Crônicas das coisas mínimas e desnecessárias | Por Samarone Lima


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Sem coisas para fazer (antes do fim)

29 de agosto de 2008, às 16:36h por Samarone Lima

Amados leitores, fiquei alarmadíssimo com uma nota de pé de página em um desses jornais que me aparecem pelo caminho: Dave Freeman morreu.

Caso vocês não saibam, Dave é co-autor do livro “Cem coisas a fazer antes de morrer”, que muita gente ao redor do mundo comprou e leu. Gente besta, diga-se de passagem. O livro saiu também em português, e outro dia dei uma olhada, para ver quais são essas 100  coisas, e descobri que, sendo rico, dá para fazer coisas à beça (fiquei com dúvida sobre esta crase, torço para que a Flávia Suassuna não me leia hoje). Por mim, eu passaria o mês de agosto na Toscana, lendo, escrevendo, tomando vinho e assistindo os jogos do Campeonato Italiano, mas tenho que ralar é para pagar as contas e terminar de revisar um livrinho que vou tocando aqui, nas intocas.

Sua obra-prima (a do Dave) foi escrita em parceria com Neil Treplica, um nome para lá de cabuloso, mas isso não vem ao caso. A morte aconteceu há coisa de uma semana, mas a notícia só foi divulgada anteontem, sabe-se lá o motivo.

O que é pior: ele tinha apenas 47 anos, e morreu em casa, em Los Angeles, após levar uma queda e bater a cabeça.

Para um sujeito que fez uma coisa megalomaníaca dessas, que se dá ao trabalho de dizer ao mundo as 100 coisas para fazer (antes de morrer), chega a ser patético esse obituário: depois de escorregar no tapete, tropeçar na escada ou bater o cocoruto em um laje que está sendo construída.

Eu sempre desconfiei da segurança dessas casonas de Los Angeles, e nunca pensei em investir minha grana por lá. Graças a Deus, tia Flocely, que nunca listou nada para os outros fazerem, está boa e firme, caminhando para os 82 anos, em sua casinha no Cabo de Santo Agostinho, onde pego um bigu-moradia. Lá, tudo é seguro, ela já levou três ou quatro quedas, mas nada comparado ao desastre de Freeman. Eu mesmo subo as escadas uma par de vezes, e nuca bati em nada. No máximo, quase pisei no rabo de Bam Bam, nosso famoso cãozinho (tia  não gostou quando o chamei de vira-lata, em outra crônica, uso o “cãozinho”, para evitar confusões familiares).

O que me preocupa é o seguinte: em maio de 2005, escrevi a crônica “Coisas para fazer antes do fim”, que chegou a ser publicada no livro “Estuário”, salvo engano. Em uma daquelas minhas clássicas tardes sem assunto, listei as coisas que pretendia fazer, caso fosse morrer dentro de nove meses. Olhando bem, isso é caso par um bom psicanalista ou psiquiatra mesmo, mas sigamos.

A lista foi aumentada numa manhã de sol, na praia de Boa Viagem, com minha amiga Andréa Ferraz. Não sei onde anotei s 18 coisas que pretendia fazer antes do fim. Descobri apenas que sou bem menos megalomaníaco que o Dave, porque 100 coisas para fazer antes do fim deixa o sujeito cansado antes de começar. Com 18, eu já estava achando muita coisa.

Sei que uma consegui, que foi ver o Santa Cruz Campeão Estadual (em 2005 quebramos um jejum de 9 anos), mas depois, veio o castigo: nunca mais ganhamos nada, e estamos inaugurando a Série D, ano que vem.

Como vai dar trabalho encontrar este caderno de 2005 (de lá pra cá, já enchi uma dezena), melhor deixar essa conversa fiada de “coisas para fazer antes do fim” e pensar em coisas para fazer quando puder, sem tanto aperreio. Melhor mesmo seria mudar o título do livro para: “Sem coisas para fazer antes do fim”, e rebatizá-lo para “Sem propostas para o próximo milênio”, para homenagear o Ítalo Calvino e Gustavo de Castro.

Nessa afobação, o Dave caiu do cavalo. Minha grande curiosidade é saber quantas coisas ele tinha feito, antes de passar desta para melhor, se o Neil Treplica (francamente, que nome…) vai assumir o restante das coisas listadas. Finalmente, e se ele tinha incluído, em suas prioridades, tomar umas cervejas com os amigos no “Princesa Isabel”, ou no “Bar de Seu Vital”, disparado, os dois melhores botecos do Recife.

