Crônicas das coisas mínimas e desnecessárias | Por Samarone Lima

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José, 8 quilos

14 de julho de 2008, às 13:02h por Samarone Lima

Estou na estrada. Parada em Cruzeiro do Nordeste, para o almoço. Um menino pequeno, sorridente, se aproxima, pedindo dinheiro. Nunca dou dinheiro a crianças, em hipótese alguma. Dou um afago, um sorriso, pergunto se está estudando. Geralmente, rende uma boa conversa.

Comecei a escrever umas coisas no meu caderno, o menino pediu para escrever seu nome. Dei o caderno, ele ficou rabiscando seu “José”, mordendo a língua. Tinha no máximo cinco anos. Sua irmã estava à espera de umas cabras de sua avó, as únicas da região que esperam os carros passarem, para atravessar a pista. São as cabras mais sabidas de Pernambuco.

“Quantos anos você tem?”, perguntei.

“Oito”

“Oito? Oito não, está errado”.

O menino me olha e completa:

“É sim, me pesei na balança”.

Me lembrei daquele pequeno Josué, de Central do Brasil.

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Uma noite mágica

10 de julho de 2008, às 12:58h por Samarone Lima

Por uma dessas artimanhas do jornalismo, estou acompanhando desde terça-feira a troupe de artistas que participa das aulas-espetáculos de Ariano Suassuna. Ontem, em Araripina, no ponto mais extremo de Pernambuco, foi apresentado “A onça malhada, a favela e o arraial”, sob a batuta do mestre. Sobre os músicos, cantores e bailarinos, só com um capítulo extra.

 

O evento aconteceu na quadra coberta da Fafopa (Faculdade de Formação de Professores). Rosa Maria Perdigão, coordenadora do Departamento de Letras, perdeu dois quilos nas últimas semanas por “excesso de felicidade”. A previsão inicial era de 500 cadeiras, mas os pedidos só faziam crescer, ela passou para 988, fora as 224 vagas laterais. Total: 1212 criaturas loucas por cultura. Somem de novo, porque fui reprovado em Matemática na 5ª e 8ª séries.

 

Não posso contar tudo, porque estou escrevendo uma longa matéria para a Continente Multicultural, mas faz tempo que não vejo isso: uma cidade inteira mobilizada para a chegada de um escritor, com seu exército brancaleônico das artes. Havia faixa em tudo que era esquina, com trechos dos livros e poemas de Ariano. Numa das ruas, tinha 80 faixas. Uma aluna, Ana Patrícia, do 8º período de Letras, fez uma série de pinturas em homenagem ao autor, que se tornaram uma mini-exposição. Ela teve que comprar as tintas em Caruaru, perdeu uma semana de faculdade e trabalho, mas era a criatura mais feliz do dia. Louvada seja a arte. Há pouco, ela veio ao hotel, dar um quadro de presente ao escritor.

 

Quando o homem chegou ao ginásio, tive pena dos atores famosos, que se acham muito importantes. Ariano ganhou a condição de mito. Dezenas de estudantes se acotovelavam para tirar fotos com suas câmeras digitais e celulares. Claro que haviam os resmungos de quem não conseguiu o registro histórico, porque a amiga não bateu a foto a tempo. Ao lado, um senhor de 82 anos, com chapéu de poeta, todo de branco, tentava puxar a manga da camisa do escritor, para conseguir uma senha e ver o espetáculo, mas foi vencido pela timidez e pelos sobressaltos da turma. Voltou humildemente para casa, mas não inconsolável. Conversamos um bocadinho.

 

Ao som de “Madeira do Rosarinho”, Ariano entrou no local do evento. Aplausos calorosos. Uma energia particular circulava naquele lugar. Havia sede de cultura e beleza. Depois do evento, durante um jantar, Rosa veio agradecer ao grupo de artistas. Disse que Araripina é “longe de tudo”, e que a presença deles era como a realização de um sonho.

 

Com sua voz rouca, Ariano incendiou o público com suas histórias, piadas, causos, e uma defesa apaixonada da cultura brasileira. É o mestre de cerimônias perfeito, misturando assuntos de acordo com os ventos da memória. Vai falando e apresentando o espetáculo, que é uma mistura de erudito e popular em doses harmônicas.

