Ex-amigo
Samarone Lima
Ontem recebi um email de uma pessoa que adoro. Trabalhamos juntos em um belo projeto, sonhamos juntos, vimos que era possível mudar certas realidades, sofremos juntos com o desmonte do projeto e saímos juntos. Outro dia a encontrei, quando atravessava uma ponte do Recife, rumo ao Cais de Santa Rita. Ela, com família completa. O carro estacionou no meio da ponte, e falamos as frases imediatas, que diziam da saudade, precisamos marcar um encontro, o que tens feito. Os filhos dela, atrás, sorriam.
Pois bem, minha amiga disse que, diante da falta de conversas, encontros, telefonemas, se considera uma ex-amiga. Não sei por qual motivo, acabei concordando. Agora, procuro uma nova palavra para definir essa pessoa que adoro, que compartilha idéias e sonhos, e que vejo uma vez perdida.
Descubro que tenho vários amigos que se incluem nesta categoria. Vamos começar pelo meu amigo Valdemir Leite, que trabalha na TV Jornal. Fomos unha e carne na Católica desde o primeiro dia de aula. Val usava cabelos imensos e camisas psicodélicas. Era mais tímido que hoje, e conquistou logo a musa da turma, nos causando traumas diversos. Depois a musa foi para a Inglaterra, ele casou com a antiga namorada e teve duas filhotas, igual ao cinema.
Nosso principal esporte tem sido marcar encontros que nunca mais acontecem. Houve um tempo muito remoto em nossas vidas, que nos encontrávamos toda quarta-feira, mesmo com todo o degelo da Antártida e o imenso buraco de ozônio. Não lembro quando foi nosso último encontro.
Num rompante, acordo saudoso e digo que hoje, e não passará de hoje, tomarei umas cervejas com meu amigo. Contaremos todo o acumulado, daremos risadas infernais, encontraremos soluções para nossos problemas e até para o Santa Cruz. Mas olho uma lista de viagens até dezembro, e vejo que mais tarde vou para Escada.
De Marcus Galindo e Stella, nem posso falar. Temo inclusive que eles não me reconheçam, quando nos encontrarmos. Outro dia, encontrei a filha deles, Clara, e aquela meninota estava na rua de Lazer, da Católica, com sua turma de amigos. Salvo engano, cursa Jornalismo. Daqui a pouco, nos encontraremos em alguma dessas lidas da vida, em uma pauta, pedirei ajuda com alguma informação que passou e não vi.
Quando Stela e Marquinhos moraram na Holanda, nos falávamos obsessivamente, e parecia que a Holanda era uma ilha, que estava sendo levada para algum mar distante. Cartas aconteciam aos montes, e bastou eles chegarem de volta, que nunca mais nos vimos. Outro dia, vi uma foto de Marquinhos no Diário de Pernambuco e dei graças a Deus. Continua com aquela cara de leso, que combina bem com suas piadas formidáveis e histórias de trancoso. Stella deve estar na UFPE, dando aulas e cuidando do Núcleo de Estudos Indigenistas (NEI), que foi minha segunda casa durante um bom tempo. Não lembro quando foi nosso último encontro.
Tenho também uma leva de amigos que deveriam mesmo estar recolhidos na Tamarineira, mas o Movimento Antimanicomial não tem deixado. Falo de Cézar Maia, Marcelo Barreto, Ivanzinho, João “Peruca” Henrique, entre outros. Vou mudar a frase, porque iniciar um texto com “falo de Cezar Maia” vai me custar caro. “Lembro de Cezar Maia…” fica melhor. A situação é tão dramática, que Maia admitiu, já meio de porre, que estava com uma leve, distante e ainda não confirmada ponta de saudades.
Ex-alunos que se transformaram em amigos já devem estar me considerando ex-amigo mesmo. João Valadares, Marcel Tito, Bruno Fontes e Geraldo de Fraga, o “Quarteto Coral”, se espalhou em veículos os mais diversos. Leio, vejo, escuto as coisas deles, mas uma boa conversa para matar saudades, é a mais pura lenda. Costumávamos nos encontrar antes de jogos do Santa, mas como o meu clube resolveu jogar apenas no Estadual, para não se misturar, muito, só voltaremos ao Arruda em 2009. Soube que Marcel inclusive já é pai. Pelos meus cálculos, não nos vemos há dois anos.