Até domingo.

 

Nota cultural: A Funarte abriu edital para vários programas e produções culturais. Como alguns de meus 33 leitores (o número subiu nas últimas semanas, graças a um debate selvagem sobre poesia e vagabundagem) são artistas, poetas, escritores, diletantes, vale dar uma  olhada, porque tem bolsas as mais diversas, e com uma bolsa decente, dá para fazer um sem número de coisas: www.funarte.gov.br

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Diálogos, email e um pedido

27 de agosto de 2008, às 14:14h por Samarone Lima

Um amigo das antigas, apesar de ser novo, disse que prefere os comentários no meu Estuário que minhas crônicas, coisa que concordo imensamente. Muitas vezes, o que os leitores dizem se aproveita mais que minhas potocas. Aproveito para dizer aos meus abnegados leitores, que fico em festa quando recebo alguns comentários, fora os que mandam direto para meu email.

Não sei o fenômeno da natureza que vem se processando, talvez a possível eleição do Obama, o desaquecimento global (pelo menos no Cabo de Santo Agostinho está fazendo bem mais frio), as derrotas do Santa Cruz, mas o fato é que minhas duas últimas croniquetas renderam 54 mensagens, que considero como pequenas cartas. Levando em conta que não estou fazendo análises dos governos, muito menos comentando as campanhas absolutamente aguadas dos que querem ser prefeito do Recife, acho muita gente, e fico feliz.

Ah, como é bom saber que alguém leu algo que escrevi, que gostou, ou riu, ou sentiu algum contentamento, ou achou o fim da picada. Dá vontade de escrever uma crônica todo dia.

O motivo é simples: as mensagens dos leitores equilibra um pouco minha caixa de email.

Amigos, tem dia que recebo uma quantidade enorme de email, e a julgar pelo que me mandam, devo ser mesmo um pouco maluco ou esquizofrênico. Hoje mesmo, me mandaram prestar muita atenção na lua de 27 de agosto, porque vão surgir duas luas no céu, e acho isso um exagero. Por via das dúvidas, olharei atentamente para o céu, logo mais, aproveitando que as novelas estão uma droga.

Também me convidam para uma palestra sobre a Bolívia e Paraguai. Apesar da minha simpatia pelos vizinhos, ando arredio a palestras de análise de conjuntura, porque ninguém dá uma bola dentro.

Sou informado que haverá uma oficina sobre o uso do Benzeno em Pernambuco, acho importantíssimo discutir a utilização deste líquido incolor, volátil, usado como solvente e matéria-prima de vários outros produtos compostos, segundo o mini-Aurélio, mas infelizmente, terei um compromisso no mesmo dia, estou a poucas páginas do final de Dom Quixote, haverá choque de interesses, foi mal Gildázio, todo o apoio à iniciativa.

Vem um convite para discutir a vivência lésbica, agradeço o convite, a programação é ótima, mas estou morando no Cabo, daqui para Olinda serão dois ônibus, tenho que terminar uma matéria longa para a Continente Multicultural e penso nas duas cartas que pretendo terminar, para amigos distantes. Minhas leitoras lésbicas haverão de se fazer presentes.

Me mandam um discurso proferido “pelo Dr Fidel Castro Ruiz, presidente da República de Cuba, durante…” – mas depois de ter passado um mês em Cuba, entre dezembro e janeiro, fiquei meio invocado com o comandante e os desdobramentos da Revolução. Além do mais, o email está com erros, porque ele já está aposentado, fica agora só escrevendo para o Granma, dando palpite em tudo. A última foi dizer que a “máfia da arbitragem” prejudicou Cuba durante as Olimpíadas, que levou somente duas medalhas de ouro. Uai, se justamente os comunistas da China roubaram a turma de Cuba, eu não entendo mais nada, deve estar havendo algum conflito ideológico. Fica o registro.

Me convidam para um seminário sobre os Orixás na Bahia, é o mais interessante, mas não mandaram as passagens, fica para a próxima.

Da série “artigos reenviados”, me mandam algo intitulado “Mulher que bebe e tira a roupa”, calculo que deve ser de Xico Sá e… bingo! Texto de Xico Sá. Quem não conhece uma mulher que bebe e quer tirar a roupa? O maldito Icasa de Xico arrasou com Meu Santa Cruz, e fico no veneno, só vou ler o artigo depois, em sinal de protesto.

