Crônicas das coisas mínimas e desnecessárias | Por Samarone Lima


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Divagações inúteis sobre um centenário

29 de setembro de 2008, às 13:08h por Samarone Lima
Machado de Assis - Caricatura: Spacca

Machado de Assis - Caricatura: Spacca

Minha vagabundagem literária permite o desabafo: não aguento mais tanta comemoração, tanta homenagem, tantas loas, tantas reportagens, textos, descobertas, envolvendo Machado de Assis. Saímos da reverência para o puxa-saquismo.

Descobrem agora que ele pode ter tido um caso com uma moça não catalogada, que tomava um café numa mesa amarela, voltada para uma charuteria em Volta Redonda, que calçava 42, que a cada três meses ía para o alfaiate, que comia na churrascaria de um gaúcho de passo fundo, que era mulherengo, namorador, que jogava xadrez melhor que o Karpov, só não dizem se ele bebia umas cervas, se gostava de uma cachacinha antes do almoço, nem informam sua preferência clubística. Ele tem cara de vascaíno.

Exageros à parte, e pedido perdão a pessoas que adoro, especialmente os professores de literatura, vai uma confissão: salvo um conto em um livro que ganhei há uns dias do Homero Fonseca, a título de brinde, não li praticamente nada do citado escritor fluminense, que Deus o tenha. Sou um analfabeto machadiano completo.

Digo isso sem remorso e sem culpa, porque em se tratando de livros, o leitor deve ser sempre um rebelde – ler apenas o que gosta, o que dá felicidade, o que ajuda na caminhada. Não sei quantos jovens são obrigados a ler coisas que detestam, somente para passar no Vestibular.

Tentei umas duas vezes penetrar nas “Memórias Póstumas de Brás Cubas”, fiquei por ali, na página 15, sem o menor arrependimento. Acabo de falar com uma grande amiga, que leu o citado livro no Colégio Vera Cruz, mas foi por obrigação. Ela não vale, porque disse que gostou dele também, aquele livro do Machado, o “Memórias de um Sargento de Milícias”.

Claro que não devo ser levado tão a sério. Aliás, nada nesta crônica semanal deve ser levado a sério, porque a vida já dá um trabalho danado. Na época de Casa do Estudante, tentei mergulhar em “Cem Anos de Solidão”, achei uma chatice e reneguei três vezes. Um dia, comecei e nunca mais parei.

Liguei há pouco para tirar uma dúvida literária com meu amigo Inácio França, esperava uma espécie de simpatia com minha distância machadiana, me dei mal. Inácio começou a falar de toda a obra, os detalhes, as tramas, lembrou da trama de Capitu, Bentinho e Escobar, fez especulações homoeróticas envolvendo os dois rapazes, lembrou cenas, diálogos, detalhes, vírgulas, travessões, de forma tão apaixonada, que nem me atrevi a seguir com o tema. Ainda me tascou na cara o começo do livro, que sabe decorado:

“Eu não sou um autor-defunto, sou um defunto-autor”.

Prometo nunca mais consultar o Inácio, antes de escrever uma crônica.

Conheço gente à beça que acha o Machado um chato, mas todos estão como eu, oprimidos, pelas circunstâncias. Eu, como parte da minoria literária, saio do armário e anuncio: sou um analfabeto de Machado de Assis.

Semana passada, toquei no assunto com um escritor deveras conhecido, ele fez um muxôxo. Na geração dele, Machado nem era essa babilônia toda.

Já tive muitas fases. Teve uma época que fui Garcia Márquez dos pés ao cocoruto. Tive meu período de John Fante. Depois, eu só conseguia ler Lawrence Durrel, com o seu impagável “Quarteto de Alexandria”. Quando encontrei as crônicas do Rubem Braga, saí à procura de todos os livros dele, em sebos os mais diversos. Ultimamente, ando lendo tudo que aparece pelo caminho, especialmente o russo Vassily Grossman, e procuro o segundo volume de Dom Quixote, da editora 34.

Um dia voltarei a tentar entrar neste mundo machadiano, mas somente em 2009. Irei esperar passar essa onda toda, que anda me cansando.

Estava terminando esta crônica, quando um amigo entrou na sala e contei o tema da crônica de hoje.

