Crônicas das coisas mínimas e desnecessárias | Por Samarone Lima

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Coisas e pessoas, rumo ao Sertão do Pajeú

13 de setembro de 2008, às 12:36h por Samarone Lima

Estou em Agrestina, acompanhando mais uma aula-espetáculo de Ariano Suassuna. A aula vai acabando, aproveito para conversar com o maestro Josenilson Silva, de 43 anos, natural de Altinho. Magro, duro, de gestos precisos, ele conta que iniciou com a banda “Pulquém José de Souza” em 28 de maio de 2006. Em pouco mais de dois anos, conseguiu uma proeza. Dos 23 jovens que participam, 15 sabem tocar algum instrumento, lendo na partitura. “Músico tem que saber ler. Se não lê, não é músico de verdade”, diz.

Há pouco, eles tocaram num ritmo perfeito “Cabelo de Fogo”, do maestro Nunes, e fiquei impressionando com um menino de uns sete anos, tocando com firmeza um trompete.

O maestro diz que seu maior objetivo é a socialização dos jovens. Aprendeu a tocar na Febem de Caruaru, hoje Fundac. Duas vezes por semana, dá aulas em Agrestina. Aos sábados, tem ensaio. Dia de terça-feira, ele abre sua barraca na feira da sulanca, em Caruaru. Sai de casa 1h da madruga, volta somente à tardinha. Vende bijouterias

“Se não fosse a feira da sulanca, não dava para sobreviver”, diz.

Termina a aula, são 21h40, preciso viajar para Afogados da Ingazeira, no Sertão do Pajeú, onde darei uma palestra sobre “O amor à literatura”. Meia hora depois de conversar com o maestro, estou na rodoviária de Caruaru, para pegar o ônibus da meia-noite para Afogados.

O vendedor da progresso, com cara de vendedor de diamantes contrabandeados da África, me explica com um certo prazer que não tem mais ônibus, só um que vai para Sertânia, “daqui a meia hora”. Olho meu mapa surrado. Sertânia já é no Pajeú, acho melhor seguir. Vejo os primeiros lances de Brasil X Bolívia e penso que não vai dar em nada.

Em Sertânia, vou ao guichê tentar algo para Afogados, o motorista da Progresso, com cara de cantor de tango aposentado, me diz que é melhor eu seguir até São José do Egito, diz as vantagens, que de lá tenho carro toda hora etc. Caio na conversa, ele consegue me arrancar 10 mangos. Volto para o ônibus.

São 3h30 da manhã, sou despejado num cruzamento em São José do Egito. O frio da noite dá para segurar. Não tem viva alma para uma boa prosa. Olho a placa: São José do Egito-Afogados 55km.

Às 5h em ponto, vem o dono da Veraneio, a primeira que vai para Afogados. É o carro mais arrumado do Sertão do Pajeú. O proprietário, um senhor que não sei o nome, na faixa dos 50, abre a porta, diz que a viagem custa R$ 6,00. “Seis reais” foi a única coisa que ele disse, a viagem inteira. Olhos para o carro: sua vida toda parece estar ali. Tem rádio para se comunicar com outros povos, tudo é cromado, aspirado, limpo, e ele vai serpenteando a estrada como se tivesse calculado e anotado a localização exata de cada buraco. A estrada que liga São José do Egito a Afogados parece um queijo daqueles que a gente nunca come, cheio de enormes buracos.

São 6h07, estou em Afogados. Devo buscar o “Hotel Brasilino”. Um motoqueiro me leva, após uma luta selvagem para conseguir encaixar o capacete na minha cabeça de cearense. Pego o quarto número 4, tomo um café e vou dormir. Só terei que estar desperto á tarde, para terminar de ler minha palestra na Fafopai.

Antes de cochilar, resolvo olhar minhas anotaçãos sobre a tarde anterior, em Agrestina. Está escrito assim:

“Não está nada fácil esta minha vida de caixeiro viajante das palavras. Em Agrestina, encontrei um clima politico que está bem próximo das “vias de fato”. Estava coletando minhas primeiras impressões sobre a cidade, quando o carro de som passou, num volume altíssimo, anunciando:

“Agrestina sabe quem recebe sem trabalhar, fica o dia inteiro bebendo, em mesa de bar, sem trabalhar”, diz uma voz grave, repetindo tudo a todo momento. O ouvido da pessoa parece que vai explodir.

Tentei pegar qual era o cordão, se o vermelho ou o azul, mas não deu.

