Crônicas das coisas mínimas e desnecessárias | Por Samarone Lima

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Josete sem aspas

16 de outubro de 2008, às 19:09h por Samarone Lima

Estou sentado num bar que tem cadeiras na calçada. Não importa o nome, localização. Um bar. Ao meu lado, uma senhora bebe, fumando. A carteira de Hollywood está em cima da mesa. Olho a paisagem, tomo algumas notas. Não sei para que tomar tantas notas. Ela me olha duas ou três vezes, é uma mulher de uns 40 anos, toma uma cerveja e fuma. Não importa o dia.

Ela comenta que estou escrevendo. Concordo. Ela sorri. Depois, pergunta se pode sentar na mesa onde estou.

Explico que estou escrevendo, peço desculpas, quero ficar um pouco só.

Imediatamente, percebo o erro. Ela, que não sei ainda o nome, faz uma cara de absoluta tristeza. Tristeza não, um amargo arrependimento. Pediu a um homem para sentar-se à mesa dele. Se expôs. Deixou escapar algum ponto vulnerável. Olha para o chão. Com um sorriso constrangido, sem graça, comenta: Fui oferecida, não fui? Olhe, me desculpe, viu?

Sinto vergonha. O que eu tenho de tão importante para escrever? Nada. O caderno, a caneta, se tornam vazios. Não é nada disso, explico. Estava terminando de escrever uma carta.

A chamo para minha mesa. Ela reluta, mas com o simples convite, recupera o sorriso. Eu, que quase a magoei, consegui uma redenção. Ela se aproxima, traz sua cerveja, seu cigarro, seu copo, me estende a mão. Josete.

Pergunta novamente se foi oferecida. Respondo que não. Me sinto tão sozinha, não quero conversa com qualquer homem. Pergunta quantos anos eu acho que ela tem, essa preocupação bucólica das criaturas solitárias. Arrisco para menos: 37. Estou com 45 anos, meu amor.  

Começa o encontro com uma desconhecida, uma criatura que quer apenas conversar com um estranho, dizer de sua vida. Me faz duas ou três perguntas, a título de abertura. Diz que tem amigos no Cabo, na Charneca, onde vivo.

Sou do signo de virgem. Virgem é uma pessoa sofrida, mas é boa. Fico em silêncio. Seu rosto é mesmo sofrido. Tenho um filho de 20 anos. Escuto. Foi meu marido quem me deixou.

Três ou quatro frases, e uma vida. Virginiana sofrida, filho adulto, marido que foi embora. Josete, como teria sido duro para você um homem negar uma simples conversa, em uma mesa de bar.

Eu era dona de casa. Ele chegava com marcas de batom. Chegou um ponto que meu irmão viu. Arranjei outra pessoa.

Te escuto, Josete.

Me casei duas vezes. O mesmo problema. As cachaças dele, eu não podia falar nada, que ele se danava no mundo. O outro era agressivo, me bateu, mas eu escondia do meu pai e do meu filho. Tinha vergonha de sofrer tanto.

Bebo minha cerveja, observo Josete. Roupas simples, um batom barato, cabelos descuidados. Parece ter sido bonita quando jovem. A vida foi dura. Não sei quando se libertou.

Ela precisa falar. O pai, de vez em quando, dá uma força. Olha, minha filha, tome um trocadinho, vá tomar uma cervejinha, fumar seu cigarro. Agora… não deixe ninguém fazer mal com você.

Há três anos, ela perdeu a mãe, vítima de derrame.

Ficou três meses no hospital. Nunca bebeu nem fumou. Nos meus braços, ela morreu nos meus braços.

Depois das confissões, ela me olha. Talvez pela primeira vez, tenha saído de sua dor, seus sofrimentos.

Tu és assim… um pouco hippie.

Sorrimos, proponho um brinde. Ela abre um sorriso largo. Bebe um bom gole.

Você achou o que, do meu jeito?

