Crônicas das coisas mínimas e desnecessárias

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As pedras do reino (final)

28 de outubro de 2008, às 15:03h por Samarone Lima

Como eu vinha dizendo, nós acabamos dormindo e bem, numa cama macia e cheirosa.

Acordei às cinco em ponto, dei uns bons safanões em Iramarai, que ficou tapeando, ganhando com isso mais uns cinco minutos de sono. Botei a sandália, estiquei o organismo e olhei pela janela. Dava para ver as duas pedras do reino, bem ao longe. Falei com Adonias, que já estava se preparando para cuidar do seu roçado. Ele perguntou se a gente queria comer, eu disse que a gente amanhece sem fome nenhuma. Mais safanões em Iramarai, que levantou ligeirinho e se aprumou para a jornada.

 

Olhei o relógio: eram 5h15 quando saímos da casa de Adonias. Fomos cumprimentados por Rufião, seu vira-lata.

 

Eu e Marai logo cedo, não somos de conversar muito. Um esmungo aqui, outro ali, um comentário sobre um canário, uma sabiá, um congris, pintor, a passagem de algum gavião, uma árvore, um pau-ferro, essas coisas bestas.

 

Demos uma puxada forte, de 1h20. Pelos nossos cálculos, fazemos cinco quilômetros por hora. No fim do dia, a gente sabe direitinho. Se andamos cinco horas, são 25 quilômetros batidos, nem um metro a mais. Estou até pensando em patentear isso, um novo medidor de velocidade e tempo. Fica para depois.

 

Paramos, bebemos água, e notei um fenômeno estranho. Quanto mais andávamos, mais as pedras ficavam distantes. Isso deve ser alguma mentira de Ariano, essas pedras estão mesmo é para as bandas de Taperoá, na Paraíba, de onde ele veio.

 

Voltamos a arrochar o passo, decididos a chegar numa hora boa, para não pegar muito sol na moleira, especialmente na volta. A gente caminhando e as pedras se afastando.

 

Fltavam cinco minutos para as oito horas, quando finalmente chegamos às pedras do reino. Ficamos meio deslumbrados com a beleza das pedras e do lugar. Cada um foi para seu canto, admirar do seu jeito. Eu já tinha escutado falar muito, estava lendo o Romance da Pedra do Reino, tinha visto fotos, mas ao vivo, com todos os sentidos acesos e alarmados, era diferente.

 

A surpresa ficou por conta de 13 grandes imagens em pedra, que transformam o lugar numa espécie de santuário. Estão lá, da esquerda para a direita, em sentido horário:

 

Nossa Senhora

Cristo Rei

São José

Sant´ana

Santa Madalena

Santa Tereza

A Princesa Isabel

A Rainha Quitéria

A Rainha Josefa

O Rei João

Santo Antônio

São Pedro

São João

 

No centro, há uma homenagem ao Aleijadinho.

 

Fiquei muito desapontado com Ariano, e pretendo mandar uma carta reclamativa, questionando a não-inclusão, neste belo cenário, a imagem em pedra de São Francisco, que é meu santo devoto, protetor e orientador. Ele poderia muito bem ocupar o lugar de São João ou São Pedro, que já recebem loas e boas a cada São João, perdão pela redundância. A Rainha Quitéria que me perdoe, mas ela também poderia ficar mais para a frente.

 

Tirante isso, fico embasbacado com a beleza de tudo. As duas pedras do reino são um espetáculo da natureza.

 

Que loucura, que loucura!”, repete Iramarai. “Vou ler. Vou ler o livro”, repete, ciscando para tudo que é lado, olhando, tocando, perscrutando.