“Li ontem que no atestado de óbito, o Machado de Assis foi registrado como branco”.

Aí também é demais. Se o Xico Sá estivesse por aqui, o chamaria para um bom mercado. Falaríamos mal de Machado de Assis e de Inácio.

Que a amada Flávia Suassuna não me leia hoje. Se ler, que me perdoe.

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Pequenas alegrias

26 de setembro de 2008, às 9:34h por Samarone Lima

Outro dia, escrevi neste pequeno espaço uma crônica sobre meus dois bares de estimação: Vital, no Poço da Panela, e o Princesa Izabel, aqui no centro. Alguns camaradas deixaram suas bem traçadas linhas, e segui minha vida, entre viagens, oficinas, palestras etc.

Uns três dias depois, estava a caminho do Princesa Isabel, encontreio Roberto, dono do supermercado que fica defronte. O camarada me estendeu a mão, sorridente.

“Parabéns pelo texto”.

Como assim, por exemplo? Que texto?

Antes que eu perguntasse, ele me informou.

“O Geyson, da Compesa, viu o teu texto sobre o bar, na Internet, imprimiu, e já está lá”.

Meu Deus, o mundo está de cabeça para baixo mesmo.

Cheguei lá, Seu Azevedo estava com um sorrisão, mas não falou nada. Eu também me mantive omisso, como se nada tivesse acontecido. Sentei na mesinha azul, pedi minha cerveja e esperei o desenrolar dos fatos.

Seu Azevedo trouxe a gelada, passou o pano na mesa, me serviu e ficou em silêncio. Depois completou:

“Eu já li, viu?”

Me fiz de sonso, perguntei do que se tratava, ele foi até o balcão. Trouxe duas páginas plastificadas, com a minha crônica – “Um bar para chamar de seu”.

Olhei atentamente. Era minha crônica. Ele me explicou que um dos clientes, o Geyson, que trabalha na Compesa, descobriu o texto e imprimiu.

“Todo mundo já leu”.

Tomei uma boa golada.

“Vou botar na parede”, disse, apontando o lugar. É ao lado de um poema do Alberto Cunha Melo sobre o bar.

Depois, Seu Azevedo voltou para a lida diária, foi encomendar meu peixe ao côco, o melhor prato do bar. O texto ficou circulando com uma turma, que bebia ao balcão. Fiquei com a orelha ardendo. Sempre sinto isso, quando alguém lê algo meu na minha frente.

Pouco depois, um camarada veio falar comigo. Me deu a mão, disse que estava muito bom, que tinha gostado muito. Ainda estava usando a camisa do Santa Cruz.

São as pequenas alegrias de quem escreve. Saber que um dono de boteco, um homem simples e bom como Seu Azevedo, leu um texto, mandou plastificar, e mostra aos clientes.

Semana que vem, levarei o velho Davi para uma seresta noturna.

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Sinais dos tempos

23 de setembro de 2008, às 13:10h por Samarone Lima

Ah, como é duro ver santuários profanados. Acabo de passar pela extinta “Livro 7″, que foi minha segunda casa, naqueles anos de fome, entre 1998 e 1992. O mesmo santo lugar agora é um prédio da Assembléia de Deus. Estou na mesma entrada que era o ponto de encontro com amigos. Lembro nitidamente cada detalhe. Os vendedores, os retratos de escritores nas paredes, e os milhares de livros, para todos os gostos.

A morte da Livro 7 foi apenas um sinal dos tempos duros para a cidade. Falo de cultura, de espaços para lançamentos, encontros, de uma empresa que dava apoio a jornais de bairro, de faculdades, que investia em shows de desconhecidos, iniciantes, poetas. Tarcísio Pereira era mais que um livreiro, era um homem generoso. Hoje, nos resta a impessoalidade da Livraria Cultura, com seus sofás duríssimos e atendimento eficiente para cerimônia da encomenda dos livros. Sinais dos tempos.

