Revelações de um amante da literatura (Parte I)
Samarone Lima
Aldemir Félix gosta de ser chamado de “Suco”. Negro, 20 anos, morador de Brasília Teimosa, ele nunca pensou que o mundo dos livros pudesse entrar em sua vida com tanta força.
Ele foi um dos meus alunos da Oficina da Palavra, na escola Kabum! No começo arredio, sem muita conversa, começou a se aproximar e levar livros para casa. Aos poucos, foi mergulhando na leitura. Um dia, chegou á escola emocionado. Descobriu que tinha uma coisa na cabeça – poesia. Hoje tem uma mini-biblioteca com 64 livros, e não pára de escrever. Pedi que ele escrevesse algo sobre a descoberta do mundo da literatura, para uma matéria que estou escrevendo para a revista Continente Multicultural. Compartilho com meus poucos e fiéis leitores:
“No início eu não gostava de ler. Quando via as prateleiras das bibliotecas, achava que elas não diziam nada para mim. Na verdade, eu queria um livro que gritasse para mim. Eles permaneciam calados”.
“É muito difícil um jovem brasileiro, negro, ter acesso a livros bons. Além do mais, há pouco incentivo por parte da família e do próprio governo. Sem interesse algum nos livros, na escola eu ia de mal a pior. Não conseguia interpretar um texto, meus erros de ortografia eram em grande escala. A escola era broxante e a falta de conhecimentos era gritante. Eu estava fazendo parte do índice dos brasileiros que não lêem livros. Quando a situação apertava na escola, eu ia nas bibliotecas da cidade, mas fazer o quê? Eu buscava respostas sobre o que eu sentia aos 17 anos”.
“Aos 18 anos, encontrei sangue em minha garganta, pois estava lendo “A Imprensa Livre”, de Fausto Wolff. Eu não li esse livro, engoli todo com capa e contra-capa. Senti medo em absorver o livro por completo, pois não queria perder a inocência do mundo. Mas o medo teve sua recompensa. Compreendi as palavras de Wolff. Esse foi o primeiro livro que li com devoção, foi o primeiro a construir minha crítica a base de ferro e brasa”.
“Certa vez eu li oito horas sem parar. Comecei por volta de uma da tarde. Estava lendo “O Homem e seu algoz”, também de Fausto Wolff. São contos duros e crus, e passei a tarde no quarto. De lá, saía apenas para o banheiro, onde também ficava lendo. Fui vencido pela fome, às dez da noite”.
“Me apaixonei pela poesia quando conheci Miro, poeta recifense. Ele recitou alguns poemas e pleno Carnaval, na mesa onde eu estava. Passei mal. Definitivamente, senti algo que não consigo explicar. Naquela mesa, estava nascendo alguém que não era eu. Depois, passei a ler de verdade. Já tinha passado por Ferreira Gullar, Fasuto Wolff, Josué de Castro, Eliane Brum, entre outros escritores modernos”
“A vida mudou e as coisas também. Eu estava sabendo usar a literatura como balança existencial. O que falta para o jovem ler é bons livros e mais bibliotecas. As pessoas ao meu redor passaram a tentar seguir meu exemplo, de ler por amor e paixão e repassar isso adiante. Amigos pegam livro comigo. Ler se tornou uma epidemia boa Antes eu não tinha nenhum livro a não ser a Bíblia, hoje tenho um pequeno acervo. Alguns foram comprados, outros doados. Tenho 64 livros, entre crônicas, ficção, poesia, romances”.
“Os livros traçaram meu destino. Eu cresci e não tinha nenhuma perspectiva. Quando me perguntaram – qual é a tua perspectiva de vida? -, eu não sabia o que dizer. Os livros me deram esta possibilidade: quero ser escritor. Me esforço para isso. Estou começando a escrever contos. Tenho também seis cadernos cheios de poesia”…
“As palavras dos livros são como garças que voam para dentro da gente”.
Postado em Crônicas |
22 Comentários »




7 de julho de 2008, às 16:03h
A literatura, tal qual a música, descobre em nossa alma cantinhos que nem sabíamos existir, emoções que sequer percebíamos capazes de alcançar. A descoberta de um mundo fascinante: nós mesmos.
7 de julho de 2008, às 16:19h
Adorei o texto do seu aluno! O primeiro livro que li com essa gana foi `É proibido chorar`e tinha 14 anos. Desde lá leio com paixão por horas a fio e acredito mesmo que os livros nos trazem respostas, são nossa balança existencial.
Suas aulas devem ser reveladoras.
7 de julho de 2008, às 16:27h
Cacete. Que bonito. Eu sou professor, de outra area e em universidade particular. Tenho medo de nunca sentir isso que eu sei que você sentiu ao ler esse texto.
