Crônicas das coisas mínimas e desnecessárias

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Rumo às pedras do reino (III)

25 de outubro de 2008, às 20:20h por Samarone Lima

Casa florida no meio do caminho

Pois bem, onde estávamos?

Os três homens chegaram. Dois estavam a cavalo. Viram de longe a fogueira, foram alertados pela mulher de um deles, e vieram tomar satisfações. O clima ficou pesado. Dos três, era difícil saber que tinha bebido mais. Um mais velho, de camisa aberta até o umbigo, parecia ser o patriarca, acompanhado de dois filhos. Falamos que estávamos caminhando rumo às pedras do reino. Os homens estavam desconfiados. Dissemos que só ficamos por ali depois de gritar muitas vezes, perguntando se tinha gente, e que estávamos exaustos.

As respostas eram sinceras, mas um deles estava particularmente brabo: era Antônio, que fazia muitas perguntas e chegou a pedir nossos documentos. “Precisa disso não”, respondeu o outro. “Precisa”, retrucou o outro. Iramarai puxou o passaporte, já que perdeu a carteira de identidade. Antônio olhou. Só no dia seguinte, seríamos informados que ele é analfabeto.

Disseram para a gente ir para a casa de um deles. Dissemos que não se preocupassem, que logo cedo iríamos partir. A tensão acumulou, até que olhei para meu comparsa e decidimos acompanhar os homens. Iríamos para a casa de Adonias, para uma averiguação. Começamos a juntar nossos molambos, quando o mais velho disse:

“Juntem o dinheiro e as armas”.

Informamos que a única arma era uma faquinha, usada para cortar frutas. Descemos no breu. Ê vida.

Chegamos à casa, onde estavam a esposa de Adonias, a filha, um filho e a neta. Todos estavam sentados num colchão, no chão. Ficamos num sofá. Iria começar uma longa e delicada conversa. Queriam saber de tudo. De onde vínhamos, o que estávamos fazendo ali àquela hora. Antônio tinha umas frases meio irreverentes. O mais velho se chamava Nezito, que tomou mais umas duas doses de Pitú.

A vantagem foi que a casa tinha luz, e eles nos viram de perto. Feiúras à parte, somos simpáticos e temos uma prosa boa.

A conversa só desarnou mesmo quando puxei meu exemplar de “A Pedra do Reino”, e mostrei a foto das pedras que iríamos visitar. Expliquei que estava lendo aquele livro, que era amigo do autor, e que a viagem era somente para ver se as pedras eram bonitas daquele jeito mesmo, aquela pabulagem toda de quem está meio a perigo.

A pequena Amanda, de seis anos, neta de Adonias, e filha de Antônia, saiu do colo da mãe, e veio ver a foto.

“Olha, mamãe!”.

Antônia, uma moça magra, de feições delicadas, tão bonita quanto a filha, olhou a foto. A filha ficou sorrindo, e o clima desanuviou. Não sei por que cargas d´água livros sempre estão me salvando.

A página literalmente virou. Os três homens descobriram que não iríamos incomodar ninguém. Em poucos minutos, começou o período das confissões, a conversa fluiu. O filho de Adonias, de 17 anos, é um craque de futebol, e joga no Serrano. A filha Antônia peleja para cursar Letras, mas a faculdade é muito longe, em Serra Talhada, o curso de Pedagogia, em Belmonte, é caríssimo (R$ 120,00). Amanda nasceu em um parto dificílimo. Depois de uns 40 minutos, vieram fotos da família, relatos, lembranças. Amanda trouxe os álbuns de seus aniversários, ano a ano. Adonias foi buscar a foto do dia em que matou uma onça. Só Antônio não trouxe foto nenhuma. Antônia trouxe as fotos de sua formatura.

A conversa sobre a vida, dificuldades, sonhos, conquistas, se prolongou até 23h30. Nos ofereceram um belo prato de andu, que é um feijão que dá em árvore, segundo o biólogo Iramarai. A comida, para quem tinha comido apenas um pão com sardinha e alho, estava um manjar.

Nezito foi com a minha cara e resolveu me estender a mão de vez em quando. Me deu a mão umas 20 vezes. Antônio baixou o fogo, deixou de fazer perguntas desconfiadas. A cachaça também foi passando. Como dona Maria, esposa de Adonias, fumava fumo de rolo, daqui a pouco Iramarai estava fumando também, dentro da casa, no maior fulozô. Na TV estava passando um filme de dinossauros, e pensei em pedir para ver os gols da rodada, mas aí também era demais.