Como o Pernambucano é um obsessivo, me mandam um projeto de lei que decreta o dia 3 de maio como “Dia Estadual do Torcedor do Santa Cruz”. Fico feliz, porque é o dia do meu aniversário, mas é bom apressarem a votação na Assembléia, porque estão realmente decididos a acabar com meu clube de coração, agora que vamos disputar a Série D do Campeonato Brasileiro.

Por último, vai um pedido. Busco um leitor (ou leitora, questão de gênero) que tope trabalhar na edição do volume 2 de Estuário. A tarefa é simples: ler minhas crônicas todas de 2007 e 2008, separar as menos ruins e ajudar na edição. Favor mandar email ou sinal de fumaça aqui no Estuário. 

Como o volume 1 esgotou, acho melhor não reditar e fazer algo novo. Não tenho paciência para a tarefa, sempre escolho as piores, e só consegui fazer o primeiro volume porque me concentrei muito e não tinha tantos textos publicados. Depois do livro pronto, achei que algumas razoáveis ficaram de fora, e há péssimas crônicas publicadas. Quanto à edição, até hoje agradeço ao pessoal do Ateliê, que fez um belo trabalho.

Peço aos meus caros amigos e pingados leitores que nunca me mandem textos do Arnaldo Jabour, que acho o cara mais chato do Brasil, depois do Galvão Bueno e do Dom José Cardoso, que me perdoem os católicos  pernambucanos. O cara (o Arnaldo) é chato pacas e escreve coisas boçais, pretensiosas e que nunca me interessam. Melhor reler dez vezes o magistral “Sempre aos Domingos”, do Renato Carneiro Campos, numa belíssima edição da Bagaço.

Pela graça divina, soube há pouco que meu amigo Inácio França vai inaugurar seu blog ainda este mês. É muito melhor para a vista e para a cuca.

Hoje é um daqueles clássicos dias em que estou sem assunto. Iria escrever sobre o Recife aos domingos, mas no meio da semana, é de lascar. Fica para o domingo mesmo, o próximo.

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Vitórias e derrotas

21 de agosto de 2008, às 16:20h por Samarone Lima

Outro dia, numa apresentação de uma mesa-redonda, num festival literário, tive um susto. Me informaram que tenho três livros publicados, um mestrado na USP, trabalhos em vários meios de comunicação e outras loas. Quanto mais falavam de mim, mais eu ficava incomodado. Era tudo verdade, mas senti, intimamente, como se estivesse contando apenas a história das vitórias de uma pessoa, que era eu.

Em tempos de obsessão olímpica pela medalha de ouro (sinceramente, a Olimpíada ficaria bem durando no máximo 10 dias), o “céu ou inferno” após o combate, acho bom falar dos fracassos também. Os meus são muitos.

Três livros publicados? Sim, mas falta dizer que o primeiro livro, “Zé”, passou por várias derrotas. A primeira versão desapareceu, quando o computador quebrou. Depois de pronto, o texto original foi recusado por quatro editoras, e a que resolveu publicar, a “Mazza”, precisa de descontos. Era de Minas Gerais, onde o personagem principal da história, o José Carlos da Mata Machado, tinha nascido.

Quando vi o livro pronto, faltava o último capítulo, o mais poético. Foi suprimido sem que eu soubesse, e como só vi o livro publicado no dia do lançamento, não adiantava reclamar o leite derramado. Ficou para a próxima edição, que não vem nunca.

“Clamor”, o segundo, foi recusado olimpicamente por outras três editoras. Um dia, chegou uma interessada, e o carro começou a andar. Meses depois de publicado, ainda recebi uma carta de outra editora, negando o interesse.

Foi um blá blá blá danado com o livro, mas ontem, fui olhar o site de sebos que meu amigo Inácio me mandou ( www.estantevirtual.com.br) e vi o mesmo livro sendo vendido por R$ 13,00 (Alice Sebos) e R$ 30,00 (Canto das Letras). Outro dia, minha mãe encontrou exemplares em um supermercado, a R$ 9,90.

Mestrado? Tudo bem, consegui uma vaguinha no Programa de Integração da América Latina da USP no final de 1998, mas falta dizer que já tinha tentado duas vezes na PUC e uma vez a Unicamp. Disseram que eu era ótimo pesquisador, mas péssimo na teoria, e comecei a me achar um grande pateta.

