Crônicas das coisas mínimas e desnecessárias

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Sinais dos tempos

23 de setembro de 2008, às 13:10h por Samarone Lima

Ah, como é duro ver santuários profanados. Acabo de passar pela extinta “Livro 7″, que foi minha segunda casa, naqueles anos de fome, entre 1998 e 1992. O mesmo santo lugar agora é um prédio da Assembléia de Deus. Estou na mesma entrada que era o ponto de encontro com amigos. Lembro nitidamente cada detalhe. Os vendedores, os retratos de escritores nas paredes, e os milhares de livros, para todos os gostos.

A morte da Livro 7 foi apenas um sinal dos tempos duros para a cidade. Falo de cultura, de espaços para lançamentos, encontros, de uma empresa que dava apoio a jornais de bairro, de faculdades, que investia em shows de desconhecidos, iniciantes, poetas. Tarcísio Pereira era mais que um livreiro, era um homem generoso. Hoje, nos resta a impessoalidade da Livraria Cultura, com seus sofás duríssimos e atendimento eficiente para cerimônia da encomenda dos livros. Sinais dos tempos.

A vitrine foi mantida. Apenas o vidro. Resolvo encarar o sofrimento de frente. Resolvo ir ao extremo, para, quem sabe, expurgar esta lamentação espiritual. Entro na Assembléia de Deus e sento no último banco. Antes, passo pela banquetinha e pego o formulário do dízimo. Ao meu lado, uma mulher pobre, mal vestida, cabelos mal cortados, desses que dificilmente vêem shampoo, segura um menino nos braços. O menino tem apenas uma bermuda do Exército brasileiro, talvez uma metáfora de algo que não entendo. Alguém segura o microfone e diz que “Deus zelará por ti”.

Deus, sempre ele. Seu nome é citado a cada dois minutos. “Deus cuidará do teu sofrer”. “Deus te dará o alívio”. Tem Deus para todos os gostos, idades, todos os dramas.

Ele fala aos berros, usando um microfone. A mulher, ao meu lado, passa a gritar “aleluia, aleluia, aleluia”, com a mão na testa, eu tomo um susto, o menino ameaça chorar. Olha para mim, sinto uma enorme cumplicidade. O menino parece dizer “o que estou fazendo aqui?”

Lembro de um livro que surrupiei, acho que foi “A Casa dos Espíritos”, na época que eu ainda era besta, e gostava da Isabel Allende. Foi mal, Tarcísio, também gastei muito com meu cartão da Livro 7.

Tento me localizar geograficamente. O banco onde estou deveria ter as prateleiras de lançamentos. No teto, agora, há somente caixas de som pretas e estridentes. Tento lembrar de algum vendedor. O impagável Felipe está na Poty, na Livro 7. Ah, que saudades do bom atendimento, acompanhado de uma boa conversa fiada, comentários sobre o Santa Cruz, algum evento da cidade.

Estou tomando minhas notas, e nem percebo que acaba de passar do meio dia. Um pastor de verdade assumiu. Tem paletó preto, a Bíblia na mão.

“Quando Jesus estava falando de Josué, me levou a refletir sobre o fato de ter trazido ao coração daquele homem, para ……….. no caminho”.

Ele fala rápido demais, minhas manhas de repórter não acompanham.

Uma mulher chega, se ajoelha de costas para o palco, reza com ardor.

“Jesus, Kalefh e os demais, vivenciaram planos magníficos de Deus na vida de Moisés e na vida de Israel. Mas chega um momento em que a expectativa chega ao final. Você é crente, mas é de carne, não é de cimento não!”.

Gritos explodem de “aleluia”.

As duas palavras campeãs na Assembléia de Deus: aleluia e Jesus.

Lembrei agorinha de um lançamento do Sidney Sheldon. A fila só faltava dar uma volta no quarteirão. Lembrei também que às vezes ficava por lá muitas horas, lendo o que gostava, depois pegava o raríssimo “Cidade Universitária” e voltava para a Casa do Estudante. Voltava cheio de vida.

Resolvo contar o público. São uns 40 gatos pingados, que tentam alguma ajuda. O pastor começa a falar, e depois recorre aos gritos, coisa que não suporto. Ele tem uns gestos teatrais, que me lembram o poeta Miró, só que Miró é muito melhor, e fala pouquíssimo de Josué.

Estou há 15 minutos aqui na Assembléia. Meus ouvidos doem. Se o que pretendia era expurgar as lembranças, descubro que não há mais cura. Alguns santuários de nossa cidade, mesmo que sejam profanados, continuam vivos. Sofri muito quando soube que a Livro 7 tinha fechado. Peço aos meus poucos e fiéis leitores, que me mandem alguma foto da mais famosa livraria de nossa cidade, caso tenha em seus arquivos. Senti um impacto quando a centenária Cristal virou um self service fajuto, com uma decoração de McDonalds, levando o imenso balcão de mármore para o lixo. Soube que o velho Arlindo morreu há quatro meses.

São nossas derrotas culturais, estéticas. Há momentos em que o lugar onde vivemos fica mais feio, mais pobre, e não falo de grana.

Bem, chega de lamentação. Os gritos me atordoam. É hora de ir embora. Levo um saquinho do dízimo, a título de lembrança. Me levanto, vou saindo, o pastor dá um grito:

“Pssst”.

Lembrei que uma vez, quase fui pego pelo vendedor, tentando um golpe qualquer.

“Jesus ainda vai te ensinar muito!”

Sim, amigo, obrigado pela dica, mas sei que não era comigo, era com os crentes.

Saio à procura de algo que me console. A “Confraria do Poeta” agora é um self-service. Francamente.

