Crônicas das coisas mínimas e desnecessárias

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Afogados da Ingazeira:impressões de viagem

15 de setembro de 2008, às 16:41h por Samarone Lima

Saio para caminhar pelas ruas de Afogados da Ingazeira. A beleza dos muros baixos. O frio matinal do Sertão do Pajeú. O silêncio. A praça principal, cheia de gameleiras, flores, e o singelo aviso: “não pise no canteiro”. Os primeiros rostos matinais, os bons dias. Os olhos bons do povo do sertão. Passo por uma casa com três gaiolas na frente. Um passarinho é um galo de campina, conheço de longe. Há um azulão. Pergunto ao senhor simpático, que troca a comida, qual é o terceiro. “É um bigode”, diz com satisfação.

Tenho sorte. Hoje é dia de feira. São 6h15, as barracas estão quase todas montadas. Percorro as ruas, à procura de algo. Um canivete, um peão, sandálias de couro, uma roupa para minha tia. Chego ao Mercado Público. Bebo um café doce, sentado em um banco de madeira. Ao meu lado, duas moças comem um prato completo, com arroz, macarrão e carne. Um menino quer engraxar minha sandália de couro, mas nunca gostei de gente agachada diante de mim, para nada. Bebo o café bem doce e olho tudo.  

Sacas de feijão, farinha, fava. Ovo de galinha caipira. Passa um homem com seis galinhas penduradas nos braços, que não reclamam. Amigo, se você tiver galinha caipira e ela estiver dando trabalho, pendure-a um pouco no seu braço, é um santo remédio. Ao meu lado, três homens com o tradicional chapéu de feltro, duros e quietos, fumam um cigarro de palha. Ah, que bom fumar sem essa paranóia urbana do cigarro, que delícia desfrutar de seu vício sem multas. Eu, que não sou fumante, adoro esta calma de quem bafora cigarros de palha em um banco de feira. 

Percorro as ruas. Há divisões temáticas. As barracas que vendem roupas, com preços módicos. Procuro uma camisa do Santa Cruz, mas os ventos são desfaforáveis. Há camisas dos clubes do sul. Uma área é destinada a facas, apetrechos da vida, dos animais. Bolsas de couro, sandálias, abridores de lata, panelas. Meninos passam com seus carrinhos de mão, levando feiras alheias e juntando alguns trocados. São meninos com a cara boa, estão se mexendo, têm um olhar muito mais feliz que os meninos que pedem dinheiro.

Saio caminhando, descobrindo a cidade. Ah, que delícia seguir sem rumo, sem mapa, dobrando esquinas, vendo as ruas largas de Afogados. Um homem me conta que o nome da cidade veio por causa de um casal, que foi atravessar o rio Pajeú, e morreu afogado. Os corpos foram encontrados enganxados num pé de ingazeira, me diz, e eu acretido.

O sol vai esquentando. É o final da manhã, paro em um boteco. O som é conhecido. Waldick Soriano. “E despertou meu coração adormecido/Eu tenho medo de não ser correspondido”. Tomo uma água de côco. Pergunto por fumo de rolo, para meu amigo Iramarai. “Só na 15 de Novembro”, responde o proprietário, antes de me contar que tem amigos no Recife. Ao saber que sou do Crato, ele me mostra o ventilador do teto, que comprou de um vendedor que era da minha terra. “Tem 15 anos e nunca quebrou”. Sento em sua cadeira de balanço e vou bebericando o côco. Ah, como sou feliz andando pelo mundo, como adoro encontrar desconhecidos, conversar, prosear, escutar. Nasci para a estrada mesmo, nisso imito o meu avô.

Volto ao Mercado Público. De tanto andar, tenho fome. Paro na venda de uma senhora que usa o óculos na ponta do nariz. Me serve arroz mexido, salada de verdura, arroz, cuscuz, guisado.  Peço que ela tire metade, antes de comer. É comida para dois homens do meu porte. Como, tudo está delicioso. Alguns homens já beberam um bocado. Um deles está mamadinho, gesticula, fala alto, coisas que nem ele compreende. Pouco depois, está sentado, no chão. Seus amigos riem. Termino de comer, bebo um delicioso café e pergunto quanto custou o almoço: “Três reais”.