 

Pego meu Romance da Pedra do Reino e leio algumas páginas, para o negócio ficar mesmo perfeito, esses negócios que o cabra vai ficar falando até o fim da vida. Já posso até ver, eu com uns 63 anos, os amigos na venda de Seu Vital:

 

“Tá com a gota serena. Lá vem o Samarone contar de novo essa caminhada até aquelas pedras…”

 

Resolvemos tirar fotos. Tiro algumas de Iramarai, ele faz o mesmo comigo. Depois, cada um vai para seu canto, bestar um pouco. Deito em cima de uma pedra menor e tiro o melhor cochilo literário do ano, usando o livro como travesseiro. Iramarai vai meditar, em cima de outra pedra. A lamentar, somente a grande quantidade de latas vazias de refrigerante, cerveja, além de sacos plásticos, fruto da última festa no local, realizada em maio. Nota-se que o espaço não é bem cuidado.

 

Deixando essas rabugices de lado, curtimos tudo, apreciamos o cenário e resolvemos que é hora de voltar. Animados, apertamos o passo, e três horas depois, estamos na casa de Adonias, para beber água, descansar, e ver se conseguimos um carro até São José do Belmonte. Sim, o gás acabou. Sem tênis macios, nossos pés sofreram um bocado. De qualquer modo, alcançamos nosso objetivo.

 

Dona Maria, esposa de Adonias, nos recebe com um sorriso bom, pergunta se gostamos, se acertamos fácil o caminho. Ficamos naquele parangolé, até que ela traz água do pote e bebemos de gute gute.

 

“Tem um açude bem aqui pertinho, dá para tomar um banho ótimo”.

 

Descemos um terreno, e menos de cinco minutos depois, estamos dentro do açude, lavando o couro e relaxando. Uuuu, que maravilha, a água na medida. Esfrego os pés com areia, para tirar a imundície.

 

Voltamos novinhos em folha. Botamos a roupa para secar. Dona Maria disse que Adonias estava cuidando da safra de feijão, que esse ano foi “melhor uma coisinha” – 100 sacas (ano passado foram 40). Antônia, sua filha, está na escola, onde trabalha como professora auxiliar. Amanda, a neta, também está na escola.

 

Passa um moto-táxi, pergunto quanto custa a viagem até São José do Belmonte. Sai por 15 reais. Peço para o rapaz trazer mais um piloto, para levar a gente. O cabra desaparece na poeira.

 

Conversamos nossas verdejâncias, até que daqui a pouco encosta uma moto, pilotada por uma mulher. Na garupa, estão Antônia e Amanda. Aquela festa.

 

Amanda, que tem seis anos, sabe escrever direitinho seu nome. Dou meu caderno, ela anota, com sua letrinha bem aprumada: Maria Amanda Oliveira Lacerda. Pedi para ela botar a data de nascimento. Ela anotou: 28.06.2008. Tudo bem, a mãe ajudou na data…

 

Ela chama os amiguinhos para conhecer a gente.

 

“Vem pra cá, Fran”.

 

Fran, um negrinho sapeca, se aproxima aos poucos. Sorriso bom danado, o dessas crianças do sertão. Outra amiga dela fica olhando de longe.

 

São onze e pouco. Maria vai lá dentro uma par de vezes, volta e diz:

 

“A comida de vocês já está na mesa”.

 

Informamos que não carecia, que não se preocupasse, mas tudo tapeação, porque o estômago estava dando voltas e se contorcendo feito uma lontra. 

Chegamos à mesa, e encontramos um manjar. Arroz, macarrão, galinha de capoeira, gerimum, e um belíssimo prato de fava, plantada e colhida ali mesmo.

 

Essa generosidade do povo nordestino sempre me emociona. Parece que está em nosso gene, em nossa alma, essa cerimônia da partilha, essa naturalidade com que se oferece algo para comer. Jesus, quando partiu aquele pão com os apóstolos, estava copiando algum nordestino que conheceu, em suas andanças pela Galiléia. O que temos, gostamos de dividir. O que oferecemos, é com gosto, é com alegria, é sem pena.

 

Desnecessário dizer que a fava estava (fava estava é fogo, heim!)tão perfeita, que mal olhei para Iramarai ou para o restante da comida. A galinha, criada ali no terreiro de dona Maria, tinha o gosto do sertão. Ah, meus amigos, quanta alegria num simples almoço, numa casa modesta, cercada por fotos de ancestrais, imagens de santos emolduradas…

 

Pouco depois, chegam Adonias, Antônio (aquele brabo da noite anterior), e mais três camaradas, que estavam batendo o feijão. Vieram para almoçar. Nos cumprimentaram efusivamente, quiseram saber se tínhamos chegado às pedras, enfim.