Theresa mora em Arcoverde, a encontrei outro dia, inclusive descolei a bóia na casa dela, com seu filhote lindo e o maridão maluco como sempre. Descubro um truque - basta a pessoa morar em outra cidade, que fica mais fácil encontrar.
Só tem uma solução para encontrar meus amigos todos. Ser dono de bar novamente.
Quando era proprietário do La Prensa, encontrava todos esse e mais outros amigos de verdade quase toda noite. Meu deus, posso até ver o desgraçado do Álvaro Claudino reclamando todos os dias, porque a cerveja era long-neck, “um roubo”. A coisa piorou com o Garrafus, porque era celeiro de aniversários. Claudino chegava com aquela conversa mole e passava a reclamar que a cerveja não estava gelada.
Mas a solução me custaria caro demais. Não tenho condições psicológicas para me meter numa loucura dessas. Vou fazer o seguinte: semana que vem, vou dedicar todos os dias a reencontrar os amigos que um dia eu deixei a chorar de alegria, que acompanham o meu violão.
Vou começar pelo domingo. Farei surpresas as mais diversas. Chegarei sem aviso prévio. Em alguns casos, entrarei em surto psicótico - pagarei a conta.
Nem me venham com história de ex-amigo. Pode existir tudo que é “ex” na vida, mas amigo, de verdade, nunca será um ex. Excuse-moi. Ra ra ra, o trocadilho foi infame.
Para Adriana Dória, Ana Luisa, Luzilá, Lourival, Flávia Suassuna, Lucila, Sirley, Naire, Beth, Rosana, Fred Jordão, Peste, Gustavo et alii.
Postado em Crônicas |




19 de setembro de 2008, às 11:06h
Vc nem imagina que está lhe escrevendo. Hoje não assino mais (por favor não fale do meu anonimato) , mas já declarei minhas saudades muitas outras vezes firmada. Pensei que poderia estar no rol dos ex-amigos. Mas quem sabe dos ex-amores…
19 de setembro de 2008, às 11:28h
Muito bacana!!!! Gracias pelo aviso, eu já tinha passeado por aqui mais cedo.
Eu ando assim, vendo mais os amigos que moram fora que os que continuam por aqui.
Segunda mandarei essa, viu? Antes eu retirava seu nome da lista quando enviava alguma crônica sua, e mandava outra para você, agora vou deixar.
Xêro.
19 de setembro de 2008, às 14:06h
Conversa de ex-amigo, rapá!
Amigo é amigo. Pronto.
Eu tenho amigos que só vejo uma ou duas vezes por ano. Mas sei que são amigos.
Tenho amigos que não vejo nunca, por farrapagens minhas ou deles (como é normalmente o seu caso), mas são amigos.
Ultimamente estou interessado em encontrar o amigo Marcelo José dos Santos, que estudou comigo na Escola Técnica e na faculdade de publicidade. Se você souber dele, me avise.
Marcelo é um homem de bem e do bem. É craque nas letras e me influenciou muito a usá-las ao invés das pipetas e buretas.
Quanto a você, seu Sama, espero seu contato na semana que vem. Só não me procure na quarta nem na quinta. Estarei em Arcoverde, com outros amigos.
19 de setembro de 2008, às 16:25h
Sama, querido,
Que bom ser sua (ex) amiga.
Se pra gente se ver for preciso um café, já mandei botar água no fogo. Beijo
19 de setembro de 2008, às 17:48h
Caro amigo,
O vosso blog ajudou te encontrar é bom restabelecer o dialogo contigo, e poder embriaga-se do vosso bom humor. Saiba que ler vossas crônicas, estimulou também a retirar a caneta da gaveta e voltar a escrever
A insalubridade dos processos sociais somado ao desejo de encontrar um velho desejo, motivou a tomar coragem e colocar a cara a tapa, tirei da gaveta a caneta esferográfica e voltei a escrever, e agora não mais para guarda nas caixas, as quais tenho secenta. Minha família promete uma grande fogueira na minha partida, faz medo até que eu não corro risco de ser cremado com a papelada que tou juntado. Para evitar o risco do fogo e joga fora minha singela opinião coloquei um blog, contudo, para ter visitantes só a Folha de São Paulo errando o link e levando para lá, contudo, indepentemente disto existe o São Google que pode levar gente para lá. O convite para visita está feito a você e vossos leitores e amigos. Língua Ferina - http://linguaferina.wordpress.com/ para ver a crônica mais fresca é http://linguaferina.wordpress.com/2008/09/19/e-especial/
19 de setembro de 2008, às 18:36h
Caro Samarone!
