Quatro ingressos
Samarone Lima
Estou mais uma vez na estrada, acompanhando as aulas-espetáculo de Ariano Suassuna. A cidade é Garanhuns, faz um frio danado e chove. Já entrei no teatro, falei com a produção, está tudo pronto para começar. Saio para ver o movimento do povo e encontro uma amiga. Ela está com quatro ingressos a mais. Os filhos não foram para o espetáculo, que será com o violeiro Oliveira de Panelas.
Pego os quatro ingressos e saio à procura de convidados. Serão os meus convidados para a aula.
Vou a uma barraca, duas senhoras não podem sair, por causa das vendas. Vejo uma moça, pergunto se ela quer ir, ela diz que sim.
“Não dê a ela não, meu filho, que ela tem problemas mentais”, me diz uma das senhoras.
Achei que era mais um motivo de dar o ingresso.
“Ela pode ter convulsões”, completou.
E daí? – foi o que pensei. De perto, ninguém é normal mesmo…
Dei um ingresso, a moça ficou muito feliz e entrou. Seu nome é Mariana de Sousa da Silva, 37 anos. Chamo moça porque ela parecia uma moça. Ao final do espetáculo, fui ao seu encontro.
“Tudo que ele falou, eu gostei. Já o violeiro, aí eu amei”, disse.
A mãe disse que a moça fica na APAE de manhã, mas não estuda. Disse que ficou “muito preocupada”, com esse negócio de ela assistir um espetáculo, com os problemas que tem.
Outros dois convites foram entregues a seu Evair de Souza, de 43 anos, e Bruno Duarte da Silva, de 16. Evair é o pai, Bruno é o filho. Os dois são pipoqueiros. Deixaram o carrinho com uma mulher. O pai voltou maravilhado.
“É uma cultura que a gente tem, e espero que nunca se acabe”.
Ele perguntou se o espetáculo vai para Pesqueira. Eu estava sem a lista, mas tinha quase certeza de que haveria espetáculo na cidade.
“Se Deus quiser, se ele for a Pesqueira, estarei lá”.
O filho, que está na sexta série (com 16 anos, Bruno!), me disse que depois da aula ficou “gostando mais do Brasil”. Ariano iria gostar de saber disso.
O último ingresso foi entregue a “Bacalhau”, um famoso torcedor do Santa Cruz. Ele desapareceu na paisagem, após a aula. Fica por isso mesmo.
Da aula, guardei uma comparação que Ariano fez com um poeta da arquitetura, Manoel de Lima Flores.
“Cada obra minha é um caco, que vai se juntando aos cacos outros”.
A humildade desse homem é uma oração.
ps. na quarta-feira, dia 30, a aula-espetáculo será na Colônia Penal Feminina do Bompastor. Quase 600 mulheres presas terão direito a duas horas de poesia e beleza. Estarei lá, buscando meus adoráveis anônimos
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