 

O sujeito que toca violoncelo, Sebastian Poch, é austríaco, e tive o prazer de escrever alguns textos no meu quarto, escutando ele ensaiar algumas cantatas no quarto ao lado. Ednado Cosmo, um negro alto e forte, tem a voz de baixo, mas pode subir para barítono, contralto e soprano, “e vou uma oitava acima”, que é primeiro soprano ou primeiro tenor. No espetáculo, ele é barítono, mas foi trabalhador da Celpe por “35 anos, 8 meses e 27 dias”. Um dos bailarinos é Pedro Salustiano, filho de Mestre Salustiano. O outro, Jáflis Nascimento, é filho de Nascimento do passo. Não vou falar de todo mundo, porque vocês não vão ler a matéria, que sai em agosto.

 

De 7h30 às 9h30, em Araripina, 1.212 criaturas saíram da realidade para o mundo dos sonhos. “Tenho uma poesia, um romance, um teatro, me juntei a um bando de heróis, bailarinos e músicos, e enquanto puder, vou lutar pela poesia e pela arte do povo do Brasil”, disse Ariano, arrancando aplausos, na bravura de seus 81 anos.

 

Até novembro, o espetáculo vai percorrer mais uma penca de cidades de Pernambuco. Feliz da sua se estiver no roteiro. Talvez você saia feliz como dona Maria das Graças, ou “Maria Bom Bom”, faxineira há 23 anos da Faculdade. Consegui que ela entrasse para ver o espetáculo. Queria saber o que ela achava do espetáculo. Ao final, ela entrou no camarim e tirou fotos com Ariano, a exemplo de outra centena de fãs. “Para mim, foi um sonho. A minha vida vai passar, mas essa história vai ficar”.

 

Sábado, será a vez de Triunfo, depois Serra Talhada, São José do Belmonte e Quixaba. Estarei na estrada com os artistas e o mestre. Vou ficar de olhos bem atentos para registrar tudo e compartilhar com meus bravos leitores.

 

Vamos que vamos.

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Revelações de um amante da literatura (Parte I)

7 de julho de 2008, às 11:52h por Samarone Lima

Aldemir Félix gosta de ser chamado de “Suco”. Negro, 20 anos, morador de Brasília Teimosa, ele nunca pensou que o mundo dos livros pudesse entrar em sua vida com tanta força.

Ele foi um dos meus alunos da Oficina da Palavra, na escola Kabum! No começo arredio, sem muita conversa, começou a se aproximar e levar livros para casa. Aos poucos, foi mergulhando na leitura. Um dia, chegou á escola emocionado. Descobriu que tinha uma coisa na cabeça – poesia. Hoje tem uma mini-biblioteca com 64 livros, e não pára de escrever. Pedi que ele escrevesse algo sobre a descoberta do mundo da literatura, para uma matéria que estou escrevendo para a revista Continente Multicultural. Compartilho com meus poucos e fiéis leitores: 

“No início eu não gostava de ler. Quando via as prateleiras das bibliotecas, achava que elas não diziam nada para mim. Na verdade, eu queria um livro que gritasse para mim. Eles permaneciam calados”.

“É muito difícil um jovem brasileiro, negro, ter acesso a livros bons. Além do mais, há pouco incentivo por parte da família e do próprio governo. Sem interesse algum nos livros, na escola eu ia de mal a pior. Não conseguia interpretar um texto, meus erros de ortografia eram em grande escala. A escola era broxante e a falta de conhecimentos era gritante. Eu estava fazendo parte do índice dos brasileiros que não lêem livros. Quando a situação apertava na escola, eu ia nas bibliotecas da cidade, mas fazer o quê? Eu buscava respostas sobre o que eu sentia aos 17 anos”.

“Aos 18 anos, encontrei sangue em minha garganta, pois estava lendo “A Imprensa Livre”, de Fausto Wolff. Eu não li esse livro, engoli todo com capa e contra-capa. Senti medo em absorver o livro por completo, pois não queria perder a inocência do mundo. Mas o medo teve sua recompensa. Compreendi as palavras de Wolff. Esse foi o primeiro livro que li com devoção, foi o primeiro a construir minha crítica a base de ferro e brasa”.

“Certa vez eu li oito horas sem parar. Comecei por volta de uma da tarde. Estava lendo “O Homem e seu algoz”, também de Fausto Wolff. São contos duros e crus, e passei a tarde no quarto. De lá, saía apenas para o banheiro, onde também ficava lendo. Fui vencido pela fome, às dez da noite”.

