Divagações inúteis sobre um centenário
Samarone Lima

Machado de Assis - Caricatura: Spacca
Minha vagabundagem literária permite o desabafo: não aguento mais tanta comemoração, tanta homenagem, tantas loas, tantas reportagens, textos, descobertas, envolvendo Machado de Assis. Saímos da reverência para o puxa-saquismo.
Descobrem agora que ele pode ter tido um caso com uma moça não catalogada, que tomava um café numa mesa amarela, voltada para uma charuteria em Volta Redonda, que calçava 42, que a cada três meses ía para o alfaiate, que comia na churrascaria de um gaúcho de passo fundo, que era mulherengo, namorador, que jogava xadrez melhor que o Karpov, só não dizem se ele bebia umas cervas, se gostava de uma cachacinha antes do almoço, nem informam sua preferência clubística. Ele tem cara de vascaíno.
Exageros à parte, e pedido perdão a pessoas que adoro, especialmente os professores de literatura, vai uma confissão: salvo um conto em um livro que ganhei há uns dias do Homero Fonseca, a título de brinde, não li praticamente nada do citado escritor fluminense, que Deus o tenha. Sou um analfabeto machadiano completo.
Digo isso sem remorso e sem culpa, porque em se tratando de livros, o leitor deve ser sempre um rebelde - ler apenas o que gosta, o que dá felicidade, o que ajuda na caminhada. Não sei quantos jovens são obrigados a ler coisas que detestam, somente para passar no Vestibular.
Tentei umas duas vezes penetrar nas “Memórias Póstumas de Brás Cubas”, fiquei por ali, na página 15, sem o menor arrependimento. Acabo de falar com uma grande amiga, que leu o citado livro no Colégio Vera Cruz, mas foi por obrigação. Ela não vale, porque disse que gostou dele também, aquele livro do Machado, o “Memórias de um Sargento de Milícias”.
Claro que não devo ser levado tão a sério. Aliás, nada nesta crônica semanal deve ser levado a sério, porque a vida já dá um trabalho danado. Na época de Casa do Estudante, tentei mergulhar em “Cem Anos de Solidão”, achei uma chatice e reneguei três vezes. Um dia, comecei e nunca mais parei.
Liguei há pouco para tirar uma dúvida literária com meu amigo Inácio França, esperava uma espécie de simpatia com minha distância machadiana, me dei mal. Inácio começou a falar de toda a obra, os detalhes, as tramas, lembrou da trama de Capitu, Bentinho e Escobar, fez especulações homoeróticas envolvendo os dois rapazes, lembrou cenas, diálogos, detalhes, vírgulas, travessões, de forma tão apaixonada, que nem me atrevi a seguir com o tema. Ainda me tascou na cara o começo do livro, que sabe decorado:
“Eu não sou um autor-defunto, sou um defunto-autor”.
Prometo nunca mais consultar o Inácio, antes de escrever uma crônica.
Conheço gente à beça que acha o Machado um chato, mas todos estão como eu, oprimidos, pelas circunstâncias. Eu, como parte da minoria literária, saio do armário e anuncio: sou um analfabeto de Machado de Assis.
Semana passada, toquei no assunto com um escritor deveras conhecido, ele fez um muxôxo. Na geração dele, Machado nem era essa babilônia toda.
Já tive muitas fases. Teve uma época que fui Garcia Márquez dos pés ao cocoruto. Tive meu período de John Fante. Depois, eu só conseguia ler Lawrence Durrel, com o seu impagável “Quarteto de Alexandria”. Quando encontrei as crônicas do Rubem Braga, saí à procura de todos os livros dele, em sebos os mais diversos. Ultimamente, ando lendo tudo que aparece pelo caminho, especialmente o russo Vassily Grossman, e procuro o segundo volume de Dom Quixote, da editora 34.
Um dia voltarei a tentar entrar neste mundo machadiano, mas somente em 2009. Irei esperar passar essa onda toda, que anda me cansando.
Estava terminando esta crônica, quando um amigo entrou na sala e contei o tema da crônica de hoje.
“Li ontem que no atestado de óbito, o Machado de Assis foi registrado como branco”.
Aí também é demais. Se o Xico Sá estivesse por aqui, o chamaria para um bom mercado. Falaríamos mal de Machado de Assis e de Inácio.
Que a amada Flávia Suassuna não me leia hoje. Se ler, que me perdoe.
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