 

Amanda ainda encontrou alguns álbuns extras, e mostrou fotos de sua melhor amiga, mais detalhes do seu último aniversário.

 

Enchemos o bucho, agradecemos. Ficamos na varanda, no estio, na mansidão, sentindo o vento orvalhando na gente. Organizamos as bolsas, e chegam os moto-taxistas. Há um clima de despedida no ar. Pedimos para reunir todos. Marai tira fotos. Todos sorriem, especialmente Amanda.

 

Abraços, agradecimentos. Todos estão felizes com nossa curta hospedagem. Conversamos muito mesmo, na noite anterior, e após a caminhada. Dou um beijo em Amanda, uma criança linda e amorosa.

 

Subimos nas motos, acenamos. As pedras do reino ficam para trás, bem como a família generosa de Adonias. Passamos pela casa que seria nossa hospedaria, na noite anterior. A fogueira está apagada.

 

A viagem é puxada, e fico impressionado com a distância que percorremos, debaixo de um sol de queimar o couro. Paramos apenas no bar de Oswaldo, para tomar uma cajuína. Ele não estava. O meu piloto, Zé Gordo, já contou sua vida toda na viagem. Tem uma casa de 25 hectares e ganha uns trinta reais por dia levando gente em sua moto. Já vai ser avô. O piloto de Maraí é também professor, na parte da tarde, e sabia o nome de todas as plantas e animais do caminho. A vida é uma sucessão de sucessos incessantes que não cessam, como diz Robertilha.

 

São 12h30. Estamos numa guarita em Belmonte. Tomamos outra cajuína. Compro uma barra de doce de leite para minha tia, Rosa e Renato. Às 13h30 já estamos em Serra Talhada. Meia hora depois, vamos embarcar para o Recife. Terminamos mais uma jornada. Aleluias. Aleluias.

 

Para Adonias e família. 

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Rumo às pedras do reino (III)

25 de outubro de 2008, às 20:20h por Samarone Lima

Casa florida no meio do caminho

Pois bem, onde estávamos?

Os três homens chegaram. Dois estavam a cavalo. Viram de longe a fogueira, foram alertados pela mulher de um deles, e vieram tomar satisfações. O clima ficou pesado. Dos três, era difícil saber que tinha bebido mais. Um mais velho, de camisa aberta até o umbigo, parecia ser o patriarca, acompanhado de dois filhos. Falamos que estávamos caminhando rumo às pedras do reino. Os homens estavam desconfiados. Dissemos que só ficamos por ali depois de gritar muitas vezes, perguntando se tinha gente, e que estávamos exaustos.

As respostas eram sinceras, mas um deles estava particularmente brabo: era Antônio, que fazia muitas perguntas e chegou a pedir nossos documentos. “Precisa disso não”, respondeu o outro. “Precisa”, retrucou o outro. Iramarai puxou o passaporte, já que perdeu a carteira de identidade. Antônio olhou. Só no dia seguinte, seríamos informados que ele é analfabeto.

Disseram para a gente ir para a casa de um deles. Dissemos que não se preocupassem, que logo cedo iríamos partir. A tensão acumulou, até que olhei para meu comparsa e decidimos acompanhar os homens. Iríamos para a casa de Adonias, para uma averiguação. Começamos a juntar nossos molambos, quando o mais velho disse:

“Juntem o dinheiro e as armas”.

Informamos que a única arma era uma faquinha, usada para cortar frutas. Descemos no breu. Ê vida.

Chegamos à casa, onde estavam a esposa de Adonias, a filha, um filho e a neta. Todos estavam sentados num colchão, no chão. Ficamos num sofá. Iria começar uma longa e delicada conversa. Queriam saber de tudo. De onde vínhamos, o que estávamos fazendo ali àquela hora. Antônio tinha umas frases meio irreverentes. O mais velho se chamava Nezito, que tomou mais umas duas doses de Pitú.