Passo na banca de revista, vejo o Jornal do Commercio de hoje. Tem uma foto de uma moça, no canto direito da capa. Me aproximo com minha miopia para ver quem é:

“Sabrina prova bolo-de-rolo no Recife”.

Sinal dos tempos, amigos, sinal dos tempos.

Postado em Crônicas |

14 Comentários

  1. bandeira Disse:

    só liguei pra lembrar aos amigos que frequentaram ö melhor bar que já existiu na cidade do Recife: DILÚVIO 49. Aquele sim é que era um bar prá chamar de seu! Hoje, a casa está reformada e mora a nossa amiga Pérside Omena. Saudades do seu proprietário/amigo Claudinho. Ah, que saudades do DILÚVIO…

  2. Fabiana Disse:

    Aqui na capital federal, o cine Atlântida virou uma Assembléia de Deus. Era o maior cinema da cidade, bem no centro, no CONIC, aonde se vem de tudo e de todos…sinceramente.

  3. Anaquim Disse:

    E o Galerias? O fim do Galerias foi o tiro de misericórdia nas minhas parcas memórias do Centro.

  4. Thaís Disse:

    Não gosto da Livraria Cultura também.
    Sinceramente? Prefiro aquelas livrarias antigas ali na cidade.
    Sem falar do magnífico sebo, onde você vai, vira amigo do vendedor, não acha o que você foi procurar, leva 5 outras coisas e ainda senta ali do lado pra tomar uma cervejinha com os senhores enquanto fala sobre a vida.

    É, as vezes acho que certas coisas precisam acontecer para que a gente aprenda a separar o ‘joio do trigo’.
    Enfim, Sama, adorei a sua visita pelos lados de cá!
    Fique a vontade, viu?
    Espero que você não tenha se importado em eu ter te adicionado no blog..

    Beijão!

  5. Julio Vila Nova Disse:

    Esse bar Confraria do Poeta que vc menciona era o antigo Calabouço, do tricolor Eduardo, que exilou-se aqui pras bandas do Janga. Hoje, a rua 7 de Setembro é mesmo uma dor, começando pelos tímpanos.

  6. Julio Vila Nova Disse:

    Anaquim, depois que o Galerias saiu do seu lugar de origem, no Recife Antigo, foi para a rua do Bom Jesus, ali perto. Agora há pouco instalou-se na rua da Guia. O espaço ficou menor, mas o maltado continua o mesmo. Além do mais, o Galerias está bem perto do Teatro Mamulengo, que é muito legal (nem tudo está perdido,então!)

  7. Anonimus Disse:

    Eu queria ter frequentado a livro 7, mas não tinha idade pra isso…
    Nostalgia dos tempos que não eram meus.
    Recomendo também a série de cronicas de Zé Telles sobre a 7 de Setembro, seus bares e suas historias.

    abraços

  8. Giovani Disse:

    Meu programa preferido… Livro 7 e depois sanduiche na Fofoca’s… Bons tempos!

  9. Arabela Disse:

    Sama, gostei do que você escreveu. Só me ajuda a entender uma coisa. Que tipo exatamente de besta você era por gostar da Isabel Allende? Quero saber até para ver se me identifico com esse modo besta de ser. Eu gosto da Isabel Allende. E gosto de você também. Beijos.

  10. stella Disse:

    a livro 7, a livraria síntese, o cinema veneza. quando voltei a recife, depois de cinco anos de saudade, meu coração doeu tanto que, cinco anos depois, ainda não tive coragem para voltar aí. a síntese depredada, a livro 7 fechada, o veneza e o são luiz fechados. andar na conde de boa vista, como ando até hoje nos meus sonhos, só me fez entristecer. o prédio da emtu, onde eu ficava em filas intermináveis para comprar passe todo mês, está largado às baratas e aos cheira-colas. a mesbla não existe mais. aquela livraria na frente dela mudou de nome. não tenho mais estrutura, essa rua não é minha e meus sonhos se quebraram.

  11. Suyene Carvalho Disse:

    Querido Samarone, não tenho nenhuma foto da Livro 7, mas guardo com carinho meu cartão de crédito de lá: azul bic com meu nome impresso em letras brancas. Usei muito na época de faculdade e também sofri com o fechamento da livraria. Uma pena…

  12. Yvette Teixeira Disse:

    Sama, querido.
    Aqui em Salvador tinha a Literarte e o Sebo Graúna do meu amigo Getúlio, também dono dos Bares Extudo e Póstudo…a livraria não existe mais há muito muito muito tempo mesmo o Sebo continua com outro dono e os bares com outros donos também há bastante tempo. E o Getúlio? Mora no mato, vez em quando ele aparece do nada e some da mesma forma…uma figura!!!! O problema é que agora só tem essas livrarias de grife e nunca acho o que procuro. Saco!
    beijo grande!

  13. J. Disse:

    peruca,

    coincidência danada vc sentar ao lado de uma moça que tb não passa shampoo. esses hippies…

    se quer uma foto da livraria mais famosa do recife, entre no site da cultura. lá eles têm fotos de todas as filiais espalhadas pelo país.

    vejo que o estudo para o nosso projeto de abrir uma igreja está adiantado. também pesquiso e encontrei um garoto que pode nos ajudar: http://www.youtube.com/watch?v=j4FNGsNY3nI&eurl=http://mypix.terra.com.br/blog/

    o bolo-de-rolo estava uma delícia? ou a delícia era a provadora.

    falou peruca! viva os caducos!

    J.

  14. Neto Disse:

    SÓ RESTA DIZER SAUDADES DA AMADA LIVRO 7 e a LIVRARIA SINTESE

Conversinhas

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