Instantâneos
Samarone Lima
Escutar histórias e escrevê-las é meu passatempo predileto. Sempre que alguém chega com alguma, aguço o ouvido e presto bem atenção. As melhores histórias precisam mesmo de ouvidos atentos.
Pois bem. Faço uns trabalhos para a Secretaria Estadual de Saúde, e adoro encontrar Dona Maria. Há pouco, entreguei uns doces de leite que trouxe do Sertão, ela achou o máximo, e me disse algo que anunciaria uma boa história:
“Nem te conto o que aconteceu comigo semana passada…”
Oba, foi o que pensei comigo. Parei tudo, peguei um café e perguntei o que tinha acontecido.
Dona Maria explicou que teve um enterro, semana passada, da avó do filho de alguém. A mulher, de oitenta e tantos anos, morreu quarta-feira na Paraíba, só que era nascida no Recife. Para enterrar a pessoa, informa Dona Maria, só com o atestado de óbito. O atestado, por sua vez, só com a certidão de nascimento. Meu deus, até para morrer o mundo anda complicado!
Liberaram o corpo, mas a família tinha que mandar a certidão de nascimento por fax. A mulher morreu na quarta, o enterro aconteceria na quinta.
O problema é que a família não encontrava a certidão. Dona Maria estava na comissão do enterro. Se não estava, acabei de nomeá-la.
O negócio foi ficando enrolado, enrolado, Dona Maria cada vez mais aflita, o enterro foi repassado para a sexta-feira.
“Foi um côco de roda danado”, disse Maria.
Por uma sorte do destino, o negócio foi resolvido na tardinha da sexta-feira. Só que já era 17h30, e os coveiros já estavam indo embora. Dona Maria foi conversar com a administração do cemitério, jogou argumentos diversos.
“Eu fiquei tão angustiada, que nem pensei”.
O enterro aconteceu somente ao anoitecer, dois dias depois do óbito.
Uma coisa chamava a atenção – a alegria com que ela contava a história. Um enterro tinha se tornado uma grande aventura. Dona Maria comeu os docinhos que eu trouxe, ficou fazendo aqueles “hummm”, que a gente costuma fazer, quando gosta muito de alguma comida, e fica fazendo coisas de crianças. Terminei de tomar meu café e voltei para trabalhar, após boas gargalhadas. Achei ótimo escutar uma história, no início da tarde.
Em Triunfo, semana passada, um sargento aposentado da PM me explicou o motivo de a cidade ter tantos doidos. Sua teoria envolvia o frio e o excesso (ou a falta) de sexo. Foi uma ótima conversa, ao sabor de uma cerveja.
Depois escrevo sobre isso.
Sugestão de leitura: “Caos Calmo”, de Sandro Veronesi.
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