A vitrine foi mantida. Apenas o vidro. Resolvo encarar o sofrimento de frente. Resolvo ir ao extremo, para, quem sabe, expurgar esta lamentação espiritual. Entro na Assembléia de Deus e sento no último banco. Antes, passo pela banquetinha e pego o formulário do dízimo. Ao meu lado, uma mulher pobre, mal vestida, cabelos mal cortados, desses que dificilmente vêem shampoo, segura um menino nos braços. O menino tem apenas uma bermuda do Exército brasileiro, talvez uma metáfora de algo que não entendo. Alguém segura o microfone e diz que “Deus zelará por ti”.

Deus, sempre ele. Seu nome é citado a cada dois minutos. “Deus cuidará do teu sofrer”. “Deus te dará o alívio”. Tem Deus para todos os gostos, idades, todos os dramas.

Ele fala aos berros, usando um microfone. A mulher, ao meu lado, passa a gritar “aleluia, aleluia, aleluia”, com a mão na testa, eu tomo um susto, o menino ameaça chorar. Olha para mim, sinto uma enorme cumplicidade. O menino parece dizer “o que estou fazendo aqui?”

Lembro de um livro que surrupiei, acho que foi “A Casa dos Espíritos”, na época que eu ainda era besta, e gostava da Isabel Allende. Foi mal, Tarcísio, também gastei muito com meu cartão da Livro 7.

Tento me localizar geograficamente. O banco onde estou deveria ter as prateleiras de lançamentos. No teto, agora, há somente caixas de som pretas e estridentes. Tento lembrar de algum vendedor. O impagável Felipe está na Poty, na Livro 7. Ah, que saudades do bom atendimento, acompanhado de uma boa conversa fiada, comentários sobre o Santa Cruz, algum evento da cidade.

Estou tomando minhas notas, e nem percebo que acaba de passar do meio dia. Um pastor de verdade assumiu. Tem paletó preto, a Bíblia na mão.

“Quando Jesus estava falando de Josué, me levou a refletir sobre o fato de ter trazido ao coração daquele homem, para ……….. no caminho”.

Ele fala rápido demais, minhas manhas de repórter não acompanham.

Uma mulher chega, se ajoelha de costas para o palco, reza com ardor.

“Jesus, Kalefh e os demais, vivenciaram planos magníficos de Deus na vida de Moisés e na vida de Israel. Mas chega um momento em que a expectativa chega ao final. Você é crente, mas é de carne, não é de cimento não!”.

Gritos explodem de “aleluia”.

As duas palavras campeãs na Assembléia de Deus: aleluia e Jesus.

Lembrei agorinha de um lançamento do Sidney Sheldon. A fila só faltava dar uma volta no quarteirão. Lembrei também que às vezes ficava por lá muitas horas, lendo o que gostava, depois pegava o raríssimo “Cidade Universitária” e voltava para a Casa do Estudante. Voltava cheio de vida.

Resolvo contar o público. São uns 40 gatos pingados, que tentam alguma ajuda. O pastor começa a falar, e depois recorre aos gritos, coisa que não suporto. Ele tem uns gestos teatrais, que me lembram o poeta Miró, só que Miró é muito melhor, e fala pouquíssimo de Josué.

Estou há 15 minutos aqui na Assembléia. Meus ouvidos doem. Se o que pretendia era expurgar as lembranças, descubro que não há mais cura. Alguns santuários de nossa cidade, mesmo que sejam profanados, continuam vivos. Sofri muito quando soube que a Livro 7 tinha fechado. Peço aos meus poucos e fiéis leitores, que me mandem alguma foto da mais famosa livraria de nossa cidade, caso tenha em seus arquivos. Senti um impacto quando a centenária Cristal virou um self service fajuto, com uma decoração de McDonalds, levando o imenso balcão de mármore para o lixo. Soube que o velho Arlindo morreu há quatro meses.

São nossas derrotas culturais, estéticas. Há momentos em que o lugar onde vivemos fica mais feio, mais pobre, e não falo de grana.

Bem, chega de lamentação. Os gritos me atordoam. É hora de ir embora. Levo um saquinho do dízimo, a título de lembrança. Me levanto, vou saindo, o pastor dá um grito:

“Pssst”.

Lembrei que uma vez, quase fui pego pelo vendedor, tentando um golpe qualquer.

“Jesus ainda vai te ensinar muito!”

Sim, amigo, obrigado pela dica, mas sei que não era comigo, era com os crentes.