7 de julho de 2008, às 19:57h
Sama,
valeu….continue salvando…fiquei feliz com esse depoimento de Suco..muito bom isso…deveriam colar o depoimento em toda sala de aula…
8 de julho de 2008, às 8:10h
Lindo….lindo….meus filhos começaram a ler com o Fante, Bukowski e Fauto Wolff….não ia adiantar eu dar um Machado (que amo), não ia dar certo. Vou copiar, como sempre, esse texto e mandar para a humanidade.
Grande beijo.
8 de julho de 2008, às 9:13h
“As palavras dos livros são como garças que voam para dentro da gente”
Lindo, genial e a mais pura verdade.
8 de julho de 2008, às 10:17h
sama,
suco sempre é viceral… é o estilo dele, vc proporcionou a ele essa descoberta… lindo o texto dele, está escrevendo cada vez melhor…
abraços para todos vc´s,
8 de julho de 2008, às 13:30h
Terminei de ler o texto com lágrimas nos olhos… difícil falar alguma coisa sobre ele…
9 de julho de 2008, às 9:39h
mais um adepto ao maravilhoso muito da leitura!!
muito bom!
sama, continue transmitindo seus adeptos e atraindo cada vez mais novos leitores
9 de julho de 2008, às 10:07h
Olá Samarone
Conheço um rapaz do Bode que também montou uma “livroteca”, como ele gosta de chamar, em uma palafita, em sua comunidade. Também é uma iniciativa modesta, mas tem estimulado a leitura entre as crianças da redondeza. Penso que estes rapazes deveriam se conhecer e trocar idéias. Com certeza seria uma parceria ótima, não acha?
Marcia
9 de julho de 2008, às 10:21h
Sama,
Gostaria de publicar essa crônica no blog do Projeto Lanterninha. O link para o Estuário já existe em nossa páginas, mas creio que esse conto se comunica muito com a realidade que tentamos transformar.
Aguardo um ok.
beijos
zi
9 de julho de 2008, às 15:49h
Zi,
Pode publicar no Projeto Lanterninha.
Atenciosamente,
J.
9 de julho de 2008, às 19:53h
parabéns pelo blog, tenho passeado por aqui depois que descobri recentemente.
quando e aonde podemos encontrar mais palavras do Suco?
impressas ou em blog, espero ter mais contato.
abraço
10 de julho de 2008, às 8:58h
É capaz que você já conheça, mas achei tão lindo!
(…) Quem vive para a poesia deve ler tudo. Quantas vezes, de uma simples brochura, jorrou para mim a luz de uma imagem nova! Quando aceitamos ser animados por imagens novas, descobrimos irisações nas imagens dos velhos livros. As idades poéticas unem-se numa memória viva. A nova idade desperta a antiga. A antiga vem reviver na nova. Nunca a poesia é tão uma como quando se diversifica.
Que benefícios nos proporcionam os novos livros! Gostaria que cada dia me caíssem do céu, a cântaros, os livros que exprimem a juventude das imagens. Esse desejo é natural. Esse prodígio, fácil. Pois lá em cima, no céu, não será o paraíso uma imensa biblioteca?
Mas não basta receber, é preciso acolher. É preciso, dizem em uníssono o pedagogo e a dieteticista, “assimilar”. Para isso, somos aconselhados a não ler com demasiada rapidez e a cuidar para não engolir trechos excessivamente grandes. Dividam, dizem-nos, cada uma das dificuldades em tantas parcelas quantas forem necessárias para melhor resolve-las. Sim, mastiguem bem, bebam em pequenos goles, saboreiem versos por verso os poemas. Todos esses preceitos são belos e bons. Mas um princípio os comanda. Antes de mais nada, é necessário um bom desejo de comer , de beber e de ler. É preciso ler muito, ler mais, ler sempre.
Assim, já de manhã, diante dos livros acumulados sobre a mesa, faço ao deus da leitura a minha prece de leitor voraz: “A fome nossa de cada dia nos daí hoje…”
.
Gaston Bachelard. A Poética do Devaneio , Martins Fontes, p.25-26
bj
10 de julho de 2008, às 12:44h
Pessoal do Lanterninha:
O leitor J. aprovou a publicação do texto acima no site do projeto.
Não vou contrariar meus poucos leitores.
Sama
10 de julho de 2008, às 13:45h
É né, eu tinha que me pronunciar sobre tudo que foi dito? Pois aqui, esta. Eu o próprio personagem na sua forma invisível – por enquanto.
O que aconteceu comigo, eu gostaria do fundo do meu coração que acontece-se com outros jovens também. Esse resgate que Sama vez foi um resgate não só em mim, mais ele motivou toda turma da Oficina da Palavra.