 O que responder, Josete?

Sincera.

Ela gosta.

Não sou sapatão. Gosto de homem, mas daquele fiel, que não bate na gente. Pedi a Deus. Não vou voltar nunca mais. Jurei e me ajoelhei aos pés do meu pai.

Uma chuvinha fina chegou, para ofuscar tanto drama.

Tas vendo tu?

É só uma nuvenzinha para assustar, diz o garçom solícito.

Minha amiga conta que é amiga do dono do bar, do cozinheiro. Não tira pedaço de ninguém tratar bem.

Passa uma mulher pedindo dinheiro. Leva uma criança nos braços. Digo que não dou. Nunca dou dinheiro para quem leva crianças para as ruas.

Josete abre a bolsa, tira uma cédula de dois reais, e entrega à mulher com a criança. Vou dar para mim e para o meu amigo aqui.

Sim, agora somos amigos.

A mulher vai embora. Josete me olha com força.

Eu dei. O resto é com a consciência dela.

Concordo. Bebemos outra cerveja. Só depois de mais um brinde, vou embora.

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Recife aos domingos

13 de outubro de 2008, às 12:15h por Samarone Lima

Ah, esses messias dominicais do Recife. Esses homens com seus surrados paletós marrons, suas bíblias puídas, lidas e relidas à exaustão.

O centro do Recife, aos domingos, tem algo de simples, doce e calmo. É como se Jesus pudesse passar a qualquer momento, em um burrico, acompanhado de seus apóstolos. Ali, naquele boteco ermo, é possível ver Paulo, contando suas ingerências, a perseguição aos cristãos, quando ainda de chamava Saulo. Dobra-se à direita. Na rua do Hospício, é bem provável que Pedro esteja conjecturando seu mapa astral, confessando pecados capitais, ao lado de uma Brahma, do negro Félix. Algum gato ermo estará por perto, para contar a história.

Antes, no Parque 13 de Maio, é possível escutar o barulho dos sinos. São os vendedores de picolé, acompanhados dos “crac”, “crac” das araras. “Eu tenho côco, tenho Cajá, tenho magaba”, diz o vendedor, sacolejando o sino ancestral.

A poesia corre solta. São as frações, os mínimos gestos, que fazer a cidade ter outra cor. A senhora negra, com a filha que é sua cópia. A bola vermelha nas mãos da filha. O tomara-que-caia, tão em moda nos domingos do Recife. O homem que passa de mãos dadas com sua morena barriguda. A mulher que passa com três filhas. Uma delas puxa, por um cordão, uma cobra feia, muito feia, de isopor e papel. Mas ela sorri de alegria, com o pequeno animal serpenteando na calçada. Sua cobra é bela e colorida, porque foi presente da mãe, talvez o primeiro afeto daquela manhã.

O vendedor de maçã do amor. Sim, amigos, numa cidade chamada Recife, Nordeste do Brasil, em pleno século XXI, há homens que vendem maçãs do amor.

O vendedor de amendoim, com seus produtos pendurados às costas. “Aproveita que está acabando”, diz, mentindo. A tapioca de queijo e ao côco.

As árvores do centro do Recife, aos domingos, são destinadas ao amor. Os casais se encontram para beijos, abraços, promessas. São beijos intensos, amorosos, beijos dominicais, escorados em troncos, galhos, como se a vida fosse acabar ao anoitecer, como se o amor fosse terminar na segunda-feira.

No banco da praça, a nota triste. Um casal se separa. Ela chora, está triste. Há algum cansaço, uma quebra, um desacerto. É triste, separar-se num banco de praça, em pleno domingo recifense. Não aguardo o desenlace, as frases duras que brotam das mesmas bocas que se beijaram tanto. Melhor seguir.

Compro uma maçã do amor e sigo, perambulando, à procura de nada.