Saio à procura de algo que me console. A “Confraria do Poeta” agora é um self-service. Francamente.

Passo na banca de revista, vejo o Jornal do Commercio de hoje. Tem uma foto de uma moça, no canto direito da capa. Me aproximo com minha miopia para ver quem é:

“Sabrina prova bolo-de-rolo no Recife”.

Sinal dos tempos, amigos, sinal dos tempos.

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Ex-amigo

19 de setembro de 2008, às 10:22h por Samarone Lima

Ontem recebi um email de uma pessoa que adoro. Trabalhamos juntos em um belo projeto, sonhamos juntos, vimos que era possível mudar certas realidades, sofremos juntos com o desmonte do projeto e saímos juntos. Outro dia a encontrei, quando atravessava uma ponte do Recife, rumo ao Cais de Santa Rita. Ela, com família completa. O carro estacionou no meio da ponte, e falamos as frases imediatas, que diziam da saudade, precisamos marcar um encontro, o que tens feito. Os filhos dela, atrás, sorriam.  

Pois bem, minha amiga disse que, diante da falta de conversas, encontros, telefonemas, se considera uma ex-amiga. Não sei por qual motivo, acabei concordando. Agora, procuro uma nova palavra para definir essa pessoa que adoro, que compartilha idéias e sonhos, e que vejo uma vez perdida.

Descubro que tenho vários amigos que se incluem nesta categoria. Vamos começar pelo meu amigo Valdemir Leite, que trabalha na TV Jornal. Fomos unha e carne na Católica desde o primeiro dia de aula. Val usava cabelos imensos e camisas psicodélicas. Era mais tímido que hoje, e conquistou logo a musa da turma, nos causando traumas diversos. Depois a musa foi para a Inglaterra, ele casou com a antiga namorada e teve duas filhotas, igual ao cinema.

Nosso principal esporte tem sido marcar encontros que nunca mais acontecem. Houve um tempo muito remoto em nossas vidas, que nos encontrávamos toda quarta-feira, mesmo com todo o degelo da Antártida e o imenso buraco de ozônio. Não lembro quando foi nosso último encontro.

Num rompante, acordo saudoso e digo que hoje, e não passará de hoje, tomarei umas cervejas com meu amigo. Contaremos todo o acumulado, daremos risadas infernais, encontraremos soluções para nossos problemas e até para o Santa Cruz. Mas olho uma lista de viagens até dezembro, e vejo que mais tarde vou para Escada.

De Marcus Galindo e Stella, nem posso falar. Temo inclusive que eles não me reconheçam, quando nos encontrarmos. Outro dia, encontrei a filha deles, Clara, e aquela meninota estava na rua de Lazer, da Católica, com sua turma de amigos. Salvo engano, cursa Jornalismo. Daqui a pouco, nos encontraremos em alguma dessas lidas da vida, em uma pauta, pedirei ajuda com alguma informação que passou e não vi.

Quando Stela e Marquinhos moraram na Holanda, nos falávamos obsessivamente, e parecia que a Holanda era uma ilha, que estava sendo levada para algum mar distante. Cartas aconteciam aos montes, e bastou eles chegarem de volta, que nunca mais nos vimos. Outro dia, vi uma foto de Marquinhos no Diário de Pernambuco e dei graças a Deus. Continua com aquela cara de leso, que combina bem com suas piadas formidáveis e histórias de trancoso. Stella deve estar na UFPE, dando aulas e cuidando do Núcleo de Estudos Indigenistas (NEI), que foi minha segunda casa durante um bom tempo. Não lembro quando foi nosso último encontro.

Tenho também uma leva de amigos que deveriam mesmo estar recolhidos na Tamarineira, mas o Movimento Antimanicomial não tem deixado. Falo de Cézar Maia, Marcelo Barreto, Ivanzinho, João “Peruca” Henrique, entre outros. Vou mudar a frase, porque iniciar um texto com “falo de Cezar Maia” vai me custar caro. “Lembro de Cezar Maia…” fica melhor. A situação é tão dramática, que Maia admitiu, já meio de porre, que estava com uma leve, distante e ainda não confirmada ponta de saudades.

