As pedras do reino (final)
Samarone Lima
Como eu vinha dizendo, nós acabamos dormindo e bem, numa cama macia e cheirosa.
Acordei às cinco em ponto, dei uns bons safanões em Iramarai, que ficou tapeando, ganhando com isso mais uns cinco minutos de sono. Botei a sandália, estiquei o organismo e olhei pela janela. Dava para ver as duas pedras do reino, bem ao longe. Falei com Adonias, que já estava se preparando para cuidar do seu roçado. Ele perguntou se a gente queria comer, eu disse que a gente amanhece sem fome nenhuma. Mais safanões em Iramarai, que levantou ligeirinho e se aprumou para a jornada.
Olhei o relógio: eram 5h15 quando saímos da casa de Adonias. Fomos cumprimentados por Rufião, seu vira-lata.
Eu e Marai logo cedo, não somos de conversar muito. Um esmungo aqui, outro ali, um comentário sobre um canário, uma sabiá, um congris, pintor, a passagem de algum gavião, uma árvore, um pau-ferro, essas coisas bestas.
Demos uma puxada forte, de 1h20. Pelos nossos cálculos, fazemos cinco quilômetros por hora. No fim do dia, a gente sabe direitinho. Se andamos cinco horas, são 25 quilômetros batidos, nem um metro a mais. Estou até pensando em patentear isso, um novo medidor de velocidade e tempo. Fica para depois.
Paramos, bebemos água, e notei um fenômeno estranho. Quanto mais andávamos, mais as pedras ficavam distantes. Isso deve ser alguma mentira de Ariano, essas pedras estão mesmo é para as bandas de Taperoá, na Paraíba, de onde ele veio.
Voltamos a arrochar o passo, decididos a chegar numa hora boa, para não pegar muito sol na moleira, especialmente na volta. A gente caminhando e as pedras se afastando.
Fltavam cinco minutos para as oito horas, quando finalmente chegamos às pedras do reino. Ficamos meio deslumbrados com a beleza das pedras e do lugar. Cada um foi para seu canto, admirar do seu jeito. Eu já tinha escutado falar muito, estava lendo o Romance da Pedra do Reino, tinha visto fotos, mas ao vivo, com todos os sentidos acesos e alarmados, era diferente.
A surpresa ficou por conta de 13 grandes imagens em pedra, que transformam o lugar numa espécie de santuário. Estão lá, da esquerda para a direita, em sentido horário:
Nossa Senhora
Cristo Rei
São José
Sant´ana
Santa Madalena
Santa Tereza
A Princesa Isabel
A Rainha Quitéria
A Rainha Josefa
O Rei João
Santo Antônio
São Pedro
São João
No centro, há uma homenagem ao Aleijadinho.
Fiquei muito desapontado com Ariano, e pretendo mandar uma carta reclamativa, questionando a não-inclusão, neste belo cenário, a imagem em pedra de São Francisco, que é meu santo devoto, protetor e orientador. Ele poderia muito bem ocupar o lugar de São João ou São Pedro, que já recebem loas e boas a cada São João, perdão pela redundância. A Rainha Quitéria que me perdoe, mas ela também poderia ficar mais para a frente.
Tirante isso, fico embasbacado com a beleza de tudo. As duas pedras do reino são um espetáculo da natureza.
Que loucura, que loucura!”, repete Iramarai. “Vou ler. Vou ler o livro”, repete, ciscando para tudo que é lado, olhando, tocando, perscrutando.
Pego meu Romance da Pedra do Reino e leio algumas páginas, para o negócio ficar mesmo perfeito, esses negócios que o cabra vai ficar falando até o fim da vida. Já posso até ver, eu com uns 63 anos, os amigos na venda de Seu Vital:
“Tá com a gota serena. Lá vem o Samarone contar de novo essa caminhada até aquelas pedras…”
Resolvemos tirar fotos. Tiro algumas de Iramarai, ele faz o mesmo comigo. Depois, cada um vai para seu canto, bestar um pouco. Deito em cima de uma pedra menor e tiro o melhor cochilo literário do ano, usando o livro como travesseiro. Iramarai vai meditar, em cima de outra pedra. A lamentar, somente a grande quantidade de latas vazias de refrigerante, cerveja, além de sacos plásticos, fruto da última festa no local, realizada em maio. Nota-se que o espaço não é bem cuidado.
Deixando essas rabugices de lado, curtimos tudo, apreciamos o cenário e resolvemos que é hora de voltar. Animados, apertamos o passo, e três horas depois, estamos na casa de Adonias, para beber água, descansar, e ver se conseguimos um carro até São José do Belmonte. Sim, o gás acabou. Sem tênis macios, nossos pés sofreram um bocado. De qualquer modo, alcançamos nosso objetivo.