A vantagem foi que a casa tinha luz, e eles nos viram de perto. Feiúras à parte, somos simpáticos e temos uma prosa boa.

A conversa só desarnou mesmo quando puxei meu exemplar de “A Pedra do Reino”, e mostrei a foto das pedras que iríamos visitar. Expliquei que estava lendo aquele livro, que era amigo do autor, e que a viagem era somente para ver se as pedras eram bonitas daquele jeito mesmo, aquela pabulagem toda de quem está meio a perigo.

A pequena Amanda, de seis anos, neta de Adonias, e filha de Antônia, saiu do colo da mãe, e veio ver a foto.

“Olha, mamãe!”.

Antônia, uma moça magra, de feições delicadas, tão bonita quanto a filha, olhou a foto. A filha ficou sorrindo, e o clima desanuviou. Não sei por que cargas d´água livros sempre estão me salvando.

A página literalmente virou. Os três homens descobriram que não iríamos incomodar ninguém. Em poucos minutos, começou o período das confissões, a conversa fluiu. O filho de Adonias, de 17 anos, é um craque de futebol, e joga no Serrano. A filha Antônia peleja para cursar Letras, mas a faculdade é muito longe, em Serra Talhada, o curso de Pedagogia, em Belmonte, é caríssimo (R$ 120,00). Amanda nasceu em um parto dificílimo. Depois de uns 40 minutos, vieram fotos da família, relatos, lembranças. Amanda trouxe os álbuns de seus aniversários, ano a ano. Adonias foi buscar a foto do dia em que matou uma onça. Só Antônio não trouxe foto nenhuma. Antônia trouxe as fotos de sua formatura.

A conversa sobre a vida, dificuldades, sonhos, conquistas, se prolongou até 23h30. Nos ofereceram um belo prato de andu, que é um feijão que dá em árvore, segundo o biólogo Iramarai. A comida, para quem tinha comido apenas um pão com sardinha e alho, estava um manjar.

Nezito foi com a minha cara e resolveu me estender a mão de vez em quando. Me deu a mão umas 20 vezes. Antônio baixou o fogo, deixou de fazer perguntas desconfiadas. A cachaça também foi passando. Como dona Maria, esposa de Adonias, fumava fumo de rolo, daqui a pouco Iramarai estava fumando também, dentro da casa, no maior fulozô. Na TV estava passando um filme de dinossauros, e pensei em pedir para ver os gols da rodada, mas aí também era demais.

Nos ofereceram uma cama macia, com lençóis limpos. Adonias estava contente com nossas conversas. Falou da vida, da luta pela sobrevivência. Num aposento da casa, ele tem feijão, fava e gerimum guardados até a próxima safra. Se precisar de ovo, ele pega na criação de galinhas. Algumas vacas garantem o leite da família, além do queijo. A casa tem duas TVs, uma na sala e outra, de 29 polegada, para o filho, que gosta de jogar videogame.

Apesar da visível melhora na qualidade de vida, eles lamentam a dificuldade de acesso à educação. Antônia terminou o normal sabe-se lá como, carregando a filha no colo, contando com a ajuda do pessoal da escola. Adonias, com sua gentileza, lembrava muito Paulo, um agricultor simples e calado, que conhecemos na travessia da Chapada do Araripe. Tem orgulho dos cinco filhos. Todos estudaram.

São 23h55. Estamos exaustos, vamos dormir. Adonias vem ao quarto, perguntar se precisávamos de mais alguma coisa. Não, obrigado. Marai abre a janela e um vento suave enche o quarto de bondade. Dá para ver a lua lá fora, o céu coalhado de estrelas.

Pouco depois, meu companheiro de jornada começa a dormir profundamente, me presenteando com os primeiros roncos. Dou um cutucão, ele acorda e os roncos se acalmam. Iríamos dormir na varanda de uma casa abandonada, à beira do fogo, e agora estamos deitados em uma cama de casal, confortável, com lençol e travesseiro.