“Eles mesmo pixam suas casa, e dizem que foi a nossa militância”.

Pelos meus cálculos, a população de Agrestina deve saber muito quem são “eles”, e quem é a “nossa militância”. Mesmo com minha boa cancha de jornalista, fiquei voando.

Estou tomando minhas notas avulsas, quando escuto a frase mais forte da campanha:

“O ódio pesa. Querem nos agredir, porque não aceitam a derrota”.

Nem precisava ter complemento. Tem frase mais forte do que “o ódio pesa”?

Diante do que vem sendo dito no carro de som, julgo importante chamar a Guarda Nacional e as tropas do Exército, que vivem se exercitando no Rio de Janeiro. Pensando bem, deixemos os soldados por lá mesmo, que vamos resolvendo nossas coisas por aqui na conversa.

“O filho mais novo de Dona Carmem foi ameaçado mais uma vez. Isso é desespero”.

Ah, meu amigo do carro de som, chega né? Não dá para deixar um pouco desse terror? Saio de onde estou, a praça principal da cidade, e descubro que no dia seguinte, Agrestina completará 80 anos. A data do aniversário: 11 de setembro. Por isso esse clima de guerra, penso.

Me dedico a observar os candidatos.

Zé Caruba (11.123)

Gordo (10.111)”.

Em Afogados, eu encontraria criaturas ótimas:

Dona Miúda (23.023)

Antônio da Caixa (23.000)

Mécias de Sebastião (23.123)

Franklin de Zé Nazário (15.000)

Arnaldo da Sapataria (23.200)

Não sei ainda o candidato da minha amiga afogadense Diana Moura, mas sobre Afogados, falarei amanhã, na minha tradicional crônica de domingo, se aparecer lan house dando sopa, como aqui, um troço com 32 computadores, meninos loucos gritando, mas tudo por R$ 1,00 a hora. Para quem trabalhou em redação de jornal, aqui é um paraíso.

Entro numa lojinha (estou falando de Agrestina), compro um terço para tia Flocely. Naldo diz que amanhã será o aniversário da cidade.

“Justo no dia que derrubaram o World Trade Center”, diz, num inglês impecável, melhor que o do CCAA.

Fico escutando.

“Passou um filme em Tela Quente essa semana”, completa.

Pergunto se ele vai assistir à aula-espetáculo de Ariano, no Centro Cultural.

“Eu tô sabendo. Se der, vou lá”.

Pela cara, sei que não vai.

Saio andando, preciso trabalhar. No Bara da Madalena, a caminho da aula, vejo o aviso:

“Por favor não cente na mesa”.

Paro no bar seguinte, o “Stop Bar”. Na enorme TV, uma dupla sertaneja que desconheco nome e origem. O dono do bar já tomou umas, eu sei. Ele deveria ser dono de uma casa de shows, porque as caixas de som, eu vou dizer. Atrás de mim, na parede, um quadro imenso, com a moldura do São Paulo Futebol de Regatas, “tetracampeão brasileiro”. Grande coisa. O Santa Cruz já foi tri-super e uma vez pentacampeão estadual.

Há duas mesas. Uma tem três bêbados, outra um só, que está quieto como um passarinho bêbado.

“Ele agora vai cantar uma música que vai direto no meu coração”, diz um deles, que tem um nariz de pimentão.

Ato contínuo, o dono do bar bota um CD medonho, do “Cowboys do Forró”.

Terei que contar sobre isso amanhã. Meu tempo na lah house de Afogados acabou, e mais tarde tem comício de Totonho. Disse o rapaz do carro de som, há pouco, que “a terra vai tremer em Afogados”, e não quero perder este momento histórico.

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“Zé” disponível para fotocópia

12 de setembro de 2008, às 10:49h por Samarone Lima

Caros leitores,

Seguindo minha velha luta contra esse negócio de “direito autoral”, disponibilizei o livro “Zé- José Carlos Novais da Mata Machado, reportagem biográfica”, na xerox do senhor Coelho, ao lado da Universidade Católica (rua do Príncipe, 666, Boa Vista). Telefones dele: 9654.8034/8866.7676.

Podem copiar o livro na íntegra, sem pena. O Coelho também trabalha com encadernação e capa dura, coisa bonita mesmo.

