Rumo às pedras do reino (II) – a saga
Samarone Lima
Encontrei Iramarai, botamos os papos em dia. Ficamos em uma pousada simples, mas com ventilador que pega até o três, isso já basta. Diária de 15 reais. Cochilamos, resolvemos dar uma volta pela cidade. O objetivo era sair bem cedinho de São José do Belmonte, para atravessar os 28 quilômetros sem aperreios.
À noite, vagamos pela cidade, com suas casinhas de muro baixo. Muita coisa do imaginário está ligado às pedras do reino. Loja “Reino Encantado”. Associação Cultural Pedra do Reino. Uma moça chamada Nalva disse que tem uma lenda corrente envolvendo o local. “O pessoal acha que morreu um rei lá e as pessoas acreditam que tem assombração. Eu não tenho o livro, mas sei que é verdade”.
Outra pessoa me disse que “teve uma luta lá, e o rei morreu, tem um romance que fala disso”.
O livro que ela se refere é o “Romance da Pedra do Reino”, de Ariano Suassuna, que me inspirou para fazer a caminhada com Iramarai. É uma história longa, depois conto.
Nalva diz também que uma mulher disse ter visto um homem passando num cavalo branco, junto das pedras, e isso é assombração.
Resulta que nossa jornada noturna por São José do Belmonte se estendeu, conversamos tanto que perdemos a hora e tomamos umas garapas a mais. Resultado: acordamos meio ressacados, com preguiça, e botamos o pé na estrada somente às 10h53, com sol a pino.
Menos de uma hora depois, já estávamos num impasse existencial. Pegamos uma estrada à esquerda, e depois de 40 minutos, começamos a intuir que estávamos no caminho errado. Consultamos o mapa, o vento, a coloração do céu, e resolvemos voltar. Paramos na casa de Seu Tico, que, ao lado da cadela Preta e do passarinho Congris, nos informou que as pedras do reino estavam para o outro lado.
“Vocês estão é longe”, disse.
Tirei uma foto de Preta, para a minha exposição “Cães do Mundo”, mas a foto, pra variar, ficou horrível, nem vale ser mencionada.
Bebemos água barrenta e seguimos. O sol, amigos, não estava nada manso.
Às 14h30, chegamos a uma casa, onde estava sendo realizado um bingo coletivo, no valor de R$ 1,00. Era praticamente a última casa, antes de cairmos de vez no rumo das pedras. Nos deram mais água, ofereceram feijoada, mas não dava para arriscar. O clima na comunidade era ótimo. Cervejinhas, bingo, os meninos interessados nas fotos de Iramarai, e os avisos de “rapaz, vocês estão é longe”.
Quinze minutos depois, paramos em uma venda das antigas. Oswaldo, digo, Francisco Oswaldo Pereira, um sujeito alto, magro e conversador, nos serviu uma cajuína São Geraldo, a melhor do Brasil, por R$ 1,30. Conversa vai, conversa vem (não sei que diabo têm os magros em geral, para gostarem tanto de conversar), ele perguntou nossos nomes. Quando eu disse o meu, tive uma surpresa.
“Tem um Samarone aqui em São José do Belmonte. Ele é primeiro sargento. E todo último domingo de maio, tem cavalgada até a Pedra do Reino”.
Conversamos umas cajuínas e depois seguimos. Desta vez, sofremos pra burro. O caminho era cheio de pedrinhas pequenas. Maraí estava com um tênis meio apertado, eu fui de sandálias de couro. Às 15h35 já estávamos passando maus bocados, prometendo pela milésima vez comprar tênis macios, providenciar cantis, um colchão de reserva, essas coisas de gente organizada. Ao entardecer, estávamos exaustos. As pedras do reino, a cada quilômetro, ficavam mais distantes. Às 17h35, resolvemos parar.
Encontramos uma casa abandonada. Gritamos o famoso “ô de casa!”, nada. Nenhuma galinha, cão, canário do império, boi, cabra. A casa estava abandonada. Tinha um pátio alto, que servia para uma boa soneca. Maraí acendeu uma fogueira em cinco minutos, enquanto varri o chão. Com uma lata vazia de óleo, que ele guardou por vários quilômetros, esquentou a água para o café.
Há, meus amigos, o cansaço. A exaustão. Quilômetros e quilômetros a pé, com o sol no lombo, a mochila às costas. Neste momento, a gente quer apenas encostar em um chão qualquer e ficar sem planos. O anoitecer vai chegando, abençoado por milhares de estrelas. Marai corta duas garrafas plásticas, que viram copos. Bebemos o mais delicioso café do ano. Dois pães, com sardinha e alho, enchem os buchos. Cochilamos um pouco.
Daqui a pouco, Marai mostra as constelações, os desenhos no céu. Tudo o que sei é que o céu está lindo, coalhado de estrelas, e não acredito naquela conversa que as estrelas morreram há não sei quantos mil anos. Órion está por ali, Touro, o Centauro etc.
Lá pelas tantas, pego um pedaço de pau com a brasa na ponta, e começo a fazer malabarismos. O homem-tocha. Zapt, zapt, zapt.
Mal sabia que estava chamando a atenção da vizinhança, que estava cabreira com aqueles dois barbudos recém-chegados.
Meia hora depois, quando cochilávamos, surgiram três homens, dois deles a cavalo. Não era nenhuma lenda. Os cabras tinham bebido muita aguardente e vieram tomar satisfações sobre nossa presença na casa de um deles.
O tempo fechou. Passamos maus bocados.
Amanhã conto. O tempo na lan house acabou.
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