Isso fortalece ainda mais o que digo que ” só a educação salva” e nesse país de copa do mundo, educação é a última coisa a ser discutida. Depois da roda dos gols do final de semana, o amor dos livros não é uma conquista fácil. Até então o acesso ele se torna uma grande aventura.
A todos se perguntam o que fazer para o jovem brasileiro ler? O vos respondo, deem um livro do qual ele se indetifique. Simples, todo jovem gosta daquilo que se indetifica é obvio. Livros fáceis de degusta, livros que eles vão se ler e com histórias reais não muito infeitadas.
Bom acho que já falei demais rs rs rs….
Sem mais agradeço a todos por gostarem da histórinha do qual protagonizei, sem mais.
Aldemir Suco
ahhh, qualquer coisa me escrevam tô adorando ser famosos – que ridiculo – sucohomem.plastico@gmail.com
Agora lisença pois como óleo n’água me junto e caminho com a multidão alada.
10 de julho de 2008, às 13:46h
É né, eu tinha que me pronunciar sobre tudo que foi dito? Pois aqui, esta. Eu o próprio personagem na sua forma invisível – por enquanto.
O que aconteceu comigo, eu gostaria do fundo do meu coração que acontece-se com outros jovens também. Esse resgate que Sama vez foi um resgate não só em mim, mais ele motivou toda turma da Oficina da Palavra.
Isso fortalece ainda mais o que digo que ” só a educação salva” e nesse país de copa do mundo, educação é a última coisa a ser discutida. Depois da roda dos gols do final de semana, o amor dos livros não é uma conquista fácil. Até então o acesso ele se torna uma grande aventura.
A todos se perguntam o que fazer para o jovem brasileiro ler? O vos respondo, deem um livro do qual ele se indetifique. Simples, todo jovem gosta daquilo que se indetifica é obvio. Livros fáceis de degusta, livros que eles vão se ler e com histórias reais não muito infeitadas.
Bom acho que já falei demais rs rs rs….
Sem mais agradeço a todos por gostarem da histórinha do qual protagonizei, sem mais.
ahhh, qualquer coisa me escrevam tô adorando ser famosos – que ridiculo – sucohomem.plastico@gmail.com
Agora lisença pois como óleo n’água me junto e caminho com a multidão alada.
Aldemir Suco
11 de julho de 2008, às 14:20h
Meu amigo Suco!
Quer dizer que tenho um amigo assim famoso?
Bem, meu coração poético jamais me enganou! Até vou reeditar os duetos que fizemos! rss
É verdade o que disse, leitura e educação na vida dessa juventude! e acrescento a isso, confiança e amor!
Um beijo, toda felicidade e sucesso! estou orgulhosa de VOCÊ!!
Elïscha Dewes
11 de julho de 2008, às 15:58h
Sama!!!!
Realmente,a Oficina da Palavra, mudou a vida, o jeito, a mentalidade, de muitos alunos. E deixou o melhor bem que se pode deixar, que foi o prazer, o tesão de ler. E que existem livros para todos os tipos de pessoas.
12 de julho de 2008, às 0:38h
conheço o suco. sabe porque eu conheço o suco? porque eu trabalhei em uma ESCOLA da rede estadual em brasilia teimosa como educadora de apoio. BALELA. deveria trabalhar com os professores. sabe o que fazia? tudo, menos minha função. e penso que isso foi maravilhoso. maravilhoso porque cheguei perto de GENTE. convivo diariamente com professores, em sua maioria, extremamente caretas, preconceituosos, chatos, tapados para o mundo circundante que se faz e se refaz, independente de sua vontade de permanecer na mesma. Professores assim acreditam que um cara como suco são ameaça, e buscam prejudicar, incutir em sua mente que são uns “nada”, eu sei, talvez tenha sido algo parecido quando mais jovem ou meus irmãos tenham passado por algo semelhante. eu gosto muito de suco, de sua mente aberta, contestadora, como tantos estudantes tolhidos por professores imbecis, com sua formação cultural extremamente pobre, com sua noção de mundo capaz de detonar a noção de liberdade, de experimentalismo que existe em cada coração de jovem que cruza seu caminho, tratando-os como lixo, como algo pertencente a um submundo ao qual, se você descer, se tornará um ser imprestável e jamais retornará à superfície para respirar. é fora da escola, no mundo lá fora que a gente aprende muito mais. Hellcife, dia do rock, 2008. e eu aqui, ouvindo lay, lady, lay – na voz do seu autor, bob dylan.
12 de julho de 2008, às 0:43h
esqueci, de avisar as meninas: o suco é lindo. mesmo.
18 de julho de 2008, às 9:20h
é suco, senti tua emoção quando estavamos sentados na calçada repartindo a tapioca.
Sama sabe de tu visse!!! Parabéns