Sem coisas para fazer (antes do fim)
Samarone Lima
Amados leitores, fiquei alarmadíssimo com uma nota de pé de página em um desses jornais que me aparecem pelo caminho: Dave Freeman morreu.
Caso vocês não saibam, Dave é co-autor do livro “Cem coisas a fazer antes de morrer”, que muita gente ao redor do mundo comprou e leu. Gente besta, diga-se de passagem. O livro saiu também em português, e outro dia dei uma olhada, para ver quais são essas 100 coisas, e descobri que, sendo rico, dá para fazer coisas à beça (fiquei com dúvida sobre esta crase, torço para que a Flávia Suassuna não me leia hoje). Por mim, eu passaria o mês de agosto na Toscana, lendo, escrevendo, tomando vinho e assistindo os jogos do Campeonato Italiano, mas tenho que ralar é para pagar as contas e terminar de revisar um livrinho que vou tocando aqui, nas intocas.
Sua obra-prima (a do Dave) foi escrita em parceria com Neil Treplica, um nome para lá de cabuloso, mas isso não vem ao caso. A morte aconteceu há coisa de uma semana, mas a notícia só foi divulgada anteontem, sabe-se lá o motivo.
O que é pior: ele tinha apenas 47 anos, e morreu em casa, em Los Angeles, após levar uma queda e bater a cabeça.
Para um sujeito que fez uma coisa megalomaníaca dessas, que se dá ao trabalho de dizer ao mundo as 100 coisas para fazer (antes de morrer), chega a ser patético esse obituário: depois de escorregar no tapete, tropeçar na escada ou bater o cocoruto em um laje que está sendo construída.
Eu sempre desconfiei da segurança dessas casonas de Los Angeles, e nunca pensei em investir minha grana por lá. Graças a Deus, tia Flocely, que nunca listou nada para os outros fazerem, está boa e firme, caminhando para os 82 anos, em sua casinha no Cabo de Santo Agostinho, onde pego um bigu-moradia. Lá, tudo é seguro, ela já levou três ou quatro quedas, mas nada comparado ao desastre de Freeman. Eu mesmo subo as escadas uma par de vezes, e nuca bati em nada. No máximo, quase pisei no rabo de Bam Bam, nosso famoso cãozinho (tia não gostou quando o chamei de vira-lata, em outra crônica, uso o “cãozinho”, para evitar confusões familiares).
O que me preocupa é o seguinte: em maio de 2005, escrevi a crônica “Coisas para fazer antes do fim”, que chegou a ser publicada no livro “Estuário”, salvo engano. Em uma daquelas minhas clássicas tardes sem assunto, listei as coisas que pretendia fazer, caso fosse morrer dentro de nove meses. Olhando bem, isso é caso par um bom psicanalista ou psiquiatra mesmo, mas sigamos.
A lista foi aumentada numa manhã de sol, na praia de Boa Viagem, com minha amiga Andréa Ferraz. Não sei onde anotei s 18 coisas que pretendia fazer antes do fim. Descobri apenas que sou bem menos megalomaníaco que o Dave, porque 100 coisas para fazer antes do fim deixa o sujeito cansado antes de começar. Com 18, eu já estava achando muita coisa.
Sei que uma consegui, que foi ver o Santa Cruz Campeão Estadual (em 2005 quebramos um jejum de 9 anos), mas depois, veio o castigo: nunca mais ganhamos nada, e estamos inaugurando a Série D, ano que vem.
Como vai dar trabalho encontrar este caderno de 2005 (de lá pra cá, já enchi uma dezena), melhor deixar essa conversa fiada de “coisas para fazer antes do fim” e pensar em coisas para fazer quando puder, sem tanto aperreio. Melhor mesmo seria mudar o título do livro para: “Sem coisas para fazer antes do fim”, e rebatizá-lo para “Sem propostas para o próximo milênio”, para homenagear o Ítalo Calvino e Gustavo de Castro.
Nessa afobação, o Dave caiu do cavalo. Minha grande curiosidade é saber quantas coisas ele tinha feito, antes de passar desta para melhor, se o Neil Treplica (francamente, que nome…) vai assumir o restante das coisas listadas. Finalmente, e se ele tinha incluído, em suas prioridades, tomar umas cervejas com os amigos no “Princesa Isabel”, ou no “Bar de Seu Vital”, disparado, os dois melhores botecos do Recife.
Até domingo.
Nota cultural: A Funarte abriu edital para vários programas e produções culturais. Como alguns de meus 33 leitores (o número subiu nas últimas semanas, graças a um debate selvagem sobre poesia e vagabundagem) são artistas, poetas, escritores, diletantes, vale dar uma olhada, porque tem bolsas as mais diversas, e com uma bolsa decente, dá para fazer um sem número de coisas: www.funarte.gov.br
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