Sou contra esse negócio de direitos autorais até que me provem o contrátio. “Zé”, por exemplo, é um livro que escrevi sobre um militante da Ação Popular que lutou e morreu combatendo pela liberdade. As pessoas que me deram depoimentos fizeram isso de forma gratuita, espontânea. Os arquivos públicos que consultei, não me cobraram nada. A família me entregou caixas de documentos sem ressalvas. A história não é minha, apenas contei. Não foi o dinheiro que me moveu, foi a paixão por uma história de amor e sonhos.  Além disso, os direitos foram vendidos para o cinema. Se a questão for grana, ganhei uns trocados.

Acho mesmo que todo autor deveria liberar os direitos de seus livros, depois de no máximo cinco anos da publicação.

Como o Clamor está perto do fim da segunda edição, vou ver se consigo isso com a editora também.

Até hoje agradeço pelas milhares de páginas fotocopiadas que li, naqueles anos duros de UFPE e Católica.

Amanhã, posto crônica nova, falando das minhas impressões sobre as andanças por Agrestina, Sertânia, São José do Egito e Afogados da Ingazeira, no Sertão do Pajeú. Não sei se Agrestinha é (do Sertão do Pajeú), mas isso aqui também não é guia de viagens.

Salve salve.

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Um bar para chamar de seu

5 de setembro de 2008, às 17:05h por Samarone Lima

Bar Princesa Isabel, centro do Recife. São 18h50. Na TV, um DVD com “O melhor do brega”, e Waldick Soriano ainda nem tinha morrido. Barthô Galeno ataca de “No toca-fita do meu carro/Uma canção me faz lembrar você/Acendo mais um cigarro/E procuro te esquecer”. Lembro da minha época de Casa do Estudante, quando conheci o fino do brega, numa época em que os motes eram mais sofridos e não tínhamos sido soterrados pelo “beber, cair e levantar”.

Era uma época de cantores e cantoras que tinham nome, sobrenome, fossa pessoal, dores irreversíveis, que uniam humanidades. Barthô Galeno, Adelino Nascimento, Waldick Soriano, Fernando Mendes.

Certa vez, mostrei ao tio Paulo a fita com “Sara/Onde é que você se esconde/Sara/Minhas cartas por que não respondes”, e ele acendeu imediatamente seu Hollywwod selvagem e começou a rir, lembrando de sua Sara, creio. Escutou e voltou infinitas vezes a fita, até que um dia morreu, o meu tio. Até hoje, a música de uma mulher que nunca responde me lembra meu velho tio, com suas histórias intermináveis, recontadas a cada ano.

Mas voltemos ao bar. Todo homem precisa de um bar para chamar de seu. Quatro fregueses dividem o balcão. Dois estão do lado de dentro, grau máximo de intimidade em qualquer boteco: beber no lugar sagrado, onde deve estar o proprietário. A ruptura da fronteira. A grande intimidade, conquistada após muito convívio.

Ao meu lado, um casal se beija com ardor. Ela, uma gorduchinha negra, vestida com sua moda. Ele, um rapaz moço, de boné, e muito mal intencionado. A mão está na coxa da moça, que já passou dos trinta há um par de anos. Há um certo exagero do rapaz, mas a cerveja, a latinha de Pitu e o brega correndo solto, ajudam. “Por que amor eu te chamo tanto e você não responde?”, segue alguém cantando, que não consigo identificar bem.

Placas informam: “Cerveja Nobel”; “Conhaque Domus”, e “Temos miúdo de galinha”. Nenhum está com o preço. O garçom, Gomes, foi rebatizado por mim e Iramarai, de “Robertilha”. É um cinqüentão simpático, aposentado, e talvez o primeiro “garçom voluntário” do Recife. Todo dia está lá. Segundo Seu Azevedo, o dono, Gomes é aposentado, mora perto, e vai ajudar, sem cobrar nada. Gomes me confirmou. Vai diariamente, atende, brinca, bebe seu whisky, anota tudo. Mientras tanto, ajuda muitíssimo. Seu Azevedo e Dona Nice (“Ai que saudade me dá/Do bate pap/Do disse-me-disse/Lá no Café Nice/Ai que saudade me dá”) são já velhos, na casa dos 70, e estão cansados. Robertilha é um reforço de luxo.

A vantagem: ninguém conhecido. Engano. Aqui-acolá, um aceno de alguém que já me viu, com meu caderno, algum livro da hora. O aceno distante, de quem não sabe sequer meu nome. Na parede, em uma moldura, um poema do Alberto Cunha Melo. Feliz do poeta, vivo ou morto, que tem um poema seu, emoldurado na parede do seu bar.