Ex-alunos que se transformaram em amigos já devem estar me considerando ex-amigo mesmo. João Valadares, Marcel Tito, Bruno Fontes e Geraldo de Fraga, o “Quarteto Coral”, se espalhou em veículos os mais diversos. Leio, vejo, escuto as coisas deles, mas uma boa conversa para matar saudades, é a mais pura lenda. Costumávamos nos encontrar antes de jogos do Santa, mas como o meu clube resolveu jogar apenas no Estadual, para não se misturar, muito, só voltaremos ao Arruda em 2009. Soube que Marcel inclusive já é pai. Pelos meus cálculos, não nos vemos há dois anos.

Theresa mora em Arcoverde, a encontrei outro dia, inclusive descolei a bóia na casa dela, com seu filhote lindo e o maridão maluco como sempre. Descubro um truque – basta a pessoa morar em outra cidade, que fica mais fácil encontrar.

Só tem uma solução para encontrar meus amigos todos. Ser dono de bar novamente.

Quando era proprietário do La Prensa, encontrava todos esse e mais outros amigos de verdade quase toda noite. Meu deus, posso até ver o desgraçado do Álvaro Claudino reclamando todos os dias, porque a cerveja era long-neck, “um roubo”. A coisa piorou com o Garrafus, porque era celeiro de aniversários. Claudino chegava com aquela conversa mole e passava a reclamar que a cerveja não estava gelada.

Mas a solução me custaria caro demais. Não tenho condições psicológicas para me meter numa loucura dessas. Vou fazer o seguinte: semana que vem, vou dedicar todos os dias a reencontrar os amigos que um dia eu deixei a chorar de alegria, que acompanham o meu violão.

Vou começar pelo domingo. Farei surpresas as mais diversas. Chegarei sem aviso prévio. Em alguns casos, entrarei em surto psicótico – pagarei a conta.

Nem me venham com história de ex-amigo. Pode existir tudo que é “ex” na vida, mas amigo, de verdade, nunca será um ex. Excuse-moi. Ra ra ra, o trocadilho foi infame.  

Para Adriana Dória, Ana Luisa, Luzilá, Lourival, Flávia Suassuna, Lucila, Sirley, Naire, Beth, Rosana, Fred Jordão, Peste, Gustavo et alii.

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Afogados da Ingazeira:impressões de viagem

15 de setembro de 2008, às 16:41h por Samarone Lima

Saio para caminhar pelas ruas de Afogados da Ingazeira. A beleza dos muros baixos. O frio matinal do Sertão do Pajeú. O silêncio. A praça principal, cheia de gameleiras, flores, e o singelo aviso: “não pise no canteiro”. Os primeiros rostos matinais, os bons dias. Os olhos bons do povo do sertão. Passo por uma casa com três gaiolas na frente. Um passarinho é um galo de campina, conheço de longe. Há um azulão. Pergunto ao senhor simpático, que troca a comida, qual é o terceiro. “É um bigode”, diz com satisfação.

Tenho sorte. Hoje é dia de feira. São 6h15, as barracas estão quase todas montadas. Percorro as ruas, à procura de algo. Um canivete, um peão, sandálias de couro, uma roupa para minha tia. Chego ao Mercado Público. Bebo um café doce, sentado em um banco de madeira. Ao meu lado, duas moças comem um prato completo, com arroz, macarrão e carne. Um menino quer engraxar minha sandália de couro, mas nunca gostei de gente agachada diante de mim, para nada. Bebo o café bem doce e olho tudo.  

Sacas de feijão, farinha, fava. Ovo de galinha caipira. Passa um homem com seis galinhas penduradas nos braços, que não reclamam. Amigo, se você tiver galinha caipira e ela estiver dando trabalho, pendure-a um pouco no seu braço, é um santo remédio. Ao meu lado, três homens com o tradicional chapéu de feltro, duros e quietos, fumam um cigarro de palha. Ah, que bom fumar sem essa paranóia urbana do cigarro, que delícia desfrutar de seu vício sem multas. Eu, que não sou fumante, adoro esta calma de quem bafora cigarros de palha em um banco de feira. 

