Crônicas das coisas mínimas e desnecessárias

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Crônica sem nome

2 de outubro de 2008, às 14:38h por Samarone Lima

Gosto disso, dos dias. Sou um homem do cotidiano. Busco com paciência, e tudo me serve. As coisas diminutas, conversas alheias, o nada. Talvez por isso eu tenha uma dificuldade enorme para me sentir entediado. Ruas, pessoas, animais, cenas, me chegam diariamente. São presentes, dádivas. Escuto os rumores, conversas, modos de dizer. Anoto, guardo, encho cadernos. Construo meu mundo lentamente, página a página.

Gosto disso, das viagens. Sou um homem de estradas. A simples possibilidade do deslocamento, o menor, me deixa em festa. Outras paisagens, outras imagens, rostos. A poeira, o chão batido. Ver os homens da Zona da Mata, os sertanejos. Sentir de perto os tipos e costumes, formas e cores. Observar casas, muros, roupas, geografias imaculadas. Olhar com paciência as praças, igrejas, estradas, botecos. Disso me alimento.

Sigo minha sina. Meus antepassados eram homens que andavam, que buscavam algo em outros cantos. Não sei se anotavam. Não sei o quanto perdiam e encontravam nesse vai e vem. Meu avô chegou ao extremo - foi e nunca mais voltou. Dele, nos restou uma fotografia, nenhuma palavra. Em cada andança, devo fazer uma reverência oculta, anônima, devo dizer que estamos juntos, devo fazer um reconhecimento sutil de nossa mesma matéria, mesma fonte.

Gosto desse miúdo que faz a vida, desses imprevistos, das texturas novas. Sou do ombro a ombro. De agendar coisas objetivas, e mudar tudo, por uma celebracão repentina. Gosto de ver as patéticas crenças. O milhao antes dos 30, antes dos 40. O rejuvenescimento perpétuo em cada manhã, à venda nas bancas de revista. As plásticas que tiram o brilho dos olhos e o formato dos lábios. O silicone que estufa o peito, tenta rasgar o sutian, mas não mostra a pulsação amorosa. Que triste, não aceitar o próprio peito.

Gosto de lembrar certos dias. Em alguns, fui invencível. Depois fracassei com todos. Aquela tarde que chorei uma derrota da Seleção, naquele distante 1982. Aquela tarde em que meu pai tentava me consolar, com suas palavras de adulto. O inconsolável chegara, aos 14 anos. Aquela noite em que chegou o telegrama falando da morte de tio Ademar, e o choro de minha mãe, convulso e inexplicavel. Não sabia ainda o tamanho das mortes d´alma.

Gosto de histórias. Histórias de vida, de gentes. Escuto atentamente. O homem que teve 22 mulheres, e sabia o nome de todas, na praça de Casa Forte. O garçom voluntário, num bairro no centro. A mulher que todo sábado vai ao Recife, beber silenciosamente sua dor, e procurar um olhar fraterno. Os amigos que se encontram no mesmo bar, aos sábados, há 24 anos.

Gosto de contar. Me faz sentir menor. Apenas parte de uma raça, a humana.

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