Em Seu Vital, a essa hora, o dominó corre solto. Mais tarde, a cerveja haverá de faltar. O tira-gosto de sempre já terá circulado em pratos de plástico: queijo com mortadela. Mas é o meu bar. Ali, vivi momentos lindos, ao lado dos meus companheiros. Bebemos a morte do nosso amigo Barrabás, recentemente lamentamos a partida de Elpídio. Ali, planejamos revoluções inacabadas, fundamos blocos, elegemos reis, compartilhamos esperanças. Ali, fizemos reuniões infrutíferas, discutimos sem saber o motivo, arengamos por males próprios, e no dia seguinte, esquecemos o que havíamos planejado. Ali, fomos a Waterloo, sangramos na Batalha dos Guararapes, recebemos os noivos em suas promessas. Ali, cantamos a plenos pulmões alguma louvação à vida. Ali, sempre voltamos.

Vital, meu bar coletivo. É onde estão meus companheiros. Sabemos a conversa de cada um, e a que nos interessa. Vou ao Princesa Isabel para o recolhimento, para tomar notas, olhar os ônibus que passam, ler na quietude. Descobri uma mesa azul, eternamente livre, e nela me aconchego.

A cozinheira Nininha sabe que gosto de peixe assado e ao molho de côco. Seu Azevedo me recebe com um aperto de mão, me fala de sua esposa, que fez recentemente a cirurgia de catarata. Robertilha, quando demora a chegar, é porque “está namorando”.

Bendito o bar que tem um garçom voluntário, e que chega atrasado porque estava namorando.

Para Elpídio, nosso confrade, que partiu semana passada.

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Relato sobre a vida e a morte no Mercado de Casa Amarela

2 de setembro de 2008, às 18:23h por Samarone Lima

Tive o prazer de conhecê-lo há cerca de 15 dias, ali no Mercado de Casa Amarela, aquela cidade de gente, barracas e produtos, onde costumo ir, especialmente aos sábados, dia recomendado por todos os terapeutas do Recife para um divertimento sadio, que é tomar umas cervejinhas e contemplar o povo se bulindo.

 O Mercado (perdão, mas é com maiúscula mesmo, em sinal de respeito) é reduto de inúmeros “boêmios do dia”, como é o caso do professor Davi, que pode ser encontrado na barraca de Mary, com a singela e esfarrapadíssima desculpa de que vai “almoçar”. Ora bolas, nunca vi almoço demorar três, quatro horas, nem o sujeito ter o telefone da proprietária do estabelecimento, para reservar a mesa e encomendar suas Brahmas. Mas isso são outros 500, voltemos ao assunto.

Estava eu quietinho, bebericando de leve, mansamente, qual um bem-te-vi em seu galho, quando ele sentou ao lado, pediu um quartinho e dois pedaços de passarinha. Para quem não sabe, quartinho é um copo americano repleto de aguardente. Não sei de onde, nem como, nem onde, nem por qual o motivo, mas a conversa nasceu, cresceu e vicejou, até que ele me falou do Cemitério de Casa Amarela, que fica por detrás do Mercado, cemitério este que só tive oportunidade de entrar duas vezes – uma no enterro do amigo Barrabás, e outra para colocar uma florzinha em seu túmulo, tudo no ano passado, que Deus o tenha.

“O cemitério fechou de novo”, lamentou meu amigo. Depois de um silêncio pesaroso, completou. “Tá foda, visse? O que está morrendo de gente, não está no gibi”. Na seqüência, deu uma bicada de com força naquela garapa que passarinho não bebe, e mordiscou a passarinha, oleosa como o quê. É assim: quando o cemitério enche, fecha para evitar transtornos. Ah, sei lá, não pedi muitos detalhes.

Meu amigo se chamava Adão Pinheiro de Carvalho, (pelo menos foi o que me disse) e trabalhava num escritório de contabilidade, além de ganhar um extra fazendo as declarações de renda dos amigos. “Sei como funciona isso tudo. De leão eu entendo melhor que domador de circo”, completou, com um sorriso de convencimento.

Mas qual foi a minha surpresa, quando Adão Pinheiro me confessou que tinha como principal atividade, aos sábados, acompanhar os enterros no cemitério de Casa Amarela. Achei esquisito, mas da espécie humana espero tudo.

