Coisas e pessoas, rumo ao Sertão do Pajeú
Samarone Lima
Estou em Agrestina, acompanhando mais uma aula-espetáculo de Ariano Suassuna. A aula vai acabando, aproveito para conversar com o maestro Josenilson Silva, de 43 anos, natural de Altinho. Magro, duro, de gestos precisos, ele conta que iniciou com a banda “Pulquém José de Souza” em 28 de maio de 2006. Em pouco mais de dois anos, conseguiu uma proeza. Dos 23 jovens que participam, 15 sabem tocar algum instrumento, lendo na partitura. “Músico tem que saber ler. Se não lê, não é músico de verdade”, diz.
Há pouco, eles tocaram num ritmo perfeito “Cabelo de Fogo”, do maestro Nunes, e fiquei impressionando com um menino de uns sete anos, tocando com firmeza um trompete.
O maestro diz que seu maior objetivo é a socialização dos jovens. Aprendeu a tocar na Febem de Caruaru, hoje Fundac. Duas vezes por semana, dá aulas em Agrestina. Aos sábados, tem ensaio. Dia de terça-feira, ele abre sua barraca na feira da sulanca, em Caruaru. Sai de casa 1h da madruga, volta somente à tardinha. Vende bijouterias
“Se não fosse a feira da sulanca, não dava para sobreviver”, diz.
Termina a aula, são 21h40, preciso viajar para Afogados da Ingazeira, no Sertão do Pajeú, onde darei uma palestra sobre “O amor à literatura”. Meia hora depois de conversar com o maestro, estou na rodoviária de Caruaru, para pegar o ônibus da meia-noite para Afogados.
O vendedor da progresso, com cara de vendedor de diamantes contrabandeados da África, me explica com um certo prazer que não tem mais ônibus, só um que vai para Sertânia, “daqui a meia hora”. Olho meu mapa surrado. Sertânia já é no Pajeú, acho melhor seguir. Vejo os primeiros lances de Brasil X Bolívia e penso que não vai dar em nada.
Em Sertânia, vou ao guichê tentar algo para Afogados, o motorista da Progresso, com cara de cantor de tango aposentado, me diz que é melhor eu seguir até São José do Egito, diz as vantagens, que de lá tenho carro toda hora etc. Caio na conversa, ele consegue me arrancar 10 mangos. Volto para o ônibus.
São 3h30 da manhã, sou despejado num cruzamento em São José do Egito. O frio da noite dá para segurar. Não tem viva alma para uma boa prosa. Olho a placa: São José do Egito-Afogados 55km.
Às 5h em ponto, vem o dono da Veraneio, a primeira que vai para Afogados. É o carro mais arrumado do Sertão do Pajeú. O proprietário, um senhor que não sei o nome, na faixa dos 50, abre a porta, diz que a viagem custa R$ 6,00. “Seis reais” foi a única coisa que ele disse, a viagem inteira. Olhos para o carro: sua vida toda parece estar ali. Tem rádio para se comunicar com outros povos, tudo é cromado, aspirado, limpo, e ele vai serpenteando a estrada como se tivesse calculado e anotado a localização exata de cada buraco. A estrada que liga São José do Egito a Afogados parece um queijo daqueles que a gente nunca come, cheio de enormes buracos.
São 6h07, estou em Afogados. Devo buscar o “Hotel Brasilino”. Um motoqueiro me leva, após uma luta selvagem para conseguir encaixar o capacete na minha cabeça de cearense. Pego o quarto número 4, tomo um café e vou dormir. Só terei que estar desperto á tarde, para terminar de ler minha palestra na Fafopai.
Antes de cochilar, resolvo olhar minhas anotaçãos sobre a tarde anterior, em Agrestina. Está escrito assim:
“Não está nada fácil esta minha vida de caixeiro viajante das palavras. Em Agrestina, encontrei um clima politico que está bem próximo das “vias de fato”. Estava coletando minhas primeiras impressões sobre a cidade, quando o carro de som passou, num volume altíssimo, anunciando:
“Agrestina sabe quem recebe sem trabalhar, fica o dia inteiro bebendo, em mesa de bar, sem trabalhar”, diz uma voz grave, repetindo tudo a todo momento. O ouvido da pessoa parece que vai explodir.
Tentei pegar qual era o cordão, se o vermelho ou o azul, mas não deu.
“Eles mesmo pixam suas casa, e dizem que foi a nossa militância”.
Pelos meus cálculos, a população de Agrestina deve saber muito quem são “eles”, e quem é a “nossa militância”. Mesmo com minha boa cancha de jornalista, fiquei voando.
Estou tomando minhas notas avulsas, quando escuto a frase mais forte da campanha:
“O ódio pesa. Querem nos agredir, porque não aceitam a derrota”.
Nem precisava ter complemento. Tem frase mais forte do que “o ódio pesa”?
Diante do que vem sendo dito no carro de som, julgo importante chamar a Guarda Nacional e as tropas do Exército, que vivem se exercitando no Rio de Janeiro. Pensando bem, deixemos os soldados por lá mesmo, que vamos resolvendo nossas coisas por aqui na conversa.
