Um bar para chamar de seu
Samarone Lima
Bar Princesa Isabel, centro do Recife. São 18h50. Na TV, um DVD com “O melhor do brega”, e Waldick Soriano ainda nem tinha morrido. Barthô Galeno ataca de “No toca-fita do meu carro/Uma canção me faz lembrar você/Acendo mais um cigarro/E procuro te esquecer”. Lembro da minha época de Casa do Estudante, quando conheci o fino do brega, numa época em que os motes eram mais sofridos e não tínhamos sido soterrados pelo “beber, cair e levantar”.
Era uma época de cantores e cantoras que tinham nome, sobrenome, fossa pessoal, dores irreversíveis, que uniam humanidades. Barthô Galeno, Adelino Nascimento, Waldick Soriano, Fernando Mendes.
Certa vez, mostrei ao tio Paulo a fita com “Sara/Onde é que você se esconde/Sara/Minhas cartas por que não respondes”, e ele acendeu imediatamente seu Hollywwod selvagem e começou a rir, lembrando de sua Sara, creio. Escutou e voltou infinitas vezes a fita, até que um dia morreu, o meu tio. Até hoje, a música de uma mulher que nunca responde me lembra meu velho tio, com suas histórias intermináveis, recontadas a cada ano.
Mas voltemos ao bar. Todo homem precisa de um bar para chamar de seu. Quatro fregueses dividem o balcão. Dois estão do lado de dentro, grau máximo de intimidade em qualquer boteco: beber no lugar sagrado, onde deve estar o proprietário. A ruptura da fronteira. A grande intimidade, conquistada após muito convívio.
Ao meu lado, um casal se beija com ardor. Ela, uma gorduchinha negra, vestida com sua moda. Ele, um rapaz moço, de boné, e muito mal intencionado. A mão está na coxa da moça, que já passou dos trinta há um par de anos. Há um certo exagero do rapaz, mas a cerveja, a latinha de Pitu e o brega correndo solto, ajudam. “Por que amor eu te chamo tanto e você não responde?”, segue alguém cantando, que não consigo identificar bem.
Placas informam: “Cerveja Nobel”; “Conhaque Domus”, e “Temos miúdo de galinha”. Nenhum está com o preço. O garçom, Gomes, foi rebatizado por mim e Iramarai, de “Robertilha”. É um cinqüentão simpático, aposentado, e talvez o primeiro “garçom voluntário” do Recife. Todo dia está lá. Segundo Seu Azevedo, o dono, Gomes é aposentado, mora perto, e vai ajudar, sem cobrar nada. Gomes me confirmou. Vai diariamente, atende, brinca, bebe seu whisky, anota tudo. Mientras tanto, ajuda muitíssimo. Seu Azevedo e Dona Nice (“Ai que saudade me dá/Do bate pap/Do disse-me-disse/Lá no Café Nice/Ai que saudade me dá”) são já velhos, na casa dos 70, e estão cansados. Robertilha é um reforço de luxo.
A vantagem: ninguém conhecido. Engano. Aqui-acolá, um aceno de alguém que já me viu, com meu caderno, algum livro da hora. O aceno distante, de quem não sabe sequer meu nome. Na parede, em uma moldura, um poema do Alberto Cunha Melo. Feliz do poeta, vivo ou morto, que tem um poema seu, emoldurado na parede do seu bar.
Em Seu Vital, a essa hora, o dominó corre solto. Mais tarde, a cerveja haverá de faltar. O tira-gosto de sempre já terá circulado em pratos de plástico: queijo com mortadela. Mas é o meu bar. Ali, vivi momentos lindos, ao lado dos meus companheiros. Bebemos a morte do nosso amigo Barrabás, recentemente lamentamos a partida de Elpídio. Ali, planejamos revoluções inacabadas, fundamos blocos, elegemos reis, compartilhamos esperanças. Ali, fizemos reuniões infrutíferas, discutimos sem saber o motivo, arengamos por males próprios, e no dia seguinte, esquecemos o que havíamos planejado. Ali, fomos a Waterloo, sangramos na Batalha dos Guararapes, recebemos os noivos em suas promessas. Ali, cantamos a plenos pulmões alguma louvação à vida. Ali, sempre voltamos.
Vital, meu bar coletivo. É onde estão meus companheiros. Sabemos a conversa de cada um, e a que nos interessa. Vou ao Princesa Isabel para o recolhimento, para tomar notas, olhar os ônibus que passam, ler na quietude. Descobri uma mesa azul, eternamente livre, e nela me aconchego.
A cozinheira Nininha sabe que gosto de peixe assado e ao molho de côco. Seu Azevedo me recebe com um aperto de mão, me fala de sua esposa, que fez recentemente a cirurgia de catarata. Robertilha, quando demora a chegar, é porque “está namorando”.
Bendito o bar que tem um garçom voluntário, e que chega atrasado porque estava namorando.
Para Elpídio, nosso confrade, que partiu semana passada.
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16 Comentários »




5 de setembro de 2008, às 21:57h
lindo…
6 de setembro de 2008, às 20:04h
Taí um lugar cheio de histórias, cenas, detalhes, músicas e personagens… “o bar”. Legal esse bar aí, Samarone.