Belíssima crônica. Parabéns!
Sou leitor do Estuário por recomendação de um amigo, Ítalo Rocha, que atualmente trabalha na UFRPE, e agora pertence à categoria dos amigos que você descreve.
É um Paraibano-Mineiro que fez doutorado na Universidade Federal de Viçosa, onde ficamos amigos. Não só nós, mas nossas famílias também. Ele é o dono do Geófagos, do qual sou colaborador.
Por recomendação dele, conheci o Estuário e me tornei leitor assíduo.
Aliás foi ele quem me informou, há uns dias antrás, sobre o que é a Tamarineira que você cita na crônica. Eu disse a ele que sou fã de uma banda dos anos 70, que acompanhava Alceu Valença, chamada Ave Sangria, cujo nome anterior era Tamarineira Village. Só agora, depois que ele chegou aí, é que fui saber o que é a tal Tamarineira.
Grande abraço,
e parabéns mais uma vez.
Elton Valente.
19 de setembro de 2008, às 21:04h
Caro Samarone,
No comentário que fiz aqui no Estuário, cometi um erro “gravíssimo” de ortografia dentro de uma redundância, ou seja, errei na potência 2. Envergonhado, peço desculpas a você e seus leitores, que certamente irão notar aquela aberração.
Veja que nem é o caso de uso da linguagem popular, da qual sou admirador. Nós, por obrigações profissionais, temos de utilizar a língua padrão, a menos que sejamos João Guimarães Rosa redigindo Grande Sertão: Veredas.
Vou me dirigir aos seus leitores, se você me permite: Senhores, onde se lê “há uns dias ANTRÁS”, por favor, leiam apenas “há uns dias”, e pronto!
Antecipo agradecimentos!
Elton Valente
19 de setembro de 2008, às 22:59h
Elton, esse negócio de “hás uns dias antrás” nem me chamou a atenção. O que fiquei pasmo mesmo foi com esse troço de “errei na potência 2″.
Dá para explicar melhor essa adversidade quase sexual?
Samarone
19 de setembro de 2008, às 23:44h
Samarone,
“erro na potência 2″ foi um recurso lingüístico que usei para explicar um erro dentro de outro erro. Se isso esbarra em conotação sexual, confesso que nem percebi.
Att.
Elton.
20 de setembro de 2008, às 12:38h
Saminha,
despejo aqui todo meu encanto por teu texto.
Passei a semana em Rio das Ostras/RJ, e lá encontrei uma amiga de infância de quem estava distante havia uns 10 anos. Fui até à casa dela e passamos o dia inteiro papeando, contando casos, compartilhando nossas vidas. Nos reencontramos com uma alegria do tamanho do mundo. Deslumbramentos nas mínimas coisas, como o jardim que ela está plantando em sua casa, o pé de romã, o pé de lixia, as hortênsias, bromélias nativas, cada detalhe era uma festa que fazia meus olhos saltarem. Qualquer coisa, pois o que importava era que estávamos juntas outra vez, e perceber que nunca havíamos nos separado de verdade, apenas estamos fisicamente distantes.
Não é possível ser ex-amigo quando pessoas se tornam amigas. O tempo encurta com os afazeres do “mundo adulto”, mas aumenta a quantidade e qualidade das histórias e casos a serem compartilhados.
Beijos e mais beijos,
Cátia.
20 de setembro de 2008, às 19:16h
Oi Sama, não acredito que existem ex-amigos. Acredito que existem pessoas que nunca foram amigos de verdade, destas nós esquecemos….Mas os grandes amigos, eles estão sempre em nossas lembranças. Não precisa telefonar todo dia, escrever…..No entanto, eles estão lá guardadinhos em nossa memória. De repente, um acontecimento, uma música , alguém parecido, acende a luz da saudade…É assim.
