na palafita

16 de julho de 2008, às 17:02h por Samarone Lima

Não sei o que há com o jornalismo em geral. As notícias ruins ocupam a maior parte do noticiário, as péssimas nunca saem da pauta. Os crimes, em particular, se tornam obsessão das mídias. Há uma regra elementar – quanto mais cruéis (e se envolverem crianças), ganham mais espaço, mais tempo, mais páginas. Talvez seja por isso meu afastamento paulativo da minha profissão original. Não aguento mais tanta repetição. Não acho que mudaremos essa cultura de violência com a exibição perpétua de cadáveres e familias destruídas. Falta esperança e beleza nas pautas. Falta olhar para outras formas de vida e resistência.

Mas há dias em que dos jornais surge uma pequena esperança, na forma de uma matéria, um texto, uma notinha. É preciso comprar a edição do Jornal do Commercio de hoje, sacar a página 4, do caderno de Cidades, e ler em voz alta, nas escolas estaduais e municipais,  a matéria intitulada “Entre a miséria e a lição dos livros”, assinada por João Valadares. É preciso que as pessoas vejam que no Recife há mais que medo, dor e violência.

Conta a história do auxiliar de áudio Ricardo Gomes Ferraz, o Kcal Gomes, 34 anos, morador da palafita do Bode, no pina, Zona Sul do Recife. Há um ano, o sujeito criou a “Biblioteca Guardiã”, que se tornou o refúgio das crianças. “Essa livroteca é uma facada no estômago do sistema”, diz nosso amigo, numa linguagem agressiva, mas com seus motivos. Ele já perdeu uns 15 amigos, assassinados pelo sistema.

Não vou contar a matéria inteira, porque o jornalista trabalhou um bocado, foi entrevistar o cara, e não vou ficar dando uma de bacana, copiando coisas dos outros. 

Duas frases do Ricardo me chamam a atenção:

“Não tenho nada, mas faço tudo”.

“Minha irmã vende crack aqui. Eu sou traficante de livros”.

Cada vez me encanto mais com essas criaturas que não têm nada, ou quase nada, e são capazes de sonhar. Ricardo tem uma palafita, onde mora com a mulher e dois filhos. A casa virou o espaço de leitura. Uma palafita. Quantas pessoas nesta cidade têm tudo, Ricardo, e nao fazem absolutamente nada…

A irmã do rapaz vende crack. Ele é traficante de livros.

Sempre gostei desta idéia de traficantes de livros, de conhecimentos, de belezas, de esperanças. Minha fé na mudança desta cidade cruel que é o Recife reside nos artistas, nos músicos, nos professores, nos contadores de histórias, nos que têm sonhos impossíveis como este rapaz. Traficantes que possam se agrupar, como estão fazendo uns meninos no Coque, outros no Nascedouro, de Peixinhos. Pessoas simples, sem muita experiência com catalogação e livros, sem saberes literários, mas que lutam por livros e espaços de leitura. Sabem quantas bibliotecas públicas temos na cidade do Recife? 

Na palafita de Ricardo, há uma frase escrita na janela que diz o seguinte:

“Todos nós estamos sentados na lama, mas alguns de nós estão olhando estrelas”.

A manchete do mesmo jornal é a seguinte:

“Caem delegados que prenderam banqueiros”.

Ela não me diz absolutamente nada. A sorte é que a outra metade da capa mostra a foto de Ricardo, e sua palafita das leituras ao lado. Há tempos não via um título tão lindo em um jornal do Recife:

“Sou um traficante de livros”.

É uma olhada e tanto para as estrelas.

ps. Espero que os candidatos à Prefeitura do Recife leiam a matéria e digam algo, agora que todos resolveram caminhar pelos bairros mais pobres da cidade.

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