6 de setembro de 2008, às 20:08h
samarone, você é lindo ! (aquele lindo de caetano, sabe ?) além do bar para chamar de seu, bom mesmo é conhecer o rosto de quem escreve tão bem sobre o bar, sobre morte, sobre vida…
6 de setembro de 2008, às 22:21h
Samarone, lá em São Lourenço tem um bar maravilhoso. Costumo freqüentar com meu pai. É o bar de Baé, que fica no Alto do Prego. Lá, você além de gastar no fiado, pega dinheiro emprestado e paga quando pode. Tem bar mais do que seu senão o bar de Baé?
hahahahaha
Abraço!
7 de setembro de 2008, às 0:38h
Vamos marcar…
7 de setembro de 2008, às 10:50h
Samarone,
Um bom bar, e uma canção antiga. ai, que saudade me dá! um abraço…
8 de setembro de 2008, às 11:44h
Ooo Sama, tu é arretado…
Aqui em Manaus volto sempre ao que chamo de meu “boteco espiritual”, e ele se chama Chão de Estrelas..vê que coisa linda danada, Sama, um boteco com um nome desses.
Quem toma conta é Seu Valter e Socorrinho, sua filha…
Abraços
9 de setembro de 2008, às 10:27h
Que maravilha!
Sensibilidade até o osso.
Beijo
9 de setembro de 2008, às 15:25h
Sama,
Essa do bar é boa e a do cemitério também. Parabéns, estás melhorando, rapaz…
9 de setembro de 2008, às 19:05h
Bartô Galeno, Waldick Soriano e Fernando Mendes. Nada mais fino; só me lembram um amigo que adorava e me fazia escutar. Nem sei mais se “Beber, cair, levantar” ou “chupa que é de uva” é brega ou forró. Deve ser um espectro de (ausência de) luz entre eles. Agora existe um tal de techno-brega. Chique, não?
Esse garçom-voluntário que chega atrasado porque estava namorando deve mesmo ser uma figura.
Abraço!
9 de setembro de 2008, às 21:54h
Hehehehehehehe, ei Samarone, ultimamente eu tenho vários bares pra chamar de meu…
O difícil é escolher em qual começar e geralmente eu termino naquele que abre às 08:00 da matina…
11 de setembro de 2008, às 7:19h
É SAMARONE, O SAUDOSO BAR PRINCESA ISABEL TEM MUITA BAGAGEM. PRINCIPALMENTE COM O VELHO E QUERIDO AZEVEDO. ESTAVA AZEVEDO FAZENDO CORSO NO CARNAVAL DE TEMPOS IDOS, EXATAMENTE EM FRENTE AO PRINCESA ISABEL, NÃO SABIA ELE QUE O DESTINO LHE COLOCARIA O BAR NAS MÃOS. ISTO HÁ MUITO TEMPO ATRÁS!!! SÃO MUITOS ANOS DE CONVIVÊNCIA E MUITAS HISTÓRIAS. A ÚLTIMA É O JÁ FAMOSO “GARÇOM VOLUNTÁRIO” GOMES, QUE VOCÊ JÁ DESCREVEU PERFEITAMENTE. PESSOA DE ÓTIMA ÍNDOLE E AMIGO PARA SEMPRE!!! PARABÉNS PELA MATÉRIA SAMARONE, E ESTEJA SEMPRE ENTRE NÓS!!! ABRAÇOS DA CLIENTELA DO BAR PRINCESA ISABEL!!!
***ONDE É QUE VOCÊ ENCONTRA UM BAR ONDE PODE SE ATENDER NO FREEZER, FAZER SUA PRÓPRIA CONTA E O DONO(AZEVEDO) CONFIAR??? SÓ NO PRINCESA ISABEL!!!
11 de setembro de 2008, às 10:23h
esse bar princesa izabel é horrível, esse samarone é um cientista e todo mundo vai na onda.
23 de setembro de 2008, às 6:57h
NOBRE SAMARONE,
AÍ VAI O LINK DO XICO SÁ COMO TE PROMETI ONTEM. O CARA É O BICHO!!! JOGA NO TIME DOS MESTRES!!! SEU TIME!!! ABRAÇOS. GM. http://carapuceiro.zip.net/index.html
27 de novembro de 2009, às 16:41h
Samaroni,
Um bar que tem, um garcom estrela, que chega a hora que quer (já que é voluntário),por que estava namorando, me lembra muito o bar do meu inesquecivel amigo Sebastiãozinho, este antes de abrir o estabelecimento já tinha consumido metade da bebida, e quando começa o expediente, ele acompanhava os amigos na bebedeira, e as vezes pagava até a conta, já sabe no que deu isso? o bar faliu! mas Sebastiãozinho não perdeu o humor, ele me disse: cara bar é o tipo de negócio que não dá pra mim, agora eu vou dar lucros no bar dos outros, me amigo Sebastiãozinho, faleu tragicamente em um acidente de carro, tinha bebido todas, na madrugada, mas quando me lembro dele, não sinto tristeza, me vem a imagem e a alegria irreverente de um cara fantástco que sabia fazer amigos.
6 de março de 2010, às 2:26h
Samarone,
Gostei muito do tom da narrativa, muito leve aliás, do que costumo chamar de hábitos de meninos – frequentar bares, observar o que se passa ao redor, pessoas e suas histórias. Vim aqui por indicação de uma amiga e sua leitora, a Boca… e fiquei impressionada quando perguntei qual era a sua profissão e ela me disse que era jornalista por formação e professor e poeta por vocação. O nível de humanização em seus textos me impressiona, justamente pela formação. Consegue fazer bem o que poucos fazem: transformar algo que poderia ser técnico e sem graça pela formação em algo tocante e muito bonito pela vocação. Meus parabéns!
Ps: Aliás, uma das melhores indicações que me foram feitas ultimamente.