Josete sem aspas
Samarone Lima
Estou sentado num bar que tem cadeiras na calçada. Não importa o nome, localização. Um bar. Ao meu lado, uma senhora bebe, fumando. A carteira de Hollywood está em cima da mesa. Olho a paisagem, tomo algumas notas. Não sei para que tomar tantas notas. Ela me olha duas ou três vezes, é uma mulher de uns 40 anos, toma uma cerveja e fuma. Não importa o dia.
Ela comenta que estou escrevendo. Concordo. Ela sorri. Depois, pergunta se pode sentar na mesa onde estou.
Explico que estou escrevendo, peço desculpas, quero ficar um pouco só.
Imediatamente, percebo o erro. Ela, que não sei ainda o nome, faz uma cara de absoluta tristeza. Tristeza não, um amargo arrependimento. Pediu a um homem para sentar-se à mesa dele. Se expôs. Deixou escapar algum ponto vulnerável. Olha para o chão. Com um sorriso constrangido, sem graça, comenta: Fui oferecida, não fui? Olhe, me desculpe, viu?
Sinto vergonha. O que eu tenho de tão importante para escrever? Nada. O caderno, a caneta, se tornam vazios. Não é nada disso, explico. Estava terminando de escrever uma carta.
A chamo para minha mesa. Ela reluta, mas com o simples convite, recupera o sorriso. Eu, que quase a magoei, consegui uma redenção. Ela se aproxima, traz sua cerveja, seu cigarro, seu copo, me estende a mão. Josete.
Pergunta novamente se foi oferecida. Respondo que não. Me sinto tão sozinha, não quero conversa com qualquer homem. Pergunta quantos anos eu acho que ela tem, essa preocupação bucólica das criaturas solitárias. Arrisco para menos: 37. Estou com 45 anos, meu amor.
Começa o encontro com uma desconhecida, uma criatura que quer apenas conversar com um estranho, dizer de sua vida. Me faz duas ou três perguntas, a título de abertura. Diz que tem amigos no Cabo, na Charneca, onde vivo.
Sou do signo de virgem. Virgem é uma pessoa sofrida, mas é boa. Fico em silêncio. Seu rosto é mesmo sofrido. Tenho um filho de 20 anos. Escuto. Foi meu marido quem me deixou.
Três ou quatro frases, e uma vida. Virginiana sofrida, filho adulto, marido que foi embora. Josete, como teria sido duro para você um homem negar uma simples conversa, em uma mesa de bar.
Eu era dona de casa. Ele chegava com marcas de batom. Chegou um ponto que meu irmão viu. Arranjei outra pessoa.
Te escuto, Josete.
Me casei duas vezes. O mesmo problema. As cachaças dele, eu não podia falar nada, que ele se danava no mundo. O outro era agressivo, me bateu, mas eu escondia do meu pai e do meu filho. Tinha vergonha de sofrer tanto.
Bebo minha cerveja, observo Josete. Roupas simples, um batom barato, cabelos descuidados. Parece ter sido bonita quando jovem. A vida foi dura. Não sei quando se libertou.
Ela precisa falar. O pai, de vez em quando, dá uma força. Olha, minha filha, tome um trocadinho, vá tomar uma cervejinha, fumar seu cigarro. Agora… não deixe ninguém fazer mal com você.
Há três anos, ela perdeu a mãe, vítima de derrame.
Ficou três meses no hospital. Nunca bebeu nem fumou. Nos meus braços, ela morreu nos meus braços.
Depois das confissões, ela me olha. Talvez pela primeira vez, tenha saído de sua dor, seus sofrimentos.
Tu és assim… um pouco hippie.
Sorrimos, proponho um brinde. Ela abre um sorriso largo. Bebe um bom gole.
Você achou o que, do meu jeito?
O que responder, Josete?
Sincera.
Ela gosta.
Não sou sapatão. Gosto de homem, mas daquele fiel, que não bate na gente. Pedi a Deus. Não vou voltar nunca mais. Jurei e me ajoelhei aos pés do meu pai.
Uma chuvinha fina chegou, para ofuscar tanto drama.
Tas vendo tu?
É só uma nuvenzinha para assustar, diz o garçom solícito.
Minha amiga conta que é amiga do dono do bar, do cozinheiro. Não tira pedaço de ninguém tratar bem.
Passa uma mulher pedindo dinheiro. Leva uma criança nos braços. Digo que não dou. Nunca dou dinheiro para quem leva crianças para as ruas.
Josete abre a bolsa, tira uma cédula de dois reais, e entrega à mulher com a criança. Vou dar para mim e para o meu amigo aqui.
Sim, agora somos amigos.
A mulher vai embora. Josete me olha com força.
Eu dei. O resto é com a consciência dela.
Concordo. Bebemos outra cerveja. Só depois de mais um brinde, vou embora.
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7 Comentários »




16 de outubro de 2008, às 23:37h
Ela fez sua boa ação. E você também. Não custa oferecer um ombro amigo, de vez em quando.
Gostei muito do texto, ainda mais porque pude visualizar um barzinho de Recife.
Abraço.
17 de outubro de 2008, às 10:29h
Definitivamente você não é jornalista,escritor, nem dono de bar. Gentem terapeuta de ótimos “ouvidos” é Sama. kkkkkkkkkkk
17 de outubro de 2008, às 17:29h
Não gostei do final, esperava algo mais interessante.
Precisamos estar mais atentos, quantas e quantas vezes, deixamos de ouvir.
17 de outubro de 2008, às 19:25h
Mais uma bela história, Samarone. Quantas “Josetes” não encontramos por aí, hein!? Tirando a carteira de Hollywood, posso dizer que algumas vezes já me senti como uma Josete… em um bar, tomando aquela gelada e precisando apenas de alguém para poder conversar.
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Um “xero”, Samarone.
18 de outubro de 2008, às 11:04h
Grande Samarone.
Ontem mesmo eu estava na Praça do Derby conversando com uma amiga e, de repente, apareceu um hippie, mostrando seu produto lá. Ele chegou completamente triste e aparentando uma pequena ofensa por termos, eu e minha amiga, negado comprar seu produto. Mas começamos a conversar a respeito de muita coisa, do que é atenção, da vida em si, e ele saiu revigorado. Acho que muitos que estão ao nosso lado, e não percebemos, precisam simplesmente de uma atenção, de um bom papo.
Abraço.
19 de outubro de 2008, às 10:14h
Samarone, porque minha mãe anda muito doente, porque as aulas preparatórias para o vestibular ficam mais estressantes no segundo semestre, porque só no domingo passado acabou o projeto que exigiu 5 gravações, muito material e um aulão pra mais de 4000 alunos, por tudo isso, fazia mais de um mês que não acompanhava o seu estuário e a trança de Flavia. Falei isso pra ela quando estávamos juntas no tal aulão. Impressionante essa mulher que, diferente de Sansão, ficou ainda mais forte – e bela – com os cabelos curtos. Você já viu o novo visual?
Meu domingo começou esquisito, com tempo sobrando, muito esquisito… E nao falo do significado em espanhol desse termo. Passei horas lendo todos os textos atrasados e os comentários, que são um prazer a parte. Li todos, li muitos e fiquei feliz. Já a trança trazia apenas 3 textos inéditos aos meus olhos. Não posso nem reclamar, sei e vivo as mesmas atividades de Flavia. Beijo pra você. Obrigada por ter transformado meu domingo português em um domingo espanhol.
Fernanda Bérgamo
20 de outubro de 2008, às 12:08h
Peruca,
vendesse ao menos uma pulseirinha de couro pra josete?