No dia seguinte, logo ao raiar do sol, botamos as patas na estrada. Logo avistamos uma casa cercada de flores. Aparece um cão rabugento, e o fotografo, para minha exposição, intitulada “Cães do Mundo”. Vejam que obra prima.

Cachorro sem nome: da coleção "cães do mundo"

Vamos fazer a última parte do caminho das pedras. Pelos nossos cálculos, faltam de oito a dez quilômetros.

Adonias diz para a gente passar por lá, na volta.

Fomos salvos, de alguma forma, pelo “Romance da Pedra do Reino”.

Essa devo ao Ariano, que foi promovido à categoria de amigo, embora nem saiba ainda.

Ps. A última parte da saga publico amanhã, encerrando esta internet-novela.

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Rumo às pedras do reino (II) - a saga

23 de outubro de 2008, às 17:16h por Samarone Lima

Encontrei Iramarai, botamos os papos em dia. Ficamos em uma pousada simples, mas com ventilador que pega até o três, isso já basta. Diária de 15 reais. Cochilamos, resolvemos dar uma volta pela cidade. O objetivo era sair bem cedinho de São José do Belmonte, para atravessar os 28 quilômetros sem aperreios.

À noite, vagamos pela cidade, com suas casinhas de muro baixo. Muita coisa do imaginário está ligado às pedras do reino. Loja “Reino Encantado”. Associação Cultural Pedra do Reino. Uma moça chamada Nalva disse que tem uma lenda corrente envolvendo o local. “O pessoal acha que morreu um rei lá e as pessoas acreditam que tem assombração. Eu não tenho o livro, mas sei que é verdade”.

Outra pessoa me disse que “teve uma luta lá, e o rei morreu, tem um romance que fala disso”.

O livro que ela se refere é o “Romance da Pedra do Reino”, de Ariano Suassuna, que me inspirou para fazer a caminhada com Iramarai. É uma história longa, depois conto.

Nalva diz também que uma mulher disse ter visto um homem passando num cavalo branco, junto das pedras, e isso é assombração.

Resulta que nossa jornada noturna por São José do Belmonte se estendeu, conversamos tanto que perdemos a hora e tomamos umas garapas a mais. Resultado: acordamos meio ressacados, com preguiça, e botamos o pé na estrada somente às 10h53, com sol a pino.

Perdidos

Perdidos

Menos de uma hora depois, já estávamos num impasse existencial. Pegamos uma estrada à esquerda, e depois de 40 minutos, começamos a intuir que estávamos no caminho errado. Consultamos o mapa, o vento, a coloração do céu, e resolvemos voltar. Paramos na casa de Seu Tico, que, ao lado da cadela Preta e do passarinho Congris, nos informou que as pedras do reino estavam para o outro lado.

“Vocês estão é longe”, disse.

Tirei uma foto de Preta, para a minha exposição “Cães do Mundo”, mas a foto, pra variar, ficou horrível, nem vale ser mencionada.

Bebemos água barrenta e seguimos. O sol, amigos, não estava nada manso.

Bingo

Bingo

Às 14h30, chegamos a uma casa, onde estava sendo realizado um bingo coletivo, no valor de R$ 1,00. Era praticamente a última casa, antes de cairmos de vez no rumo das pedras. Nos deram mais água, ofereceram feijoada, mas não dava para arriscar. O clima na comunidade era ótimo. Cervejinhas, bingo, os meninos interessados nas fotos de Iramarai, e os avisos de “rapaz, vocês estão é longe”.

Quinze minutos depois, paramos em uma venda das antigas. Oswaldo, digo, Francisco Oswaldo Pereira, um sujeito alto, magro e conversador, nos serviu uma cajuína São Geraldo, a melhor do Brasil, por R$ 1,30. Conversa vai, conversa vem (não sei que diabo têm os magros em geral, para gostarem tanto de conversar), ele perguntou nossos nomes. Quando eu disse o meu, tive uma surpresa.

“Tem um Samarone aqui em São José do Belmonte. Ele é primeiro sargento. E todo último domingo de maio, tem cavalgada até a Pedra do Reino”.

