Crônicas das coisas mínimas e desnecessárias | Por Samarone Lima

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Vitórias e derrotas

21 de agosto de 2008, às 16:20h por Samarone Lima

Outro dia, numa apresentação de uma mesa-redonda, num festival literário, tive um susto. Me informaram que tenho três livros publicados, um mestrado na USP, trabalhos em vários meios de comunicação e outras loas. Quanto mais falavam de mim, mais eu ficava incomodado. Era tudo verdade, mas senti, intimamente, como se estivesse contando apenas a história das vitórias de uma pessoa, que era eu.

Em tempos de obsessão olímpica pela medalha de ouro (sinceramente, a Olimpíada ficaria bem durando no máximo 10 dias), o “céu ou inferno” após o combate, acho bom falar dos fracassos também. Os meus são muitos.

Três livros publicados? Sim, mas falta dizer que o primeiro livro, “Zé”, passou por várias derrotas. A primeira versão desapareceu, quando o computador quebrou. Depois de pronto, o texto original foi recusado por quatro editoras, e a que resolveu publicar, a “Mazza”, precisa de descontos. Era de Minas Gerais, onde o personagem principal da história, o José Carlos da Mata Machado, tinha nascido.

Quando vi o livro pronto, faltava o último capítulo, o mais poético. Foi suprimido sem que eu soubesse, e como só vi o livro publicado no dia do lançamento, não adiantava reclamar o leite derramado. Ficou para a próxima edição, que não vem nunca.

“Clamor”, o segundo, foi recusado olimpicamente por outras três editoras. Um dia, chegou uma interessada, e o carro começou a andar. Meses depois de publicado, ainda recebi uma carta de outra editora, negando o interesse.

Foi um blá blá blá danado com o livro, mas ontem, fui olhar o site de sebos que meu amigo Inácio me mandou ( www.estantevirtual.com.br) e vi o mesmo livro sendo vendido por R$ 13,00 (Alice Sebos) e R$ 30,00 (Canto das Letras). Outro dia, minha mãe encontrou exemplares em um supermercado, a R$ 9,90.

Mestrado? Tudo bem, consegui uma vaguinha no Programa de Integração da América Latina da USP no final de 1998, mas falta dizer que já tinha tentado duas vezes na PUC e uma vez a Unicamp. Disseram que eu era ótimo pesquisador, mas péssimo na teoria, e comecei a me achar um grande pateta.

Trabalho em vários meios de comunicação? Sim, mas falta dizer que penei feito um danado quando fui trabalhar em São Paulo. A Folha de São Paulo, por exemplo, não me aceitou nem para concorrer a uma vaga de repórter de Cidades. Ou seja, o cara não achava nem que eu tinha condições de concorrer.

Quando eu ia ocupar a vaga de Inácio França no Diário Popular, cortaram a vaga e fiquei à deriva, vivendo de frilas.

Não vou nem citar derrotas mais contundentes, como a reprovação na quinta série (matemática) e na oitava (matemática). Derrota grande mesmo foi a perda da invencibilidade do meu time do recreio da quinta série, no Farias Brito (“Entra burro e sai cabrito”). Seguramos sem perder para nenhum time durante uns 35 recreios, segundo minhas anotações, até que chegou a derrota. Pelo que me consta, fui convidado sutilmente a me retirar do 7 de Setembro, em Fortaleza, por causa das condutas pouco indicadas. Também fui convidado a me retirar de uma pensão em Perdizes, naquele frio de São Paulo, porque eu tinha um computador no quarto.

Não posso falar das derrotas do meu clube, o Santa Cruz, porque sairia do mundo das derrotas para entrar no das tragédias.

Vitórias, derrotas. Quanto sofrimento, desespero, para chegar em primeiro. A lembrança mais forte que tenho das Olimpíadas é de uma mulher que vinha correndo a Maratona, toda engembrada (não sei se a palavra é escrita assim, mas estou sem meu dicionário, se estiver errada, me corrijam sem muito alarde), se arrastando para chegar ao final. A mulher estava toda torta, se arrastava literalmente. Meu irmão chorava copiosamente, aos soluços. Acho que foi a primeira vez que vi um irmão chorar copiosamente, e achei humano, demasiado humano.

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