Trabalho em vários meios de comunicação? Sim, mas falta dizer que penei feito um danado quando fui trabalhar em São Paulo. A Folha de São Paulo, por exemplo, não me aceitou nem para concorrer a uma vaga de repórter de Cidades. Ou seja, o cara não achava nem que eu tinha condições de concorrer.

Quando eu ia ocupar a vaga de Inácio França no Diário Popular, cortaram a vaga e fiquei à deriva, vivendo de frilas.

Não vou nem citar derrotas mais contundentes, como a reprovação na quinta série (matemática) e na oitava (matemática). Derrota grande mesmo foi a perda da invencibilidade do meu time do recreio da quinta série, no Farias Brito (“Entra burro e sai cabrito”). Seguramos sem perder para nenhum time durante uns 35 recreios, segundo minhas anotações, até que chegou a derrota. Pelo que me consta, fui convidado sutilmente a me retirar do 7 de Setembro, em Fortaleza, por causa das condutas pouco indicadas. Também fui convidado a me retirar de uma pensão em Perdizes, naquele frio de São Paulo, porque eu tinha um computador no quarto.

Não posso falar das derrotas do meu clube, o Santa Cruz, porque sairia do mundo das derrotas para entrar no das tragédias.

Vitórias, derrotas. Quanto sofrimento, desespero, para chegar em primeiro. A lembrança mais forte que tenho das Olimpíadas é de uma mulher que vinha correndo a Maratona, toda engembrada (não sei se a palavra é escrita assim, mas estou sem meu dicionário, se estiver errada, me corrijam sem muito alarde), se arrastando para chegar ao final. A mulher estava toda torta, se arrastava literalmente. Meu irmão chorava copiosamente, aos soluços. Acho que foi a primeira vez que vi um irmão chorar copiosamente, e achei humano, demasiado humano.

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Encontro de poetas, ao lado do Cão sem plumas

15 de agosto de 2008, às 9:45h por Samarone Lima


Foto: Fred Jordão

Estou sentado num banquinho, ao lado da estátua do poeta João Cabral de Melo Neto, na margem ocidental do rio Capibaribe. Não sei se é margem ocidental, mas achei bonito esse negócio de “margem ocidental”, fica assim mesmo. São 9h13 da manhã, tenho um encontro marcado com um advogado, vou tratar da amiga presa, mas ele não chegou. Nada como esperar ao lado de um poeta, mesmo que seja de cimento. João Cabral está com a perna cruzada, descansando, olhando o rio que corta o Recife.

O sol está manso, aproveito para pegar uma corzinha. Os ônibus passam a todo vapor. Uma mulher vende água mineral, atravessa a rua e gritando “olha a água, água é um real”. Está tudo quieto, o dia vai começando a entrar no ritmo, quando escuto um homem falar bem alto, ao meu lado:

“Isso aqui não tem o menor sentido”.

Ele acaba de ler uma placa, que fica ao lado da estátua, com uma pequena biografia do poeta e trechos do poema “O cão sem plumas”.

Levanto e me aproximo. Ele tem uns 50 anos, está indignado.

“Eu fico doente com essas pessoas reconhecidas que escrevem essas besteiras”.

A irritação do meu amigo tem uma fundamentação poética e metafísica. Alguns trechos do poema ele considera absolutamente sem sentido.

“Veja isso. Ele diz que o rio é um cão sem plumas. Agora olhe de me diga: O Capibaribe tem alguma coisa a ver com um cão sem plumas?”

“Não faz o menor sentido”, respondo, só para jogar lenha na fogueira. João Cabral e seus aficcionados que me perdoe.

“A água do copo de água. Me diga se isso não é uma besteira?”

Pego meu bloquinho de anotações. Acabo de ganhar a crônica do dia. Ainda nem perguntei o nome do homem, e já sei que deve ser um inquieto, que briga até com a poesia que não entende.

“Dos peixes de água”, diz, lendo o poema pela segunda vez, agora em voz alta. “Todo mundo sabe que o peixe só pode ser da água. Ele podia ao menos botar um peixe de água doce”.

Me olha com atenção e desabafa:

“Hoje, quem tem valor, não vale de nada. O que é deixa de ser é, e o que não é, passa a ser”.

O homem saiu da reles zanga poética para a filosofia, e isso me deixa animado. Me lembrei das aulas de Lógica, na universidade, que nunca me ajudaram muito a compreender o mundo.

“A água do copo de água”, segue. “Pelo amor de Deus…”

Eu nem tenho o trabalho de falar nada, porque ele não se conforma com o que lê.

