O traficante (de livros) na palafita
Samarone Lima
Não sei o que há com o jornalismo em geral. As notícias ruins ocupam a maior parte do noticiário, as péssimas nunca saem da pauta. Os crimes, em particular, se tornam obsessão das mídias. Há uma regra elementar - quanto mais cruéis (e se envolverem crianças), ganham mais espaço, mais tempo, mais páginas. Talvez seja por isso meu afastamento paulativo da minha profissão original. Não aguento mais tanta repetição. Não acho que mudaremos essa cultura de violência com a exibição perpétua de cadáveres e familias destruídas. Falta esperança e beleza nas pautas. Falta olhar para outras formas de vida e resistência.
Mas há dias em que dos jornais surge uma pequena esperança, na forma de uma matéria, um texto, uma notinha. É preciso comprar a edição do Jornal do Commercio de hoje, sacar a página 4, do caderno de Cidades, e ler em voz alta, nas escolas estaduais e municipais, a matéria intitulada “Entre a miséria e a lição dos livros”, assinada por João Valadares. É preciso que as pessoas vejam que no Recife há mais que medo, dor e violência.
Conta a história do auxiliar de áudio Ricardo Gomes Ferraz, o Kcal Gomes, 34 anos, morador da palafita do Bode, no pina, Zona Sul do Recife. Há um ano, o sujeito criou a “Biblioteca Guardiã”, que se tornou o refúgio das crianças. “Essa livroteca é uma facada no estômago do sistema”, diz nosso amigo, numa linguagem agressiva, mas com seus motivos. Ele já perdeu uns 15 amigos, assassinados pelo sistema.
Não vou contar a matéria inteira, porque o jornalista trabalhou um bocado, foi entrevistar o cara, e não vou ficar dando uma de bacana, copiando coisas dos outros.
Duas frases do Ricardo me chamam a atenção:
“Não tenho nada, mas faço tudo”.
“Minha irmã vende crack aqui. Eu sou traficante de livros”.
Cada vez me encanto mais com essas criaturas que não têm nada, ou quase nada, e são capazes de sonhar. Ricardo tem uma palafita, onde mora com a mulher e dois filhos. A casa virou o espaço de leitura. Uma palafita. Quantas pessoas nesta cidade têm tudo, Ricardo, e nao fazem absolutamente nada…
A irmã do rapaz vende crack. Ele é traficante de livros.
Sempre gostei desta idéia de traficantes de livros, de conhecimentos, de belezas, de esperanças. Minha fé na mudança desta cidade cruel que é o Recife reside nos artistas, nos músicos, nos professores, nos contadores de histórias, nos que têm sonhos impossíveis como este rapaz. Traficantes que possam se agrupar, como estão fazendo uns meninos no Coque, outros no Nascedouro, de Peixinhos. Pessoas simples, sem muita experiência com catalogação e livros, sem saberes literários, mas que lutam por livros e espaços de leitura. Sabem quantas bibliotecas públicas temos na cidade do Recife?
Na palafita de Ricardo, há uma frase escrita na janela que diz o seguinte:
“Todos nós estamos sentados na lama, mas alguns de nós estão olhando estrelas”.
A manchete do mesmo jornal é a seguinte:
“Caem delegados que prenderam banqueiros”.
Ela não me diz absolutamente nada. A sorte é que a outra metade da capa mostra a foto de Ricardo, e sua palafita das leituras ao lado. Há tempos não via um título tão lindo em um jornal do Recife:
“Sou um traficante de livros”.
É uma olhada e tanto para as estrelas.
ps. Espero que os candidatos à Prefeitura do Recife leiam a matéria e digam algo, agora que todos resolveram caminhar pelos bairros mais pobres da cidade.
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