Dona Maria, esposa de Adonias, nos recebe com um sorriso bom, pergunta se gostamos, se acertamos fácil o caminho. Ficamos naquele parangolé, até que ela traz água do pote e bebemos de gute gute.
“Tem um açude bem aqui pertinho, dá para tomar um banho ótimo”.
Descemos um terreno, e menos de cinco minutos depois, estamos dentro do açude, lavando o couro e relaxando. Uuuu, que maravilha, a água na medida. Esfrego os pés com areia, para tirar a imundície.
Voltamos novinhos em folha. Botamos a roupa para secar. Dona Maria disse que Adonias estava cuidando da safra de feijão, que esse ano foi “melhor uma coisinha” – 100 sacas (ano passado foram 40). Antônia, sua filha, está na escola, onde trabalha como professora auxiliar. Amanda, a neta, também está na escola.
Passa um moto-táxi, pergunto quanto custa a viagem até São José do Belmonte. Sai por 15 reais. Peço para o rapaz trazer mais um piloto, para levar a gente. O cabra desaparece na poeira.
Conversamos nossas verdejâncias, até que daqui a pouco encosta uma moto, pilotada por uma mulher. Na garupa, estão Antônia e Amanda. Aquela festa.
Amanda, que tem seis anos, sabe escrever direitinho seu nome. Dou meu caderno, ela anota, com sua letrinha bem aprumada: Maria Amanda Oliveira Lacerda. Pedi para ela botar a data de nascimento. Ela anotou: 28.06.2008. Tudo bem, a mãe ajudou na data…
Ela chama os amiguinhos para conhecer a gente.
“Vem pra cá, Fran”.
Fran, um negrinho sapeca, se aproxima aos poucos. Sorriso bom danado, o dessas crianças do sertão. Outra amiga dela fica olhando de longe.
São onze e pouco. Maria vai lá dentro uma par de vezes, volta e diz:
“A comida de vocês já está na mesa”.
Informamos que não carecia, que não se preocupasse, mas tudo tapeação, porque o estômago estava dando voltas e se contorcendo feito uma lontra.
Chegamos à mesa, e encontramos um manjar. Arroz, macarrão, galinha de capoeira, gerimum, e um belíssimo prato de fava, plantada e colhida ali mesmo.
Essa generosidade do povo nordestino sempre me emociona. Parece que está em nosso gene, em nossa alma, essa cerimônia da partilha, essa naturalidade com que se oferece algo para comer. Jesus, quando partiu aquele pão com os apóstolos, estava copiando algum nordestino que conheceu, em suas andanças pela Galiléia. O que temos, gostamos de dividir. O que oferecemos, é com gosto, é com alegria, é sem pena.
Desnecessário dizer que a fava estava (fava estava é fogo, heim!)tão perfeita, que mal olhei para Iramarai ou para o restante da comida. A galinha, criada ali no terreiro de dona Maria, tinha o gosto do sertão. Ah, meus amigos, quanta alegria num simples almoço, numa casa modesta, cercada por fotos de ancestrais, imagens de santos emolduradas…
Pouco depois, chegam Adonias, Antônio (aquele brabo da noite anterior), e mais três camaradas, que estavam batendo o feijão. Vieram para almoçar. Nos cumprimentaram efusivamente, quiseram saber se tínhamos chegado às pedras, enfim.
Amanda ainda encontrou alguns álbuns extras, e mostrou fotos de sua melhor amiga, mais detalhes do seu último aniversário.
Enchemos o bucho, agradecemos. Ficamos na varanda, no estio, na mansidão, sentindo o vento orvalhando na gente. Organizamos as bolsas, e chegam os moto-taxistas. Há um clima de despedida no ar. Pedimos para reunir todos. Marai tira fotos. Todos sorriem, especialmente Amanda.
Abraços, agradecimentos. Todos estão felizes com nossa curta hospedagem. Conversamos muito mesmo, na noite anterior, e após a caminhada. Dou um beijo em Amanda, uma criança linda e amorosa.
Subimos nas motos, acenamos. As pedras do reino ficam para trás, bem como a família generosa de Adonias. Passamos pela casa que seria nossa hospedaria, na noite anterior. A fogueira está apagada.
A viagem é puxada, e fico impressionado com a distância que percorremos, debaixo de um sol de queimar o couro. Paramos apenas no bar de Oswaldo, para tomar uma cajuína. Ele não estava. O meu piloto, Zé Gordo, já contou sua vida toda na viagem. Tem uma casa de 25 hectares e ganha uns trinta reais por dia levando gente em sua moto. Já vai ser avô. O piloto de Maraí é também professor, na parte da tarde, e sabia o nome de todas as plantas e animais do caminho. A vida é uma sucessão de sucessos incessantes que não cessam, como diz Robertilha.
São 12h30. Estamos numa guarita em Belmonte. Tomamos outra cajuína. Compro uma barra de doce de leite para minha tia, Rosa e Renato. Às 13h30 já estamos em Serra Talhada. Meia hora depois, vamos embarcar para o Recife. Terminamos mais uma jornada. Aleluias. Aleluias.