Nos ofereceram uma cama macia, com lençóis limpos. Adonias estava contente com nossas conversas. Falou da vida, da luta pela sobrevivência. Num aposento da casa, ele tem feijão, fava e gerimum guardados até a próxima safra. Se precisar de ovo, ele pega na criação de galinhas. Algumas vacas garantem o leite da família, além do queijo. A casa tem duas TVs, uma na sala e outra, de 29 polegada, para o filho, que gosta de jogar videogame.

Apesar da visível melhora na qualidade de vida, eles lamentam a dificuldade de acesso à educação. Antônia terminou o normal sabe-se lá como, carregando a filha no colo, contando com a ajuda do pessoal da escola. Adonias, com sua gentileza, lembrava muito Paulo, um agricultor simples e calado, que conhecemos na travessia da Chapada do Araripe. Tem orgulho dos cinco filhos. Todos estudaram.

São 23h55. Estamos exaustos, vamos dormir. Adonias vem ao quarto, perguntar se precisávamos de mais alguma coisa. Não, obrigado. Marai abre a janela e um vento suave enche o quarto de bondade. Dá para ver a lua lá fora, o céu coalhado de estrelas.

Pouco depois, meu companheiro de jornada começa a dormir profundamente, me presenteando com os primeiros roncos. Dou um cutucão, ele acorda e os roncos se acalmam. Iríamos dormir na varanda de uma casa abandonada, à beira do fogo, e agora estamos deitados em uma cama de casal, confortável, com lençol e travesseiro.

No dia seguinte, logo ao raiar do sol, botamos as patas na estrada. Logo avistamos uma casa cercada de flores. Aparece um cão rabugento, e o fotografo, para minha exposição, intitulada “Cães do Mundo”. Vejam que obra prima.

Cachorro sem nome: da coleção "cães do mundo"

Vamos fazer a última parte do caminho das pedras. Pelos nossos cálculos, faltam de oito a dez quilômetros.

Adonias diz para a gente passar por lá, na volta.

Fomos salvos, de alguma forma, pelo “Romance da Pedra do Reino”.

Essa devo ao Ariano, que foi promovido à categoria de amigo, embora nem saiba ainda.

Ps. A última parte da saga publico amanhã, encerrando esta internet-novela.

Postado em Crônicas |

8 Comentários

  1. Anade Fátima Disse:

    Pôxa, ainda bem que vcs deram notícias, já estava imaginando mil coisas!!!!!.Esta viagem vai render muitas histórias…….
    O nome Iramaraí não é muito comum…Samarone pergunta se ele já trabalhou em um projeto com meninos e meninas de rua nos anos de 1987 e 1988 na prefeitura do Recife. Se for ele, trabalhamos juntos. Pelas fotos acho que é ele. Bom saber notícias. Parabéns pela viagem…Sucesso par vcs. Beijos

  2. Suyene Carvalho Disse:

    Kkkkk, Ariano Suassuna vai adorar saber dessa história de vocês. Boa sorte no resto da viagem!!!

  3. Cristiano Cardoso Disse:

    Compadre,

    Vocês lavaram a égua, escaparam fedendo. A fotografia do cão poderia ser melhor!Aguardo novo trecho, dessa novela sertaneja.

  4. Fred Disse:

    E a foto do cachorro é “artistica”!

  5. cezar Maia Disse:

    Samarone,
    Diz ao teu companheiro de viagem que o nome do feijãozinho de gosto meio amargo, mas muito saboroso, é Guandú. Lá em casa de vez em quando rola, quando Zi (minha tia) traz de Lagoa dos Gatos.

  6. Diana Disse:

    “amanhã”, neste blog, é sempre um conceito muito vago!

    humpf!

    beijos
    :)

  7. Marcelino Disse:

    Olha Diana concordo com teu comentário. Faz três dias que procuro o dia de amnhã para a próxima história… mas vamos dar um desconto. Conheço as condições do Sertão e esses caras têm é sorte de estarem encontrando Lan House pelo caminho.
    Marcelino

  8. GEYSON MONTE Disse:

    OI NOBRE SAMA,

    EU FIQUEI IMAGINANDO O IRAMARAÍ FUMANDO FUMO DE ROLO, E NO MAIOR “FULOZÔ”!!! É UMA FIGURA QUE SABE VIVER E REVIVER!!!
    GRANDES DETALHES NOS DEIXAM COM A IMAGINAÇÃO MAIS FÉRTIL!!!

    ABRAÇO FRATERNO,
    GEYSON MONTE

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