“O filho mais novo de Dona Carmem foi ameaçado mais uma vez. Isso é desespero”.
Ah, meu amigo do carro de som, chega né? Não dá para deixar um pouco desse terror? Saio de onde estou, a praça principal da cidade, e descubro que no dia seguinte, Agrestina completará 80 anos. A data do aniversário: 11 de setembro. Por isso esse clima de guerra, penso.
Me dedico a observar os candidatos.
Zé Caruba (11.123)
Gordo (10.111)”.
Em Afogados, eu encontraria criaturas ótimas:
Dona Miúda (23.023)
Antônio da Caixa (23.000)
Mécias de Sebastião (23.123)
Franklin de Zé Nazário (15.000)
Arnaldo da Sapataria (23.200)
Não sei ainda o candidato da minha amiga afogadense Diana Moura, mas sobre Afogados, falarei amanhã, na minha tradicional crônica de domingo, se aparecer lan house dando sopa, como aqui, um troço com 32 computadores, meninos loucos gritando, mas tudo por R$ 1,00 a hora. Para quem trabalhou em redação de jornal, aqui é um paraíso.
Entro numa lojinha (estou falando de Agrestina), compro um terço para tia Flocely. Naldo diz que amanhã será o aniversário da cidade.
“Justo no dia que derrubaram o World Trade Center”, diz, num inglês impecável, melhor que o do CCAA.
Fico escutando.
“Passou um filme em Tela Quente essa semana”, completa.
Pergunto se ele vai assistir à aula-espetáculo de Ariano, no Centro Cultural.
“Eu tô sabendo. Se der, vou lá”.
Pela cara, sei que não vai.
Saio andando, preciso trabalhar. No Bara da Madalena, a caminho da aula, vejo o aviso:
“Por favor não cente na mesa”.
Paro no bar seguinte, o “Stop Bar”. Na enorme TV, uma dupla sertaneja que desconheco nome e origem. O dono do bar já tomou umas, eu sei. Ele deveria ser dono de uma casa de shows, porque as caixas de som, eu vou dizer. Atrás de mim, na parede, um quadro imenso, com a moldura do São Paulo Futebol de Regatas, “tetracampeão brasileiro”. Grande coisa. O Santa Cruz já foi tri-super e uma vez pentacampeão estadual.
Há duas mesas. Uma tem três bêbados, outra um só, que está quieto como um passarinho bêbado.
“Ele agora vai cantar uma música que vai direto no meu coração”, diz um deles, que tem um nariz de pimentão.
Ato contínuo, o dono do bar bota um CD medonho, do “Cowboys do Forró”.
Terei que contar sobre isso amanhã. Meu tempo na lah house de Afogados acabou, e mais tarde tem comício de Totonho. Disse o rapaz do carro de som, há pouco, que “a terra vai tremer em Afogados”, e não quero perder este momento histórico.
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13 de setembro de 2008, às 19:41h
nossa samarone quantas emoções nessa sua crônica interiorana!!essa está muito mais divertida que a do coveiro de casa amarela. agora, meu amigo, vamos combinar que das aventuras a maior foi vc na luta selvagem para conseguir encaixar o capacete e tentar domar os seus lindos cachos rebeldes não é!!!!bjs lourdinha
não esquece de levar um estuário quando for na constelação de bartho tá!
14 de setembro de 2008, às 16:24h
Sama,
Cuidado com a Bicha Bruzacã.
Beijo
Naire
14 de setembro de 2008, às 18:05h
Cuidado com o que escreve da minha terra , viu??? Você foi pra Afogados e não disse nada!!! Podia ter ficado lá em casa e nem tinha gasto dinheiro com hotel, tá vendo? Coisa boa, hahahahahh…
14 de setembro de 2008, às 18:07h
“Tô” louca pra ler sobre sua trajetória em Afogados, kkkkkkk. Se ligou no “tô”, é o meu candidato, heheheheh.
14 de setembro de 2008, às 21:10h
ei, cadê a crônica de domingo, que o domingo está quase acabando?
beijos sertanejos,
diana
ps1 - tenho candidato lá, não… moro aqui faz tempo. mas minha família tem toda uma tradição à esquerda, pt+psb que só a gota, o que me levaria a totonho, se lá estivesse…
ps2 - tem viagem na quarta, tá lembrado?
15 de setembro de 2008, às 15:48h
Companheira Diana,não lhe conheço mas já simpatizei com você pela escolha da sua torcida, hehehehehe é Totonho 40!!!!
15 de setembro de 2008, às 18:21h
se já tem os meninos loucos gritando na lan house de afogados, falta só o exercito mesmo pra ficar um hospício identico ao daqui. poderia emprestá-los com prazer, por tempo indeterminado. seriam apenas mais meninos loucos pra gritar por aí. vi 3 caminhões cheios deles hj e são todos meninos mesmo…
leitora feliz, escrevendo de uma lan silenciosa, pois é proibida a entrada de menores de 18. hehehe