Volto para o hotel. A cidade está em polvorosa. Motos, carros, têm bandeiras dos dois cordões. Totonho, o atual prefeito, tenta a reeleição. Do outro lado, Gilza. O embate será duro, uma peleja e tanto. Pelo que escutei do povo, Totonho é o homem da esquerda, que tem uma visão mais completa de seu trabalho. Gilza foi citada como a mulher que distribui cestas básicas e coisas do tipo. Não fiz perguntas, apenas escutei. Que ganhe o melhor para os afogadenses.

À noite, antes de sair para minha despedida, vejo na TV que 90% dos municípios brasileiros não têm cinema, 80% não têm museus, e somente 21% têm políticas culturais. As bibliotecas, minha paixão, não foram citadas. Os livros, coitados, sempre em último lugar.

Fico sentado na praça de alimentação. A lua cheia vai subindo. Um cão preto, de patinhas brancas, chafurda no lixo, à procura de alguma sobra. Um carro passa com o som altíssimo. “Levantou poeira” puxa a militância de algum candidado a vereador, que não anotei o número. Estão todos de vermelho, com balões. Há homens, velhos, crianças. Aqui não tem guia na TV. Quem vai definir a eleição é o mano a mano, ombro a ombro. Será na raça. Crianças correm, brincando de pega-pega. Faço “chip chip” para o cachorro, ele se empolga demais, tenho que afastá-lo.

Um surdo vem com um adesivo. Tem algo escrito atrás, dizendo que é surdo, precisa de aguda. Faço ouvidos de mercador, ele vai embora. Olho a alegria do povo, o clima da cidade, fico feliz por ter conhecido Afogados. Vim para uma palestra sobre literatura, parece que voltarei em novembro, para uma oficina de dois dias. Trarei meu amigo Iramarai. E não posso deixar de agradecer a Dona Terezinha Barbosa pelo banho que tomei em sua casa, pouco antes de viajar. Diana Moura, sua sobrinha, disse que eu pedisse “arroz de festa”, mas o máximo que ousei foi pedir água. Na próxima, quem sabe.

Postado em Crônicas |

12 Comentários

  1. Els Amorim Disse:

    Eita Sertão velho que deu saudade… é mesmo que tá vendo a feira, o mercado, a caminhonete que vende rapadura…
    Ah, vou relatar alguns fatos aqui… você não falou que a nossa praça é a mais linda do Sertão, a história que lhe falaram do nome da cidade é verdadeira, estava tentando ver onde foi esse boteco que tu fosse mas não consigo identificar, vou ver se me lembro de trazer o fumo de “Maraí” quando for lá, já que você falou que ganhe o melhor para os afogadenses, que ganhe TOTONHO, ah e não é Gilza é “Giza” (Boca Preta - é como chamamos os adversários), a música “Levantou poeira - de Ivete Sangalo” é a do candidato Totonho, lá não tem guia de TV mas tem de rádio, viu Sama!!! E quando voltar lá, me avisa caramba!!!
    Aproveitando a todos os leitores desse blog, faço um convite a conhecer Afogados da Ingazeira, que nem precisa mais elogios não é?
    Sama, um grande abraço.

  2. Fernanda Queiros Disse:

    Olah Samarone!
    Cheguei ao seu blog pelos elogios de minha amiga Ana Eliza.
    Vejo-a quando leio suas palavras… Leves, objetivas, comoventes, descritivas…
    Lindas palavras que merecemos ler.
    Um abraco!

  3. Magna Disse:

    Sama, falar de sertão, lembra do meu pedaço de chão, do meu - nosso - cariri. Acabo de receber um comentário no meu blog que me encheu de saudade e agora te vejo andar pelo sertão. Ah, é estrada demais no meu coração. Sou feliz lá e sou feliz aqui. O caminhar é que é importante. Você já falou da quantidade de emails que recebe…caso não tenha visto o meu, repasso o endereço do “sementeiras” para ires lá, quem sabe, com regador às mãos.
    Boa viagem! Beijo. Magna
    Obs.: http://www.sementeiras.blogspot.com

  4. Arabela Veloso Disse:

    De sertão não entendo como minha amiga Els, embora tenha nascido em Nossa Sra. da Conceição da Boca da Caatinga. Só que quando nasci, já se chamava Pedra Azul, mas é começo do polígono das secas. Ah, e fica em Minas Gerais, mas infelizmente, ou felizmente, me trouxeram de lá ainda nas fraldas. Enfim, Sertão tá mesmo no sangue, né Els?
    Beijão Sama, é sempre um deleite passar por aqui.

