Recife aos domingos
Samarone Lima
Ah, esses messias dominicais do Recife. Esses homens com seus surrados paletós marrons, suas bíblias puídas, lidas e relidas à exaustão.
O centro do Recife, aos domingos, tem algo de simples, doce e calmo. É como se Jesus pudesse passar a qualquer momento, em um burrico, acompanhado de seus apóstolos. Ali, naquele boteco ermo, é possível ver Paulo, contando suas ingerências, a perseguição aos cristãos, quando ainda de chamava Saulo. Dobra-se à direita. Na rua do Hospício, é bem provável que Pedro esteja conjecturando seu mapa astral, confessando pecados capitais, ao lado de uma Brahma, do negro Félix. Algum gato ermo estará por perto, para contar a história.
Antes, no Parque 13 de Maio, é possível escutar o barulho dos sinos. São os vendedores de picolé, acompanhados dos “crac”, “crac” das araras. “Eu tenho côco, tenho Cajá, tenho magaba”, diz o vendedor, sacolejando o sino ancestral.
A poesia corre solta. São as frações, os mínimos gestos, que fazer a cidade ter outra cor. A senhora negra, com a filha que é sua cópia. A bola vermelha nas mãos da filha. O tomara-que-caia, tão em moda nos domingos do Recife. O homem que passa de mãos dadas com sua morena barriguda. A mulher que passa com três filhas. Uma delas puxa, por um cordão, uma cobra feia, muito feia, de isopor e papel. Mas ela sorri de alegria, com o pequeno animal serpenteando na calçada. Sua cobra é bela e colorida, porque foi presente da mãe, talvez o primeiro afeto daquela manhã.
O vendedor de maçã do amor. Sim, amigos, numa cidade chamada Recife, Nordeste do Brasil, em pleno século XXI, há homens que vendem maçãs do amor.
O vendedor de amendoim, com seus produtos pendurados às costas. “Aproveita que está acabando”, diz, mentindo. A tapioca de queijo e ao côco.
As árvores do centro do Recife, aos domingos, são destinadas ao amor. Os casais se encontram para beijos, abraços, promessas. São beijos intensos, amorosos, beijos dominicais, escorados em troncos, galhos, como se a vida fosse acabar ao anoitecer, como se o amor fosse terminar na segunda-feira.
No banco da praça, a nota triste. Um casal se separa. Ela chora, está triste. Há algum cansaço, uma quebra, um desacerto. É triste, separar-se num banco de praça, em pleno domingo recifense. Não aguardo o desenlace, as frases duras que brotam das mesmas bocas que se beijaram tanto. Melhor seguir.
Compro uma maçã do amor e sigo, perambulando, à procura de nada.
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13 de outubro de 2008, às 15:16h
Legal essas imagens, Samarone.
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No sábado à noite eu fui numa seresta com painho e mainha. Ha, ha, ha. Pense num ambiente exótico. Tinha cada figura por lá, só você vendo, muito bom. Só lembrava de você, Samarone. Você e sua caderneta por lá… eita! Certamente iria render uma boa crônica.
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Um abraço,
Isabelle.
13 de outubro de 2008, às 17:17h
Amo maçã do amor.
13 de outubro de 2008, às 22:22h
acho que, qualquer um que leia e que conheça recife, vai se identificar muuuito com tudo isso!
afinal, quem nunca se rendeu aqueles banquinhos ou a uma tapioca numa dessas esquinas de Recife? impossível!
Beijo, sama!
14 de outubro de 2008, às 0:20h
“As árvores do centro do Recife, aos domingos, são destinadas ao amor…”
parágrafo PERFEITO
14 de outubro de 2008, às 7:36h
Adorei a crônica Samarone. Domingo é dia de paz no centro. Já fiz muito esse roteiro. Gostei de Jesus com seu burrico……Fiquei imaginando(rsrsrsrs).Fantástico!!!!!
Maça do amor…A última vez que tive notícia foi em uma festa de rua no interior.
Um beijo grande.
14 de outubro de 2008, às 10:38h
Eu preciso te falar,
Te encontrar de qualquer jeito,
Pra sentar e conversar,
Depois andar de encontro ao vento.
Eu preciso respirar,
O mesmo ar que te rodeia,
E na pele quero ter,
O mesmo sol que te bronzeia.
Eu preciso de tocar,
E outra vez te ver sorrindo,
E voltar num sonho lindo.
Já não dá mais prá viver,
Um sentimento sem sentido,
Eu preciso descobrir,
A emoção de estar contigo,
Ver o sol amanhecer,
E ver a vida acontecer,
Como um dia de Domingo.
Faz de conta,
Que ainda é cedo,
Tudo vai ficar por conta da emoção,
Faz de conta,
Que ainda é cedo,
E deixa falar a voz do coração.
14 de outubro de 2008, às 11:46h
Sama, meu amigo… foi bom ver esse filme da minha querida Recife. Ando tão saudosa! Passo por aí correndo e nunca tenho a oportunidade de olhá-la dessa maneira. Fico agoniada com o transito, calor… quanto mais a gente corre menos a gente chega, menos a gente se encontra. Todo mundo apressado… Vixe e esqueço de reparar nela… Ultimamente, tenho sentido muita falta dela, da praia (Acompanhada, claro, do caldinho de feijão e uma cerveja geladinha), dos amigos, das nossas conversas fiadas, de Mack, da Nêga Michelle, de Giba,dos Amantes de Glória, do cinema, do teatro…
kkkkkkkkkk
que saudade!!!!!!!!!
te amo! beijo
14 de outubro de 2008, às 14:21h
Estais apaixonado, sama?!
15 de outubro de 2008, às 9:06h
É NOBRE SAMA,
NOSSA SORTE É QUE NEM OS FUSCAS NEM AS ÁRVORES FALAM, SENÃO, FICARÍAMOS SABENDO DE MUITOS AMORES QUE VIERAM E SE FORAM.
PRINCIPALMENTE ATRAVÉS DAS DO 13 DE MAIO!!! SABE SAMA, ACHO QUE OS GRANDES AMORES SÃO IMPOSSÍVEIS!!! AQUELES AVASSALADORES, QUE CAUSAM DEPENDÊNCIA AMOROSA… MAS DEIXA PRA LÁ, PORQUE, AINDA BEM QUE AS ÁRVORES NÃO FALAM. HE,HE.
ABRAÇO FRATERNO,
GEYSON MONTE
15 de outubro de 2008, às 9:39h
Lindo,como tudo que você escreve.Por falar em bíblia, vi ontem no trânsito um lavador de vidros guardando o trocado que recebeu dentro da sua. O danado fez tanto “pelo sinal”, olhou tanto para o céu agradecendo que, por um triz, não foi atropelado. É o encanto dos comuns. Viva tu!
16 de outubro de 2008, às 8:38h
tuas palavras são tão visuais..
a gente vai lendo.. e um filminho vai passando.. da pra ouvir as araras, o sino dos vendedores de picolé..
muito, muito bom!