Para Adonias e família.
Postado em Crônicas |
15 Comentários »








28 de outubro de 2008, às 15:40h
faltaram as fotos…melhor, não faltaram: sem elas, exercito minha imaginação e faço delas [as pedras] o meu reino !
28 de outubro de 2008, às 16:18h
Sama, saudade dói no estômago, sabia? Tia deve lamentar as “bolinhas de ouro” que vão faltar. Será que não tem nenhum cristão a armazenar as danadas?
Beijo.
Bom retorno!
Magna
28 de outubro de 2008, às 18:34h
Cadê as fotos? Maldade sua não colocá-las. Olha, achei linda a sua teoria de Jesus ter copiado algum nordestino quando repartiu o pão, deve ter copiado mesmo. Sucesso sempre Samarone!!!
28 de outubro de 2008, às 19:53h
historia perefeita.muito linda sua aventura.fiquei c vontade de ver as fotos, voce devia ter colocado
um abraço p voce
28 de outubro de 2008, às 20:04h
Concordo que faltam as fotos….
Que aventura!!!!!!Adoro suas crônicas. Parabéns!!!!
Qual será a próxima aventura?????
Beijo.
28 de outubro de 2008, às 22:36h
Ihhh… vou me juntar ao coro e cobrar as fotos, sama! põe uma aí para a gente saber como são as pedras… ao menos para saber se elas combinam com o que a gente imagina hehe abs
29 de outubro de 2008, às 0:09h
Menino… que saudade de vocês. Um grande beijo Sama.
29 de outubro de 2008, às 13:20h
engraçado sama, quando terminei de ler o texto qual foi a primeira coisa que me veio à cabeça? Tá faltando as fotos ! Pra minha surpresa depois que leio os comentários é que todos sentiram a mesma falta. Mais difícil que encarar essa caminhada é encarar ler TODO o livro A PEDRA DO REINO, que é um verdadeiro TIJOLO. Devem ser umas oitocentas páginas. E mais, que menina esperta essa Amanda hein ? com apenas quatro meses de idade já escreve seu nome completo e, com a ajuda da mãe sabe até a data de nascimento! abraços escaldantes…
29 de outubro de 2008, às 14:36h
NOBRE SAMA,
O BANDEIRA TEM RAZÃO: ESSA MENINA COM QUATRO MESES ESCREVENDO, QUANDO ESTIVER COM 20 ANOS SERÁ UM CASO PARA SER ESTUDADO. HE,HE,HE. SAMA, VOCÊ JÁ NOTOU QUE A PRINCESA ISABEL ESTÁ NO SEU DESTINO??? À PROPÓSITO: VOCÊ SABIA QUE A PRINCESA ISABEL NÃO TINHA SOBRANCELHAS??? FICA O REGISTRO.
ABRAÇO FRATERNO,
GEYSON MONTE
29 de outubro de 2008, às 22:04h
O que você coloca nessas crônicas para viciar o leitor?
Sobre as fotos das pedras, eu achei muito parecidas com a “obra” de Brenam que está próximo ao marco zero.
sudações
30 de outubro de 2008, às 9:41h
Amigos, a Amanda tem seis anos,não seis meses.
As fotos demoraram a entrar,porque dependem de meus amigos, editores de fotografia.
Até breve.
Sama
ps. Fred, a foto do cachorro não foi artística não, eu que errei na hora de clicar.
30 de outubro de 2008, às 12:07h
Sama, sua saga foi muito bacana..acho que serve uma pontadinha de inveja declarada e uma saudade danada do sertão de minhas andanças nem tão recentes…
” araça azul, manera frufru que a dor do sertão reluz na cor do meu azulão…”
30 de outubro de 2008, às 12:46h
Fãs de Samarone:
pela publicação das fotos das duas últimas postagens, agradeçam à equipe do Blog do Santinha, pois Samarone faltou às aulas de capacitação em publicação de imagens em Blogs.
31 de outubro de 2008, às 11:17h
aaiiinnnn nao sei se queria fotos nao… e olha q eu adoro fotos de viagens… mas eu vi tudinho dentro da cabeça enquanto lia…
GENTE! PRECISO DO ENDEREÇO DO BAR DO SEU VITAL!!!! vou a Recife em Dezembro (obrigada, Deus! \o/) e tenho q ver qual é a desse bar…
Samarone, herdei uma máquina de datiligrafia do meu avô. Ainda tá em Recife e, se vc quiser, ela pode ir por Cabo ao invés de vir pro Rio enfeitar minha estante…
meu e-mail é liviasheila@hotmail.com
1 de novembro de 2008, às 10:57h
Ótima história e com poucas fotos ajuda a tentar visualizar os personagens de vossa jornada.