“Ele botou o copo com água na geladeira, depois tirou e ficou o formato, só pode ser isso”, completa.

Achei essa metáfora muito boa. O formato do copo na geladeira. Algo que congelou e ficou só na forma, ou na memória. Vou ter que perguntar ao Gustavo, que agora é professor de Estética.

“Tenho minhas dissertações todas escritas no jornal. Eu me oponho à legalização da maconha, contra os jovens irem para a cadeia mais cedo”, diz. Eu faço minha tarefa mais essencial: escutar.

Estou mesmo com sorte. Neste momento, vem passando o poeta performático Jommard Muniz de Brito, meu professor na UFPE, que sempre anda com poemas xerocados, para distribuir nos mais diferentes lugares da cidade. Faço uma saudação e digo que meu amigo está irritado com a poesia de João Cabral. Jommard lê todo o poema em voz alta, com aquela voz grossa e boa para recitais. Escutando bem, acho meio besta mesmo esse negócio da “água do copo de água”.

“Isso não é poesia, é um poema”, diz Jommard, e suspeito que levei um fora.

Meu amigo insiste: “E a poesia?”

“É a consciência crítica do poeta”.

Meu amigo: “Mas e a água do copo de água?”

Estamos neste colóquio, quando chega um homem magro, de boné puído, bigode a la Cantinflas. Usa roupa simples.

“É tudo poeta?”, pergunta.

A resposta de Jommard me deixa no céu:

“É uma poesia mais romântica – a fonte cor de rosa”.

São mais ou menos nove e meia da manhã, já somos quatro homens ao lado da estátua de João Cabral, discutindo os problemas da poesia e da criação. O primeiro, que abriu o diálogo, irritado com os versos de João Cabral, se chama Jade Barreto de Araújo, não terminou sequer a 6ª série e mora em Carpina. É motorista, e todo dia traz os alunos que estudam nas universidades do Recife. O que chegou é Luciano, que é pedreiro. Constrói casa, vende, constrói outra, vende, e vai tocando a vida. Fica escutando a discussão, e sai com esta:

“Pois quem gosta de poesia é poeta”.

“O que você acha de dizer que o rio Capibaribe é um cão sem plumas?, insiste Jade.

“Um cão sem plumas é um cachorro sem penas”, responde o pedreiro.

Ficamos em silêncio. Jommard dá explicações sobre a prosa e a poesia, chama atenção para metáforas, o que o poeta quer dizer, mas tem que ir embora. Ficamos os três, ao lado da estátua. Luciano diz que também gosta de compor umas coisinhas.

“Sou do alto Sertão, de Tabira. Gosto de cantar umas loas”.

Pedimos para ele cantar algo. Ele tem uma composição intitulada “O que me mata é a saudade do que fui no passado”.

Recita sua obra no formato do cordel. Saudade, sofrimento, amores, lembranças da família, da terra natal, esses temas universais. Termina, batemos palma. Do nada, olha pra mim e diz:

“Esse aí, de besta não tem nada”.

Penso em exigir explicações, mas a conversa tem outro rumo.

“Hoje não tenho um cruzeiro, por isso vivo comprando fiado”.

Pensei que era um pedido de dinheiro, mas era outra composição poética dele.

Jade aguarda nosso amigo recitar mais um trecho de sua obra, e volta à placa, onde está o poema cabralino.

“Uma fonte azul. Eu não entendo nada”.

Luciano: “Rapaz, eu não gostei disso não”.

Até eu começo a ficar invocado com o poema.

Luciano: “Lá onde a gente mora, se costuma dizer que quem faz de cachorro gente, fica de rabo na mão”.

Agradeço mil vezes por esta minha estranha obsessão de andar sempre com caderno e caneta nos bolsos.

“Fiz um verso escrito assim – tudo aqui passará”, emenda Luciano, agora já bem à vontade na conversa e deixando a timidez de lado.

Ele recita seu verso, e ao final me pergunta:

“Como é o nome do professor?”

Pergunto como ele sabe que sou professor.

“Essas sabedorias eu conheço de longe”.

Em desvantagem (estava só criticando), Jade diz que no Dia das Mães, fez um verso para elas.

“Mãe é como água de luz no deserto

Raio de luz em pleno Sertão”.

Com a vênia do poeta, “água de luz” é mais poético “água do copo de água”. O resto eu perdi, porque ele falou ligeiro demais. Luciano atacou com mais uma composição, e a manhã virou um imenso sarau popular.