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Cronicamente inviável

10 de outubro de 2008, às 5:30h por Samarone Lima

Amigos leitores, desde as 4h da madrugada estou acordado, o dia vai amanhecendo aqui no Cabo, há uma cambada de passarinhos com seus arrulhos, o computador está no ponto, mas a situação não está fácil. Falta-me um tema, uma observação atenta de algum fato. Estou cronicamente inviável. Se estivesse em um jornal, o editor já estaria me olhando atravessado.

Nada me seduziu nos últimos dias. As eleições aqui no Recife foram geladíssimas. A Praça de Casa Forte, famoso reduto da esquerda, parecia uma feira de produtos orgânicos, com alguns gatos pingados. O prefeito eleito nem de longe cativou este velho eleitor. A eleição, por sinal, parecia mesmo a escolha do novo condomínio. Não havia uma proposta decente para trabalhar com uma multidão de jovens que está aí, a ver navios, entrando de sola no crack e na criminalidade. A única nota de destaque foi a eleição do glorioso vereador Luciano Siqueira. Modestamente, na surdina, trabalhei em seu nome.

Na falta absoluta de assuntos, recorro ao noticiário geral, para ver se encontro algo que saia do óbvio ululante e cative meus generosos leitores. Descubro que as mulheres brasileiras, segundo o IBGE, “passam a ter menos de dois filhos”, fato que me deixa extremamente intrigado. Como deve ser difícil ter um filho e meio, ou 1,75 filhos. Minha mãe mesmo teve logo cinco, já percebendo que o mundo poderia ficar despovoado. Achando pouco, meu pai teve mais dois, do outro casamento, de forma que os Lima e os Oliveira não podem ser acusados de desabitar o planeta Terra: no total, somos 7. Meu irmão, Tonho, já cravou três, é outro que o IBGE não entrevistou.

A crise nas bolsas, um tema que sei cantar em prosa e verso, tomou rumos que fogem da minha alçada.  O que sei mesmo é que a cerveja em Seu Vital, continua por R$ 2,50 e a de Seu Azevevedo segue por R$ 2,20. A lan-house que uso, aqui no Cabo, segue cobrando R$ 1,50 a hora. Wall Street ainda não mexeu no preço do pão, na passagem de ônibus e no almoço comercial, pelo menos de onde falo, a vasta região entre o Cabo de Santo Agostinho e Recife.

A nova ortografia da Língua Portuguesa é um tema que realmente não me comove. Retirar a trema foi uma decisão crucial na minha vida, ainda estou me resolvendo enquanto pessoa. Meu amigo Joãozinho Peruca já me alertou para o fato, mas me convidar para aquela mansão dele em Catuama, que é bom, nada. Daqui a pouco vai aparecer alguém aqui nos comentários dizendo: O senhor está fora dos padrões da Língua Portuguesa.

Bem, há algo novo: a Jolie ameaça deixar o Brad Pitt. Acho imensamente saudável, porque eles estão se reproduzindo numa velocidade impressionante. Além disso, adotam crianças à beça. Aquela confusão de meninos, babás, carrinhos, fraldas perdidas dentro de casa, deve estar sendo um problema para o casal. Eles devem estar discutindo a relação. Disso, creio, resultará em mais gente no planeta.

O J.M.Le Clezio acaba de ganhar o Nobel. Sinceramente. Olhei, farejei, tentei, mas achei esse camarada de uma chatice monumental. Sou mais o Mário Benedetti, do Uruguai. Não vou entrar nesse tema. Está aí, o monumental Juan Guelman, com sua poesia infinita – (“Los agujeros de la palabra tienen alma”). Não sei onde li que o Nobel, que inventou o prêmio, morria de remorsos porque também inventou um explosivo terrível, que já matou gente pacas.

Como vêem, está difícil minha vida de cronista. Talvez seja melhor pegar umas férias. A sorte é que meu amigo Gustavo de Castro chegou ao Recife, vindo diretamente de Taguatinga. Veio participar de um congresso sobre Literatura e Imaginário, algo assim. Como a palestra dele é hoje à tarde, tentarei pescar alguma novidade, removendo esta crônica que não leva a nada.