“Não é nenhuma obsessão, eu sou normal”, contou ele, com uma cara meio triste e aquele bigode a la Cantinflas, mal pintado e mal aparado. Eu realmente nasci para escutar essas histórias malucas, foi o que pensei. “Mas é que eu gosto de ver o último capítulo da vida. Ao final do dia, volta para casa muito mais humilde”, completou.

Ele me olhou nos olhos, acendeu seu Oscar, um cigarro que, segundo Vital, é falsificado no próprio Paraguai, e me disse assim em segredo:

“Professor, a vida é por um triz”.

Ele sabia os detalhes do funcionamento do cemitério, conhecia os coveiros pelo nome e apelido, explicou os setores, informou sobre as mulheres que cuidavam dos túmulos muitos anos após a morte dos respectivos maridos, enfim. Sabia de muitas histórias.

“Um dia, cinco coveiros botaram uma farinha no almoço e estava envenenada. Os cinco morreram horas depois, inclusive um que estava no primeiro dia de trabalho. Desse foi que eu tive pena. A imprensa não publicou uma linha, eu não entendo esses jornalistas”, disse.

Ele sabia também os preços das coroas de flores, o tempo que a família tem para desocupar uma gaveta, as taxas do cemitério. Depois de muitos anos de convivência com o mundo dos mortos, disse que o enterro mais triste de sua vida aconteceu há coisa de cinco anos, num sábado de chuva forte. Até desabamento de casa teve. O que chamou a atenção do meu amigo, naquele dia, foi que o carro da funerária levou o caixão e o deixou em cima da pedra. Nenhum parente ou amigo fora ao velório.

“A gente acha tanta coisa ruim na vida, mas ruim é morrer só, professor”.

Fiquei paradinho. Ele bebeu mais um gole, pediu outro quartinho e afastou a passarinha. “Perco até a fome quando lembro disso”.

Ele percebeu meu interesse e se aproximou.

“Fiquei ao lado, para dar uma força, esperando chegar alguém. Mais de uma em pé, ao lado do morto, e ninguém”.

“E ai?”, perguntei.

 ”E aí, professor, o senhor deixaria uma pessoa ser enterrada sozinha?”

Bem, ele tinha razão. Ligou para a irmã, Jésssica, que morava por perto, ali na avenida Norte. Explicou a situação, pediu que ela também acompanhasse o enterro, era um ato de compaixão.

“Estás ficando é doido”, respondeu a irmã, antes de desligar o telefone.

Quando o coveiro chegou, perguntou se meu amigo era o irmão do morto. Adão não soube me explicar o motivo, mas, num impulso, respondeu que sim. O coveiro, de nome Venceslau, também chamado de Lalau, disse que iria terminar logo, porque estava chovendo muito e teria tempo de jogar um dominó ali perto. Adão pediu cinco minutos e comprou uma coroa de flores, dessas de vinte e cinco reais. Acompanhou em silêncio o cortejo solitário até a gaveta (2234, jogou no bicho, mas não deu).

Enquanto o coveiro fazia seu trabalho, olhou pela primeira vez o rosto do morto. O que teria feito para ser enterrado sozinho? Mesmo sem crenças, ele rezou duas ave-marias. Aprendeu que se reza aos mortos. Depois, sentiu uma tristeza imensa, como se tivesse de repente alguém da família morrendo, e comentou com o coveiro:

“Ninguém merece morrer sozinho”.

“Ruim mesmo é viver sozinho”, respondeu Lalau.

Adão voltou do enterro, encostou numa barraquinha e mandou ver na sua garapa. Me contou que na época do enterro do solitário, estava intrigado do irmão mais velho, por causa de uma confusão envolvendo um dinheiro emprestado. “Coisas de família”, disse.

Saiu do mercado e resolveu telefonar para o irmão.

“Eu tinha perdido alguém que nem conhecia, então achei que era justo reencontrar um irmão que estava perdendo”, contou. O irmão de Adão ficou surpreso com o telefonema, mas também disse que vinha pensando em fazer um contato. Dois dias depois, se encontraram e tudo ficou resolvido. O irmão morreu ano passado, mas sem intrigas, graças ao morto de ninguém.

Depois de me contar sua história, Adão fez um silêncio, acendeu outro cigarro e ficou olhando para o nada, longe, com aqueles olhos perdidos, talvez lembrando que a morte é mesmo por um triz.

“Sei que é ruim viver sozinho, mas ninguém merece morrer sozinho, professor. Escreva o que eu digo, ninguém merece morrer sozinho”.

Então, eu escrevi.

Texto publicado originalmente no JC On Line, em agosto de 2005.

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