Vitórias e derrotas
Samarone Lima

Outro dia, numa apresentação de uma mesa-redonda, num festival literário, tive um susto. Me informaram que tenho três livros publicados, um mestrado na USP, trabalhos em vários meios de comunicação e outras loas. Quanto mais falavam de mim, mais eu ficava incomodado. Era tudo verdade, mas senti, intimamente, como se estivesse contando apenas a história das vitórias de uma pessoa, que era eu.
Em tempos de obsessão olímpica pela medalha de ouro (sinceramente, a Olimpíada ficaria bem durando no máximo 10 dias), o “céu ou inferno” após o combate, acho bom falar dos fracassos também. Os meus são muitos.
Três livros publicados? Sim, mas falta dizer que o primeiro livro, “Zé”, passou por várias derrotas. A primeira versão desapareceu, quando o computador quebrou. Depois de pronto, o texto original foi recusado por quatro editoras, e a que resolveu publicar, a “Mazza”, precisa de descontos. Era de Minas Gerais, onde o personagem principal da história, o José Carlos da Mata Machado, tinha nascido.
Quando vi o livro pronto, faltava o último capítulo, o mais poético. Foi suprimido sem que eu soubesse, e como só vi o livro publicado no dia do lançamento, não adiantava reclamar o leite derramado. Ficou para a próxima edição, que não vem nunca.
“Clamor”, o segundo, foi recusado olimpicamente por outras três editoras. Um dia, chegou uma interessada, e o carro começou a andar. Meses depois de publicado, ainda recebi uma carta de outra editora, negando o interesse.
Foi um blá blá blá danado com o livro, mas ontem, fui olhar o site de sebos que meu amigo Inácio me mandou ( www.estantevirtual.com.br) e vi o mesmo livro sendo vendido por R$ 13,00 (Alice Sebos) e R$ 30,00 (Canto das Letras). Outro dia, minha mãe encontrou exemplares em um supermercado, a R$ 9,90.
Mestrado? Tudo bem, consegui uma vaguinha no Programa de Integração da América Latina da USP no final de 1998, mas falta dizer que já tinha tentado duas vezes na PUC e uma vez a Unicamp. Disseram que eu era ótimo pesquisador, mas péssimo na teoria, e comecei a me achar um grande pateta.
Trabalho em vários meios de comunicação? Sim, mas falta dizer que penei feito um danado quando fui trabalhar em São Paulo. A Folha de São Paulo, por exemplo, não me aceitou nem para concorrer a uma vaga de repórter de Cidades. Ou seja, o cara não achava nem que eu tinha condições de concorrer.
Quando eu ia ocupar a vaga de Inácio França no Diário Popular, cortaram a vaga e fiquei à deriva, vivendo de frilas.
Não vou nem citar derrotas mais contundentes, como a reprovação na quinta série (matemática) e na oitava (matemática). Derrota grande mesmo foi a perda da invencibilidade do meu time do recreio da quinta série, no Farias Brito (“Entra burro e sai cabrito”). Seguramos sem perder para nenhum time durante uns 35 recreios, segundo minhas anotações, até que chegou a derrota. Pelo que me consta, fui convidado sutilmente a me retirar do 7 de Setembro, em Fortaleza, por causa das condutas pouco indicadas. Também fui convidado a me retirar de uma pensão em Perdizes, naquele frio de São Paulo, porque eu tinha um computador no quarto.
Não posso falar das derrotas do meu clube, o Santa Cruz, porque sairia do mundo das derrotas para entrar no das tragédias.
Vitórias, derrotas. Quanto sofrimento, desespero, para chegar em primeiro. A lembrança mais forte que tenho das Olimpíadas é de uma mulher que vinha correndo a Maratona, toda engembrada (não sei se a palavra é escrita assim, mas estou sem meu dicionário, se estiver errada, me corrijam sem muito alarde), se arrastando para chegar ao final. A mulher estava toda torta, se arrastava literalmente. Meu irmão chorava copiosamente, aos soluços. Acho que foi a primeira vez que vi um irmão chorar copiosamente, e achei humano, demasiado humano.
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19 Comentários »




21 de agosto de 2008, às 18:35h
que bom que as derrotas fazem parte de nossas vidas… tembém tenho muitas, mas como diz o poeta Cazuza: “vou sobrevivendo sem nenhum aranhão”… ou alguns…
um grande abraço Sama.
21 de agosto de 2008, às 20:50h
Sama, me deu uma saudade agora de uma crônica antiga sua, chamada, salvo engano, “O direito de fracassar”, lembra? Seu encontro com Raimundo Carrero que tanto nos falou ao coração.
Sigamos.
Beijo.