Como sempre, peço ajuda aos meus leitores com temas que possam me levar a algum canto.  Um fato enigmático, uma descoberta científica, soluções caseiras para o leite não derramar no fogão, formas de combater a ressaca etc. Xico Sá, por favor dê uma força ao seu conterrâneo!

Parafraseando as embalagens de alimentos, diria que a crônica de hoje “contém glúten”, apesar de não saber de onde vem tanta preocupação com o glúten.

Mientras tanto, o dia amanheceu. A sabiá de Guico está virada: fiu fiu fiu/fiu fiu fiu. É um passarinho que canta num compasso ternário, fá bemol sustenido, coisa que aprendi na época do Conservatório Pernambucano.

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Crônica sem nome

2 de outubro de 2008, às 14:38h por Samarone Lima

Gosto disso, dos dias. Sou um homem do cotidiano. Busco com paciência, e tudo me serve. As coisas diminutas, conversas alheias, o nada. Talvez por isso eu tenha uma dificuldade enorme para me sentir entediado. Ruas, pessoas, animais, cenas, me chegam diariamente. São presentes, dádivas. Escuto os rumores, conversas, modos de dizer. Anoto, guardo, encho cadernos. Construo meu mundo lentamente, página a página.

Gosto disso, das viagens. Sou um homem de estradas. A simples possibilidade do deslocamento, o menor, me deixa em festa. Outras paisagens, outras imagens, rostos. A poeira, o chão batido. Ver os homens da Zona da Mata, os sertanejos. Sentir de perto os tipos e costumes, formas e cores. Observar casas, muros, roupas, geografias imaculadas. Olhar com paciência as praças, igrejas, estradas, botecos. Disso me alimento.

Sigo minha sina. Meus antepassados eram homens que andavam, que buscavam algo em outros cantos. Não sei se anotavam. Não sei o quanto perdiam e encontravam nesse vai e vem. Meu avô chegou ao extremo – foi e nunca mais voltou. Dele, nos restou uma fotografia, nenhuma palavra. Em cada andança, devo fazer uma reverência oculta, anônima, devo dizer que estamos juntos, devo fazer um reconhecimento sutil de nossa mesma matéria, mesma fonte.

Gosto desse miúdo que faz a vida, desses imprevistos, das texturas novas. Sou do ombro a ombro. De agendar coisas objetivas, e mudar tudo, por uma celebracão repentina. Gosto de ver as patéticas crenças. O milhao antes dos 30, antes dos 40. O rejuvenescimento perpétuo em cada manhã, à venda nas bancas de revista. As plásticas que tiram o brilho dos olhos e o formato dos lábios. O silicone que estufa o peito, tenta rasgar o sutian, mas não mostra a pulsação amorosa. Que triste, não aceitar o próprio peito.

Gosto de lembrar certos dias. Em alguns, fui invencível. Depois fracassei com todos. Aquela tarde que chorei uma derrota da Seleção, naquele distante 1982. Aquela tarde em que meu pai tentava me consolar, com suas palavras de adulto. O inconsolável chegara, aos 14 anos. Aquela noite em que chegou o telegrama falando da morte de tio Ademar, e o choro de minha mãe, convulso e inexplicavel. Não sabia ainda o tamanho das mortes d´alma.

Gosto de histórias. Histórias de vida, de gentes. Escuto atentamente. O homem que teve 22 mulheres, e sabia o nome de todas, na praça de Casa Forte. O garçom voluntário, num bairro no centro. A mulher que todo sábado vai ao Recife, beber silenciosamente sua dor, e procurar um olhar fraterno. Os amigos que se encontram no mesmo bar, aos sábados, há 24 anos.

Gosto de contar. Me faz sentir menor. Apenas parte de uma raça, a humana.

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