Conversamos umas cajuínas e depois seguimos. Desta vez, sofremos pra burro. O caminho era cheio de pedrinhas pequenas. Maraí estava com um tênis meio apertado, eu fui de sandálias de couro. Às 15h35 já estávamos passando maus bocados, prometendo pela milésima vez comprar tênis macios, providenciar cantis, um colchão de reserva, essas coisas de gente organizada. Ao entardecer, estávamos exaustos. As pedras do reino, a cada quilômetro, ficavam mais distantes. Às 17h35, resolvemos parar.

Abrigo

Abrigo

Encontramos uma casa abandonada. Gritamos o famoso “ô de casa!”, nada. Nenhuma galinha, cão, canário do império, boi, cabra. A casa estava abandonada. Tinha um pátio alto, que servia para uma boa soneca. Maraí acendeu uma fogueira em cinco minutos, enquanto varri o chão. Com uma lata vazia de óleo, que ele guardou por vários quilômetros, esquentou a água para o café.

Há, meus amigos, o cansaço. A exaustão. Quilômetros e quilômetros a pé, com o sol no lombo, a mochila às costas. Neste momento, a gente quer apenas encostar em um chão qualquer e ficar sem planos. O anoitecer vai chegando, abençoado por milhares de estrelas. Marai corta duas garrafas plásticas, que viram copos. Bebemos o mais delicioso café do ano. Dois pães, com sardinha e alho, enchem os buchos. Cochilamos um pouco.

Daqui a pouco, Marai mostra as constelações, os desenhos no céu. Tudo o que sei é que o céu está lindo, coalhado de estrelas, e não acredito naquela conversa que as estrelas morreram há não sei quantos mil anos. Órion está por ali, Touro, o Centauro etc.

Estrelas e Fogo

Estrelas e Fogo

Lá pelas tantas, pego um pedaço de pau com a brasa na ponta, e começo a fazer malabarismos. O homem-tocha. Zapt, zapt, zapt.

Mal sabia que estava chamando a atenção da vizinhança, que estava cabreira com aqueles dois barbudos recém-chegados.

Meia hora depois, quando cochilávamos, surgiram três homens, dois deles a cavalo. Não era nenhuma lenda. Os cabras tinham bebido muita aguardente e vieram tomar satisfações sobre nossa presença na casa de um deles.

O tempo fechou. Passamos maus bocados.

Amanhã conto. O tempo na lan house acabou.

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Rumo às pedras do reino (I)

21 de outubro de 2008, às 16:52h por Samarone Lima

Saio de Garanhuns, com destino a Arcoverde, que fica a 90 quilômetros. De lá, terei que cruzar parte de Pernambuco, tentando chegar a Bom Nome, onde irei encontrar meu amigo Iramarai. A previsão é seguir para São José do Belmonte, de onde partiríamos em mais uma caminhada para as famosas “Pedras do Reino”, imortalizadas por Ariano Suassuna no “Romance da Pedra do Reino”. A viagem tem traços de aventura e de amor à literatura.

O ônibus da Jotude é velho, a passagem de Garanhuns a Arcoverde custa R$ 9,00. Para quem é acostumado a viajar pelo interior, o cálculo é simples: cada quilômetro custa em média R$ 0,10. Saímos às 9h, a viagem é demorada. Estou no famoso “pinga-pinga”, tipo de ônibus que não pode ver uma rodoviária. Paramos em Caetés, Venturosa, Pedra, até que chegamos a Arcoverde. Foram 2h30 para percorrer 90 quilômetros.

Nem deu tempo de ligar para minha amiga Teresa, descolar a bóia. Um carro estava saindo naquela hora para Serra Talhada, por R$ 20,00, quando o certo deveria ser R$ 16,00. Lógica cartesiana não serve para viagens. Seu Antônio fica na rodoviária, sabe que dentro de meia hora vai sair um pinga-pinga para Serra por R$ 21,00. Ninguém é besta de ficar esperando, gastar mais, e demorar a chegar em casa.

