Crônicas das coisas mínimas e desnecessárias | Por Samarone Lima


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Um bar para chamar de seu

5 de setembro de 2008, às 17:05h por Samarone Lima

Bar Princesa Isabel, centro do Recife. São 18h50. Na TV, um DVD com “O melhor do brega”, e Waldick Soriano ainda nem tinha morrido. Barthô Galeno ataca de “No toca-fita do meu carro/Uma canção me faz lembrar você/Acendo mais um cigarro/E procuro te esquecer”. Lembro da minha época de Casa do Estudante, quando conheci o fino do brega, numa época em que os motes eram mais sofridos e não tínhamos sido soterrados pelo “beber, cair e levantar”.

Era uma época de cantores e cantoras que tinham nome, sobrenome, fossa pessoal, dores irreversíveis, que uniam humanidades. Barthô Galeno, Adelino Nascimento, Waldick Soriano, Fernando Mendes.

Certa vez, mostrei ao tio Paulo a fita com “Sara/Onde é que você se esconde/Sara/Minhas cartas por que não respondes”, e ele acendeu imediatamente seu Hollywwod selvagem e começou a rir, lembrando de sua Sara, creio. Escutou e voltou infinitas vezes a fita, até que um dia morreu, o meu tio. Até hoje, a música de uma mulher que nunca responde me lembra meu velho tio, com suas histórias intermináveis, recontadas a cada ano.

Mas voltemos ao bar. Todo homem precisa de um bar para chamar de seu. Quatro fregueses dividem o balcão. Dois estão do lado de dentro, grau máximo de intimidade em qualquer boteco: beber no lugar sagrado, onde deve estar o proprietário. A ruptura da fronteira. A grande intimidade, conquistada após muito convívio.

Ao meu lado, um casal se beija com ardor. Ela, uma gorduchinha negra, vestida com sua moda. Ele, um rapaz moço, de boné, e muito mal intencionado. A mão está na coxa da moça, que já passou dos trinta há um par de anos. Há um certo exagero do rapaz, mas a cerveja, a latinha de Pitu e o brega correndo solto, ajudam. “Por que amor eu te chamo tanto e você não responde?”, segue alguém cantando, que não consigo identificar bem.

Placas informam: “Cerveja Nobel”; “Conhaque Domus”, e “Temos miúdo de galinha”. Nenhum está com o preço. O garçom, Gomes, foi rebatizado por mim e Iramarai, de “Robertilha”. É um cinqüentão simpático, aposentado, e talvez o primeiro “garçom voluntário” do Recife. Todo dia está lá. Segundo Seu Azevedo, o dono, Gomes é aposentado, mora perto, e vai ajudar, sem cobrar nada. Gomes me confirmou. Vai diariamente, atende, brinca, bebe seu whisky, anota tudo. Mientras tanto, ajuda muitíssimo. Seu Azevedo e Dona Nice (“Ai que saudade me dá/Do bate pap/Do disse-me-disse/Lá no Café Nice/Ai que saudade me dá”) são já velhos, na casa dos 70, e estão cansados. Robertilha é um reforço de luxo.

A vantagem: ninguém conhecido. Engano. Aqui-acolá, um aceno de alguém que já me viu, com meu caderno, algum livro da hora. O aceno distante, de quem não sabe sequer meu nome. Na parede, em uma moldura, um poema do Alberto Cunha Melo. Feliz do poeta, vivo ou morto, que tem um poema seu, emoldurado na parede do seu bar.

Em Seu Vital, a essa hora, o dominó corre solto. Mais tarde, a cerveja haverá de faltar. O tira-gosto de sempre já terá circulado em pratos de plástico: queijo com mortadela. Mas é o meu bar. Ali, vivi momentos lindos, ao lado dos meus companheiros. Bebemos a morte do nosso amigo Barrabás, recentemente lamentamos a partida de Elpídio. Ali, planejamos revoluções inacabadas, fundamos blocos, elegemos reis, compartilhamos esperanças. Ali, fizemos reuniões infrutíferas, discutimos sem saber o motivo, arengamos por males próprios, e no dia seguinte, esquecemos o que havíamos planejado. Ali, fomos a Waterloo, sangramos na Batalha dos Guararapes, recebemos os noivos em suas promessas. Ali, cantamos a plenos pulmões alguma louvação à vida. Ali, sempre voltamos.

Vital, meu bar coletivo. É onde estão meus companheiros. Sabemos a conversa de cada um, e a que nos interessa. Vou ao Princesa Isabel para o recolhimento, para tomar notas, olhar os ônibus que passam, ler na quietude. Descobri uma mesa azul, eternamente livre, e nela me aconchego.

A cozinheira Nininha sabe que gosto de peixe assado e ao molho de côco. Seu Azevedo me recebe com um aperto de mão, me fala de sua esposa, que fez recentemente a cirurgia de catarata. Robertilha, quando demora a chegar, é porque “está namorando”.

Bendito o bar que tem um garçom voluntário, e que chega atrasado porque estava namorando.

Para Elpídio, nosso confrade, que partiu semana passada.

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