Crônicas das coisas mínimas e desnecessárias

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Cronicamente inviável

10 de outubro de 2008, às 5:30h por Samarone Lima

Amigos leitores, desde as 4h da madrugada estou acordado, o dia vai amanhecendo aqui no Cabo, há uma cambada de passarinhos com seus arrulhos, o computador está no ponto, mas a situação não está fácil. Falta-me um tema, uma observação atenta de algum fato. Estou cronicamente inviável. Se estivesse em um jornal, o editor já estaria me olhando atravessado.

Nada me seduziu nos últimos dias. As eleições aqui no Recife foram geladíssimas. A Praça de Casa Forte, famoso reduto da esquerda, parecia uma feira de produtos orgânicos, com alguns gatos pingados. O prefeito eleito nem de longe cativou este velho eleitor. A eleição, por sinal, parecia mesmo a escolha do novo condomínio. Não havia uma proposta decente para trabalhar com uma multidão de jovens que está aí, a ver navios, entrando de sola no crack e na criminalidade. A única nota de destaque foi a eleição do glorioso vereador Luciano Siqueira. Modestamente, na surdina, trabalhei em seu nome.

Na falta absoluta de assuntos, recorro ao noticiário geral, para ver se encontro algo que saia do óbvio ululante e cative meus generosos leitores. Descubro que as mulheres brasileiras, segundo o IBGE, “passam a ter menos de dois filhos”, fato que me deixa extremamente intrigado. Como deve ser difícil ter um filho e meio, ou 1,75 filhos. Minha mãe mesmo teve logo cinco, já percebendo que o mundo poderia ficar despovoado. Achando pouco, meu pai teve mais dois, do outro casamento, de forma que os Lima e os Oliveira não podem ser acusados de desabitar o planeta Terra: no total, somos 7. Meu irmão, Tonho, já cravou três, é outro que o IBGE não entrevistou.

A crise nas bolsas, um tema que sei cantar em prosa e verso, tomou rumos que fogem da minha alçada.  O que sei mesmo é que a cerveja em Seu Vital, continua por R$ 2,50 e a de Seu Azevevedo segue por R$ 2,20. A lan-house que uso, aqui no Cabo, segue cobrando R$ 1,50 a hora. Wall Street ainda não mexeu no preço do pão, na passagem de ônibus e no almoço comercial, pelo menos de onde falo, a vasta região entre o Cabo de Santo Agostinho e Recife.

A nova ortografia da Língua Portuguesa é um tema que realmente não me comove. Retirar a trema foi uma decisão crucial na minha vida, ainda estou me resolvendo enquanto pessoa. Meu amigo Joãozinho Peruca já me alertou para o fato, mas me convidar para aquela mansão dele em Catuama, que é bom, nada. Daqui a pouco vai aparecer alguém aqui nos comentários dizendo: O senhor está fora dos padrões da Língua Portuguesa.

Bem, há algo novo: a Jolie ameaça deixar o Brad Pitt. Acho imensamente saudável, porque eles estão se reproduzindo numa velocidade impressionante. Além disso, adotam crianças à beça. Aquela confusão de meninos, babás, carrinhos, fraldas perdidas dentro de casa, deve estar sendo um problema para o casal. Eles devem estar discutindo a relação. Disso, creio, resultará em mais gente no planeta.

O J.M.Le Clezio acaba de ganhar o Nobel. Sinceramente. Olhei, farejei, tentei, mas achei esse camarada de uma chatice monumental. Sou mais o Mário Benedetti, do Uruguai. Não vou entrar nesse tema. Está aí, o monumental Juan Guelman, com sua poesia infinita - (”Los agujeros de la palabra tienen alma”). Não sei onde li que o Nobel, que inventou o prêmio, morria de remorsos porque também inventou um explosivo terrível, que já matou gente pacas.

Como vêem, está difícil minha vida de cronista. Talvez seja melhor pegar umas férias. A sorte é que meu amigo Gustavo de Castro chegou ao Recife, vindo diretamente de Taguatinga. Veio participar de um congresso sobre Literatura e Imaginário, algo assim. Como a palestra dele é hoje à tarde, tentarei pescar alguma novidade, removendo esta crônica que não leva a nada.

Como sempre, peço ajuda aos meus leitores com temas que possam me levar a algum canto.  Um fato enigmático, uma descoberta científica, soluções caseiras para o leite não derramar no fogão, formas de combater a ressaca etc. Xico Sá, por favor dê uma força ao seu conterrâneo!

Parafraseando as embalagens de alimentos, diria que a crônica de hoje “contém glúten”, apesar de não saber de onde vem tanta preocupação com o glúten.

Mientras tanto, o dia amanheceu. A sabiá de Guico está virada: fiu fiu fiu/fiu fiu fiu. É um passarinho que canta num compasso ternário, fá bemol sustenido, coisa que aprendi na época do Conservatório Pernambucano.

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