Ao terminar, Luciano comentou:

“Aí ta certo. Agora, o que ele está falando aqui” – aponta para a placa com o poema de João Cabral – “é grego”.

“A pessoa tem pai e mãe, é rica”, emenda Luciano, que gosta de misturar assuntos e temas. Recita um poema para seus pais. Depois, informa que usa uma prótese no olho direito.

“Esse aqui não vê mais nem mulher bonita”.

“Uma poesia sem rima, não é poesia”, reclama Luciano.

“Raul Seixas se fazia de besta, mas sabia de tudo”, completa Jade.

Ficamos em silêncio. A mulher que vende água mineral segue gritando “olha a água, água mineral é um real”.

“A poesia deveria ter mais valor. Um professor deveria ganhar mais que um Ronaldinho Gaúcho”, diz Luciano.

Se é para não ter rumo mesmo na conversa, cito a estátua de Antônio Maria, que adoro, os dois não conhecem. Falo que ele é compositor, autor da famosa  ”Ninguém me ama”, uma fossa dos diabos. Jade começa a cantar, com uma voz afinada, melodiosa.

“…de fracasso em fracasso

A velhice chegando

E eu chegando ao fim”.

Canta com esmero, do início ao fim, sem errar uma sílaba. Termina, batemos palma. Ele começa a cantar outra:

“Hoje amanheci lembrando do amor que eu te dei…”

Resolvemos seguir em direção à Conde da Boa Vista. Jade segue cantarolando melodioso, o dia fica imensamente bonito, azul, a manhã da segunda-feira muda completamente o sentido. Um vagabundo literário, um motorista e um pedreiro, fora o pouso rápido de um poeta e professor. Assim, o dia fica mais fácil.

Chegamos à ponte, há uma dificuldade natural na separação. Nos abraçamos com afeto. Jade me olha com apenas um dos olhos enxergando e me diz:

“Você é uma pessoa, viu?”

São 10h33. O advogado deve estar em alguma audiência, fica para outro dia. Resolvo passar na estátua de Antônio Maria, na Rua do Bom Jesus, para um aceno breve. No caminho, passo pela estátua de Joaquim Cardoso. A cidade está cheia de poetas, vivos e mortos.

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Pequeno adeus a um grande Pastor

13 de agosto de 2008, às 12:15h por Samarone Lima

Conheci o Pastor Arnulfo Barbosa em 2002, quando trabalhei como consultor para o Unicef, no belíssimo projeto da Articulação no Semi-Árido Brasileiro (ASA). Ele estava à frente da Diaconia, o braço social de 11 igrejas evangélicas de diversas denominações. O maior projeto da ASA era o de construir um milhão de cisternas no Semi-Árido Brasileiro, o que parecia um delírio. Outro dia, caminhando pelo Sertão, vi a cisterna de número 320 mil. A ASA hoje é uma entidade respeitada, com uma grande contribuição para a mudança do olhar sobre esta região. Não se trata mais de “combater a seca” ou coisas do tipo, mas “conviver” com o Semi-Árido.

Muitas das conquistas da ASA têm a mão e a sabedoria do Pastor Arnulfo, que abraçou a idéia e abrigou a ASA por alguns meses na sede da Diaconia, que comandava há mais de uma década. Morreu no dia 4 de agosto, aos 54 anos.

Estranha ironia esta: o Pastor morreu vítima de esquistossomose, uma doença típica da região que ele aprendeu a amar e cuidar.

Como toda saudade é feita de memória, guardo do Pastor uma incrível capacidade de refazer idéias, ponderar, buscar caminhos. Não é fácil, nos dias de hoje, encontrar pessoas em posição de comando que estejam dispostas a escutar e rever posturas. O Arnulfo fazia isso com rara doçura.

Tivemos algumas longas conversas, em seu escritório no primeiro andar da Diaconia. Quando tive que sair, ele lamentou. Pensava em outros projetos mais adiante, coisa que não voltou a acontecer. Foi uma conversa de despedida minha, que saía, mas não imaginava que seria a última.

No depoimento emocionado do seu filho, na Igreja Presbiteriana, ele recordou que Arnulfo tinha em mente que “a vida nos chama a repensar a vida”.

Foi um grande homem, o Pastor Arnulfo. Quem conviveu com ele, sabe disso. Lutou com as palavras, o diálogo, até o silêncio, para mudar conceitos e desfazer impasses.

Resumindo, fez sua parte – e bem feita. Botou sua parcela de amor para mudar o mundo.

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