Somos quatro dentro de seu carro, uma Van comprada em 2005, que o motorista pretende trocar no final de ano. Somos cinco passageiros: eu, um moreno que fica no banco traseiro, e três rapazes com ares de travesti, lentes de contato verde, cabelos aloirados e badulaques os mais diversos, fora os batons e brincos de argola. Vou na frente, porque gosto do vento no focinho, e o entra e sai de gente, ao logo da viagem, é menor.

Meia hora de viagem, e fico sabendo que de Serra para Bom Nome serão mais 40 quilômetros, e de Bom Nome a São José do Belmonte, mais 20.

Meus leitores devem estar se perguntando sobre esta preocupação em dizer os roteiros picotados, quando seria mais simples pegar um ônibus direto de Garanhuns a São José do Belmonte. Acontece que nossa malha ferroviária foi destruída, restando a malha rodoviária, gerenciada por empresas que disponibilizam ônibus somente nos horários que interessam. Durante o dia, as viagens por todo o interior de Pernambuco são feitas por Vans, Veraneios, Toyotas, Rurais e todo tipo de veículo, dos anos mais incertos, encontrados facilmente nos pontos de apoio ou nas guaritas.

Depois de mais alguns quilômetros, os jovens aloirados informam que vão dançar em Solidão, uma cidade que fica quase na divisa com a Paraíba. Vão dançar no show de “Assizão”.

Não sei se a informação mexeu com os brios do motorista, que imediatamente pegou um CD de forró eletrônico da pior espécie e botou para tocar. Escuto com um certo estupor o “Forró do Créu!”, e penso que o fim está próximo.

Passamos pelo Rio Coxi, que está seco. Do lado direito da pista, uns 12 urubus em cima de um jumento, morto recentemente. Coisas da estrada. “Coroalina à 5 km”, essa estranha obsessão de quem pinta placas, de colocar crases no “a” que indica distâncias.

Passamos pelo Rio Feliciano, que está seco. No CD, uma canção poética que encanta milhares de pessoas, feita praticamente de três verbos: “beber, cair, levantar”.

Ponte sobre o Rio Moxotó. O rio, neste ponto, está seco. Pouco depois, “Doce Mel”, outra campeã de audiência. “Você me deixa louca/doce mel/doce mel”. Um imenso outdoor informa: “Va tomar no Fusca”. Deve ser uma banda nova, que não conheço. Vai se apresentar no “Coliseu de Arcoverde”.

Vamos andando. Nossa Van é um caso raro no mundo das viagens: não entra e não sai ninguém. É o horário. A essa hora, mais de meio-dia, o sol é de rachar. Todo mundo que não é besta, já fez a feira e voltou para casa. Agora está mesmo é cochilando. Em Custódia, um desafio à reforma ortográfica:

“Vende-se e conserta-se cinuca”;

O motorista muda para a rádio. O locutor manda umas duas músicas, depois explica:

“Inter é entre. Net é mundo. Internet é estar no mundo. Mande sua sugestão ou comentário pelo nosso email”.

Toca Elino Julião, um brega dos velhos tempos. Finalmente, uma música com história, saudade, desencontro, desesperança, drama. Comento com o motorista que só gosto de brega mesmo se for dos antigos. Ele também gosta dos cantores das antigas, diz que Elino Julião se acabou na cachaça. Falo que Balthasar (“Sarah/Onde é que você se esconde”) está de mal a pior, segundo meu informante especial, Seu Azevedo. Ele cita Alípio Martins, falo de Adelino Nascimento, depois ele entra com Fernando Mendes, e resolvo ficar na minha, porque não é gincana.

O apelido do motorista é “Tota” desde pequeno. Tem oito filhos, sendo quatro homens, quatro mulheres. Pega o celular e me mostra a foto do mais novo, que se chama Gabriel, de quatro anos. Ele cita Amado Batista, e às 13h35, a rádio manda Fernando Mendes (“E nesse desespero em que me vejo/Já cheguei a tal ponto/De me trocar diversas vezes por você/Só pra ver se me encontro”). Depois, o refrão bárbaro: “Você não me ensinou a te esquecer”.

