Baleia
Samarone Lima
Amigos leitores, interrompo minha escalada de viagens intermináveis para me debruçar num assunto da maior relevância: uma matéria publicada na página C4 do Diário de Pernambuco de hoje. Trata de um vira-lata que estava acorrentado a uma cadeira, em uma casa abandonada, na Avenida Norte. O animal aparece em uma foto, com seus olhinhos apreensivos, aquele jeito de quem diz “o que estou fazendo aqui?”. Na outra foto, está sendo libertado. Passará por exames e ficará sob custódia do Movimento de Proteção ao Cão em Risco. Nesta foto, ele olha atentamente, já com simpatia, para a assistente social Simone Sales, coordenadora do MCP.
A matéria não informa o nome do animal. Por motivos literários e sentimentais, o batizo de “Baleia”.
O cão, digo, Baleia, só foi liberto graças à Delegacia de Meio Ambiente e de Infrações de Menor Potencial Ofensivo, criado há uma semana. Num tempo de tanta violência, vai aparecer gente criticando a iniciativa. Cuidar de cães maltratados? Defender animais?
Basta ler a matéria para saber que tem muita gente doente nesse mundo. O dono do animal mantinha o coitado amarrado à cadeira dia e noite, e só aparecia por lá nos finais de semana. Botava comida e desaparecia. Claro que depois de três dias, a comida apodrecia. O lugar estava sujo e fedorento. O que se passa na cabeça de uma criatura, capaz de fazer uma malvadeza dessas? Não era melhor dar para um amigo ou simplesmente deixar Baleia livre?
Fico sabendo que no Recife tem esse Movimento de Proteção ao Cão em Risco. Simone Sales, que era professora universitária, deu entrada na aposentadoria para cuidar do lugar, onde estão mais de 100 animais. Vida longa para a senhora, dona Simone!
Moro com uma senhora de 81 anos, a Dona Flocely. Bam Bam, seu cachorrinho, é uma alegria na casa, e eu seria capaz de chegar às vias de fato, caso alguém maltratasse nosso animalzinho. Recentemente, chegou “Gi Gi”, uma cadela branquinha que promete ser a namorada de Bam Bam. Gi Gi está em fase de observação. Tia, com seus inúmeros problemas de saúde, vive muito mais feliz quando vê os dois brincando. Outro dia, chamei Bam Bam, de vira-lata, em uma de minhas crônicas, ela realmente não gostou nada.
O jornal está cheio de mazelas. Tiros, assassinatos, violência, as brigas pré-eleitorais, essas coisas brasileiras. A foto de Baleia dá um pouco de ternura ao dia. Ela agora deve estar em um sítio, dando cambalhotas, mordendo algum amigo novo ou cavando um buraco em alguma parte do terreno. O ex-dono, esse malvado, vai ter que se explicar com a Justiça.
Fica o registro.
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