“Me apaixonei pela poesia quando conheci Miro, poeta recifense. Ele recitou alguns poemas e pleno Carnaval, na mesa onde eu estava. Passei mal. Definitivamente, senti algo que não consigo explicar. Naquela mesa, estava nascendo alguém que não era eu.  Depois, passei a ler de verdade. Já tinha passado por Ferreira Gullar, Fasuto Wolff, Josué de Castro, Eliane Brum, entre outros escritores modernos”

“A vida mudou e as coisas também. Eu estava sabendo usar a literatura como balança existencial. O que falta para o jovem ler é bons livros e mais bibliotecas. As pessoas ao meu redor passaram a tentar seguir meu exemplo, de ler por amor e paixão e repassar isso adiante. Amigos pegam livro comigo. Ler se tornou uma epidemia boa Antes eu não tinha nenhum livro a não ser a Bíblia, hoje tenho um pequeno acervo. Alguns foram comprados, outros doados. Tenho 64 livros, entre crônicas, ficção, poesia, romances”.

“Os livros traçaram meu destino. Eu cresci e não tinha nenhuma perspectiva. Quando me perguntaram – qual é a tua perspectiva de vida? -,  eu não sabia o que dizer. Os livros me deram esta possibilidade: quero ser escritor. Me esforço para isso. Estou começando a escrever contos. Tenho também seis cadernos cheios de poesia”…

“As palavras dos livros são como garças que voam para dentro da gente”.

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Baleia

3 de julho de 2008, às 13:39h por Samarone Lima

Amigos leitores, interrompo minha escalada de viagens intermináveis para me debruçar num assunto da maior relevância: uma matéria publicada na página C4 do Diário de Pernambuco de hoje. Trata de um vira-lata que estava acorrentado a uma cadeira, em uma casa abandonada, na Avenida Norte. O animal aparece em uma foto, com seus olhinhos apreensivos, aquele jeito de quem diz “o que estou fazendo aqui?”. Na outra foto, está sendo libertado. Passará por exames e ficará sob custódia do Movimento de Proteção ao Cão em Risco. Nesta foto, ele olha atentamente, já com simpatia, para a assistente social Simone Sales, coordenadora do MCP.

A matéria não informa o nome do animal. Por motivos literários e sentimentais, o batizo de “Baleia”.

O cão, digo, Baleia, só foi liberto graças à Delegacia de Meio Ambiente e de Infrações de Menor Potencial Ofensivo, criado há uma semana. Num tempo de tanta violência, vai aparecer gente criticando a iniciativa. Cuidar de cães maltratados? Defender animais?

Basta ler a matéria para saber que tem muita gente doente nesse mundo. O dono do animal mantinha o coitado amarrado à cadeira dia e noite, e só aparecia por lá nos finais de semana. Botava comida e desaparecia. Claro que depois de três dias, a comida apodrecia. O lugar estava sujo e fedorento. O que se passa na cabeça de uma criatura, capaz de fazer uma malvadeza dessas? Não era melhor dar para um amigo ou simplesmente deixar Baleia livre?

Fico sabendo que no Recife tem esse Movimento de Proteção ao Cão em Risco. Simone Sales, que era professora universitária, deu entrada na aposentadoria para cuidar do lugar, onde estão mais de 100 animais. Vida longa para a senhora, dona Simone!

Moro com uma senhora de 81 anos, a Dona Flocely. Bam Bam, seu cachorrinho, é uma alegria na casa, e eu seria capaz de chegar às vias de fato, caso alguém maltratasse nosso animalzinho. Recentemente, chegou “Gi Gi”, uma cadela branquinha que promete ser a namorada de Bam Bam. Gi Gi está em fase de observação. Tia, com seus inúmeros problemas de saúde, vive muito mais feliz quando vê os dois brincando. Outro dia, chamei Bam Bam, de vira-lata, em uma de minhas crônicas, ela realmente não gostou nada.

O jornal está cheio de mazelas. Tiros, assassinatos, violência, as brigas pré-eleitorais, essas coisas brasileiras. A foto de Baleia dá um pouco de ternura ao dia. Ela agora deve estar em um sítio, dando cambalhotas, mordendo algum amigo novo ou cavando um buraco em alguma parte do terreno. O ex-dono, esse malvado, vai ter que se explicar com a Justiça.

Fica o registro.

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