  5. samarone Disse:

    Dona Els,
    falei da praça sim, onde tem a indicação de “favor não pisar no canteiro”.
    Tem programa eleitoral nas rádios sim. Aliás, “só” tem programa eleitoral nas rádios.
    Beijos,
    sama

  6. Aldemir Suco Disse:

    É Sama, as feiras logo de manhã tem suas mágias principais. É muito gostoso sentir um cheiro de pimentão bbem verdinho, da vontade de comer. Os olhos do povo ainda se abrindo para dia. Você ver nessa pespectiva, e lembra que o resto do dia terá afareveres chatos. Sem mais, ainda sinto sono. Não consigo acorda mais cedo para ver o povo acordando, a não ser quando tomo umas e outras e espero o sono me nacautear. Até Sama….

  7. bonina (ou diana moura) Disse:

    arroz de festa é uma versão melhorada (pela minha tia) do arroz mexido que você provou no mercado…

    Tia Terezinha é sertaneja como poucas. Aposto que ela gostou mais de ajudá-lo do que você, da ajuda que recebeu.

    Não consigo ler sobre o Sertão de modo indiferente. Mesmo sabendo que, hoje, “o sertão em mim é um estado de espírito”… a frase é linda, né? é do meu chefe. (Tem chefe assim quem pode.)

    :))

  8. Fabiana Disse:

    Samaroni, postei uma mensagem da qual você faz parte. Chama-se Trajetória das Letras. Em meu blog.

  9. ana eliza Disse:

    eu já ia dizer sobre a força destas tuas recentes palavras (mas que crônicas perfeitas !), e encontro aqui comentários de fernanda queiros, minha mais que amiga. este espaço, samarone, e todas as suas letras podem até ser das coisas mínimas, mas nunca desnecessárias.
    quero conhecer o sertão…e você volte logo a salvador !

  10. Dito Disse:

    menino brincando na beira
    das pedras banhadas do rio
    madrugada fazendo frio
    movimento no meio da feira
    um faca, uma algibeira
    linha, cordão e fio
    uma cantiga, um assobio,
    afogados da ingazeira

  11. sirley Disse:

    a mais de 15 anos estive lá e essa crônica me fez lembra de muitas coisas, inclusive dos amigos que deixei lá.

  12. Cátia Inês Salgado de Oliveira Disse:

    Sama,
    homem, tu presta atenção em pássaros!
    Em Rio das Ostras visitei o Parque dos Pássaros que é um viveiro gigantesco para recebr os pássaros apreendidos em contrabandos. Tinha de tudo, um lindo primo dos tucanos, mas o que mais me impressionou foi um pássaro de cor laranja. Ele parecia um daqueles desenhos que fazemos quando criança no qual gastamos bastante lápis de cor, deixando o papel liso de tanto pressionar a ponta contra a folha. Era de um colorido inacreditável!
    Lendo seu relato sobre os primeiros rostos… é indescritível a sensação que temos ao chegar a um lugar que não conhecemos, descobrir, procurar, buscar, nem sabemos o quê? Cheguei à Praia das Tartarugas, que me disseram
    “-há muitas tartarugas”. Meu olhar “estrangeiro” nada me permitia ver senão a beleza da maré alta dando pancadas nas pedras. Bom, lá estava eu de câmera na mão esperando alguma tartaruga fazer pose para mim… Chegaram, um, dois, quando notei, seis pescadores à minha volta, e finalmente me mostraram as tartarugas. Só consegui fotografar a cabeça de uma delas…elas são bem mais rápidas que eu…e no fim, nada de uma boa foto de tartaruga, e os pescadores já querendo me convencer a tirar foto minha. Pensei logo que eu é que era a tartaruga para eles.
    Ai! isso está longo demais.
    Tem um ingazeiro(a) (falamos assim, não sei o que está correto na grafia, mas não me importo)para o qual olho quando tomo o café da manhã sempre que estou na casa de minha mãe na região serrana do Rio, pois da mesa do café posso ver e ouvir as pancadas do rio Piabanha nas pedras (Piabanha era um peixe abundante neste rio. Meu pai e outros chegaram a pescá-lo, mas eu não tive o privilégio sequer de olhar um deles).
    Beijos,
    Cátia.

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