Magna
21 de agosto de 2008, às 21:13h
a minha glória
não é vitória
não é do céu
nem é a sua
nem é do dia
a minha glória
é a maria.
21 de agosto de 2008, às 21:23h
Por trás de um cara brilhantemente espetacular na escrita, há um grande lutador, de vários embates e entraves, mas que serviram de impulso para tanto reconhecimento hoje.
Abraço!
22 de agosto de 2008, às 8:22h
Sama,
As suas ou as nossas derrotas não são verdadeiramente derrotas. Estão mais para os obstáculos naturais da vida. Afinal, não há nada mais imprevisível do que a vida.
Nela também não há donos da verdade. Não há como garantir, por exemplo, que as editoras se utilizaram do melhor critério ao rejeitar um livro seu. Ao que tudo indica, não mesmo.
Abraços,
Dimas
22 de agosto de 2008, às 8:48h
É na dor que nos conhecemos, por dentro e por fora. Que bom Sama ! as derrotas fazem parte da nossas vidas, como aguá.
Um grande abraço e muitas vitórias pra voçe, Sama.
22 de agosto de 2008, às 15:08h
Olááá,
Adorei o blog…e acho que combina com esse aqui:
http://tdpersonalizado.blogspot.com
Vai gostar desse aqui também!
Beijosss
22 de agosto de 2008, às 16:11h
Samarone, me indica um livro.
Não qualquer livro.
Mas um desses que faz a gente varar as madrugadas sem sentir sono.
É que ando meio sem tempo de ler e preciso ler assim, nos intervalos e nas noites… e aí o livro precisa ser bom, pra prender de verdade a gente dentro dele.
22 de agosto de 2008, às 19:46h
se as derrotas não existissem, as vitórias não teriam sabor especial… passariam despercebidas…
23 de agosto de 2008, às 15:39h
Sama, querido.
Gente de verdade é assim, né?
Eu por exemplo acho que ganho sempre, mesmo quando perco. Depende do olhar.
Grande abrço.
Grande beijo.
Yves
25 de agosto de 2008, às 0:13h
mas todo mundo tem derrotas, dificil sao as pessoas lembrar delas. bom que tu reconhece e seguiu em frente, ne?
25 de agosto de 2008, às 1:27h
Nem me fale das derrotas, Sama!
São tantas e penosas que, quando chega uma vitória, a coitadinha parece meio chocha (é assim que se escreve?), sem gracinha, sem cor.
Mas, da próxima vez que sua mente insistir em colecioná-las, lembra só de uma coisinha: apesar dos perrengues, tem algo que ninguém nunca vai poder arrancar de você, meu amigo – a sua escrita.
Beijo no coração!
25 de agosto de 2008, às 12:48h
“Sama” ,
Quando é que vc vai ‘PEREGRINAR’ por aí ??? Se vc for pra alguma cidade do Sertão Nordestino que não tenha luz, nem rádio, FAVOR ME CHAMA QUE TAMBÉM VOU !!!!!
Valeu pelo texto, o que sei é que tem DERROTAS que doem de VERDADE!
25 de agosto de 2008, às 14:11h
Por fala em derrota, o empate do NOSSO santa cruz ontem teve um sabor de derrota, e o fantasma “Série D” se aproxima. O que fazer, Samarone? rsrsrsr
Abraço!!
26 de agosto de 2008, às 11:01h
É Samarone, para vencer a gente perde um bocado!
Abraços.
26 de agosto de 2008, às 17:24h
Samarone,
miha primeirap rovidência no primeiro dia de aula, depois de contar o cv oficial, é contar aos meus alunos e alunas as derrotas por trás deles…Abraços
29 de agosto de 2008, às 8:22h
Foram algumas derrotas, contudo muitas vitorias, não obstante não deve ter derrota pior do jogar na série D. Leve na esportiva o alfabeto vai até Z, já disse alguém os últimos serão os primeiros.
31 de agosto de 2008, às 19:31h
Leio sempre seus textos e adoro (indicação de meu e seu precioso amigo Ivanzinho). Amei esse. Ando fracassando que só, pelo menos tenho a sensação de que tem sido mais que sempre…Tentando terminar tanta coisa, e nada de conseguir, talvez seja porque as coisas não terminam nunca (em especial, a tese é algo interminável)… Tentei até amigavelmente me aproximar de vc, e nada, fracassei em ser amiga do meu amigo que apostava em nossa amizade… Parabéns pelo lindo texto! Boa noite!!!
1 de setembro de 2008, às 8:49h
Agora sim, um texto que me inspira a não enlouquecer!
Concordo Samarone, nossas vidas não são feitas apenas de vitórias. Muitas vezes, as derrotas é que nos faz aprender a vencer!
Excelente texto!