A distância em muitos casos é necessária pela trajetória da vida ou para deixar que o outro caminhe “sozinho” um tempo…..Mas, quando nos reencontramos parece que nunca nos separamos……..
Beijos. Ana
21 de setembro de 2008, às 0:21h
Sama, avisa a Ivanzinho que eu conheço o Marcelo Santos. Manda ele me mandar um e-mail q eu dou o fone de Marcelo.
22 de setembro de 2008, às 11:40h
Peruca,
Já que tu vais encontrar com a rapazeada, leva os 20 reais que me deves.
J.
22 de setembro de 2008, às 21:30h
Venho aqui, como de costume, ler um pouquinho das tuas histórias e acabo me deparando com uma lista de pessoas que admiro: Dória, Ivan, Stella…
É, Recife deve ser mesmo uma aldeia indígena.
hahaaha
E, aumentando o coro: amigo é amigo e pronto, samarone! E, nada melhor que uma boa cerveja num boteco perto da praça do sebo para estreitar os laços de amizade. Isso eu garanto
Te adicionei no blog
Até a próxima visita!
Beijão
22 de setembro de 2008, às 21:59h
Sama,
O Marcelo Barreto que a que você se refere é um que é professor?
23 de setembro de 2008, às 10:28h
Anonimus, o Marcelo Barreto que falei trabalha com vídeos no Ateliê, uma produtora que está muito bem de finanças. Além disso, é um péssimo zagueiro, costuma contar vantagens clubísticas em torno da Rosa e Silva, e os cabelos estão desaparecendo rapidamente.
Samarone
23 de setembro de 2008, às 10:57h
Sama,
mesmo que não te encontre pessoalmente, durante muitos e muitos anos… numca serás ex-amigo… uma vez amigo, sempre amigo… mesmo fuleiro!
sei quem encontrasse e acredito que sabes que ela falava brincando (na verdade provocando)
um dia nos reencontramos, não sei quando, nem onde, talvez pelas ruas, ou em algum bar, quem sabe?
um grande abraço,
24 de setembro de 2008, às 0:53h
Sama, vamos indicar a Fernando Bezera Coelho o teu nome para administrar a Churrascaria Colosso!
25 de setembro de 2008, às 11:42h
Sama, sempre achei que ex-amigo era um termo só meu. Toda vez que comentava, ouvia: “o que é isso?”, “como?”, “tá doida, é?”. É só um termo pra explicar aquelas pessoas que já foram muito constantes, mas continuam queridas. O carinho não é ex nunca…
26 de setembro de 2008, às 14:10h
Samarone,
texto digno de se tornar uma corrente nos e-mails alheios!
Eu sou chorana, com este texto então? Pense, mês de aniversário, morar só, dissertação para escrever, ler um texto desses só podia me levar as lágrimas!
Fiquei reflexiva, “será que sou ex-amiga de alguém?”.
Saudações Corais.
7 de outubro de 2008, às 15:05h
De passagem num prédio onde vivi encontrei na posta-restante um objeto estranho: um envelope pardo contendo uma carta manuscrita. Fazia anos que ninguém mais utilizava aquela mídia. Minha antiga vivencia profissional de arqueólogo me fez abrir com certa reverencia aquela opera amanuense, lembrando do passado quando as pessoas ainda se comunicavam a distancia sem a interveniencia do gmail. Mais estranho ainda, a missiva havia sido remetida por correio e ostentava no canto superior direito um selo postal com evidentes sinais de lambida. Mas quem teria sido o autor daquela esquisitice? No remetente um garrancho indecifrável ocupou meu sistema por alguns minutos até reconhecer a firma de Samarone Lima. Li com atenção e entendi a deferência do amigo em me escrever de próprio punho. No interior do envelope havia ainda alguns recortes de jornais de tempos idos que remetiam a lembranças que já julgava passadas. Lêdo engano! lá estavam elas latentes, vivas e firmes. Mostrei a Stella minha companheira a bizarrice do querido amigo, e ficamos juntos pensando o que poderíamos fazer para responder a altura. O tempo passou e nos destroços de uma mudança perdi o contato com o objeto, da mesma forma que havia perdido o rastro do amigo Sama. Viva Sama, te encontrei novamente. Abs. Marcos Galindo