Seguimos conversando, o vento quente entrando por todo lado. “Serra Talhada à 5 km”, me informa o DNER, creio, que não tem um setor de revisão de placas.

Serra Talhada. “Auto Peças Não Tend Tudo”. Obrigado pela sinceridade, mas esse “tend tudo” realmente não dá.

“Solidão fica a 100 quilômetros”, me informa Tota, mas às vezes solidão fica mesmo é por perto, rondeando a gente.

Chego em Serra Talhada. Outro carro a Bom Nome custa R$ 4,00. Lá vou eu.

Na Veraneio - Entro numa Veraneio de ano incerto. O motorista usa um boné do exército. Não diz uma palavra a viagem inteira. Ao meu lado, uma moça muito bonita e muito séria, com os irremediáveis óculos escuros, que escondem metade do rosto. Mais tarde, o carro para. Uma mulher e seu filho, duas bicicletas. Desço, ajudo a botar as bicicletas no bagageiro, ela nem agradece, fica por isso mesmo. Nesta hora, o céu fica encoberto, e o clima ameniza.

Um rapaz sentado ao lado do motorista, um magricela, escuta algo em seu celular. A música sai numa ótima qualidade, pergunto o nome do grupo. Ele me passa seu Samsung. Está escutando “Os Levita”, grupo de músicas evangélicas. Me passa, para que eu escute de perto. A gravação é muito boa mesmo, comento.

“Baixei as músicas da Internet”, diz ele.

“Os Levita”, para quem não sabe, é uma dupla que canta músicas evangélicas, como Sandy e Júnior. Não sei se são tão aguados quanto.

Desço em Bom Nome. O carro espera pela entrada de três rapazes. Boto a mochila nas costas, quando vejo um homem se aproximar. Me diz que meu amigo já foi para São José do Belmonte, e está à minha espera, na primeira pousada à direita.

“E como o senhor sabe que ele é meu amigo?”-, pergunto.

“Ele disse que vinha passar por aqui um cabra alto, cabeludo, barbudo, galego e de óculos. Só pode ser você”.

Era eu mesmo. Agradeci e segui. De Bom Nome a São José do Belmonte foram mais R$ 2,00.

Mal entrei no carro e me ocorreu uma questão existencial: galego, eu?

Estou acompanhado agora de três jovens, de no máximo 17 anos. Vão jogar futebol de Salão, um torneio em Belmonte. Um deles conta loas e boas de seu futebol. Faz gol de qualquer canto. Pois sim.

O caminho é de apenas 20 quilômetros. Desço, vou procurar meu amigo. Erro três pousadas. Passa uma bibicleta, informando que a discoteca “DSB” vai funcionar. As primeiras 250 mulheres entram de graça.

“Só luz e brega!”, prometem.

Na quarta pousada, a recepcionista, dona Maria, me informa que meu amigo está lá desde ontem, mas que saiu para dar uma volta. Peço uma cerveja e um peixe. Três rapazes bebem um bocado. Quando passo, me cumprimentam, perguntam o que faço ali.

“Vou caminhar com um amigo até a Pedra do Reino”.

Um deles é Renato, da Associação Cultural Pedra do Reino. Me abraça, eufórico, dá os telefones todos, diz que vai comigo. Um copo é providenciado, enchem de cerveja e brindam duas ou três vezes. Os outros dois pedem para anotar o número deles também. Anoto tudo. Eles vão com umas garotas para a Paraíba, daqui a pouco. Se encontrarem um bafômetro pela frente, vão se dar mal.

Eles vão embora, então vem um silêncio súbito, merecedor, me dedico à minha cervejinha e meu peixe. Iramarai chega. Vamos para mais uma caminhada

PS - Texto revisado por Inácio França, indignado com as escassas matemática e geografia do autor.

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Na estrada

21 de outubro de 2008, às 10:58h por Samarone Lima

Acabo de fazer a travessia de São José do Belmonte (PE) à Pedra do Reino, caminhando com meu amigo Iramarai.

Aguardo somente a chegada das fotos e uma lan house livre, para iniciar a publicação da série de quatro textos, até sexta feira.

Samarone

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