Percorro as ruas. Há divisões temáticas. As barracas que vendem roupas, com preços módicos. Procuro uma camisa do Santa Cruz, mas os ventos são desfaforáveis. Há camisas dos clubes do sul. Uma área é destinada a facas, apetrechos da vida, dos animais. Bolsas de couro, sandálias, abridores de lata, panelas. Meninos passam com seus carrinhos de mão, levando feiras alheias e juntando alguns trocados. São meninos com a cara boa, estão se mexendo, têm um olhar muito mais feliz que os meninos que pedem dinheiro.

Saio caminhando, descobrindo a cidade. Ah, que delícia seguir sem rumo, sem mapa, dobrando esquinas, vendo as ruas largas de Afogados. Um homem me conta que o nome da cidade veio por causa de um casal, que foi atravessar o rio Pajeú, e morreu afogado. Os corpos foram encontrados enganxados num pé de ingazeira, me diz, e eu acretido.

O sol vai esquentando. É o final da manhã, paro em um boteco. O som é conhecido. Waldick Soriano. “E despertou meu coração adormecido/Eu tenho medo de não ser correspondido”. Tomo uma água de côco. Pergunto por fumo de rolo, para meu amigo Iramarai. “Só na 15 de Novembro”, responde o proprietário, antes de me contar que tem amigos no Recife. Ao saber que sou do Crato, ele me mostra o ventilador do teto, que comprou de um vendedor que era da minha terra. “Tem 15 anos e nunca quebrou”. Sento em sua cadeira de balanço e vou bebericando o côco. Ah, como sou feliz andando pelo mundo, como adoro encontrar desconhecidos, conversar, prosear, escutar. Nasci para a estrada mesmo, nisso imito o meu avô.

Volto ao Mercado Público. De tanto andar, tenho fome. Paro na venda de uma senhora que usa o óculos na ponta do nariz. Me serve arroz mexido, salada de verdura, arroz, cuscuz, guisado.  Peço que ela tire metade, antes de comer. É comida para dois homens do meu porte. Como, tudo está delicioso. Alguns homens já beberam um bocado. Um deles está mamadinho, gesticula, fala alto, coisas que nem ele compreende. Pouco depois, está sentado, no chão. Seus amigos riem. Termino de comer, bebo um delicioso café e pergunto quanto custou o almoço: “Três reais”.

Volto para o hotel. A cidade está em polvorosa. Motos, carros, têm bandeiras dos dois cordões. Totonho, o atual prefeito, tenta a reeleição. Do outro lado, Gilza. O embate será duro, uma peleja e tanto. Pelo que escutei do povo, Totonho é o homem da esquerda, que tem uma visão mais completa de seu trabalho. Gilza foi citada como a mulher que distribui cestas básicas e coisas do tipo. Não fiz perguntas, apenas escutei. Que ganhe o melhor para os afogadenses.

À noite, antes de sair para minha despedida, vejo na TV que 90% dos municípios brasileiros não têm cinema, 80% não têm museus, e somente 21% têm políticas culturais. As bibliotecas, minha paixão, não foram citadas. Os livros, coitados, sempre em último lugar.

Fico sentado na praça de alimentação. A lua cheia vai subindo. Um cão preto, de patinhas brancas, chafurda no lixo, à procura de alguma sobra. Um carro passa com o som altíssimo. “Levantou poeira” puxa a militância de algum candidado a vereador, que não anotei o número. Estão todos de vermelho, com balões. Há homens, velhos, crianças. Aqui não tem guia na TV. Quem vai definir a eleição é o mano a mano, ombro a ombro. Será na raça. Crianças correm, brincando de pega-pega. Faço “chip chip” para o cachorro, ele se empolga demais, tenho que afastá-lo.

Um surdo vem com um adesivo. Tem algo escrito atrás, dizendo que é surdo, precisa de aguda. Faço ouvidos de mercador, ele vai embora. Olho a alegria do povo, o clima da cidade, fico feliz por ter conhecido Afogados. Vim para uma palestra sobre literatura, parece que voltarei em novembro, para uma oficina de dois dias. Trarei meu amigo Iramarai. E não posso deixar de agradecer a Dona Terezinha Barbosa pelo banho que tomei em sua casa, pouco antes de viajar. Diana Moura, sua sobrinha, disse que eu pedisse “arroz de festa”, mas o máximo que ousei foi pedir água. Na próxima, quem sabe.

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