Uma noite mágica
Samarone Lima
Por uma dessas artimanhas do jornalismo, estou acompanhando desde terça-feira a troupe de artistas que participa das aulas-espetáculos de Ariano Suassuna. Ontem, em Araripina, no ponto mais extremo de Pernambuco, foi apresentado “A onça malhada, a favela e o arraial”, sob a batuta do mestre. Sobre os músicos, cantores e bailarinos, só com um capítulo extra.
O evento aconteceu na quadra coberta da Fafopa (Faculdade de Formação de Professores). Rosa Maria Perdigão, coordenadora do Departamento de Letras, perdeu dois quilos nas últimas semanas por “excesso de felicidade”. A previsão inicial era de 500 cadeiras, mas os pedidos só faziam crescer, ela passou para 988, fora as 224 vagas laterais. Total: 1212 criaturas loucas por cultura. Somem de novo, porque fui reprovado em Matemática na 5ª e 8ª séries.
Não posso contar tudo, porque estou escrevendo uma longa matéria para a Continente Multicultural, mas faz tempo que não vejo isso: uma cidade inteira mobilizada para a chegada de um escritor, com seu exército brancaleônico das artes. Havia faixa em tudo que era esquina, com trechos dos livros e poemas de Ariano. Numa das ruas, tinha 80 faixas. Uma aluna, Ana Patrícia, do 8º período de Letras, fez uma série de pinturas em homenagem ao autor, que se tornaram uma mini-exposição. Ela teve que comprar as tintas em Caruaru, perdeu uma semana de faculdade e trabalho, mas era a criatura mais feliz do dia. Louvada seja a arte. Há pouco, ela veio ao hotel, dar um quadro de presente ao escritor.
Quando o homem chegou ao ginásio, tive pena dos atores famosos, que se acham muito importantes. Ariano ganhou a condição de mito. Dezenas de estudantes se acotovelavam para tirar fotos com suas câmeras digitais e celulares. Claro que haviam os resmungos de quem não conseguiu o registro histórico, porque a amiga não bateu a foto a tempo. Ao lado, um senhor de 82 anos, com chapéu de poeta, todo de branco, tentava puxar a manga da camisa do escritor, para conseguir uma senha e ver o espetáculo, mas foi vencido pela timidez e pelos sobressaltos da turma. Voltou humildemente para casa, mas não inconsolável. Conversamos um bocadinho.
Ao som de “Madeira do Rosarinho”, Ariano entrou no local do evento. Aplausos calorosos. Uma energia particular circulava naquele lugar. Havia sede de cultura e beleza. Depois do evento, durante um jantar, Rosa veio agradecer ao grupo de artistas. Disse que Araripina é “longe de tudo”, e que a presença deles era como a realização de um sonho.
Com sua voz rouca, Ariano incendiou o público com suas histórias, piadas, causos, e uma defesa apaixonada da cultura brasileira. É o mestre de cerimônias perfeito, misturando assuntos de acordo com os ventos da memória. Vai falando e apresentando o espetáculo, que é uma mistura de erudito e popular em doses harmônicas.
O sujeito que toca violoncelo, Sebastian Poch, é austríaco, e tive o prazer de escrever alguns textos no meu quarto, escutando ele ensaiar algumas cantatas no quarto ao lado. Ednado Cosmo, um negro alto e forte, tem a voz de baixo, mas pode subir para barítono, contralto e soprano, “e vou uma oitava acima”, que é primeiro soprano ou primeiro tenor. No espetáculo, ele é barítono, mas foi trabalhador da Celpe por “35 anos, 8 meses e 27 dias”. Um dos bailarinos é Pedro Salustiano, filho de Mestre Salustiano. O outro, Jáflis Nascimento, é filho de Nascimento do passo. Não vou falar de todo mundo, porque vocês não vão ler a matéria, que sai em agosto.
De 7h30 às 9h30, em Araripina, 1.212 criaturas saíram da realidade para o mundo dos sonhos. “Tenho uma poesia, um romance, um teatro, me juntei a um bando de heróis, bailarinos e músicos, e enquanto puder, vou lutar pela poesia e pela arte do povo do Brasil”, disse Ariano, arrancando aplausos, na bravura de seus 81 anos.
Até novembro, o espetáculo vai percorrer mais uma penca de cidades de Pernambuco. Feliz da sua se estiver no roteiro. Talvez você saia feliz como dona Maria das Graças, ou “Maria Bom Bom”, faxineira há 23 anos da Faculdade. Consegui que ela entrasse para ver o espetáculo. Queria saber o que ela achava do espetáculo. Ao final, ela entrou no camarim e tirou fotos com Ariano, a exemplo de outra centena de fãs. “Para mim, foi um sonho. A minha vida vai passar, mas essa história vai ficar”.
Sábado, será a vez de Triunfo, depois Serra Talhada, São José do Belmonte e Quixaba. Estarei na estrada com os artistas e o mestre. Vou ficar de olhos bem atentos para registrar tudo e compartilhar com meus bravos leitores.
Vamos que vamos.
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3 Comentários »




10 de julho de 2008, às 13:28h
Que belo é a arte, cultura, litratura. ver um povo poder se identificar com um artista, um espetáculo, um poema. Saber que a arte é do povo para o povo e não em latinhas sem gosto soberbas.
Esse exemplo de Araripina só comprova que o povo tendo a oportunidade e o espaço valoriza a boa cultura.
10 de julho de 2008, às 19:06h
não sei o que pode ser mais rico: acompanhar Ariano e sua trupe numa excursão como essa ou conhecer todos esses lugares e encontrar criaturas tão singulares, que parecem ter saído dos livros do Mestre Suassuna…
quando sair a revista me avisa, tá?
um beijo, querido.
11 de julho de 2008, às 8:51h
Hoje acordei com Rosa e esta frase me lembra Suassuna:
“Mestre não é quem sempre ensina, mas quem de repente aprende.” (Grande sertão: Veredas p.289)
bj